A dança das víboras
1 Christopher
– Clima urbano... uma merda. O odor dos esgotos e o ar morno que se destaca em branco nesse frio de merda. – colocou o cigarro na boca e, com seu tão clichê isqueiro Zippo da Jack Daniel’s, acendeu em sua terceira tentativa, o cigarro. O tragou e segurou a fumaça.
– Cadê aquele idiota? Está atrasado... Está uma fucking hora atrasado! – usa como gíria, palavras em inglês. Acha descolado. Ele expira a fumaça pelo nariz e percorre toda a úmida e mal iluminada rua com seus olhos.
Um barulho de toc toc, sequencialmente compunha em harmonia, um som de chamar a atenção dos demais rapazes. Um pé atrás do outro, assim era como a preta saia social da mulher permitia.
Apesar de tudo, o que mais chamara atenção no impaciente homem postado em frente à loja de bebidas, era a branca camisete de rendas que dava de vista ao preto sutiã que espremia os grandiosos seios da estranha.
Estranhamente a mulher parou frente a frente com homem e o encarou com seus delineados olhos.
– Seria você... – pausou. Olhou-o de cima a baixo com um rápido movimento de olhos e continuou.
– Seria você o tal Daniel? –
Como se os olhos da mulher fossem uma câmera, ele a percebeu dando closes em sua levemente falha barba castanha, porém rígida como a de um homem de sua idade, 27. Em seguida, em seus levemente rosados lábios, que pareciam estar sempre úmidos, nem mesmo uma casquinha de ressecamento podia-se notar.
Havia uma espécie de cerimônia. Ele tragava seu cigarro já na metade, encarava-a como se quisesse seduzir, mas não a respondia.
Seus olhos igualmente castanhos claro, de súbito, encontraram-se. Não possuíam expressão de incerteza, impaciência ou qualquer outra expressão que fosse, aliás... não havia expressão ocular.
Surgiu repentinamente uma covinha na bochecha esquerda da mulher, um sorriso maroto; fechado. Ela mordeu sutilmente os lábios e se virou andando, atravessando a rua.
– Vamos. Ele está a sua espera. – sua voz era femininamente confiante, capaz de atrair escravocetas.
Andaram por becos escuros que davam acesso à outras ruas e viravam muitas esquinas, sem nem mesmo trocar uma única palavra. Chegaram então a um lugar com uma longa fila e um segurança na porta. A mulher trocou um olhar com o segurança e virou-se para o homem que seguia logo atrás.
– Venha. – quase sem voz, a mulher falou.
Ambos entraram na casa noturna. O som da música eletrônica agitava uma multidão a frente enquanto logo à esquerda o balcão do bar estava lotado de pessoas, homens cantando as mulheres, e alguns a outros homens. Martini, conhaque, vodca e cerveja preta em grandes canecas de vidro podiam ser vistas sendo levantadas ao alto para passar entre o monte de pessoas, bêbados e sóbrios, sem derrubar a bebida.
O ambiente era decorado com uma potente luminária psicodélica que fazia o universo em todo o ambiente e holofotes vermelhos e azuis em grande quantidade completavam a iluminação, mas apesar de tudo isso, o ambiente era um pouco escuro.
O homem verificou sua carteira em sua jaqueta de couro preto que cobria uma preta camisa regata. Quanto mais se continha, mais atraída a mulher ficava. Os olhos dele quase não saiam de sua saliente bunda enquanto andava. Os demais, mesmo bêbados, davam espaço para ela passar, há uma hierarquia naquela casa e ela está no topo.
Havia bem no canto uma entrada que dava para uma escada, a área VIP era lá em cima. Eles subiram e ele deu um involuntário sorriso ao ver o corredor com demasiadas portas abertas para quartos preenchidos apenas com cama. À esquerda havia janelas sem vidraça para observar com visão exclusiva.
Já não mais havia o melódico toc toc do salto da mulher, pois um carpete preto cobria todo o chão do corredor, assim como o dos quartos. Continuaram andando até chegar ao fim, onde se encontra uma porta fechada que se destaca das outras pelo seu tom escuro.
A mulher que seguia logo a frente nem mesmo bateu na porta, abriu-a e revelou-se na cama um homem deitado relaxadamente, recebendo uma cobiçada massagem: a massagem tântrica. Feita por uma mulher seminua de luva descartáveis e lubrificadas com o óleo antes passado no corpo do cliente.
A massagem estava tomando o rumo de seu terceiro nível, chamado Lingam a qual é focada e intensificada no pênis, onde comumente o homem experimenta orgasmos múltiplos sem declínio do prazer.
Christopher – mal o homem, Daniel, chama e já vem à sua mente: “O que será que essas mães pensam em por nomes norte-americanos em filhos latinos? Brasileiros...”.
– Agora não, Daniel... Estou no meio de uma coisa ótima. – e realmente, para ele, estava, pois chegara ao auge de sua excitação com o simples iniciar da Lingam Massagem.
A mulher entrou no quarto puxando Daniel pelo musculoso braço e apalpando-o levemente com suas macias mãos. Fechou a porta e recostou-se na janela para fumar, mas não tinha isqueiro, então voltou-se a Daniel e, com o cigarro em sua boca, abaixou-se como se pusesse a fazer oral e pôs o início de seus dedos dentro de sua preta calça Jeans Skinny. Uma calça pouco justa, pois ainda caia um pouco propositalmente para mostrar sua branca cueca box.
Trocaram olhares fixos e ele a serviu com fogo vindo de seu tão clichê isqueiro. E, bem como parecia, ela apenas o manipulou, se levantou e fumou à janela. O cheiro de maconha tomou conta do quarto, mas dessa vez o cheiro era notável, pois o que mais se vende na casa noturna é maconha.
– Sasha! – exclamou, Christopher. – Como diabos você consegue enrolar perfeitamente a maconha em papel de cigarro? – seu tom de voz estava completamente mudado, o prazer tomava conta de si. Sasha o ignorou puxando uma grande quantidade e apagou sua maconha, esmagando contra o parapeito da janela. Não expeliu a fumaça, apenas fitou os olhos de Daniel como se fosse seu brinquedinho sexual e foi até ele, para nele soltar a fumaça.
Enquanto a fumaça ainda pairava sobre o ar sem se dissipar, Daniel agarrou-lhe a cintura, Sasha se surpreendeu, mas não demonstrou, apenas conduziu-o em um ritmo de rebolado. As mãos de Daniel iam conforme a cintura se movia, pouco a pouco ele começou também a seguir seu ritmo.
Trocaram olhares fixos, inexpressivos, mas que por algum motivo, talvez por serem iguais, ambos se entendiam pelo olhar, a sutil mudança do respirar, o intervalo entre sorrisos maroto. Cada tempo, cada mudança, cada ato sutil acrescentava para o entendimento do pensamento do outro. Sasha era mais difícil de se entender, mas parecia fazer de propósito, atraindo assim a atenção do galã agarrado à sua cintura.
– Tão hot! – Daniel murmurou levemente no ouvido de Sasha, fazendo a ela pequenas cócegas, pois seus lábios de leve encostavam em sua sensível e pequenina orelha. “Um ponto fraco “, pensou Daniel ao perceber um leve suspiro que chegou ao seu ouvido.
A dança das serpentes teve seu início, duas víboras. Belas e sedutoras, tal qual uma sereia que atrai um homem para o melhor sexo do mundo, mas o desilude, deixando-o morrer afogado, no fundo do mar.
O que se pode esperar de duas serpentes se seduzindo, esperando uma pisar no território mortal da outra, para só então picá-la. A certeza fará o destino: o possuidor do mais potente veneno vencerá, mas qual dentre os dois o possui?
– Como vai seu pai? – perguntou, Daniel, arriscando em um ataque feroz e perigoso.
– Em algum canto por ai trepando com uma puta qualquer da Night Deluxe – retrucou, Sasha. Ela realmente tocou com a unha na ferida de Daniel, pois sua mãe, quando ainda viva, ganhava a vida na casa de prostituição citada.
– Ele não deve estar tão satisfeito, minha mãe não está lá. – apesar de sua resposta bem-humorada, sem cair do salto, um pensamento alfinetou-o: “O que mais Christopher conta sobre minha vida? Aposto que ela já sabe de quando tive meu primeiro furúnculo”.
– Crianças, não... – Christopher tentou dizer “Crianças, não briguem.”, mas o êxtase não lhe permitiu completar a frase. Era a sua primeira vez com a Lingam Massagem, ficou perdido no prazer de uma forma nunca antes experimentada por ele. Se dando conta de que não conseguiria dizer nada sem a vontade de gemer cortar suas frases (e ele realmente não queria gemer daquela forma, em público), simplesmente desistiu de falar.
Apesar da ‘sutil’ troca de ofensas, a dança continuou, porém, sexy. O ritmo do rebolado mudou, tornou-se leve, devagar e com pequenas decidas e subidas.
– Já chega disso! – exclamou, Daniel. Estava excitado com a dança, podia sentir a inexistência de uso da calcinha com a ponta de seus dedos, ou talvez era apenas fio dental mesmo. O toque leve e apalpador de Sasha o dava pensamentos promíscuos dos quais amava, mas negar isso era um de seus caprichos. Bancar o macho-alfa e depois, às vezes tímido ou manipulado, uma de suas táticas que realmente davam certo. Um leão domável, uma serpente carinhosa... um fetiche que muitas mulheres o tem.
Ninguém o deu ouvidos, exceto Sasha, que deslizou suas mãos pelos longos braços de Daniel até as suas mãos, agarrou em seu pulso e puxou sua mão para mais em baixo: suas coxas. Finalmente, uma expressão ocular que não fosse apenas o mistério: olhava para Daniel como se o desejasse com todo o ardor de seus 23 anos. Ouso até repetir a palavra finalmente para dizer-lhe que seus olhos pareciam brilhar ao contemplar com majestosidade os olhos de Daniel, que agora estava um pouco abaixado, à sua altura.
– Chega! – Daniel gritou, dessa vez utilizou de um tom rude no qual fez Sasha desmanchar aquele show de manipulação. E ela estava conseguindo... Já não rebolava, já não fingia olhares falsos, já não tinha as mãos de Daniel em seu corpo, nem mesmo os olhos, pois este olhava para Christopher.
– Não precisa se estressar. – curiosamente, Christopher terminou sua frase sem voz alterada.
– Você tem ou não o meu dinheiro? – indagou, Daniel, estressado.
– Ei ei! Eu ainda estou no prazo. – de repente a massagem parou e a mulher se retirou do quarto.
– Olha ai... espantou ela! –
– Seu prazo termina em 30 minutos. Só mais 30 minutos e você estará fora do prazo! – o tom de estresse se dissipou, Daniel voltou a seu estado normal, inexpressivo.
– Meu rapaz! Ainda não são 00:00 correto? Ainda tenho 30 minutos. – Christopher comentou, de maneira arrogante.
– Tic tac. Tic Tac. – cantarolou em assobios baixos, Sasha. Mas todos a escutaram. Aquilo para ela era só mais uma brincadeira feita pelos seus fantoches, pois para ela – ao menos quando bêbada ou drogada – todos são seus fantoches.
O silêncio dominou o quarto. Durante infinitos 20 segundos a agonia reinou.
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