A decisão de Sofia.
10 Natal em família
Como de costume, Sofia deixou tudo para a última hora, quase não conseguiu as passagens de avião e de trem, teve dificuldade de conseguir um táxi na estação, porque havia muita neve nas estradas. Mas, finalmente, lá estava ela na frente da casa dos Larson, uma imponente mansão de paredes de pedras escuras com suas inúmeras janelas iluminadas, pois a noite chegava cedo no inverno. Um dos empregados veio atender a porta.
— Boa noite, miss MontReggio. Esperávamos a senhorita mais cedo.
Peter trabalhava para a família desde que a avó tinha a idade dela, começou adolescente, como cavalariço, passou por toda as crises da família, agora, era o mordomo, falava que não sairia daquela casa nem depois de morto, pois pretendia ser enterrado no cemitério junto a capela.
— Havia muita neve no caminho, foi muito difícil chegar até aqui, Peter. Onde estão todos? – Sofia se desculpou, enquanto ele a ajudava tirar o casaco úmido pela neve.
— Estão nos seus aposentos, preparando-se para o jantar – ele explicou, como sempre em tom formal. — Eles se reunirão em uma hora, na sala de música. Vou levá-la ao seu quarto, senhorita.
Peter pegou a mala de Sofia, mas não antes dela lutar para carregá-la, mas sabia que seria uma batalha perdida, pois, apesar da idade avançada, Peter nunca admitiria um membro da família fazendo esse tipo de trabalho, na sua presença.
Eles passaram pelos imensos corredores forrados de lambris de madeira nobre e escuras, cheios de troféus de caça com seus olhos de vidros, abatidos através dos séculos passados por gerações e gerações de Larsson, que os observavam, com seus semblantes sisudos e ar pomposo, eternizados nos vários quadros pendurados nas paredes, por isso, desde que era uma garotinha, Sofia sentia arrepios quando passava por aquele lugar.
— Seus aposentos, miss MontReggio. – Peter anunciou, abrindo a porta para ela entrar.
— Obrigada, Peter – Ela respondeu, educada, entrando no quarto.
Ele depositou a mala sobre a banqueta nos pés da cama, fez uma leve reverência e saiu, fechando a porta.
Sofia sabia que se fosse nos tempos passados, haveria uma criada para recebê-la, desarrumar suas malas e ajudá-la a se vestir, mas ainda bem, que os tempos eram outros, poderia ficar sozinha preparando-se por que viria a seguir. O quarto era o mesmo que sempre ficava, forrado com seda adamascada bege, móveis escuros, uma cama enorme, com colcha e cortinas de veludos de tom dourado, ela desarrumou as malas e pendurou suas roupas no armário. Para não criar nenhum clima ruim na família, principalmente, devido a sua amada vovó Henriete, que era bem idosa, Sofia escolheu o vestido, que recebeu de presente dos seus pais no seu aniversário, para o jantar, deixou o piercing do nariz e os vários brincos em casa. Pronta, desceu para encontrar a família, que já estava reunida na sala de música, um enorme salão com vários sofá e poltronas e um piano de cauda, o ambiente era dominado por uma grande árvore de natal, um pinheiro natural, provavelmente, cortado no bosque próximo, adornados com vários enfeites, alguns muito antigos, que pertenciam a família há gerações, como a estrela dourada que brilhava na sua ponta, além de muitas luzes coloridas. Apesar da casa ter recebido novas instalações para aquecimento, a grande lareira estava acesa, dando um ar de aconchego ao lugar, sua avó estava sentada em uma poltrona do lado dela.
Cada vez que reencontrava sua avó, Sofia ficava assustada com sua aparência mais frágil e seu tamanho menor, ela foi a primeira pessoa, que cumprimentou, ajoelhando se, na frente da sua poltrona, e beijando suas mãos.
— Vovó, que bom ver você – Sofia falou, com doçura.
— É bom ver você também, minha menina. Você está tão bonita – avó disse, passando as mãos sobre os cabelos dela.
Sofia amava sua vovó, que sempre foi uma mulher forte, mas muito meiga e gentil, enfrentou a guerra, casou-se muito jovem, com seu avô, um típico inglês reservado e um tanto mal-humorado, mais velho, mesmo assim, ela sempre manteve a família unida, mas agora a idade lhe pesava bastante.
— Trouxe um presente para a senhora – disse, entregou-lhe um pequeno pacote e ajudou-a abrir, já as mãos dela tremiam muito e não tinham firmeza. – É uma caixa de música, ela toca Clair de lune, de Debussy. Eu sei que a senhora gosta.
— Obrigada, minha menina — e a fitou com carinho e com os olhos azuis iguais aos de Sofia, mas agora embaçados.
Ela teve muita dificuldade de encontrar um presente para avó, procurou por antiquários e brechós de toda a cidade, até encontrar aquela linda caixa madeira trabalhada, que tocava uma das músicas preferidas dela. Sofia, ainda, lembrava quando as mãos, antes ágeis da avó, deslizava sobre as teclas do piano naquela sala, e quantas vezes ela tocou aquela música para os netos, que ficavam sentados, ouvindo, encantados.
Depois da avó, ela prosseguiu a sessão de cumprimentos das pessoas mais próxima a mais distantes. Primeira tia Alice, a irmã mais nova de sua mãe Katherine, de quem sempre tivera uma pontinha de ciúme pela irmã ter se casado com aquele italiano bonitão, Giancarlo. Ao lado dela, seu marido sem graça, tio Albert, tranquilo e que pouco falava. Depois, as primas Sarah e Anne, filhas de tia Alice, com seus respectivos maridos e filhos. Sarah já tinha dois filhos e esperava o terceiro e Anne também tinha duas crianças, e todas corriam e brincavam pela sala, fazendo-a lembrar quando ela e os primos tinham aquela idade, apesar de Sofia ser a mais nova. Seu primo Thomas, também, era filho de Alice, ainda não havia casado e nem pensava nisso, era considerado um do solteiro mais cobiçado da Inglaterra, porém não era por sua beleza.
O tio-avô Randolf era o irmão mais novo de seu avô, nunca se casou, morava em Londres, a família o achava esquisito, pois era o máximo que poderiam dizer em um tempo, que amar alguém do mesmo sexo era um crime e poderia levar a prisão.
Giancarlo, o pai de Sofia, que apesar da idade, continuava sendo um dos homens mais bonitos que conhecia, lembrava-se de como as mães das suas colegas da escola e, mais tarde, as próprias colegas ficavam empolgadas, quando eram apresentadas a ele, que além disso, era também muito charmoso e encantador. E Katherine, sua mãe, sabia disso muito bem, por isso mantinha uma vigilância constante e acirrada sobre ele, porque, apesar de ser bonita, não era tanto quanto o seu marido, com a pele muito clara, cabelos louros, olhos azuis e lábios finos, características herdadas por Sofia.
Por fim, Marcelo e Ana, Sofia ainda não a conhecia, ficou surpresa pois estava esperando uma dessas mulheres estonteantes, para virar a cabeça do seu irmão, ao ponto de ele terminar com o noivado na véspera do casamento e enfrentar os pais, mas ela não era assim. A nova namorada dele era bonita, mas de um jeito comum, tinha um belo sorriso e densos cabelos castanhos, uma mulher inteligente e simpática, ela nunca havia visto o irmão tão feliz.
— Bem-vinda a família, Ana – Sofia pronunciou, com sinceridade, assim que Marcelo as apresentou – Quando vocês chegaram?
— Há dois dias – Marcelo explicou – Viemos por causa da vovó, ela não poderá ir ao casamento, porque a viagem é muito longa e cansativa, e os médicos não permitiram.
— É uma pena – disse Ana – Não será nada grandioso, uma cerimônia simples, só para as famílias e alguns amigos, mas espero que seja muito bonito.
— Vai ser, querida — Marcelo falou, beijando o seu rosto.
— Vocês parecem muito felizes – reparou Sofia, sorrindo, pois nunca vira o irmão assim tão radiante.
— Estamos mesmo – Marcelo afirmou, abraçando Ana – Eu nunca fui tão feliz na minha vida.
— Vocês vão ficar aqui para o ano novo? — Sofia quis saber.
— Não, iremos passar o ano-novo em Londres. Depois, voltaremos para casa, pois há muitas pendências para resolvermos até o casamento. Espero que você vá, Sofia – Ana falava com franqueza.
— Com certeza, eu irei – afirmou, pois havia gostado muito dela.
— E Paris? E suas aulas? – Marcelo perguntou.
— Bem – Sofia deu de ombros, não querendo falar sobre si mesma. Ninguém ali, nunca entenderia o que sentia, dividida entre Lia e Jean, como alguém poderia gostar de duas pessoas dessa maneira.
O jantar foi anunciando, todos tomaram seus lugares marcados à mesa, Sofia estava entre o seu primo Albert e seu tio-avô Randolf, tia Alice logo a sua frente, que na primeira oportunidade, aproveitou para cutucá-la.
— E você, Sofia, quando teremos notícias do seu casamento? – Alice questionou, com um tom de sarcasmo.
— Quando encontrar alguém certo para mim, tia Alice – Sofia respondeu, com paciência, a velha pergunta de sempre.
— Na sua idade, suas primas já eram casadas –Alice continuou a provocá-la
— Sorte delas – respondeu com ironia — Mas, Albert não é casado e ele é bem mais velho do que eu. – Sofia tentou se defender, colocando o primo na berlinda.
— Mas, a idade é bem mais ingrata com as mulheres do que com os homens – Albert contra-atacou, com cinismo.
— Deixe a menina, Alice – tio Randolf a defendeu, energético — Não há idade para se encontrar o amor, só é preciso paciência e bons olhos para ver, quando ele chega e coragem para segurá-lo – filosofou, sorrindo orgulhoso, erguendo a taça em um brinde para Marcelo, que retribuiu o cumprimento.
— Mas, você nunca se casou, Tio Randolf. Ainda espera o amor? – Anne perguntou, insolente.
— Por nunca ter me casado, não quer dizer que nunca tenha encontrado o amor da minha vida – tio Randolf respondeu– Aliás, o casamento e o amor não são, necessariamente, sinônimos, muitas vezes, são antônimos.
— Você e esse amor da sua vida não ficaram juntos? – Sofia quis saber, interessada.
— Eram outros tempos, minha querida, nosso amor exigiria muito coragem, ele não estava disposto a enfrentar as barreiras ou, talvez, eu não fosse o amor da vida dele — seguiu-se um suspense silencioso, porque todos esperavam pelo final da história, mas tio Randolf não prosseguiu, então refletiu, melancólico – Então, essa pessoa preferiu o caminho mais fácil e convencional, casou com alguém que todos aprovavam. Todavia, isso é águas passadas, e eu sempre estou à espera de um novo amor da minha vida, que pode durar por vários anos ou por algumas horas ou, mesmo, por poucos e intensos minutos.
— Tio Randolf, por favor! – Alice grasnou, indignada com aquela afirmação.
— Por favor, Alice, não somos mais crianças e não vivemos no século XIX, todos aqui sabemos do que estou falando, não sejamos hipócritas – Randolf retrucou, com elegância, sem alterar o tom de voz.
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