A dança das víboras
2 Sasha
– E então? Você tem ou não o dinheiro dele? – Sasha não só rompeu o silêncio como plantou a discórdia com a pergunta do século. Mas a discórdia não foi a única coisa que fora plantada, pois um sorriso sádico brotou em seu rosto.
Daniel lançou um olhar glacial em Christopher, e Sasha admirou a cena tal qual uma telespectadora se delicia no novo episódio da série de sua vida.
É claro, ela não podia perder a oportunidade de quebrar novamente o silêncio.
– E então? – sua boca ficou entreaberta como se fosse falar mais, porém achou desnecessário. Foi realmente mais impactante dizer apenas duas palavras.
– Cala a boca sua vadia estúpida! – podia-se notar um pouco de raiva nessa frase dita, ou melhor: gritada por Christopher. Ele, branco como um danone, estava corado.
O xingamento fez Daniel olhar para Sasha com um olhar de dó e a viu cabisbaixa, com o rosto amolecido; presságio de lágrimas femininas...
– Não grite com ela, seu babaca! Ela não tem culpa se você é um completo inútil. – Daniel estava estressado, as veias do seu pescoço se amostravam enquanto gritava com um tom firme e imperativo.
“Tão fácil de se manipular...” pensou, Sasha, que logo em seguida se retirou do quarto, batendo a porta. Retirou o salto assim que saiu e os levou em sua mão, andando descalça.
– Quando eu voltar, eu quero que esteja com meu dinheiro. – ordenou, Daniel.
– Mas eu não consegui vender tudo. – seu tom de voz declinou ao assustado.
– Eu lhe disse, as 300 gramas ou nada. Não vou deixar que um bostinha como você me ferre com o pessoal. – mal termina de falar e já sai do quarto, batendo a porta com força.
– Quebra tudo, infeliz! – gritou, Christopher.
– Apenas a sua cara! – retrucou.
Daniel se apressou para alcançar Sasha, onde quer que ela tenha se metido. Mas mal chegou ao último quarto do corredor e a viu desnudada na cama... suas pernas e seu braços abraçavam o edredom enquanto estes cobriam seus seios e genitais. Toda a sua maquiagem estava borrada e o seu olhar era fixo como quando viu Daniel pela primeira vez.
– A cama está tão macia, mas tão fria... – passou a mão direita pelo rosto e desceu pela testa e nariz até seus lábios, com seu dedo indicador, e o mordeu levemente, mantendo seu olhar.
De uma maneira esquisita, era sexy a maquiagem borrada de Sasha.
– Você vai realmente ficar ai, parado, estupefato? – repentinamente todo o teatro se desfez com a voz firme e séria de Sasha.
– Sabe... você merece um oscar. Não! Dois óscares. Um de manipulação e outro de drama. – Daniel comentou rindo suavemente.
– Acho que mereço um Óscar por merecer dois óscares. – respondeu Sasha, recusando-se a descer do salto.
– Mas você não me engana, jogou verde. Não está nua à toa! – insinuou e em seguida sorriu.
– Seu sorriso me enoja. E sim! Joguei verde... vai que cola. – e pela primeira vez naquela noite, Sasha riu com sinceridade, mas não de uma piada e sim da situação.
Estava abraçada no edredom como se tivesse vergonha de ser pega nua, mas era apenas charme. Largou de lado o edredom e se levantou, vestindo cuidadosamente suas roupas, mas deixou de lado o salto.
– Christopher está fugindo. – ela realmente adora uma discórdia, um descaso. Christopher estava passando silencioso e escondido por detrás de Daniel para poder escapar de sua dívida, mas Sasha o delatou e este quase correu, mas recebeu um soco certeiro que o fez desmaiar na hora. Pelo jeito havia ali uma óbvia diferença de força entre o musculoso e o torneado.
Daniel arrastou Christopher pelos pés de volta ao quarto dele – este já estava vestido –. Ao colocá-lo em sua cama, caiu do bolso de sua calça jeans reta, sua carteira e seu celular, o celular do ano. Daniel então resolveu pegar um pequeno adiantamento e também garantias de que receberia o resto, pois a identidade estava na carteira. O celular foi outra garantia.
– Bom... agora você tem dinheiro. Venha, me pague um drink! – francamente é impossível o jeito de Sasha mudar, não se dá para saber se ela é desse jeito ou se faz. Talvez seja só uma garotinha assustada e com medo do mundo que criou uma muralha em volta dos seus sentimentos para se proteger. Talvez seja uma vadia por natureza, ou apenas sabe o poder que lhe é dado pelo o que há entre as suas pernas.
– Que tal você calar a boca e eu te pagar um Martini?
– Martini? Acho que você está se enganando ao achar que bebo uma frescura dessas... venha, vamos ao bar. – disse se virando, descalça, a caminho da escada, da multidão e só então do bar.
Alexandre, o barman, branco alto e forte, de cabelo castanho escuro e olhos esverdeados, logo atendeu a Daniel, mesmo tendo sido Sasha que o chamou primeiro.
“Mas que merda é essa?”, pensou Sasha, indignada.
– Quero uma mistura com vodca, qualquer suco que tenha ai e uma dose aleatória de qualquer licor. E claro... – Daniel parou e completou, sussurrando: – não se esqueça da balinha. –.
O barman tratou logo de preparar, bateu a vodca e o licor juntos, não se limitou a uma dose, ignorou o pedido do cliente. Pôs a balinha no fundo da taça e encheu até a metade com a batida. Para terminar acrescentou leite condensado por cima com raspas de limão.
“Mas que merda de bar é esse que tem tudo isso? Isso é uma confeitaria?” pensou Sasha, esta pelo jeito não foi muito com a cara do barman. “Gay. Só pode ser gay!” era o que pensava.
Provavelmente Daniel e o barman já se conheciam, pois este ignorou a forma como foi pedido a bebida.
– Está ai, donzela. O drink está do jeito macho que você gosta!
Isso foi uma crueldade com Sasha, uma vez que ele já tinha entendido o que ela curtia, mas ele quis testar os limites dela.
Mal Daniel pisca e a metade da taça já havia sido tomada em um único gole. Doeu até em mim, um pobre narrador. Ela então, para provocar mais ainda, passa seu dedo no drink e depois nos lábios de Daniel, e o chupa delicadamente até não restar mais nada. Isso chamou sua atenção para ela ao extremo. Ele sabia que ela não tinha gostado da bebida, mas mesmo assim ela até mesmo fez um apelo sexy.
– Fucking bitch!
Daniel começou a usar palavras em inglês como gíria em torno de seus treze anos e, aos dezesseis, sua mãe o levou ao psicólogo para entende-lo melhor.
Sasha se movia estranhamente, parecia seguir o ritmo da música que mal continha letra, em suma eram batidas graves e isso faz com que seu coração acelere e a faça dançar. Não tardou e Daniel já estava retirando sua jaqueta e – sem querer – tacando-a longe, distraído, pensando tratar-se da blusa. Mas já era tarde demais.
Para ele, era sexy a Sasha dançando conforme suas roupas permitiam, criava fantasias em sua mente. Só agora, notando ela de perto, dançando, ele reparou que ela esqueceu de pôr o sutiã, ou provavelmente resolveu não o pôr, mas quase não se podia notar, eram firmes.
O barman apenas olhava os dois dançando, até que Daniel resolveu tomar o gole restante da taça. Seus olhares se cruzaram e o barman desviou, fingindo ter apenas olhado de relance, mas, Daniel sendo como é, continuou olhando fixamente com um sorriso maroto estampado em seu rosto; ele estava imóvel.
Um assobio salvou o barman de ficar corado, na outra ponta do grande balcão um grupo de pessoas pediam bebidas pura, mas Daniel o seguiu com o olhar, para a infelicidade do pobre homem que cometeu o maior erro de sua vida: admirar um convencido.
Daniel suspirou e voltou à sua dança, olhando para Sasha, mas seu olhar atravessava o ombro dela e atingia o barman. Coitado, não podia ficar mais tímido com o sorriso entreaberto e sedutor de Daniel, seu rosto corou de leve, era branco. A pele do barman de longe parece macia e nem um pouco pálida como a de muitos.
De quando em quando Sasha e Daniel se serviam com batidas escolhidas aleatoriamente por eles próprios. 4 horas da manhã e a casa noturna estava prestes a fechar as portas. Durante toda a madrugada eles quase não saíram de perto do balcão do barman, nem mesmo para pegação aleatória com os que mais seduziam. O ritmo da música já estava mais desacelerado e o efeito das drogas já estavam amenizados em quem usou no início.
O barman, de repente, trocou de roupa e fora flagrado por Daniel enquanto pegava a mochila debaixo do balcão para ir para casa. E como se flagrasse algo feito às escuras, ele chegou perto do barman e perguntou.
– Aonde pensa que está indo? – soltou um sorriso, mas o barman apenas o olhou de leve. Não o respondeu. – Qual o seu nome? – novamente não obteve resposta.
– Hum... estou gostando de ver. Hoje terá Ménage à trois? – comentou Sasha, humorada.
O silêncio entre os três reinou. Daniel olhava fixamente para o barman, não com o olhar de quem quer agredir, mas sim com de quem quer experimentar do mel dos deliciosos lábios alheio. E o barman procurava canto para desviar o olhar. Sasha olhava como quem não entendia nada. Nesse ponto ela é ingênua por não perceber o que está debaixo de seu nariz, não depois de toda aquela dança e jogo de manipulação.
– Sasha, que tal você ir buscar seu sutiã lá em cima? Eu adoraria um presentinho para me masturbar em algum canto na ida pra casa. – falou como se fosse a coisa mais normal do mundo a se dizer para uma mulher. Daniel realmente não tinha jeito com romantismo, poderia ter dito algo como pensar nela durante a ida para a casa...
Deve ter sido a bebida ou a balinha, mas Sasha obedeceu e foi buscar seu sutiã no quarto.
– E então... finalmente sós. Para onde vamos?
O barman já estava acumulando estresse, pois estava cansado e com sono, não bastando também tinha arrependimento de ter encarado o boy da balada.
– Me deixa em paz.
Ele se virou e saiu por uma porta de funcionários, mas assim que atravessou a porta, Daniel pulou o balcão e rapidamente passou pela porta também. Era um pequeno beco. Daniel apenas o seguiu, observando ele.
Sasha, por outro lado, havia demorado a subir as escadas e muito demorou descer, teve muito cuidado para não cair devido ao seu estado. Quando enfim conseguiu retornar ao balcão já quase não havia mais pessoas na casa noturna, ela apenas se sentou no chão e suspirou. A sua carona para casa dormia feito uma cinderela no quarto.
– Bom... alguém tem que acordar ele. Eu é que não durmo nesse lugar! – disse para si mesma.
Andou lentamente, mas tentava manter a postura, praticamente subiu as escadas engatinhando. Chegando à porta do quarto, deparou-se com Christopher procurando loucamente sua carteira e seu celular.
– Daniel levou como garantia. – não havia voz seca, olhar inexpressivo ou indiferença. Era a voz de uma pessoa relaxada e calma. Vulnerável.
Christopher não respondeu, preferiu guardar para si a raiva, pois não queria berrar aos quatro ventos palavras que de nada mudariam o fato dele ter perdido seu celular de última geração e seus documentos.
– Venha. Você vai me levar para casa. – Sasha falava um pouco ofegante, estava morta de sono, se aguentando. Caminhava quase se tacando ao chão para engatinhar. Drama ou realidade? Christopher apostou no drama e simplesmente a puxou pela mão e a levou até a saída.
Havia logo na esquina, um carro baixo, espaçoso e de vidro fumê. O carro de Christopher era o de trás, um Citröen Saxo cinza. Foi um sufoco para Sasha conseguir ir para o banco de trás, uma vez que ela estava embriagada e o carro só possui duas portas.
A alguns quilômetros daquele lugar, em uma rua fictícia chamada Olário da penha, uma rua de ladrilho e variada com casas que possuem muros ou cercas, residia Sasha. Sua casa era no segundo andar da primeira casa da rua. Em frente à casa havia um pequeno jardim envolto de uma cerca e complementado com dois pés de coco rodeados de pequenas margaridas em vasos. Uma obra de sua falecida mãe que Sasha sempre manteve.
Ela não permite a visita de ninguém em sua casa, senão, é claro amizades intimas de antes do falecimento, o que ocorreu quando ainda tinha dezessete anos.
Christopher praticamente teve que carrega-la nos braços e pô-la dentro de sua casa, na cama. Pois esta dormia de uma forma tão angelical como todo capetinha.
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