A epidemia
9 Interesses em comum
Notas iniciais

Quando aceitou trabalhar na enfermaria, Hermione fora instruída por seu professor a ser discreta e cuidadosa com os doentes, uma vez que sua presença, ali, poderia ser facilmente questionada. Então, por diversas vezes, ela se pegou ensaiando justificativas para aqueles que lhe indagassem sobre a atividade que vinha exercendo. Mas nunca foi preciso, realmente, pois todos sempre lhe trataram bem e compreensivamente. No entanto, ela estava certa de que, agora, teria que pôr em prática as palavras tão bem ensaiadas, tão logo Ronald acordasse.
— Você está bem? – Severo perguntou, vendo-a vacilar com os instrumentos sobre a bancada.
Mesmo que tentasse, ela não conseguia se concentrar o suficiente. Sua mente vagava pelos acontecimentos recentes. Estava ajudando o professor no preparo de um concentrado para administrar em Ronald, enquanto esperavam que ele acordasse.
— Está calada desde que o viu. – ele comentou, olhando-a de relance – Tem algo que gostaria de me perguntar?
Em sua cabeça, muitas questões estavam sendo levantadas, mas Hermione não queria expor nenhuma delas. Exceto, por algo:
— Rony chegou desacordado, não foi? – ela perguntou, erguendo o olhar do que estava fazendo – Isso não é um bom sinal.
— Sim, desacordado. Foi Hagrid quem o trouxe.
— Onde ele foi encontrado?
— Próximo ao banheiro do segundo andar. Isso faz algum sentido para você? – ele achou que poderia tentar descobrir algo através de Hermione, já que ela e o rapaz eram inseparáveis.
Com a revelação, Hermione ficou algum tempo pensativa.
— Só deixa claro que Rony quebrou o isolamento. – ela concluiu, voltando a abaixar a cabeça.
— Você não deve se preocupar tanto. – Severo voltou a dizer, atraindo a atenção da morena novamente – O Sr. Weasley é jovem, saudável e já está devidamente medicado. É só uma questão de tempo até que acorde e se recupere.
Ela balançou a cabeça afirmativamente. Mas no fundo, estava aflita demais para considerar que tudo ia ficar bem, de fato.
— O que me preocupa, na verdade, é a possibilidade de Rony ter contaminado a outras pessoas, já que foi encontrado nesse estado, vagando por aí. – ela comentou.
— Espero que saiba que não poderei deixar de puni-lo, especialmente se tiver colocado a saúde de mais pessoas em risco.
No fim das contas, era justamente aquilo pelo qual Hermione mais temia. Não podia esperar nada diferente de seu professor, ainda mais se tratando de Ronald, um Weasley e Grifinório, as combinações perfeitas e preferidas de Severo Snape para tirar pontos e aplicar detenções. Assim, suspirou forte, dando-se por derrotada, pois sabia que naquele terreno ela não poderia pisar nem o fazer mudar de ideia.
— O quão severa será a punição dele, professor?
Severo considerou por alguns segundos, curioso pela questão estar sendo discutida, ao invés da saúde do rapaz.
— Não sei. Dependerá do que ele tem a dizer, quando acordar.
Conhecendo-o bem, ela sabia que Severo não levaria muita coisa que Rony dissesse em consideração. No fim das contas, a punição acabaria sendo severa, de qualquer forma.
— Gostaria que soubesse que não aprovo o comportamento de Rony. – ela disse, sustentando o olhar com o homem ao seu lado – Mas tudo o que desejo, nesse momento, é vê-lo bem novamente. Por Merlin, a Sra. Weasley ficará arrasada quando receber a notícia.
Com o último lamento, Hermione se afastou da bancada no laboratório, onde estavam, e foi andando pelo cômodo, abraçando-se a si mesma em busca de algum conforto. Percebendo o estado de nervos da moça, Severo se aproximou e bloqueou o caminho dela com o próprio corpo, exigindo atenção.
— Acalme-se! – ele pediu, segurando-a pelos braços para impedi-la de ir para longe.
— Eu não consigo.
— Poderia ser qualquer um naquela cama. Você se importaria da mesma forma?
Ela não acreditou, quando ouviu. Sim, porque parecia uma comparação muito tola da parte de Severo.
— Essa não é a questão. – ela respondeu, encontrando uma forma de se desvencilhar do homem, ao menos para que não notasse sua mudança de expressão – Com Rony é diferente.
Aquela não tinha sido exatamente a resposta que ele queria ter ouvido dela, mas já dizia muito. Mais uma vez, Severo sentiu o gosto amargo daquele sentimento que ele ainda não entendia, mas em breve iria descobrir ser ciúmes. Muito embora já tenha experimentado dele outras vezes, quando mais jovem, mas não com a maturidade que tinha hoje, o que tornava tudo diferente, agora. Decidiu, então, não demonstrar muito do que sentia.
— E depois... – ele iniciou novamente, mas Hermione ainda estava de costas para ele – Não devemos nos precipitar. O fato do Sr. Weasley ter sido encontrado desacordado em um corredor não significa, necessariamente, que esteja doente.
Ao ouvir aquelas palavras, Hermione virou-se para encarar o homem, e não deixou de disfarçar o pequeno sorriso brincando em seus lábios.
— De qualquer forma, só saberemos amanhã. E tem mais... a poção immunis foi administrada assim que ele chegou, da mesma forma como fiz com você a primeira vez que pisou na enfermaria, como deve se lembrar.
— Sim! – ela concordou, e sentiu-se mais leve sabendo disso – Você está certo. Pode não ser nada demais. Mas, o que terá sido, então?
— Não há como saber sem antes ouvi-lo. Enquanto isso, mantenha-se calma, pois precisamos pensar no melhor tratamento.
Ela concordou levemente com a cabeça, certa de que agora podia relaxar. De repente, sentiu uma necessidade de ir vê-lo, e já estava virando-se em direção à saída do laboratório, quando ouviu ser chamada de volta.
— Aonde você vai?
— Vou vê-lo. – ela respondeu, com grande naturalidade, como se não passasse da meia noite e todos os pacientes já estivessem dormindo – Saber se já está dando sinais de que irá despertar.
Inacreditável, Severo pensou consigo mesmo. Para ele, era inacreditável como Hermione não conseguia disfarçar seu interesse exagerado pelo rapaz de cabelos vermelhos. Balançando a cabeça em negação, ele foi se aproximando dela novamente e impondo sua autoridade como professor e responsável por aquela enfermaria. Ela percebeu e achou injusto que, logo agora, ele quisesse fazer esse papel tão bem.
— Não, você não vai. A poção calmante é forte o suficiente para fazê-lo dormir a noite toda. – ele disse, os braços cruzados no peito para demonstrar mais poderio – E quanto a você, imagino que esteja cansada.
— Eu estou bem. – ela respondeu, rapidamente, mas sua expressão só demonstrava o contrário.
— Vá descansar, Hermione.
Por um segundo inteiro, o ar não entrou em seu pulmão, porque ela o prendeu depois de ouvi-lo pedir com tanta intimidade.
— Quero estar aqui quando Rony acordar. – ela disse, por fim, a voz calma.
— Isso não irá acontecer até as primeiras horas do dia.
— Mesmo assim... – ela tentou argumentar, mas foi cortada no meio da fala.
— Eu posso lhe fazer companhia, até que consiga adormecer.
Ela prendeu a respiração. Algo a impediu de aceitar a sugestão, que em outra circunstância ela não pensaria duas vezes. Mas naquele momento, não, ela só queria ficar sozinha, ou com Rony, de preferência.
— Tem razão, vou descansar um pouco. – ela cedeu à exigência do homem, mas não pediu para que ele a acompanhasse.
Ele ficou ali, os braços ainda cruzados, vendo-a se afastar para fora do cômodo. Por garantia, foi até a porta e continuou a observá-la só para ter certeza de que não desviaria seu caminho. Já era tarde e ele precisava que Hermione estive bem, descansada e acordada na manhã seguinte. Caso ela conseguisse pegar no sono, obviamente. Por sorte, o corpo de Hermione não apenas pedia por aquele descanso, mas sua mente também. Assim, foi fácil adormecer no meio das cobertas quentinhas, e sentir-se envolvida pelo sono, sem sonhos.
Quando um raio de luz apontou no horizonte e acertou em cheio a fresta de uma janela próxima, refletiu em Hermione. A claridade retraiu sua pupila quando abriu os olhos lentamente, focando tudo a sua volta como se nunca tivesse estado ali antes. Aos poucos, foi recobrando a consciência e se lembrando de tudo o que tinha acontecido. Num susto, estava de pé fora da cama e precisou controlar a respiração para não ter um acesso de falta de ar. Sem pensar duas vezes, Hermione deixou a cama desarrumada do jeito que estava e saiu para fora dos aposentos.
— Srta. Granger... – Severo a chamou, quando ela passou rápido por ele – O que aconteceu?
Ao ouvi-lo, freou seu passo a tempo, virando-se para encará-lo.
— Perdi a hora. Ele já acordou?
— Sim... – ele respondeu, mas se arrependeu – Espere! Escute o que tenho a dizer.
Inesperadamente, Hermione interrompeu sua caminhada e esperou que ele a alcançasse. Enquanto esperava, ela sentiu o chão gelado e só então se deu conta de que estava completamente descalça. O pior, inclusive, é que ainda estava de pijama estilo mangas e calças compridas, com as cores da Grifinória. Sentiu-se ridícula naquelas condições e tentou juntar os pés para, ao menos, disfarçar os dedos que não estavam sequer pintados. Severo, no entanto, não comentou nada.
— Coletei o sangue do Sr. Weasley para enviar para análise. – ele iniciou, mostrando uma pequena caixinha em suas mãos – Estou indo à sala da Direção enviar o material via flu, agora mesmo.
— Tudo bem. Vá depressa, por favor. – ela pediu, sem se dar conta do autoritarismo presente na voz – Assim teremos o resultado logo. Posso ir vê-lo, agora?
— Só mais uma coisa... – ele queria dizer para ela ao menos trocar aquelas roupas, primeiro, mas achou melhor não – Tentei extrair informações do Sr. Weasley, mas não consegui. Então, convença-o a nos contar o que fazia naquele corredor e o que sentiu antes de perder a consciência.
— Sim, eu farei isso.
Sem esperar uma permissão, Hermione deu-lhe as costas e foi se afastando, em direção ao leito, o mesmo que a sua Diretora havia ocupado nos últimos dias. Ao longe, Severo continuou a observá-la, andando quase nas pontas dos pés.
— Por que ela está descalça? – ele sussurrou para si mesmo, incrédulo com a visão que teve.
Ele nunca a tinha visto agir daquela forma, antes. Nem mesmo depois das inúmeras vezes em que estiveram juntos na cama. Hermione nunca deixou de apresentar-se impecável, roupas limpas e, bom, com sapatos nos pés. Agora, no entanto, isso não parecia tão essencial para ela. Afastando esses pensamentos, retirou-se pelas portas de carvalho, em mente de que não poderia se demorar tanto.
Quando se aproximou das cortinas que separavam o corredor do leito, Hermione deu uma rápida olhada para trás para certificar-se de que estava sozinha. De repente, sentiu-se um pouco nervosa, e achou aquilo bastante inapropriado, visto que era só Ronald que estava ali atrás dos panos. Abriu as cortinas, de uma vez, e o encontrou sentado na cama, as pernas para fora, prestes a descer, inclusive.
— Aonde pensa que vai, Ronald Weasley?
— Caramba, Hermione. – ele resmungou – Você me assustou.
— Desculpe, mas você ainda não pode se levantar.
Já deitado, novamente, Ronald se deu conta de que a pessoa por quem tinha planejado ir procurar, quando decidiu descer da cama, tinha ido até ele. Ficou repentinamente contente. Em um salto, estava novamente sentando-se na cama e puxando-a para próximo em um abraço apertado. Mesmo tendo sigo pega de surpresa, Hermione retribuiu ao abraço.
— Como está se sentindo, Rony?
— Melhor agora. E você, como se sente?
— Eu?
Hermione não compreendeu a retórica, afinal, o doente ali era ele. Ou, ao menos, deveria ser. Lembrou-se da mentira contada aos amigos por Severo, para justificar sua permanência na enfermaria. Como iria lidar com aquilo, agora?
— Ficamos tão preocupados quando soubemos, Hermione. Você nos deu um baita susto.
Um sorriso sem graça brotou nos lábios dela, demonstrando que estava sem jeito de continuar aquela conversa.
— Rony, tem algo que você precisa saber.
Sem reação, o ruivo apenas calou-se e esperou pelo que a morena lhe diria. Por um momento ele achou que a garota iria lhe contar toda a verdade, a verdade que ele já sabia. Sim, porque ele sabia de muitas coisas, ultimamente.
— Eu não estou doente, Rony.
Disso ele já sabia, por exemplo. Faltava ela dizer, no entanto, que estava se agarrando com o professor de Poções deles, também. Sim, porque ele também sabia disso, afinal, tinha espreitado por mais de uma vez através das portas da enfermaria.
— Não está? – ele se fez de desentendido, mas Hermione não notou o sarcasmo – É verdade, você parece ótima. Mas, o que faz aqui, se não está doente?
— Essa é uma longa história, e eu preciso que me prometa que isso ficará entre nós, apenas.
Ronald concordou, já imaginando o que ouviria da amiga. Embora duvidasse que ela teria coragem de confessar seu romance com o professor, o que de fato Hermione não o fez. Ela contou, no entanto, toda sua trajetória na enfermaria até aquele momento e no quão útil estava sendo ali, ajudando nos cuidados aos doentes.
— E o professor Snape, o que ele faz aqui, afinal?
Hermione notou o tom nada amigável na voz de Rony.
— O professor Snape é o responsável pela enfermaria, na ausência da Madame Pomfrey, claro.
— Não gosto dele, você sabe. – Rony não tentou disfarçar seu descontentamento – E até onde eu lembro, você também não costumava gostar.
— Isso era antes da guerra, Rony. Por que está dizendo essas coisas?
— Porque você está aí, toda contente por estar trabalhando com ele. E ainda deixou que ele mentisse para nós, dizendo que você estava doente. Tem ideia de como foi para a gente receber essa notícia?
Estava clara a origem da magoa de Ronald.
— Tente entender o meu lado, Rony, eu não podia contar a verdade a vocês. E sim, eu estou realmente contente por estar trabalhando aqui na enfermaria. – ela foi decisiva nas suas palavras – Tenho aprendido muito com o professor Snape.
— Ele não é confiável.
— Ele é sim, Ronald. Você sabe disso. – ela estava começando a ficar farta com aquele tanto de crítica da parte do ruivo – Agora me fale, o que você estava fazendo fora da torre da Grifinória?
De repente, a voz dele sumiu, e aquele assunto ele gostaria de não entrar em detalhes. Mas Ronald pensou por um momento e decidiu abrir todo o jogo, de uma vez. Ou pelo menos, quase todo o jogo.
— Eu estava indo atrás de você.
— Você não podia sair do isolamento, Rony. Mais alguém estava com você?
— Não. – ele respondeu, mal humorado – Não tem ninguém nos corredores, nem aquele idiota do zelador.
— O zelador Filch? – ela achou suspeita a referência feita pelo ruivo – Por que você iria querer encontrar o zelador Filch pelos corredores?
— Porque ele deveria me dizer alguma coisa sobre você.
Antes de se dar conta, Rony tinha dito o que aparentemente não deveria.
— Explique a razão pela qual o zelador falaria a meu respeito com você. – ela exigiu, um pouco áspera.
— Eu pedi para ele vir aqui dar uma olhada em você. Eu queria saber se você estava bem. Fazia dias que não recebíamos notícias suas.
— Pois saiba que o zelador Filch esteve aqui, Ronald. – ela estava furiosa, agora – Está vendo essas marcas? – ela mostrou algumas leves marcas de escoriações em seu braço – Foi por causa dele que fiquei assim. Satisfeito?
— Mas... eu só disse a ele para ficar de olho em você, não para machucá-la.
— Eu não sei porque ainda perco meu tempo com você, Ronald. Francamente.
Ela estava muito decepcionada com o rapaz por ter feito algum acordo com o zelador para vigiá-la.
— Eu estou doente, Hermione?
Em sua voz, havia um tom de lamentação, que fez com que Hermione se sentisse verdadeiramente tocada.
— Ainda não sabemos, Rony. Seus exames ficarão prontos em breve.
Com um sorriso tímido, ela esperou transmitir um pouco da sua confiança, que não era tanta naquele momento, mas significativa.
— Se você nunca esteve doente, como consegue não se contaminar, já que está vivendo nessa enfermaria? – ele quis saber, curioso.
— Ah, bom... – ela estava incerta se deveria entrar em detalhes, mas achou que não faria mal algum – O professor Snape formulou uma poção imunizadora, da qual fazemos uso diariamente. É assim que não nos contaminamos.
Rony absorveu a informação, com uma expressão indecifrável na face. Ele estava pensando nas prováveis razões pelas quais a tal poção não era administrada em todos, e sim apenas em um grupo tão seleto. Assim, quantas vidas não teriam sido salvas das consequências daquela doença, ele pensou consigo mesmo. Antes que dissesse qualquer coisa, observou quando Hermione sacou a própria varinha do pijama e apontou para ele, realizando encantamentos que ele desconhecia.
— O que está fazendo, Hermione?
— Verificando os seus parâmetros. Fique quieto!
Ele não gostou de receber ordens, nem de ter uma varinha apontada em sua direção.
— Esse é o meu trabalho agora, Ronald. Acostume-se, já que ficará aqui pelos próximos dias.
— Contanto que seja você a cuidar de mim, e não aquele ranhoso, não me importo. – ele externou sua opinião, o que não agradou em nada a garota.
— Pois saiba que somos uma dupla aqui. – ela respondeu, notando a face sardenta do rapaz ganhar novos tons de vermelho – E depois, você não está em condições de exigir nada. Tivesse pensado nisso, antes de sair da torre da Grifinória.
Hermione estava furiosa com o comportamento do amigo, especialmente porque era sobre Severo as acusações, e ela não admitiria tais ofensas. Inesperadamente, ela sentiu que estava sob o alcance das mãos do amigo que, sentado na cama, conseguiu trazê-la para perto. Calmamente, ele acariciava com os dedos as costas das mãos dela, provocando cócegas sutis. O olhar dele estava perdido naquele gesto, e ela estranhou o seu comportamento, tão diferente do usual. Rony era sempre muito agitado.
— Eu preciso confessar algo a você, Hermione. – sua voz era baixa, e ela precisou se aproximar mais para ouvi-lo melhor.
Por um momento, o coração dela saltou mais depressa. Desde que eles haviam terminado o compromisso, há um ano, Hermione sempre o vira com outras mulheres. Alguma coisa dizia que ele estava prestes a contar que tinha encontrado alguém especial, finalmente. Quando Rony ergueu o olhar, encontrou o dela repleto de curiosidade e tensão. Por um momento, Rony quase esqueceu a confissão que iria fazer.
— Diga, Rony. – ela o incentivou.
— Eu tive medo de te perder. – ele então confessou – Eu não teria saído por aí, se não me importasse muito com você. Se o preço a pagar para ter certeza que você está bem for esse, eu aceito.
Hermione de repente ficou sem palavras, sentindo-se uma estúpida por culpá-lo pela imprudência, quando ele estava sofrendo sem notícias dela.
— Eu sinto muito, Rony. Eu poderia ter evitado tudo isso, foi culpa minha.
— Tudo bem. – ele disse, levando uma mão ao contorno da face de Hermione – Se eu não sobreviver, quero que saiba que você sempre terá o meu coração, Hermione.
Percebendo as intenções do rapaz, Hermione se desvencilhou dele e limpou uma lágrima solitária que surgiu em sua face. No fundo, estava sensibilizada, mas era óbvio que o drama sempre fora a marca registrada de Ronald. Ora, como podia ousar dizer que não sobreviveria?
— Não diga bobagens, Rony. Nós vamos cuidar bem de você.
— “Nós”? – ele retrucou, mudando completamente de expressão – Não quero ninguém além de você cuidando de mim.
— Conversaremos sobre isso depois. – ela achou melhor não contestar – Agora, quero que deite e descanse. Trarei seus medicamentos logo.
Ele concordou, fazendo o que ela pedira. Uma última vez, ele acariciou a mão dela, até senti-la se afastar, deixando o leito para cumprir suas tarefas. Antes, no entanto, Hermione sentiu a necessidade de perguntar:
— Rony, você ainda se lembra como se pratica Oclumência?
— Acho que sim. Nunca fui muito bom, mas ainda sei fazer. Mas, por que a pergunta?
— Nada demais. É só que o professor Snape é muito bom em Legilimência. – ela disse, despertando em Rony uma curiosidade – Até mais, Rony.
Ainda um pouco atordoada pela conversa com o amigo ruivo, Hermione seguiu direto para os aposentos particulares, onde trocou de roupas após um rápido banho, o pijama dando lugar ao uniforme escolar. Esperava que Rony tivesse entendido sua indireta mais cedo, pois acreditava que Severo tentaria invadir a mente do rapaz na primeira oportunidade, em busca de quaisquer informações.
Severo levou mais tempo que o esperado para regressar à enfermaria, mas quando retornou trouxe consigo alguns pergaminhos que ele explicou serem os resultados dos exames dos pacientes. Ali, saberiam quem estava em condições de receber alta, e isso a deixou bastante animada.
— E então, o que conseguiu descobrir sobre o seu amigo? – Severo perguntou para ela, quando estavam no laboratório dividindo a bancada.
— Não descobri muito. Rony ainda se sente cansado, achei melhor não o importunar com interrogatórios. – ela mentiu.
De onde estava, Severo bufou irritado, pois tinha imaginado que seria uma perda de tempo achar que Hermione lhe contaria algo, se fosse para incriminar o próprio amigo. E ex-namorado, ele tratou de complementar com essa observação os seus próprios pensamentos.
— Amanhã poderemos conceder alta a três pacientes. – Severo concluiu após analisar os pergaminhos – Veja.
Após uma rápida passada de olhos nos nomes que ele lhe apresentou, Hermione sentiu o seu estado de espírito renovado, pois tinha notado a contínua melhora daqueles alunos nos últimos dias.
— E quanto aos exames do Rony?
— Levará dias até que fique pronto. – ele disse, um pouco rude – Então, iniciaremos o protocolo assim mesmo.
Severo não deu tempo para Hermione formular qualquer questão, foi logo se afastando da bancada para guardar ingredientes e frascos de poções nos armários. Fazia tudo em silêncio e não dedicava qualquer atenção a ela, mesmo que ela não tirasse os olhos dele. Por alguma razão, o homem havia se chateado com Hermione, e ela tinha percebido a mudança no tom de voz. Notou quando ele começou a preparar uma bandeja com poções que ela não tinha visto até então.
— Para quem são essas medicações? – ela indagou, curiosa.
Antes de responder, Severo lhe concedeu um olhar rápido, carregado de mau humor. Quando desviou a atenção, separou um último frasco e ergueu a bandeja nas mãos.
— Não demoro. – ele informou, apenas.
Ela entendeu, imediatamente, que os medicamentos eram para Ronald, e achou péssima a escolha de hora para Severo ir administrá-las no rapaz. Lembrava de como ele tinha sido categórico sobre não querer ser cuidado por ninguém além dela.
— Eu posso fazer isso, se quiser. – ela foi logo dizendo, e pegando para si a bandeja.
— Não é necessário, eu farei. – ele, no entanto, recusou.
— Eu insisto.
Por fim, Hermione venceu, e tratou de ir o mais depressa possível, antes que ele mudasse de ideia. Seria melhor para todos se ela cuidasse de Rony nas próximas horas. A tarefa não era tão simples, no entanto, pois Ronald recusava muitas das poções, quando não esboçava caras feias e rabugentas.
Já era quase final de tarde quando Severo procurou por Hermione pelo salão da enfermaria e não a viu em canto algum. Precisava dela para relacionar ingredientes para o projeto em que vinham trabalhando. Incerto sobre o paradeiro da moça, esvaziou sua mente e tentou captar por informações que revelassem sua localização. De início, só conseguiu captar pensamentos desconexos, de pacientes entediados com a rotina hospitalar. Até que certos pensamentos lhe chamaram a atenção.
Pouco a pouco, Severo foi se aprofundando naquele universo e captando mais e mais sinais, até que surgissem imagens. A surpresa, no entanto, o fez vacilar nos calcanhares e quase derrubar uma prateleira inteira de poções. As imagens refletiam os desejos daquele cuja mente Severo inevitavelmente acabara invadindo. Os cenários eram obscuros, mas as formas físicas eram claras, e havia gestos indiscretos sendo praticados sob sussurros indecifráveis. Até que, num rompante, ele reconheceu as personagens daquele sonho e soube a quem pertencia aquela mente pervertida.
A passos ligeiros, Severo seguiu pelos corredores entre os leitos, tomado de insatisfação pelo que tinha visto. Se aquilo era um sonho, certamente deveria ser baseado em alguma realidade. Esperava que uma realidade distante, pelo menos. Severo sabia que Ronald Weasley e Hermione Granger tinham sido namorados um dia, e que agora não passava de uma amizade. Mas as imagens na mente dele demonstravam o contrário.
De supetão, Severo puxou para os lados as cortinas que separava o leito de Ronald dos demais, e se surpreendeu com o que viu. Deitado na cama, as costas apoiadas sobre um amontoado de travesseiros, estava o ruivo, agora mais rubro que nunca, visto o susto que levara com a entrada repentina do professor que ele tanto odiava. Sentada na beirada da cama, próximo aos pés do rapaz, estava Hermione, mas não por muito tempo, pois ela imediatamente pulara dali para assumir uma posição mais conservadora.
Então, no fim das contas, o que tinha visto dentro da sua própria mente não tinha sido um sonho de Ronald, mas os pensamentos dele, de fato. Pensamentos esses que ele construiu em sua cabeça enquanto conversava com a mulher, que estivera tão despretensiosamente entregue aos risos, que certamente nem havia notado a lascívia no olhar do ruivo.
— Posso saber o que está acontecendo aqui? – Severo questionou, ainda agarrado às cortinas, o olhar percorrendo de um para o outro, indagativo.
Nenhum dos dois conseguiu dizer qualquer coisa, estavam um tanto chocados e incertos. Ronald, no entanto, estava satisfeito com o objetivo alcançado. Desde que Hermione havia lhe dito sobre as habilidades de seu professor em ler mentes, o rapaz ficara horas a fio construindo imagens na sua mente, à espera de que fossem captadas em algum momento. Finalmente, tinham sido. Só para afrontar ao professor.
— Pude ouvir suas risadas antes mesmo de dobrar o corredor. – Severo retomou a fala, mas direcionando-a à Hermione – Não lembro de ter lhe autorizado a socializar com os enfermos, quando seu trabalho aqui é tratá-los, apenas.
— Nós estávamos apenas relembrando algumas coisas divertidas. Perdoe-me pela indiscrição. – Hermione tentou se justificar, enquanto organizava as coisas para deixar o leito.
— Você não precisa dar explicações para ele, Hermione. – Rony se interpôs.
— Fique calado, Ronald. – ela pediu, apreensiva.
Severo, obviamente, não gostou nem um pouco de ouvir aquilo do rapaz, e foi assim que terminou ao pé da cama, muito próximo dele, ameaçadoramente mais alto.
— Talvez ache que pode fazer o que bem tiver vontade, Sr. Weasley. Pois saiba que aqui, nesta enfermaria, sob o meu comando, não poderá.
A vontade de Ronald era de pular daquela cama e agarrar o homem pelas vestes, mas conteve-se, até porque não se sentia tão forte assim, naquele momento. Notando que o Grifinório tinha entendido o recado, Severo deu-lhe as costas e focou em Hermione, que estava agora juntando um punhado de roupas de cama sujas, para levar com ela nos braços. Ele então se aproximou e ofereceu ajuda, mas permaneceu calado durante todo o percurso para os aposentos reservados.
Hermione depositou as roupas sujas em um cesto ao canto e ficou algum tempo mais parada, ali, sem muita coragem de encará-lo. Estava envergonhada por ter sido pega naquela condição, embora não tivesse feito nada de errado. Ela tinha passado tanto tempo ali, sem os amigos, que a presença do ruivo tinha trazido de volta um misto de sensações. Mas acabou confundindo tudo. E estragando, também.
— Precisamos conversar, professor. – ela pediu, demorando um pouco para virar-se e encará-lo.
Severo manteve-se calado, sustentando o olhar de Hermione com o máximo de autocontrole que conseguiu juntar. Se ela, ao menos, soubesse sobre as coisas perversas e pervertidas que o amigo dela tinha pensado, certamente isso a magoaria bastante.
— Ao contrário do seu amiguinho, eu dispenso qualquer conversa. – ele respondeu, áspero – Apenas lembre-se da razão pela qual aceitei que ficasse na enfermaria, e não foi para passar uma tarde inteira jogando conversa fora com aquele garoto estúpido.
As palavras do homem eram ferinas e deixaram Hermione chateada, não apenas porque eram para recriminá-la, mas também porque feriam a sua imagem.
— Eu já lamentei o ocorrido. O que mais espera de mim?
— Um pouco mais de maturidade, talvez. – ele respondeu – Nunca achei que se daria a esse papel tão facilmente.
— Do que está falando? – ela estava a um passo de perder a paciência.
— Do seu exibicionismo. Lamentável, por sinal.
Agora, definitivamente, ela tinha perdido a paciência. Com alguns passos, Hermione quebrou todo o espaço que havia entre eles e o encarou fundo nos olhos.
— Eu não estava me exibindo para ninguém. Ronald e eu somos amigos e sinto muito se não consegue entender o valor de uma amizade.
— Você não percebe as más intenções do Sr. Weasley, porque ainda está apaixonada por ele, mesmo depois de anos.
Severo se afastou dela, dando-lhe as costas, antes dedicando-lhe um olhar de extrema decepção.
— Isso não é verdade. – ela retrucou, incrédula – Nós somos apenas bons amigos agora, e nos respeitamos muito.
Definitivamente, respeito não estava nas qualidades de Ronald, e Severo não disfarçou o seu julgamento, deixando um riso irônico escapar de sua garganta. Ali, parado de frente para as vidraças da janela, fitando o pouco de luz que ia se dissipando para dar lugar à noite, Severo rapidamente lembrou-se das palavras de Minerva, no dia que ela fora transferida para o hospital St. Mungus.
De todas as acusações feitas por Minerva, naquela conversa, algumas o tinham lhe causado extrema repulsa por si mesmo, se de alguma forma ela estivesse certa nas coisas que dizia. Severo nunca tinha seduzido mulheres antes, nem mesmo aquelas com quem se deitara alguma vez. Mas, e se fosse alguma coisa que ele fazia ou dizia que causava o estupor da sedução? E se fosse algo fora do alcance dele de perceber e evitar? Então teria seduzido a todas elas, sem culpa.
Mesmo assim, não queria que Hermione fosse uma vítima disso, pois de todas as mulheres com quem já esteve antes, aquela tinha sido a única a forçá-lo a pensar em relacionamentos. Embora tenha se esquivado de conversas desse tipo com a moça, ele vinha pensando muito nisso já fazia algum tempo. Mas depois de ouvir Minerva acusá-lo de usar os sentimentos de Hermione para seu próprio prazer, Severo repensou suas prioridades e considerou os fatos mais que os desejos. Ele não podia ter relacionamentos com ninguém, muito menos com Hermione.
— Melhor assim. – ele disse, mas não tinha planejado dizer em voz alta.
— O que é melhor assim? – ela perguntou, uma mão inquieta sobre a outra, esperando pela resposta após tantos minutos em silêncio.
— Você já sabe. Eu é que acabei de chegar à conclusão.
As palavras dele não diziam claramente, mas, para ele, Hermione ainda era apaixonada por Ronald Weasley e seria apenas uma questão de tempo para perceber e aceitá-lo de volta em sua vida.
— Eu vou para o laboratório. Cuide dos afazeres da enfermaria. – ele ditou, e saiu sem dizer mais nada nem olhá-la uma única vez.
Sem entender aquela reação, Hermione permaneceu em pé no mesmo lugar, sentindo seu peito apertar com a possibilidade de aquilo ter sido uma discussão sem volta. Ela não queria magoar os sentimentos do homem, especialmente por causa de um amor de infância que já estava muito bem resolvido para ela.
Naquele momento, Hermione pareceu se dar conta de que tinha algo acontecendo entre eles. Se não era ciúmes, então o que poderia ser? Sob essa nova perspectiva, Hermione passou o resto da noite pensando em como contornar aquela situação e fazê-lo voltar a tratá-la como antes. Acabou fazendo todos os afazeres da enfermaria sozinha, o que a deixou bastante sobrecarregada, e irritada também.
— O que aquele ranhoso falou para você, depois que saíram daqui? – Ronald perguntou a ela, depois de aceitar ingerir as poções oferecidas – Ele te machucou?
Ela queria dizer que sim, porque seu coração estava em frangalhos com a possibilidade de não voltar a se acertar com Severo outra vez.
— Ele nunca me machucaria, Rony. De onde tirou essa ideia?
— Aquele olhar assassino, não engana. Uma vez assassino...
— Nem ouse terminar essa frase, Ronald Weasley! – ela ficou furiosa quando entendeu que ele diria que Severo sempre seria uma assassino, e aquilo não era verdade.
Rony sentiu o sangue esquentar e seu rosto rapidamente ficou corado. Teve que morder os próprios dentes para não querer sair dali quebrando tudo. Hermione nem mesmo quis ficar para continuar aquela conversa, e simplesmente saiu dali mais irritada do que quando entrou. Sozinho, o ruivo se perdeu em uma série de pensamentos vingativos, que faziam se lembrar do seu verdadeiro objetivo para estar naquela enfermaria, afinal de contas.
Já passava da hora do jantar e a mesa ainda se encontrava servida, e intocada. Severo tinha se trancado no laboratório a noite toda e não saíra dali para nada. Já Hermione, não sentia fome alguma. Quando deixou o leito de Ronald, um pouco cega de raiva, Hermione colidiu contra o corpo de alguém em pleno salão e foi por pouco que os outros frascos não foram para o chão também.
— Dê-me isso. – Severo pediu a bandeja, depois da colisão entre eles.
— Por quê? Achei que seu lugar fosse no laboratório, e que os afazeres fossem todos meus.
Severo percebeu a ira no tom de voz da moça, e a seguiu pelos corredores. Ela andava rápido, fugindo dele, certamente. Mas ele a alcançou próximo ao armário de poções, aquele onde o zelador Filch a havia tomado como refém, uma vez.
— Está tendo uma noite ruim, Srta. Granger? – ele quis saber, parando-a com uma mão em seu braço.
— Melhor que a sua, eu acho, professor Snape. – ela respondeu, atrevida.
Com uma rápida olhada, percebeu que ele a prendia pelo braço. Tentou se soltar, mas a bandeja em suas mãos vacilou novamente. Quando subiu o olhar, encontrou o dele penetrando em sua íris com intensidade. Ele não tinha gostado do que ouvira, certamente.
— Se vamos nos tratar com formalidades a partir de agora, então acho justo que eu retire dez pontos da sua casa pela falta de compromisso com o trabalho, mais cedo.
— Você não ousaria...
— Já está feito, na verdade.
Hermione não acreditou que aquilo fosse possível, que ele teria tamanha audácia, visto todo o esforço dela para cuidar dos doentes enquanto ele estivera enfurnado naquele laboratório. Sua raiva só aumentou depois daquilo e, subitamente, seu corpo começou a tremer. Nunca, antes, tinha se sentido tão impotente diante de alguém. Nem se deu conta de que uma lágrima escapara do canto de seus olhos, salgando o doce deles.
Severo acompanhou a descida daquela gota estúpida, sentindo-se o mais estúpido, também, pois era certo que tinha causado aquilo nela. Quando a lágrima atingiu seus lábios naturalmente rosados, e se dissolveu ali, ele sentiu os seus próprios lábios repentinamente secos. A necessidade de umedecê-los o obrigou a tomar uma iniciativa inesperada até mesmo para ele, que tinha passado aquelas últimas horas se martirizando pelas atitudes e reações indiscretas que vinha tendo quando na presença da moça. Agora percebia que eram atitudes e reações involuntárias também.
Inesperadamente, Hermione foi tomada pelos lábios em um beijo, que ela não correspondeu, no entanto. Seu consciente não conseguiu aceitar o contato, visto que ainda estava magoado com as coisas ditas por ele mais cedo. Severo então sentiu o peso da responsabilidade pelo que tinha feito, e achou difícil perdoar a si mesmo.
Estava quase se afastando, um pouco ofegante, quando sentiu o corpo de Hermione colar no seu, uma mão em torno de sua cintura e a outra, que segurava a bandeja de medicamentos, trêmula. Antes que tivesse tempo de fazer qualquer coisa para evitar, a bandeja escorregou pelos seus dedos úmidos e o baque no chão causou um estrondo que ecoou por todo o salão. Hermione ainda abriu os lábios para tentar dizer alguma coisa, mas ele a impediu preenchendo os lábios dela com os seus, novamente.
Dessa vez, Hermione não recusou o contato, e sim o retribuiu. Prevendo que alguém daria por suspeito aquele barulho todo e acabaria indo ver o que causara, Severo conseguiu arrastá-la pelo corredor, sem interromper o beijo, e empurrá-la para dentro do pequeno cômodo que era na verdade um armário de poções. Suficientemente grande para duas pessoas com uma pequena margem de sobra, apenas.
Quando seus lábios se separaram para buscar por ar, eles respiraram com as testas coladas. Hermione estava presa entre a porta e o corpo de Severo, pelo lado de dentro, obviamente. Assim que ela percebeu onde estavam, arregalou os olhos assustada com a possibilidade de saírem derrubando tudo ali.
— É seguro, não se preocupe. – ele garantiu, mas o que ela não sabia era que ele tinha feito um feitiço não verbal para manter tudo no lugar.
Beijaram-se novamente, com a mesma intensidade de antes, esquecendo qualquer paranoia que pudesse haver em torno deles e até mesmo que havia um salão inteiro de enfermos fora daquele cômodo apertado. Uma mão ele levou ao pescoço dela, e segurando-a com firmeza, aprofundou o beijo, com sua língua explorando tudo. Hermione não protestou, mas soltou um gemido abafado, por sorte, pois qualquer um que passasse ali fora poderia ouvi-los.
— Espera. – ela pediu, e ele parou para ouvi-la, sua respiração acelerada indo de encontro à face dela. – Achei que estivesse bravo comigo.
— Ainda estou. – ele respondeu, capturando os lábios dela novamente.
— Então não faz sentido. – ela o interrompeu novamente, dessa vez sob os protestos dele para calar-se. – Eu preciso saber se ainda vai estar bravo comigo quando sairmos daqui.
Severo afastou um pouco para tomar algum fôlego, uma mão na cintura e a outra apoiada na parede na altura da cabeça de Hermione. Buscou o olhar dela depois de um longo suspiro e viu nele uma lamentação sincera.
— Eu sei exatamente qual o meu lugar, Srta. Granger. Não vou me opor ao seu romance com o Sr. Weasley...
— Romance? – ela riu um riso incrédulo pelas palavras que tinha ouvido – Não existe romance algum entre eu e Rony. Se não puder aceitar a minha relação com ele, então não acho que isso vá dar certo entre nós.
— Ótimo, você admitiu que existe uma relação. – ele se afastou, dando espaço para ela e apontando as mãos para a porta, indicando que ela poderia ir se quisesse.
Hermione entendeu o gesto, mas não se ofendeu com ele.
— Relação de amizade, foi o que eu disse. – ela contestou, irritada com a capacidade que ele tinha de distorcer as falas dela – E eu não vou a lugar algum.
— Então não reclame mais. – ele disse, tomando-a novamente nos braços para dar continuidade aos beijos.
Agora que estavam parcialmente resolvidos um com o outro, puderam dar vasão aos desejos e se entregaram sem censuras ao que estavam sentindo naquele momento. As carícias foram ganhando forma e espaço entre as peças de roupas. As mãos dele apertaram possessivamente as pernas de Hermione, quase deixando marcas em suas coxas. Brincaram perigosamente por baixo da saia escolar que ela vestia, percorrendo as margens de sua peça íntima. Uma mão subiu através das laterais de seu corpo e já estavam alcançando os botões da camisa escolar quando Hermione as segurou firmemente entre as suas.
— Não, os meus botões novamente, não. – ela protestou, retirando dele um riso abafado no contorno do seu pescoço, eriçando os seus pelos todos.
— O que eu disse sobre não reclamar?
Ela então deixou um riso escapar, capturando os lábios dele novamente. Enquanto o distraia com sua língua, lambendo a extremidade de seus lábios e descendo no contorno de seu queixo, sentindo alguns pelos de barba apontando, ia desabotoando os botões de sua própria camisa escolar, evitando que ele os levasse para longe como tinha feito das outras vezes.
Quando terminou o processo, se arrependeu de não ter vestido uma peça íntima mais sensual naquela tarde, mas Severo pouco se importou com isso, pois rapidamente conseguiu retirá-la de seu caminho. Ali, ele brincou por algum tempo, liberando espasmos de prazer pelo corpo de Hermione, e no seu próprio também.
De repente, ele sentiu o corpo dela deslizando pelo seu, e foi perdendo o direito de tocá-la. Sua mente não conseguia pensar em nada que ele pudesse ter feito para afastá-la de seu toque. Quando, de repente, não conteve um ganido através de seus lábios entreabertos.
Tudo aconteceu tão rápido, o corpo dela deslizando para baixo, as mãos dela abrindo os botões de sua calça e seu membro sendo envolvido pelos lábios dela. Uma onda de choques tomou conta dele naquele instante, mas quando se deu por si, sentiu-se desconfortável com aquela situação. Severo tentou trazê-la para cima, puxando-a pelos ombros, mas Hermione sustentou-se onde estava.
— Vamos, você não precisa fazer isso. – ele pediu, mal acreditando que a tinha no meio das suas pernas naquele momento.
— Achei que não fosse para reclamar.
— Você, não. Eu posso reclamar o quanto quiser. – ele retrucou.
— Não está gostando? – ela quis saber, subindo para tentar encará-lo, havia decepção e vergonha em sua face.
— Esse é o problema, na verdade. Eu gostei. Mas não quero que faça nada do qual não se sinta confortável, ou que vá se arrepender depois.
Ela compreendeu a preocupação, mas achou um pouco ultrapassado da parte dele, visto que já tinham estado na cama algumas vezes. Que mal faria se ela tentasse algo diferente, afinal?
— Vamos combinar assim, então: nenhum de nós reclama. – ela disse, sem dar tempo para ele dizer mais nada.
Deslizou para baixo novamente e continuou o que ele tinha lhe feito interromper. Sem reação, Severo apenas tentou conter os ruídos que insistiam em sair de sua garganta, pois nada lhe daria tanto prazer como tê-la no meio das suas pernas novamente. Sentindo o corpo quente, a transpiração aumentar, ele tratou de desabotoar suas vestes, já que estava com as calças arriadas de qualquer forma. Livrou-se da camisa pesada e usou as paredes laterais como apoio para resistir aos espasmos de prazer.
Quando sentiu que podia se entregar, decidiu que era hora de dar a ela um pouco de diversão também. Gentilmente, sinalizou para ela erguer-se, e antes de dar a ela tempo de limpar o canto dos lábios, os possuiu com os seus próprios, sentindo nela o seu próprio gosto salgado. Estava tão excitado, desejando tanto aquele orgasmo, que se sentiu como um adolescente inexperiente, de novo. Tinha certeza que era culpa dela, daquele corpo, daquela habilidade com os lábios, que o tinha levado àquele surto de satisfação.
Com agilidade, Severo escorregou a peça íntima que Hermione vestia pelas pernas, deixando livre o caminho para a sua satisfação. Ergueu uma das pernas dela e a entrelaçou em sua cintura, ao tempo em que a imprensava contra a porta do armário. Com um movimento ágil do quadril, penetrou nela e afundou seu nariz no contorno do seu pescoço, respirando com dificuldade a cada nova estocada.
Como sentia prazer com aquela mulher, ele pensava a todo o instante. Não sabia como podia resistir a ela, mesmo se tentasse. Sempre acabaria querendo tê-la, estar dentro dela, mesmo que não pudesse lhe oferecer o relacionamento que ela tanto queria. Quando se deu conta, já tinha erguido a outra perna de Hermione e agora a tinha totalmente entrelaçada em sua cintura, o que dava a ele mais liberdade de movimentos e, assim, podia ir mais fundo também.
Hermione tentava controlar sua respiração e os ruídos que insistiam em deixar seus lábios, pois não tinha certeza se ele havia enfeitiçado o local contra sons, e não queria perder tempo perguntando. Os movimentos tornaram-se mais acelerados e cada vez que ele entrava, as costas dela batiam contra a madeira da porta e fazia um ruído. Quem estivesse do lado de fora podia jurar que uma criatura estava sendo mantida naquele cômodo, e ameaçava derrubar a porta a qualquer momento.
Um pouco distante dali, no leito ocupado por Ronald, o rapaz tinha dificuldades para dormir, embora estivesse com sono devido as poções que era forçado a beber. Seus ouvidos conseguiam captar ruídos de batidas ao longe, mas duvidava que tivesse alguém martelando objetos uma hora daquela. Antes disso, tinha ouvido som de frascos se quebrando, mas achou normal. Irritado, ele se levantou e puxou as cortinas que dividiam seu leito com o leito ao lado. Uma aluna da Corvinal, que ele não conhecia, assustou-se com a intromissão.
— Er, desculpe... Sabe se as noites aqui na enfermaria são sempre assim, meio barulhentas?
— Nem sempre. – ela respondeu, achando inapropriada aquela situação.
Notando que não era bem-vindo, Ronald fechou as cortinas e voltou para a cama, o som das batidas menos intenso agora. Hermione tentou avisar para Severo ir mais devagar, mas até ela esqueceu de dar ênfase ao pedido, quando sentiu o prazer chegando pouco a pouco, e se viu movendo o próprio quadril para exigir pressa. Severo compreendeu e, experientemente, escolheu o momento certo para derramar-se dentro dela, ao mesmo tempo em que os espasmos de orgasmo a alcançaram também. Eles sustentaram o olhar até o último tremor de seus corpos, só quebrando quando se abraçaram e relaxaram.
Eles ficaram um tempo abraçados, antes de Hermione pisar no chão novamente, um pouco instável. Severo depositou em seus lábios um beijo calmo, úmido e carregado de algum sentimento. Sem querer, ele esbarrou em uma prateira e fez tinir alguns frascos que se chocaram.
— Acho que aqui é um pouco apertado. – ele comentou, arrancando um riso dela – Você está confortável?
— Sim. – ela controlou o riso – Vantagens de ser pequena.
— E linda...
Hermione ficou sem graça, e corou inesperadamente. Ela ainda estava praticamente desnuda, a camisa jogada num canto, a saia que não escondia mais sua intimidade. Severo, igualmente, e ela sentiu com as palmas das mãos o peito desnudo do homem, os poucos pelos que ele tinha ali, e alguns dos músculos que saltavam. Ele fez o mesmo com ela, passeando com uma das mãos pelos braços delas, ombros e seios, brincando e arranhando de leve.
Seus lábios se encontraram uma vez mais e beijaram-se de tal forma que seria digna de muitas noites em claro relembrando. Quando se deram por satisfeitos, ficaram em silêncio, abraçados. Até que alguma conversa começasse a ganhar forma.
— Estava falando sério quando disse que ainda está bravo comigo? – ela perguntou.
Severo suspirou e a apertou um pouco mais forte, inconscientemente.
— Não tenho o direito de ficar bravo com você, Hermione. Você é uma mulher de opinião e eu talvez tenha sido um pouco rude com você, mais cedo.
Ela pensou a respeito, em silêncio. Estava, na verdade, lutando para decidir se deveria contar a ele as coisas que sabia sobre Ronald. Isso seria como uma traição, certamente, pois sabia que Rony se complicaria ainda mais. Mas, por outro lado, era o certo a ser feito.
— Lembra-se daquele dia, quando o zelador Filch apareceu de repente quando eu estava aqui nesse armário organizando as poções? – ela perguntou.
— Sim, lembro.
— Ele disse que tinha que ficar de olho em mim... lembra?
— Aquele velho não raciocina bem.
— Foi Rony quem pediu para ele vir aqui atrás de mim.
— Tem certeza?
— Sim, Rony me disse mais cedo. Foi uma estratégia que ele encontrou para obter notícias minhas, e quando o zelador não apareceu para contar o que sabia, Rony decidiu sair por conta própria. – ela contou tudo ao professor, ciente de que as consequências viriam para Rony, em breve – Foi assim que ele foi parar no corredor do segundo andar.
Severo absorveu as revelações por algum tempo, voltando a acomodá-la confortavelmente contra seu peito.
— Falaremos sobre isso novamente, após a epidemia. Não se preocupe, o zelador também terá sua devida punição.
— Não seja tão duro com Rony. – ela pediu – Ele também não raciocina bem, às vezes.
Ela riu da própria piada, mas Severo tinha ficado novamente incomodado com a importância que ela dava para o garoto de cabelos vermelhos.
— Agora, deveríamos ir, não acha? – ele perguntou, puxando as roupas deles que estavam largadas pelos lados.
— Eu ficaria mais um pouco, se pudesse. – ela sorriu para ele, aceitando suas peças de roupas e começando a vesti-las.
Quando terminaram se se vestir, deram um último beijo, longo e demorado. Quando Severo abriu a porta do armário, olhou para os dois lados para se certificar de que não havia ninguém à espreita, mas o salão estava do mesmo jeito que haviam deixado.
— Cuidado! – ele alertou, no que ela pulou sobre os cacos de vidro dos frascos de poções que havia derrubado junto com a bandeja, antes de se enfiarem juntos no armário.
— Que bagunça nós fizemos. Vou limpar isso.
— Eu limpo, não se preocupe. – ele a impediu de sacar a varinha – Já lhe dei trabalho demais por hoje.
— Isso me fez lembrar que não jantamos ainda. – ela comentou, olhando para o relógio sobre a parede – A comida deve estar fria, mas podemos dar um jeito. Vou indo na frente, e espero você?
— Sim, irei assim que limpar isso. – ele concordou.
Ela sorriu, satisfeita por estarem tendo uma conversa depois de uma transa, e fazendo planos para jantarem juntos, inclusive. Tudo bem que era a refeição de todo dia, provavelmente o mesmo cardápio também, mas ainda assim significava muito para ela. Afastando-se, Hermione seguiu para os aposentos particulares com um sorriso radiante nos lábios. O jantar, frio, ela aqueceu novamente com um aceno da varinha. Enquanto isso acontecia, ela decidiu tomar um banho rápido. Por sorte, conseguiu fazer tudo antes que ele chegasse nos aposentos.
Severo notou que ela tinha trocado o uniforme por uma calça moletom e uma regata que não escondia as estampas floridas da peça íntima que vestia embaixo dela. Aquela visão o deixou um pouco constrangido e quase excitado. Mas era óbvio que ela não tinha noção do efeito causado. Assim, eles se sentaram juntos à mesa, mas Severo tão logo sentou, levantou-se num salto.
— Aonde vai?
— Você vai gostar. – ele disse, misterioso.
Mas ela logo entendeu, quando o viu agachar-se para pegar algo embaixo da cama. Ela sorriu quando ele veio se aproximando com uma garrafa de vinho nas mãos.
— Quantos copos estou proibida de beber? – ela perguntou, arrancando dele um riso.
— O suficiente para terminar na cama comigo, como da outra vez. Já tivemos nossa cota de diversão, por hoje.
Foi a vez dela de rir do comentário, enquanto estendia o copo para ser servida. Após fazer o mesmo com ele próprio, Severo acenou sua varinha e ajustou a temperatura da bebida, aquela era uma noite quente, afinal. E, por sorte, o cardápio naquele dia estava variado dos demais: massas era a pedida do dia.
Sem dúvidas, fora a melhor refeição que já fizeram desde que Hermione chegara àquela enfermaria. Conversaram sobre amenidades enquanto comiam e bebiam, por vezes falando coisas engraçadas. Quando Hermione estava terminando seu segundo copo do vinho, deu-se por satisfeita, e ficou somente parada, observando-o beber enquanto conversavam sobre as altas médicas que dariam na manhã seguinte.
— O que achou? – ele perguntou, acenando com a varinha para desfazer a bagunça deixada sobre a mesa.
— Que poderíamos repetir.
— Você não aguentaria mais um copo. Veja o que aconteceu da última vez. – ele disse, divertido.
— Não estou falando do vinho.
Se a intenção era deixá-lo sem palavras, bom, ela conseguiu. Severo não soube o que dizer, porque fora pego de surpresa.
— Vou lhe fazer companhia até que pegue no sono, está bem?
— Podia ser melhor. – ela esboçou uma careta de insatisfação, mas em tom de brincadeira.
Hermione se levantou de onde estava sentada e deu a volta para alcançá-lo em um abraço de lado. Juntos, caminharam até a cama dela, onde Hermione se deitou confortavelmente em meio às cobertas. Severo, por sua vez, sentou-se na beirada da cama e, enquanto retirava as botas, sentiu as mãos de Hermione tateando os botões de sua camisa, praticamente abraçando-o pelas costas.
— Tira isso, por favor. – ela pediu, quando ele tentou afastá-la.
Ele aceitou que ela continuasse, até a camisa deslizar para fora de seus braços. Satisfeita, ela o conduziu para deitar-se ao lado dela, abraçando-o pela cintura, a face encostada contra seu peito desnudo. Era uma noite quente, então ele dispensou as cobertas, concentrando-se em acariciar os cabelos dela, o contorno de seus braços, a extensão de pele exposta pela camiseta que subira um pouco depois que ela se deitou.
Ajeitando-se mais confortavelmente nos travesseiros, Severo aproveitou para capturar os lábios da jovem e lhe oferecer um beijo de boa noite digno de uma ereção. Essa foi a conclusão dele depois que notou o efeito causado pelo gesto.
— Teremos um dia cheio amanhã. Tente dormir. Ficarei aqui.
Ela balançou a cabeça afirmativamente e se acomodou, por fim, cedendo às ondas de cansaço de um dia repleto de acontecimentos. Em pouco tempo, com as carícias que recebia nos cabelos, foi sentindo-se mais e mais pesada e se entregando a um sono tranquilo. Percebendo que era possível sair sem ser notado, Severo a afastou de seu corpo e lhe cobriu com as cobertas. Pegou sua camisa e retirou-se para o banheiro, onde não se demorou muito.
De volta aos aposentos, deu uma rápida olhada para a cama onde ela estava e sentiu algo inesperado. Uma sensação de paz interior, como nunca tinha sentido antes. Sua vida era sempre uma agitação, deveres a serem cumpridos e aparências a serem mantidas. Mas com Hermione ele vinha podendo fazer tudo diferente, sem pressão, sem compromisso com nada nem ninguém. Ele vinha podendo ser ele mesmo.
A noite se mostrou calma, sem intercorrências significativas. A única dificuldade, no entanto, foi convencer o paciente de cabelos ruivos a tomar as poções que lhe foram oferecidas. Ronald não aceitava ser tratado por Severo, mas teria que o engolir por muito tempo, ainda. Para Severo, estava claro que não só na condição de professor e paciente, mas de homem para homem, visto que tinham interesses em comum.
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