A cova dos Hipogrifos
9 Mamães grifos são carinhosas. . . - Stevie
Notas iniciais
Depois de tomar banho e deitar na cama não consegui pregar os olhos, ficava pensando onde aquele havia sido “levado” e se Sonic tinha ido para o mesmo lugar. Resolvi sair e dar uma volta pra refrescar a cuca, então troquei meu pijama (calça de moletom e regata) e coloquei uma roupa social (polo, jeans e All star). Desci as escadas e cheguei ao saguão de entrada, que estava aceso.
–Humm. . . – comecei uma pergunta, mas a moça do balcão levantou a cabeça e bufou.
–Fica aberto até às quatro da manhã!
–Ui, tá bravinha é? – sai de lá antes que ela jogasse a revista de moda em mim. Comecei a caminhar pela calçada distraída enquanto pesava por cima das rachaduras. Pensava em quantos dias levaria até libertar os grifos e hipogrifos segundo a profecia inútil que eu havia recebido. Também pensava em com faríamos isso até eu esbarrar em alguma coisa e cair no chão sentada.
–Ai! – exclamei esfregando minha cabeça que latejou quando bati no chão.
–Stevie? – essa voz me era familiar, sabia o meu nome e estava ajudando a me levantar.
–Dean? – eu segurava sua mão e não pretendia solta-la até que a vergonha chegasse – cara, o que você está fazendo aqui á essa hora?
–O que VOCÊ está fazendo aqui? E respondendo sua pergunta, eu vim dar uma volta porque estava sem sono e encontrei uma coisa muito importante.
Coisa importante? Bem, eu gostava de coisas importantes, aliás, eu era e sou uma.
–O que? – perguntei com uma curiosidade incrível até para mim e percebi que ainda segurava a mão de Dean e a soltei sentindo meu rosto enrubescer.
–Acho que encontrei Sonic – nesse momento meus olhos se arregalaram de um jeito impossível e eu não sabia o que sentia se era angústia, alivio ou um misto de saudade, dor e agradecimento.
–CUMÉ QUE É? – eu não queria ser grossa mas olhei atrás de Dean ficando já ponta do pé e então puxei ele pela gola da camisa e nossos rostos perigosamente perto um do outro – cadê o bicho?
–Bateu asas e voou – ele respondeu não sendo uma pergunta, mas com uma pitadinha fofa dela. Eu o empurrei de um jeito grosso que saiu sem querer.
–Você o espantou? – eu fervia de raiva e meu pescoço e nuca também.
–N-não foi minha culpa – podia sentir medo em sua voz, vai saber porque – eu não disse nada, não fiz nada e ele fugiu assustado – “assustado como você está agora?” tive vontade de dizer por causa da raiva, mas o meu medo de perder Sonic venceu e cai sentada (de novo) e comecei a chorar baixo com o rosto enfiado nas mãos.
–Meus deuses – senti Dean se sentar ao meu lado – Stevie, vai ficar tudo bem, a gente vai encontrar o Sonic e voltar para o acampamento, provavelmente com algum membro faltando, mas vamos voltar.
Eu não segurei e ri, levantei a cabeça e olhei para ele.
–Você é péssimo para dar conselhos.
–Obrigado, eu sei – ele ficava tão fofo tentando me consolar que tive que dar um beijo em sua bochecha. Ele corou e provavelmente eu tambem.
–Vamos voltar pro hotel porque tá meio estranho ficar sentado na calçada – me levantei e o puxei junto. Não sabia o porquê, mas ele parecia estar paralisado e murmurava algo que eu não conseguia entender.
Voltamos para o hotel enquanto falávamos sobre coisas idiotas, e assim que pulei na cama do meu quarto cai dura.
* * *
No dia seguinte não foi tão difícil acordar, principalmente por causa do cheiro de bacon. Pulei da cama, tomei o banho, escovei os dentes e coloquei uma roupa confortável, tipo tênis de corrida, bermuda legging e camisa do acampamento por debaixo de uma blusa de Harvard (ganhei do meu tio, já que quando não estava no acampamento ficava morando com ele) eu sai do quarto, dei bom dia para Dean e Thomas (Dean: jaqueta cinza com capuz, jeans e All star. Thomas: camisa nova do “abrace o mundo”, moletom, tênis e boné para esconder os chifres) e descemos juntos para o refeitório do hotel que não estava cheio, apenas duas famílias com crianças e um grupo de idosas jogando pôquer. Fui até a mesa e peguei bacon, um pão e suco de laranja, me sentei na mesa mais longe possível das idosas do pôquer, porque elas . Berravam. Muito. A cada. Jogada , então fiquei duas mesas á esquerda de um casal com um bebe muito fofinho. Dean e Thomas se sentaram comigo.
–Já pensou o que vamos fazer? – perguntou para mim o sátiro, que comia devagar um queijo quente.
–Sei lá – respondi – talvez. . . Alguma floresta. Tem uma floresta perto daqui?
–Humm – disse Dean engolindo um pedaço de panqueca – tem o River Park, quer dizer, não é exatamente o River Park, eu acho, mas tem um baita matagal lá por perto.
–Ah – falei e mordi um pedaço de bacon – é muito longe? Quer dizer do parque Van Nest?
–Mais ou menos – Thomas finalizou o lanche – estamos na White Plains Rd, podemos pegar um taxi até estação ferroviária não muito longe daqui e ir até – ele correu o dedo pelo mapa que havia retirado do bolso da calça – E 180 ST, a estação mais próxima do parque – ele guardou o mapa de volta – dai podemos seguir a pé.
–Thomas, Dean – falei empurrando meu prato porque tinha terminado de comer – vocês são uns gênios.
* * *
Assim que pegamos nossas mochilas nos quartos e pagamos pela noite no hotel fomos de taxi até a ferroviária e compramos as passagens para E 180 ST, enquanto esperávamos o trem nos sentamos em um banco, tirei a blusa porque estava no mínimo um 25° ali (sim, eu sou calorenta) e assistimos ao jogo dos Yankees X Giants na televisão embutida no bar ao lado.
–Os Giants vencem – falei enquanto assistíamos. Dean e Thomas discordaram com a cabeça. No final do jogo os Giants ganharam e o trem chegou. Entramos nele e eu me sentei ao lado de Dean, com Thomas a nossa frente. Ficamos quietos só discutindo o seguinte:
Thomas: não foi justo.
Eu: o que?
Dean: o jogo.
Eu: porque não foi justo?
Thomas: aquele juiz estava de trapaça.
Eu: não estava não!
Dean: estava sim.
Eu: olha, os Giants venceram e ponto!
Zé desconhecido: exatamente!
Encerramos a conversa com isso. Depois do que me pareceu uma vida sentada ao lado de Dean, chegamos a estação E 180 ST e descemos do trem o mais rápido possível (nem queira saber porque). Começamos a andar pela calçada e quando pensei que minhas pernas virariam gelatina Thomas parou em frente a uma entrada que dava entre duas massas densas de arvores. A entrada estava aberta.
–Será que é proibido? – Dean e suas perguntas idiotas e fofas.
–Quem se importa? – disse e comecei a entrar pelo portão, mas serio, o portão estava aberto sem nenhum segurança, é claro que podia entrar, e se não pudesse, to nem aí.
–Stevie. . . — Dean foi cortado quando Thomas veio atrás de mim -. . . Então tá né.
Andamos pela trilha até o primeiro guincho que ouvi a minha esquerda. Corri para o meio do mato.
–Stevie – gritou Thomas muito atrás de mim – você está louca?
–Meu bem – respondi ainda correndo – eu SOU louca.
Corri mais um pouco e encontrei um ninho. Parei de repente e Dean tombou comigo por trás quase me fazendo cair de cara. Bati no peito dele.
–Será. . . – disse Thomas vindo atrás de nos e se curvando com as mãos nos joelhos respirando ofegante – que vocês. . . poderiam ir mais devagar.
–Cara – coloquei as mãos na cintura – que tipo de sátiro é você?
Ele apontou pra mim com uma das mãos ainda no joelho e sem tirar os olhos do chão.
–Do tipo bem velho.
–Cara – Dean me cutucou e eu virei. No ninho, que era maior que duas picapes e com varias coisas tipo lixo picado e palha, um bebê de grifo estava sentado olhando pra gente e de bico aberto tipo: AAAH pessoas, to pasmo gentche. Ele era do tamanho de um potro e tinha as penas/pelos marrons terra, a cauda de leão balançava para os lados – Oh Oh.
O pequeno grifo guinchou baixinho e eu recuei devagar.
–Shhhh – falei colocando o indicador nos lábios. Ele guinchou um pouco mais alto e houve movimentação a minha direita.
–Cala a boca caramba – disse Dean e o Grifinho ficou quieto. Sorri e enxuguei a testa, por um segundo achei que o Grifinho ia berrar chamando a mamãe ou o papai grifo. Depois de alguns minutos só nos olhando, a mamãe grifo apareceu atrás do bebê e soltou um guincho ameaçador. Quando pensei que aquele seria meu fim, mas o bebê soltou outro guincho baixinho que fez a mamãe olhar para nos de um jeito meio que acolhedor.
–Ownt – falei – que fofa.
Dean me olhou como se eu tivesse explodido.
–Que foi? – perguntei – tá me estranhando?
–Sim – ele disse – eu to.
Percebi Thomas pegar do bolso uma caderneta e um lápis depois rabiscou alguma coisa.
–Oque você está fazendo? – me virei devagar enquanto fazia a pergunta, para não assustar a mamãe grifo.
–Anotando – ele guardou de volta – o numero de grifos/hipogrifos que vamos achar até o covil, até agora foram três.
–Quatro – corrigiu Dean – eu encontrei um Hipogrifo ontem à noite.
Uma dor aguda invadiu meu peito e tive de me segurar para as lagrimas não rolarem. Cerrei os punhos o máximo possível para tentar esquecer que esse hipogrifo tinha uma enorme possibilidade de ser Sonic.
–Stevie – Thomas chamou.
–Tudo bem – me virei para os grifos e eles haviam sumido – Onde. . .
–Eles saíram – Dean jogou uma bolinha para o alto, uma bolinha bem pequenina que parecia com um microchip — mas não vão ficar longe de vista.
Tive vontade de abraçar ele, mas no máximo sorri e disse:
–Você é mais gênio ainda.
–Obrigado – ele guardou o microchip – as vantagens de ser filho de Atena.
–Engraçadinho.
Thomas me puxou pelo braço e me entregou a caderneta que estava mais ou menos assim:
BRONX = 3 grifos e 1 hipogrifo
–Quanto mais grifos/hipogrifos encontrarmos pelo caminho mais estamos pelo caminho certo – ele disse guardando de novo a caderneta.
–Tá – falei e comecei voltar pelo caminho que havíamos vindo – então vamos. . . – fui interrompida por um guincho muito alto vindo do outro lado do ninho. Olhei pra Dean e ele murmurou um: Ah não. Corri em direção ao som pulando tudo pelo caminho, e assim que cheguei vi o bebê grifo de antes em uma tentativa fracassada de voar.
–Ah não – me virei pra Dean que vinha ofegando – onde esta a mãe dele?
Dean pegou o celular (sim, atrai monstros, mas que se dane) e clicou em algumas coisas depois balançou a cabeça negativamente.
–Só mostra dois pontinhos vermelhos, um do lado do outro sem se moverem, um desses é o bebê então. . .
Fui ao lado do Grifinho tomando cuidado pra ele não me acertar com as garras e encontrei um microchip no chão, o peguei e depois pisei em cima.
–Apagou – disse Dean guardando o celular. Olhei para o bebe que se pudesse com certeza estaria chorando, porque ele berrava sem parar chamando a mãe, até que ele se cansou e deitou no chão escondendo o bico entre as patas de leão. Me ajoelhei ao lado do bichinho e acariciei sua cabeça, depois de um tempo ele a colocou em meu colo.
–Ele vai junto – falei de repente.
–O que? – Thomas falou – Stevie, ele não pode ir junto ele. . .
–Ele vai morrer se o deixarmos aqui – completei – o menino – Grifinho guinchou – menina, está sem mãe, sem pai, e nos vamos ter que ir atrás desses dois de um jeito ou de outro, não vou deixar Emily aqui sozinha passando fome!
–Emily? – foi a única coisa que Dean disse, e claro, ajudou muito.
–Foi o nome que escolhi pra ela – esnobei um pouco o tom de voz.
–Tá – disse Thomas por fim – ela vai junto, mas está por sua conta.
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