A epidemia
10 Uma conversa
Notas iniciais

Satisfação, um sentimento para poucos. Apesar disso, Hermione sabia que não podia confiar nesse falso estado de espírito, este que fazia parecer que tudo estava bem, quando não estava. Ela se sentia sozinha muitas vezes, distante e angustiada. Era nisso em que estava pensando enquanto abria a primeira gaveta do pequeno móvel de cabeceira que ficava ao lado da sua cama.
Ali, guardava os frascos da poção immunis fornecida a ela semanalmente por Severo. Era assim que se mantinha saudável e apta ao trabalho. O frasco vazio, ela descartou, e seguiu para fora dos aposentos. Seus pés sabiam exatamente para onde ir a fim de encontrá-lo. Se não fosse por essa poção, muitos professores em Hogwarts teriam sucumbido à doença.
— Já temos algum resultado dos testes para os novos ingredientes da poção immunis, professor?
Despreocupado, Severo terminava de cortar finas tiras de uma alga marinha sobre a tábua de corte, no laboratório, quando sua atenção foi atraída pela voz de Hermione. Ele notou o tom de euforia da moça, que vinha acompanhado de um sorriso. Se não fosse mais preparado para reconhecer quando pessoas se aproximavam dele, teria cortado um dedo, no mínimo.
— Parece que temos. – ele respondeu, sem desviar os olhos dos cortes precisos – Estive querendo compartilhá-lo com você desde a chegada do Sr. Weasley, mas sua atenção esteve tão voltada a ele, desde então, que pensei que tivesse perdido o interesse por este projeto.
— Isso não é verdade. – ela esboçou a melhor expressão de descrença que conseguiu – Achei que minha listagem de ingredientes não tivesse lhe agradado, afinal, não parava de riscá-la.
— De novo, o problema das listas? – ele deu o último corte, largando a faca em seguida – Você fez um excelente trabalho com elas, Srta., deveria se sentir um pouco mais orgulhosa, ao invés de contrariada.
Quando terminou, Severo apreciou o trabalho feito até aquele momento, enquanto alcançava uma toalha de papel, onde limpou os dedos sujos, consciente de que toda a atenção de Hermione estava voltada para ele.
— Tenho alguns afazeres para você, essa manhã. – ele voltou a dizer – Se não estou muito enganado, você vinha esperando ansiosamente por este dia. – ele deu uma rápida olhada na aluna, enquanto puxava alguns papeis e lhe entregava – Essas serão suas primeiras altas médicas.
Sim, ela estava muito ansiosa para dar aquela notícia aos alunos em questão.
— Ainda se lembra do que precisa dizer? – ele a viu balançar a cabeça em afirmação, enquanto passava as vistas nos nomes impressos – Hagrid estará lá fora aguardando para acompanhar os alunos de alta aos respectivos dormitórios.
— Não vem comigo? – ela estava surpresa.
— Não, preciso concluir os trabalhos por aqui. – ele apontou para a bagunça que estava sua bancada.
Ela assentiu, mais calma para pensar que seu trabalho não era nada demais, só não podia esquecer do discurso que Severo havia lhe feito decorar, outro dia.
— Se tem alguma dúvida, pergunte. – ele notou que ainda era alvo da atenção dela.
Hermione despertou do transe momentâneo e piscou duas vezes, sorrindo sem jeito. Na verdade, ela tinha se perdido nos próprios pensamentos tentando se decidir se podia tocá-lo, senti-lo nem que fosse só um pouco, só para lembrar como era essa sensação. Ou para nunca a esquecer, talvez.
— Não é nada. – ela se justificou, um pouco constrangida enquanto colocava alguns cachos para trás da orelha, gesto que sempre pegava a Severo desprevenido – Estou indo agora cumprir a tarefa, se não se importar.
Com suas últimas palavras, desviou o olhar e já se preparava para dar as costas, quando sentiu os dedos esguios de seu professor em seu pulso, segurando-a no mesmo lugar.
— Não tão depressa, senhorita. – o corpo dela reagiu ao tom de voz, especialmente quando sentiu os dedos dele deslizarem para a palma de sua mão, acariciando a pele no processo e fechando-se nos contornos dos seus dedos, delicados – Sempre que tiver uma dúvida, pergunte. A próxima, pode tirar o seu sono se não obtiver uma resposta.
Um sorriso discreto moldou o canto dos seus lábios depois que as palavras os deixaram, dando ênfase ao conteúdo delas. Hermione não conseguiu desfazer a troca de olhares, nem tão pouco o contato de suas mãos. Um desejo foi surgindo com o brilho de seus olhos, refletindo neles a noite anterior e as sensações provocadas pelos seus toques. Mesmo agora, era como se estivessem sentindo tudo de novo, com a mesma intensidade. Ela então sorriu, singelo, sentindo-se mais aquecida por dentro.
Com algum esforço, suas mãos foram perdendo o contato e assim Hermione foi se afastando, dando-lhe as costas para dar início às tarefas do dia. Na mão, o toque sutil ainda podia ser sentido, e ela foi o caminho todo consciente disso. Na outra mão, os papeis das altas como prelúdio de dias melhores, ela acreditava.
A primeira paciente era Anna Jones, uma Lufana do quarto ano, que recebeu a notícia da sua alta médica com extrema euforia. Hermione viu a garota de cabelos ruivos arrumar suas coisas com pressa e ajudou-lhe a levar tudo até a saída, onde Hagrid já esperava além das portas de carvalho. As outras duas pacientes, Chloe e Alisson, eram muito amigas e tinham pedido para dividirem leitos vizinhos, assim, Hermione só precisou falar uma única vez, e ambas entenderam bem o recado.
— Repouso, muito líquido, nada de comer besteiras e, no menor sinal de desconforto, não tardar em procurar ajuda. — foram as recomendações.
Isso deu tempo à Hagrid para retornar e poder acompanhá-las à torre da Grifinória. Satisfeita, Hermione respirou aliviada, sabendo que era só o começo para o fim daqueles tempos ruins. Aproveitando que estava por ali, começou uma rápida limpeza no leito de Chloe, que era o último daquele corredor. Com magia, providenciou a retirada do desjejum, a limpeza do chão e da pequena mesinha de canto. Retirou também os lençóis da cama e fez deles uma trouxinha para facilitar o transporte. Estava quase finalizando, quando as cortinas se abriram e revelaram a entrada de seu professor.
— Espero que não precise repor os lençóis, no futuro. – ele disse, adentrando o espaço, um olhar atento às tarefas que Hermione executava.
— Também gostaria de ver estes leitos todos vazios. Será que podemos sonhar, ao menos? – ela finalizou, juntando a poeira num canto com um sorriso de esperança nos lábios – Já até consigo imaginar os corredores cheios novamente quando tudo voltar ao normal.
Severo se apoiou nos ferros da cama e a fitou com expressão neutra, pensando que talvez não quisesse os corredores cheios novamente. O que ele queria, na verdade, era algum momento de calmaria, uma oportunidade de não ter que pensar tanto em tantas coisas, um lugar que ele pudesse descansar a mente e o corpo. Um lugar só para ele e Hermione. Esse lugar não existia, mas não custava nada sonhar.
— O que foi? – ela perguntou, rindo com alguma curiosidade pelo tempo que estava sendo observada – Falei algo de errado?
— Nada de errado. Só um pensamento que me ocorreu. – se aproximou um passo, tão sorrateiro que ela mal o notou mais perto. – O retorno à normalidade me faz pensar em muitas circunstâncias, você não? – ele a viu ponderar a respeito, suas engrenagens mentais quase podiam ser ouvidas, e usou essa distração para chegar mais próximo – Salas de aulas cheias de cabeças-ocas novamente.
Ambos riram, o riso dela mais expressivo, obviamente.
— Consigo pensar em voltar a frequentar a biblioteca. E fazer as refeições no Salão, novamente.
Severo analisou as circunstâncias descritas por ela, e concordou.
— Os banquetes no Salão são melhores que essa comida que os elfos nos trazem, é verdade. Mas, você disse biblioteca? – ele alcançou a mão dela, notando a sua reação imediata ao toque inesperado – Tudo bem, então, quem sabe, um passeio a Hogsmeade?
— Sim, sinto falta dos passeios no povoado. – ela concordou, as mãos entrelaçadas às do homem à sua frente.
— Então você aceita?
— O quê? – sua dúvida não durou nem meio segundo, pois entendeu a referência logo em seguida, a voz quase não saindo como devia – Está me convidando para um passeio em Hogsmeade, quando tudo voltar ao normal?
— Não um simples passeio... – ele encaixou seu corpo ao dela, um braço em sua cintura – Um final de semana inteiro, na verdade.
Seus corpos estavam tão próximos, que fazia parecer o espaço em volta deles muito maior que o normal. Hermione sentiu um formigamento em seu estômago, quase não acreditando no que tinha acabado de ouvir. Se seus olhares não estivessem conectados, naquele momento, ela duvidaria que estivesse vendo com clareza a certeza na expressão dele.
— Não vai dizer nada, senhorita?
Sua voz soou rouca ao pé do ouvido da moça, despertando em seu íntimo um tremor que ela facilmente confundiu com a excitação em seu baixo ventre. Foi quando sentiu a mão do homem abandonando a sua e deslizando, pouco a pouco, até alcançar o cós da calça que tinha optado vestir naquele dia, onde ele encontrou apoio para puxá-la em sua direção, reduzindo em definitivo o espaço entre eles. Ela quis dizer algo, mas o som se perdeu em seus lábios quando os entreabriu para respirar o ar que tinha esquecido que precisava. Não teve tempo de fechá-los, os lábios, pois precisou deles para retribuir o beijo que lhe foi roubado, em urgência.
A troca durou o bastante para distraí-la do movimento ágil dos dedos do homem, afastando de seu caminho qualquer obstáculo que o impedisse de tocá-la. Ela mal notou os botões e o zíper sendo abertos e, quando seus dedos alcançaram a intimidade dela, sentiu que tinham chegado tarde até lá, pois a excitação já estava evidente. Em que momento ele a tinha excitado tanto, ele pensou consigo, afastando os lábios do beijo para fitá-la uma vez mais. A visão que teve causou nele a mesma comoção no baixo ventre, pois havia calor, havia ardor. E aquilo tudo só estava ali por causa dele.
A constatação o deixou um pouco embaraçado, mas não interrompeu os gestos por causa disso, só os intensificou, arrancando dela pequenos suspiros contidos. Por sorte, de um lado só havia parede e, do outro, o leito vazio de Alisson. Se não fizessem muitos ruídos, ninguém os ouviria. Severo apertou a cintura dela, despertando uma onda ainda maior de calor, ao tempo em que com um dedo a penetrava. Seus olhares se cruzaram nesse exato instante e uma faísca deixou os dela, que lutava para conter uma reação mais efusiva.
— Ainda estou esperando uma resposta, senhorita. – sua voz cruzou o pequeno espaço e reverberou nos ouvidos dela, rouca, cálida, irresistível.
Nada mais importou naquele momento, só o desejo de terminar com aquilo. Hermione se viu fechando os olhos, encostando a testa contra o ombro do homem, movimentando o próprio quadril, respirando com dificuldade e segurando-se nas vestes negras para não desabar. Sem nenhum esforço, ele a fez atingir o clímax e não achou que seria tão incrível quanto fora, de fato. De repente, ela estava totalmente entregue ao prazer que ele havia lhe proporcionado, e essa noção o fez se sentir desejado.
— Vou aceitar isto como um sim. – ele disse, num fio de voz embargado.
Hermione levantou o rosto e o fitou séria, um pouco constrangida pela vulnerabilidade que havia demonstrado com o toque do homem. Não achou que se entregaria tão fácil a alguém, algum dia, em situação tão inusitada como aquela. A compreensão caiu sobre ela e a fez repensar se aquilo tudo era sensato, ou se tinha se transformado em alguém muito além do que era, de fato. Enquanto esses pensamentos turvavam sua mente, Severo se desfazia do contato e separava-se dela, parecendo um jovem inexperiente novamente, sem saber como reagir depois de provocar a mulher à sua frente.
Com um pigarro rouco, ele deixou um sorriso discreto no canto dos lábios para quebrar o constrangimento de ambos. Hermione aceitou o pequeno gesto e o retribuiu, a boca um pouco seca, depois de tudo. Antes que pudesse abri-la para dizer algo, Severo fez um movimento pedindo silêncio. De repente, passos se aproximando foram ouvidos e uma sombra se projetou por trás da cortina que separava o leito do corredor. Hermione quase parou de respirar.
— Chloe?
— O que faz fora da cama, Sr. Davies? – Severo ralhou o aluno.
Por sorte, ele fora mais rápido e afastou as cortinas antes que fossem descobertos por alguém. Já no corredor, Severo dispersou o garoto e o amealhou caso o pegasse fora da cama novamente. Atrás das cortinas, Hermione sorria como boba, ainda sem entender o que havia acontecido ali. Ela se segurou nas barras de ferro da cama para apoiar o corpo ainda trêmulo, sentindo-se um pouco tonta.
— Hermione?
Em um sobressalto, largou as barras de ferro, quase caindo.
— Você está assando mal? – Rony perguntou, as mãos no ar sem saber o que fazer.
— Eu estou bem. – ela o afastou, meio irritada.
A última coisa que Hermione esperava era ter Ronald ali, na frente dela, depois das circunstâncias embaraçosas com seu professor. Não fazia nem cinco minutos que o homem havia saído dali, o que indicava que Rony devia ter estado de olho neles.
— O que você quer? – ela já podia esperar uma avalanche de indagações da parte do amigo.
— Eu... – o ruivo começou, mas logo se calou, mudando de assunto – Por que a cama está vazia?
— A cama? – Hermione podia jurar que ele perguntaria qualquer coisa, menos sobre a cama – Eu dei alta para a garota que estava aqui. A Chloe, da Grifinória, sabe?
— Sei... – ele não sabia, na verdade.
— Então? Você precisa de algo, Rony?
— Sim... – ele iniciou, arranjando uma desculpa – Eu ia pedir para a Chloe um cobertor extra. É isso.
— Sei... – ela duvida que fosse aquilo, até que lhe ocorreu algo – Será que você está com febre?
Instintivamente, Hermione retirou a varinha das vestes para aferir a temperatura do amigo, quando notou que a ponta da camisa estava para fora da calça, em contraste com o outro lado, perfeitamente alinhado.
— Escuta, Hermione... não estou com febre. – ele se irritou quando a viu empunhando a varinha – Só me dê um cobertor extra e pronto.
— Tube bem. – ela não entendeu, mas achou melhor, também – Volte para a sua cama e eu levo o cobertor assim que me livrar dessas coisas.
Hermione apanhou os lençóis sujos e todo o resto das coisas que tinha separado quando começou a arrumação do leito, e despediu-se do amigo com um último olhar. Ela saiu na frente, o ruivo atrás. Quando entrou nos aposentos reservados, jogou as roupas de cama sujas dentro do cesto e respirou pesado o ar a sua volta.
— O que aconteceu?
— Céus... não vou parar de levar sustos hoje? – ela quase pulou para trás.
— Você não me viu quando entrou? – Severo achou estranho aquele comportamento, de repente.
— Desculpe. – ela se recompôs, aproximando-se dele – Naquela hora, foi por pouco, não foi?
— Eu nos livrei de sermos descobertos, bem a tempo. – ele disse, desabotoando os primeiros botões de sua camisa, o que deixou Hermione paralisada.
Ela sorriu, certa de que não era de interesse de nenhum dos dois serem descobertos. Severo ia desfazendo-se dos botões sem se dar conta de que Hermione continuava parada de frente para ele. Quando terminou, afastou o tecido dos braços diante de uma espectadora atenciosa.
— Mas não se preocupe, não vou mais colocá-la em risco igual àquele, novamente. Agora, preciso descansar algumas horas, se não se importar de assumir lá fora, sem mim.
— Claro. Eu cuido de tudo. – ela disse, decidida.
Eles permaneceram um tempo presos no olhar um do outro, lutando para conter uma ansiedade que só crescia dentro deles. Ansiavam um novo toque de seus corpos, não satisfeitos com o que tinham experimentado há alguns minutos. Quando Severo desviou o foco para largar a camisa sobre a cama, Hermione o alcançou com alguns passos, as mãos espalmadas em seu tórax despido. Ela só se deu conta do que tinha feio quando sentiu o calor das peles, mas antes que retirasse as mãos dali, Severo as segurou e as manteve exatamente onde o subconsciente dela tinha desejado.
— Eu aceito um final de semana inteiro ao seu lado em Hogsmeade, professor.
Severo sorriu com os olhos, deslizando as mãos através dos braços da mulher, para segurar-lhe a face de ambos os lados. Deixou-se perder nos acastanhados da íris da jovem, enquanto pensava no final de semana agradável que teriam, em breve.
— Já temos o nosso compromisso, então, senhorita. – disse, afastando-se do toque dela gentilmente, os braços dela voltando para o lado do corpo – Agora, realmente preciso descansar.
— Estarei lá fora. – ela sorriu, afastando-se dele também.
Depois de dar as costas ao homem, conteve um acesso repentino de euforia pelo convite aceito, imaginando o que os esperava neste compromisso futuro. Hermione deixou os aposentos, mas manteve uma fresta da porta aberta por desatenção quando passou por ela. Severo não se deu ao trabalho de ir até lá fechá-la, porque precisava urgentemente descansar o corpo, já que sabia que a mente trabalharia freneticamente até mesmo nos sonhos. Com preguiça, ele não pensou duas vezes e deitou-se na cama de Hermione, que era a mais próxima dele e estava menos bagunçada também. Ali, envolvo nos lençóis que tinham o cheiro dela, Severo se entregou ao cansaço.
Lembrando-se do que tinha prometido ao amigo ruivo, Hermione foi até um armário e de lá retirou um cobertor extra para aquecê-lo. Quando atravessou as cortinas do leito de Ronald, encontrou-o vazio. Voltando para o corredor, cruzou com ele logo à frente.
— Ei, onde estava?
— No banheiro.
— Ah... – ela compreendeu – Aqui está o seu cobertor. Tem certeza de que não está com febre?
— Tenho. – ele respondeu rápido, antes que ela tirasse a varinha das vestes novamente.
Com o cobertor nos braços, o ruivo voltou para a sua cama, mas o que Hermione não sabia era que o frio nunca tinha existido e que aquele cobertor nem seria aberto por ele. Tudo o que Rony havia visto e ouvido fora suficiente para deixá-lo entretido o resto do dia, com milhares de pensamentos ganhando forma em sua cabeça. Não só ele, mas Hermione também tivera algo no que pensar durante o dia.
Alguns dias depois daquele foram se passando, e havia muito trabalho a ser feito, pois Severo tinha encontrado diversas possibilidades de ingredientes para a reformulação da poção immunis, e queria testar todos. O projeto parecia promissor e aos poucos as anotações iam ganhando credibilidade. As listas de Hermione continuaram sendo riscadas, mas ela estava tão contente com os rumos das coisas, que nem ligou para isso.
Eles passaram mais tempo juntos dentro do laboratório, mexendo caldeirões e anotando receitas nos pergaminhos, do que fora de lá. Durante o dia, se revezavam nos atendimentos aos enfermos e, em uma daquelas noites, Hermione trocou de turno com ele, pois Severo havia estado exausto depois de quase um dia inteiro enfiado no laboratório sozinho.
Certo dia, chegaram correspondências do Ministério informando os resultados de alguns exames, dentre eles, o de Ronald. Evidentemente, que atestara positivo para o vírus, e aquela demora na entrega do resultado despertou em Hermione novamente o interesse em desenvolver um feitiço que substituísse os exames de sangue, para algo mais prático e instantâneo. As correspondências também traziam notícias sobre o quadro clínico da Diretora, e eles ficaram contentes por saber que ela se recuperava melhor a cada dia.
Uma semana depois, eles finalmente acharam que teriam um dia com o qual se lembrar no futuro.
— Acho que encontramos a combinação certa. – Severo comentou, deixando clara a sua satisfação.
Hermione se limitou em sorrir de lado, mas ele percebeu com uma rápida olhada que era um sorriso fraco, sem brilho. Achou melhor não questionar, pois era evidente que algo a estava incomodando naquela manhã.
— Vamos deixar cozinhando por mais alguns minutos, enquanto isso...
Severo não conseguiu concluir sua fala, pois notou a mudança repentina de cor na face de Hermione. O rosado natural da sua pele dera lugar a um branco pálido, e as fendas em sua testa denunciavam um desconforto que ela vinha escondendo dele. Com uma mão, apoiou em seu ombro e exigiu o contato visual com ela.
— O que está sentindo?
— Não sei. – ela parecia fraca, também – Parece que estou prestes a...
Vomitar, ela teria dito se o seu estômago não tivesse embrulhado naquele exato momento, forçando-a a se levantar depressa e correr para fora do laboratório. Severo viu a pressa com que ela partiu e mesmo que estivesse com um caldeirão fumegante em ativa, sentiu que deveria ir atrás dela e certificar-se de que ficaria bem. Assim, a encontrou debruçada sobre a pia do banheiro nos aposentos reservados, os cabelos amarrados por uma fivela que ameaçava romper a qualquer momento.
Severo aproximou-se por trás, com cuidado para não a assustar. Ela nem mesmo virou-se para vê-lo, estava realmente enjoada, e envergonhada também. Com calma, ele acariciou seus braços, ajudando a acalmá-la. Quando ela se deu por satisfeita, afastou-se até encostar contra o peito de Severo, onde encontrou alento.
— O que será que me fez tanto mal? – ela divagou, sentindo-se cansada também.
— Não a vi comer quase nada essa manhã. – ele comentou, afagando seus braços e lembrando-se de algo – Tem tomado suas doses diárias da poção immunis?
— Sim, rigorosamente às seis da manhã, quando acordo.
Ele permaneceu em silêncio, absorvendo a questão. Estariam as poções perdendo a validade? Ele pensou em inúmeras possibilidades e nenhuma delas fez sentido.
— Vai ver é só uma indisposição. – ela disse, virando-se para ele, lembrando-se de algo também – Você deixou o caldeirão sozinho no laboratório?
Num rompante, Severo correu para fora dos aposentos, mas quando chegou ao laboratório, sua expressão mudou para uma bastante frustrada. A bancada estava toda suja, líquido derramado para todos os lados. Com um aceno da varinha, apagou as chamas sob o caldeirão e contemplou a desgraça.
— Sinto muito. – Hermione lamentou, atrás do corpo dele, olhando a bagunça.
— Uma manhã inteira perdida. – ele comentou, fazendo-a se sentir ainda mais culpada – Não importa. Acha mesmo que está bem para trabalhar hoje? – ele questionou por fim, virando-se para olhá-la de perto – Eu vou entender se quiser passar o dia na cama, descansando.
— Estou ótima. – ela assegurou – Eu só passaria o dia na cama se fosse com você. Mas como não será possível, vou trabalhar agora.
Com uma última olhada para o interior do laboratório, Hermione se afastou em direção ao salão, já estava na hora da medicação dos doentes. Para trás, Severo ficara com a decepção estampada. Teria que refazer o caldo novamente, já que tudo tinha ido para os ares, literalmente.
— Que cara, Mione. Comeu algo azedo? – perguntou o ruivo, quando ela chegou com suas poções na bandeja.
— Engraçadinho você... – ela desdenhou, sem se esforçar em parecer menos indisposta – Hoje não estou para brincadeiras.
Quando ofereceu as poções, Ronald não se negou a bebê-las. Com um olho atento, interviu a tempo de Hermione desabar depois de um acesso repentino de tontura. Ajudou-a a se sentar na poltrona ao lado da cama e lhe ofereceu um copo de água.
— Beba, vai se sentir melhor.
— Obrigada. – ela bebeu, e ele limpou uma gota que escorreu por seu queixo, o que a teria constrangido se estivesse com força para notar a forma como o amigo a olhava – Vá avisar ao Professor Snape, por favor, Rony.
O rapaz não se agradou com a ideia, e pensou seriamente se deveria mesmo ir atrás do professor. Quando se levantou ereto, quase caiu para trás ao encontrar a figura do homem de preto parado, com olhar rígido.
— Não será necessário, já estou aqui. – ele disse, a voz grave.
Ela abriu os olhos a tempo de vê-lo se aproximando para ampará-la nos braços, ajudando-lhe a levantar-se da poltrona. Seus olhares não se cruzaram um momento se quer e, a princípio, ela achou que ele estivesse irritado com ela, mas não sabia o que tinha gerado esse sentimento ruim. Se ela não estivesse tão fraca, teria visto que Severo ficara em pé tempo suficiente para ter seu ciúme despertado pela cena que presenciou entre ela e o ruivo.
— Consegue caminhar? – ele perguntou, testando o equilíbrio dela.
— Acho que sim. – ela caminhou, sem dificuldades.
Lado a lado, eles deixaram o leito de Ronald em direção aos aposentos particulares. O ruivo tentou acompanhá-los, mas Severo o fez desistir da ideia, o que o deixou extremamente irritado. Quando entraram nos aposentos, Severo ainda a amparava pelos braços e foi guiando-a.
— Venha, deite-se na sua cama e descanse. – ele pediu, e ajudou a tirar os sapatos dela uma vez que já estava sentada na cama.
Foi quando, olhando de relance para o lado, Severo não conteve um resmungo:
— O que faz aqui, Sr. Weasley? Eu disse para não vir atrás...
Mas o ruivo não fora capaz de dizer nada, de tão estático que estava. Até que, em um sobressalto, ele deixou os aposentos às pressas. Sem entender, Severo se voltou para Hermione e seu olhar se perdeu no dela. Ele desejou não ter sentido tanto ciúmes quando a viu com o amigo ruivo, mas estava perdido com aquele sentimento novo e indiscreto.
Várias vezes no dia ele se sentia assim, e achava que a qualquer momento a perderia para aquele garoto patético. Aquele carrossel de emoções estava acabando com a sanidade de Severo, que se pegava, às vezes, pensando em uma forma de dar um basta nisso. E a forma que encontrava era a de pedi-la em compromisso. Só assim, achava, que poderia exigir exclusividade da morena.
— Eu estou com uma cara péssima, aposto. Você me olha como se eu fosse um trasgo.
— Não, não olho desse jeito. – ele afagou seus cabelos, ainda ajoelhado à frente dela – Só estava pensando umas coisas que adoraria poder compartilhar com você, mas não tenho certeza se aprovaria minhas ideias.
Ela sorriu, encostando a face nas mãos que lhe acariciavam, arrancando-lhe arrepios.
— Eu já aceitei o seu convite para aquele passeio em Hogsmeade. O que tem em mente, agora, professor?
Foi a vez dele de sorrir, cálido, porque era assim que se sentia por dentro.
— Cuidar de você. – ele respondeu, levantando-se em um único movimento – Agora deite, feche os olhos e descanse. Trarei algumas poções restauradoras para você.
— Obrigada.
Com rapidez, ele se retirou da sala e apanhou as poções necessárias. Hermione as ingeriu e caiu em profundo adormecimento, pois algumas eram calmantes. Severo esperava que fosse o suficiente para ajudá-la a melhorar daquela indisposição. Ele passou quase uma hora inteira sentado em uma cadeira ao lado dela na cama, velando seu sono, aferindo seus parâmetros e estudando os sinais que seu corpo apresentava.
Não havia qualquer sintoma que lhe chamasse atenção, especialmente porque ela estava protegida pela poção immunis, e isso deveria bastar. Então, pensou que fosse alguma coisa que ela tivesse comido, ou ingerido, talvez. Mas não, caso contrário ele também teria sentido o mesmo. Devia ser o esforço do trabalho, quase se convenceu disso.
No final daquele dia, ela despertou depois de algumas horas sentindo-se verdadeiramente disposta. Nem parecia que tinha tido inúmeros enjoos, acessos de vômitos e tonturas o dia todo. Ela só estava faminta, muito faminta. Quando Severo a encontrou sentada à mesa do jantar, um prato cheio a sua frente, ele achou muito suspeito aquela recuperação repentina.
— Eu pensei que podíamos trocar os turnos hoje, novamente. – ela iniciou uma conversa, depois de soltar os talheres.
— Nem pensar. Acha que só porque acordou um pouco disposta, já pode fazer o que quiser?
— Eu não estou só um pouco disposta, estou completamente recuperada. – ela ficou irritada pela reprimenda – E dormi demais, agora não tenho mais sono algum.
Severo levantou-se, largando seus talheres também, e a puxou para cima com ele, com cuidado.
— Penso que podemos usar a sua disposição para causas maiores do que o trabalho. – ele propôs, enlaçando-a pela cintura.
As palavras do homem a derreteram toda, depois de uma semana tão cansativa e atarefada, que não puderam ter qualquer momento de intimidade. Já fazia algum tempo que não o sentia, verdadeiramente. E aquela proposta só a atiçou para ideias impróprias.
— Será que podemos ter uma conversa? – ele pediu, olhando fundo em sua íris.
— Que tipo de conversa? – ela emendou uma expressão graciosa, arrancando dele um pequeno sorriso, mas até ela achou que era um sorriso triste, e entendeu – Você fala sobre termos uma conversa, de verdade?
Ele achou que era um jeito peculiar de classificar a conversa que pretendia ter com ela, mas concordou.
— Se pretende me alertar para as investidas do Rony, eu já sei o que vai dizer. – ela se desvencilhou dele – Eu também já estou farta das coisas que Rony fica me dizendo, essa história de que não consegue me esquecer e que acha que vai morrer. Mas são só coisas idiotas que ele fala para me irritar. E pelo que vejo, também está conseguindo fazer o mesmo com você.
Severo ouviu-a calado, uma mão nos bolsos das vestes e a outra formando nós nos dedos, pela raiva repentina. Não sabia que o patético do Weasley estava investindo em Hermione às suas costas. E também não entendia porque, de repente, ela tinha lhe confessado aquelas coisas. Mas tudo bem, não era novidade para ele, já que conseguia ouvir muita coisa pela mente do rapaz.
— Isso não me interessa, agora. É sobre a sua saúde que precisamos conversar.
— Mas eu estou bem. – ela expressou curiosidade – Era só uma indisposição, eu disse.
— Será mesmo que é só disso que se trata, senhorita, uma indisposição?
Hermione calou-se para absorver as palavras em tom de dúvida expressas pelo homem. Se ele sabia de algo, deveria contar.
— O que eu tenho? – ela exigiu.
— Não sei. Eu esperava que pudesse me dizer. – uma fenda se formou no topo de seu nariz adunco.
— Além de uma indisposição, eu sinto raiva nesse momento, também. – ela deu as costas.
— Não entendo, você tem motivos para sentir raiva de mim? – ele a seguiu pelos aposentos.
— O que está tentando insinuar, afinal? – ela exigiu, novamente.
Por mais que tivesse ensaiado aquela conversa em sua cabeça quase a tarde inteira, de repente ele não parecia mais seguro sobre suas suspeitas. De fato, Hermione parecia muito disposta agora, e sua preocupação poderia ser infundada. Mas ele precisava expor a questão, só assim traria paz à sua sanidade.
— Hermione... – ele começou, apelando para o primeiro nome só para garantir que ela não tivesse um novo acesso de raiva antes da hora – Temos estado juntos há algum tempo, praticamente desde que chegou a esta enfermaria. – ele viu ela descruzar os braços e ouvir com atenção – Nunca paramos para conversar sobre isso, você sabe.
— Não me diga... quantas vezes eu não tentei iniciar uma conversa sobre nosso relacionamento?
— Não é sobre relacionamentos que devemos conversar. Mas sobre as precauções que nunca tomamos. – ele despejou, de uma vez, mas achou que não tivesse ficado muito claro – Estamos tendo relações sem proteção, Granger.
A compreensão veio com um misto de aborrecimento junto, só porque ele tinha optado por trocar o primeiro nome dela pelo último. O resto, não fez a menor diferença para ela, pois estava claro que o homem duvidara do seu senso de responsabilidade. Assim, caminhou até o móvel ao lado da sua cama, onde guardava suas coisas de uso pessoal e diário. Na primeira gaveta, os frascos das poções imunizadoras, e uma caixinha com as pílulas anticoncepcionais. Na posse delas, voltou-se até onde Severo estava e o fez virar-se para ela.
— Aqui, como pode ver, eu sei me proteger. – ela mostrou a caixinha, mas notou a incompreensão na expressão do homem – São pílulas, e assim como a poção immunis, eu tomo uma dessas por dia. Sendo assim, não posso estar grávida.
— Pílulas? – ele puxou para si a embalagem – Medicamento trouxa, suponho. – ele observou ela concordar com a cabeça – Qual a eficácia disso?
— Mais de noventa e nove por cento! Acredite, isso funciona. – ela se gabou, sentindo o domínio do assunto.
Severo ponderou, analisando as pílulas coloridas com olhar crítico de um mestre em poções e alquimia.
— E se você fizer parte deste um por cento que falha?
— Sem chance. Eu conheço o meu corpo o suficiente para saber se estivesse grávida. – ela se ofendeu, mas disfarçou – Você não vai colocar caraminholas na minha cabeça só porque acha que é mais experiente que eu. Se fosse mesmo, não esperaria tanto tempo para levantar a questão das proteções. Eu nem sei com quem esteve, antes de mim.
Retirando a embalagem das mãos do professor, com certa grosseria, Hermione se afastou para devolvê-la ao lugar de antes. Tinha lhe incomodado pensar que suas pílulas não estivessem fazendo efeito, porque a última coisa que queria era mais uma paranoia daquelas na sua vida.
— Eu nunca deixei de usar as proteções antes. Acho justo que saiba que isso só tem acontecido com você. – Severo argumentou, achando que era o correto a fazer.
Hermione ouviu calada, não sabia o quanto acreditar, mas não fazia diferença, afinal, ela própria tinha se esquecido das proteções extras, também. A verdade era que ela tinha voltado a se sentir indisposta, ainda mais depois de todo aquele falatório desagradável. Mesmo assim, queria mostrar que era só uma indisposição e nada mais.
— E então, vamos trocar nossos turnos ou não? – ela forçou a questão novamente.
— Definitivamente, não.
— Mas, eu já disse, eu estou bem... – ela até tentou.
— Se continuar, considerarei sua impertinência digna de penalidade e sua casa sofrerá perdas consideráveis de pontuação. – ele ditou, o olhar ferino – Quem está dizendo isto é o seu professor. Portanto, deite-se e descanse, a menos que queira trocar seus aposentos particulares por um leito na ala comum.
As palavras do professor não davam margem para questionamentos, e ela já conhecia aquele perfil autoritário bem o suficiente para não ousar contrariá-lo. Mesmo assim, não mediu suas próximas palavras.
— E depois, professor, pelo tempo que estamos juntos, ainda seria muito cedo para suspeitar de uma gravidez. – ela o fitou, um risco entre as sobrancelhas por achar aquela hipótese, de fato, muito infundada.
O que ela não contava, no entanto, era ver na expressão do homem uma clara confirmação de que aquela não era a suspeita dele, no final das contas. Mesmo que ela tivesse entendido bem, Severo não quis deixar pontas soltas naquela conversa.
— Faço das suas as minhas palavras, Srta. Granger, eu nem sei com quem esteve, antes de mim.
Um segundo inteiro para o coração dela parar de bater, e o suficiente para o sangue não circular. Ela sentiu a falta de oxigenação nas veias e a vista turvar, de repente, anunciando que estava prestes a ter uma crise de ansiedade. Não gostava daquela sensação, a de ser alvo de uma dúvida tão mal plantada.
— Saia. – ela ordenou, a mandíbula travada.
Severo não reagiu, na verdade, ficou confuso com o que havia acabado de dizer. Por alguma razão, as palavras pareceram saltar da sua boca sem nenhum senso. Era algo no que ele tinha pensado ao longo do dia, hipóteses que ele havia levantado para espantar as ideias de que Hermione estivesse mesmo doente. Nada seria mais difícil de aceitar do que vê-la sucumbir à doença que já tinha tirado uma vida, antes.
— Perdoe-me pelas palavras impensadas. – ele tentou, mas ela já o tinha rejeitado – Não tive a intenção, Hermione.
— É Granger! – ela ralhou, aproximando-se perigosamente dele – Quero que saia.
— Não irei a canto algum, vou cuidar de você esta noite.
— Não, não vai! Seria melhor se chamasse o pai do bebê. – ela ironizou, mas se arrependeu logo em seguida – Eu sei o que está pensando, e eu o aconselho a não tentar externar seus julgamentos a meu respeito novamente. Agora saia!
— Não vou a canto algum, eu já disse. – foi sua vez de demonstrar alguma ira – Tente entender. Isso tudo é tão novo para você, quanto para mim. Se você estiver...
— Mas eu não estou! Você mesmo desvendou o caso, não foi? – ela estava mesmo ferida, e cada vez mais perto.
Percebendo que, independente do que dissesse, ela continuaria insistindo no erro que ele cometera, apelou para o toque. Quando a segurou pelos braços, Hermione, no entanto, reagiu com veemência e acertou-lhe diversos socos contra o peito. Aos poucos, ele conseguiu contê-la, mas a ira ainda mesclava o olhar da jovem, enquanto as primeiras lágrimas deixavam o canto dos olhos.
— Acredite em mim, Hermione, eu jamais teria dito isso se fosse para magoá-la. Eu não me expressei como devia, só peço que me perdoe.
— Você não pode aparecer na minha vida e bagunçar com ela desse jeito. Não pode.
Nesse ponto, ela já sentia o pranto se aproximando, e não queria fazer aquele papel na frente dele.
— Nunca tive a intenção de lhe causar qualquer mal, senhorita. Se o fiz, peço que me perdoe, agora. – ele conseguiu impedi-la de se mover para longe – Permita-me recomeçar esta conversa novamente, do jeito certo. – ele a viu engolir em seco, mas virar-lhe o rosto em desagrado – Sinto muito por não termos dialogado antes a respeito das proteções, eu só... nunca precisei discutir sobre isso antes, e as coisas tem acontecido de um jeito diferente entre nós.
— O que quer dizer com “diferente”? – ela sentiu o peito afundar, incerta sobre isso ser bom ou mal.
Severo considerou a questão, mas antes livrando-a do seu aperto e dando a ela a chance de se afastar o quanto julgou necessário.
— Talvez eu nunca tenha passado tanto tempo com alguém, como tem sido com você.
— Claro, levando em conta que estamos trabalhando juntos e confinados no mesmo espaço, é perfeitamente aceitável passarmos tanto tempo juntos. – ela lhe deu uma última olhada, antes de se virar para concluir o pensamento – Em outras condições, duvido que quisesse passar esse tempo ao meu lado.
Como esperado, nenhuma contestação da parte dele. Um bolo subiu pela garganta dela, revelando o que ela já deveria saber, que nenhum dos dois estava pronto para um relacionamento, muito menos para questões tão complexas como filhos. Não que eles tivessem pensado sobre isso alguma vez, mas agora que a questão tinha sido levantada, era evidente que o assunto não era bem-vindo.
— Preciso que volte para a sua cama e descanse essa noite, Hermione. – ele optou pela mudança de assunto – Eu terei algum tempo para estudar melhor as possibilidades...
— Estudar? – ela se exaltou novamente, um riso irônico soando – Então, quer dizer que, se eu – e somente se, entenda – estivesse grávida, você teria que estudar as possibilidades?
— Não foi o que quis dizer...
— Foi exatamente o que disse. – ela o cortou, ferina – E quer saber, essa criança tem sorte de não ser sua, porque ela iria querer alguém para assumi-la, e não para estudá-la como uma possibilidade.
Com as palavras, Hermione se afastou em direção à cama, retirando de lá os travesseiros com extrema grosseria.
— Está me dizendo que você está grávida, então?
Hermione puxou a coberta e alguns travesseiros caíram para fora da cama. Em seguida, sentou-se, a cabeça baixa porque sentia tudo rodar dentro dela. O quarto parecia estar em movimento e quando levantou o rosto para fitá-lo, não conseguiu enxergá-lo direito. O coração dele deu um salto com a possibilidade de Hermione estar naquela condição, independente do que isso significasse.
Quando a vista dela se afinou novamente, notou na expressão do homem um misto de apreensão. Hermione entreabriu os lábios, mas mudou de ideia pelo que diria, o que só aumentou a tensão entre eles. Ela levou uma mão à testa para secar algum suor que despontava, e se sentiu febril.
— Hermione... – ele tentou, se aproximando com cuidado – Não vou julgá-la, eu só preciso da verdade.
Em um movimento nada calculado, e sim explosivo, Hermione abriu a gaveta do móvel e tão rápida quanto foi capaz, retirou a embalagem do medicamento de lá, atirando-a na direção do homem com toda a força que conseguiu juntar naquele momento.
— Eu tomo pílulas, seu babaca! – ela explodiu.
Severo agarrou a caixinha que lhe acertara o peito em cheio, e mordeu os próprios dentes com aquele comportamento nada admirável de Hermione.
— Agora saia. Ou tire todos os pontos da minha casa, tanto faz. – ela exigiu.
Dessa vez, não houve retruca, Severo simplesmente acatou ao pedido dela e se retirou dos aposentos particulares. Para trás, ele deixou uma Hermione que não tardou à se render ao pranto, afogando as lágrimas entre os travesseiros e cobertas, que ela percebeu que tinham o cheiro dele, depois que ele tinha se deitado ali da última vez. Aquela constatação só a deixou ainda mais irritada e a vontade que teve foi de jogar tudo longe e deitar-se prostrada no chão. Mas ela se conteve.
Lá fora, Severo soltou todo o ar depois que fechou as portas às costas, e só então notou que ainda segurava os remédios de Hermione. Pensou em voltar e devolver, mas seria a atitude mais mal pensada, se a fizesse. Por isso, seguiu para o laboratório, mas cruzou com alguém que não esperava.
— Como ela está? – o ruivo exigiu, sem qualquer cordialidade no tom.
— Não lhe interessa. – seu olhar mordaz deveria ter inibido o aluno, mas não – Volte para o seu leito, Weasley, isso é uma ordem!
— Você não manda em mim.
Com aquela atitude rebelde, Ronald tentou furar o bloqueio do corpo de Severo, mas não contava que seria driblado de frente. Seus ombros colidiram e Ronald foi empurrado para trás com o impacto, ao tempo em que seus olhares cruzavam o espaço com um aviso claro de enfrentamento. Nenhuma palavra foi dita por segundos seguidos.
— Eu preciso vê-la, e tem que ser agora. – Ronald tentou, novamente.
— Você não vai, Weasley. A menos que tenha um motivo forte o suficiente. Você tem?
Ronald tinha, na verdade. Desde que vira Hermione ser carregada aos aposentos e ocupando aquela cama, sim, Ronald percebeu que tinha um motivo para ir querer vê-la. E nada o impediria. Por isso, invadiu o bloqueio novamente e foi surpreendido por um empurrão contra o peito, dessa vez. O gesto foi brutal e agressivo e o fez dar vários passos para trás. Uma onda de tensão cresceu entre eles, seus punhos fortemente fechados, prontos para um combate corpo a corpo.
Na mente de Severo surgiram diversos pensamentos, alguns deles que o deixaram transtornado. E ele preferia saber a verdade do que ficar com aquela maldita dúvida.
— Qual o seu motivo, Sr. Weasley, para ir querer vê-la? Vamos, diga, e eu lhe deixo passar.
— Não é da sua conta, Snape. – ele dispensou os tratamentos formais em sua fala – Meus assuntos com Hermione nunca lhe disseram respeito, não seria agora.
Em um rompante, as mãos de Severo já estavam sob posse do colarinho do pijama de Rony.
— Que merda você fez com ela, Weasley? – não precisou aumentar o tom, devido à proximidade.
Rony sobressaltou os olhos com aquela indagação, pensando como teria sido descoberto pelo professor, sim, pois ele tinha de fato cometido uma merda, e das grandes. Achando que estava tudo ferrado, de qualquer jeito, quase confessou tudo.
— Não é da sua conta, eu já disse! – ele tentou se livrar das mãos do homem, mas a diferença de força era notória – Hermione vai saber o que eu fiz, não você. Agora, me solte!
Com algum esforço, Ronald conseguiu se desvencilhar e, dessa vez, quebrou facilmente o bloqueio que era o corpo do seu professor. Com um empurrão contra o ombro do mais velho, conseguiu afastá-lo de seu caminho e rumou direto para os aposentos, onde Hermione ainda tentava controlar sua decepção. Para trás, ficara o corpo inerte de Severo, fitando o horizonte sem focar em nenhum ponto específico.
Aquela noite se arrastou pesadamente, para todos eles. Por diversas vezes, Severo foi aos aposentos vê-la, mesmo de longe, e de todas essas vezes a encontrou virada para a parede oposta, tentando ignorá-lo. Ele queria perguntar sobre a conversa dela com o amigo ruivo, mas não encontrou coragem. Em uma das vezes que abriu a porta dos aposentos, a encontrou sentada na cama, os pés descalços sobre o chão frio. Eles se olharam e, sem jeito, Severo foi se aproximando.
— Eu estou bem. Você não precisa entrar e sair a cada trinta minutos só para ter certeza de que estou respirando. – ela disse, fitando-o – E sei que agora está se perguntando como eu sei disso, pois bem, eu estou fingindo dormir desde a nossa discussão.
— Eu não me perdoaria se algo lhe acontecesse sem a minha supervisão. E por que não consegue dormir, Hermione?
Ela suspirou, segurando as bordas do colchão com força. Ela passara as últimas horas martelando uma série de ideias na sua cabeça e agora queria muito poder compartilhá-las.
— Eu acho que você pode estar certo. – ela admitiu, uma expressão nublada.
— Esqueça as coisas que eu disse, antes.
— Eu espero que saiba que eu não tive a intenção de envolvê-lo nisso. – ela pareceu arrasada consigo mesmo.
— Escute, Hermione... – ele se aproximou, sentando-se ao lado dela no espaço da cama — Eu sei que nada do que eu disse mais cedo pode ser apagado, por isso só posso lamentar o fato de não ter me expressado de forma diferente. – ele alcançou as mãos da jovem e lhe fez um carinho enquanto falava – Eu me importo com você, por isso me preocupo. Não me afaste de você dessa forma, eu nunca disse que a deixaria sozinha para lidar com isso.
Eles permaneceram um tempo daquela forma, sentados um de frente para o outro, desfrutando das carícias de seus dedos. Quando Hermione ergueu o olhar, sua insegurança a obrigou agir por impulso e abraçá-lo com intensidade. Queria demonstrar naquele contato de seus corpos que podia perdoá-lo pela discussão e que precisava dele ao seu lado, independente do que a estivesse afligindo.
Ao se afastarem, o contato de seus corpos foi intensificado à medida que seus rostos iam se aproximando e logo se beijaram, afastando para longe qualquer sensação boba de insegurança ou aflição. Tudo o que importava era sentirem um ao outro, depois de dias sem qualquer contato mais íntimo. No silêncio daquele beijo, eles traçaram um acordo de paz. No fim do beijo, Hermione aceitou os pedidos e exigências de Severo para que ela tentasse descansar, com a promessa de que ficaria ao seu lado o tempo todo.
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