As ruas eram silenciosas, a noite estava escura e o vento frio espalhava seus longos cabelos escuros , ela alisava sua clavícula e encarava o céu enquanto o motorista lhe encarava as vezes pelo retrovisor, a estrada até a colina era muito longa os raios ainda pintavam o céu e minúsculos flocos de neve caiam vagarosamente. A floresta era densa e as arvores aparentavam mais peso que o comum, podia ouvir o som do oceano de longe a maior parte da cidade era rodeada pelo mar de sangue -nome dado pelos pescadores -Ali pessoas iam viajar e apenas seus corpos eram trazidos pela maré, foi sustentando mito dos monstros dos mares. Ela fechou os olhos e lembrou do caminho que ia para casa naquela terça feira, caia uma garoa fina e fria e ela pulava as poças de lama vivia em uma mansão de tijolos negros, com uma grande biblioteca onde ela roubava um dos livros e corria para o quarto, foi uma criança pequena de bochechas rosadas, com pequenas pernas finas e cabelos cacheados voando ao vento enquanto corria pelos corredores gigantes. Mas ao entrar em casa naquele dia ela não sorriu, ela não correu para roubar um dos livros, ela não ate a cozinha pegar biscoitos muito menos se esconder debaixo dos lençóis do seu quarto ou provar os vestidos da sua mãe, naquele dia ela se escondeu debaixo da mesa por ordens da mãe e chorou baixinho de olhos fechados e ouvidos tapadas enquanto as lagrimas escorriam pelo pequeno rostinho de criança. Já havia acontecido a anos, más ela não conseguia esquecer, com dezesseis anos agora a justiça encontrou sua tia, não era uma legitima Chimrey era uma tia de sua mãe más pelo menos era parte do seu sangue. Ela sentiu o carro parar e seu motor rugindo antes de desliga-lo.
Ela abriu os olhos e se deparou com uma mansão imensa, toda feita de madeira negra, o chão coberto pela neve, ela saiu do carro e observou ao redor podia ouvir o barulho do oceano e a floresta mais escura que o normal, já era madrugada, os raios eram mais fortes la de cima e davam a neve uma cor mais prateada o chão macio, gelado e fofo. Ela afundou as botas e sentia a neve passar pelos seus dedos como se estivesse entrando no seu corpo e congelando sua alma.
—A senhora Fitterson a espera na sala!-o homem falou e indicou a porta da casa com o dedo.
Ela foi andando observando o local, o vento forte esfriando seu rosto e a neve caindo sobre o cabelo, ela achou que perderia o nariz de tão gelado que estava. Usava um casaco felpudo branco mas mesmo assim sentia frio, as luvas não lhe eram suficiente, suas unhas já estavam roxas e os lábios em um vermelho intenso. Ela abriu a porta da mansão com um ruído, velas penduradas nas paredes por todos os lados, os moveis pareciam podres, e a cada passo que dava o chão rangia de uma forma estranha. Havia três poltronas, uma lareira apagada e duas longas escadas que levavam para cima, a sua direita havia uma port escancarada e a sua esquerda uma porta trancada, havia uma estante de livros velhos e fedidos cobertos por teias de aranha. Um pouco mais distante da porta por onde ela entrou havia uma mesinha com um espelho manchado ela deu mais passo más seu estomago apertou a cada ranger do som e assobios do vento.
—Sente-se querida e tome um chá!-ela ouviu uma voz dizer e se virou completamente assustada.
Uma senhora estava sentada na terceira poltrona a direita, ela segurava uma xícara, usava um vestido longo que deixava seu traseiro grande e um espartilho que modelava toda sua cintura, a coluna reta se comportava como uma rainha. Os cabelos grisalhos, a pele alva e os olhos cor de âmbar,a boca com poucas rugas não era muito velha como ela imaginou.
—Sente-se criança!-ela exclamou com um riso.
Keyra sentou-se na primeira poltrona e a mulher gritou:
—Esta ai não!
Ela se levantou rapidamente assustada.
—você não o vê ai?-A tia perguntou.
Ela olhou para a poltrona e notou um homem já velho e despencando para o lado, os dois olhos fechados e os cabelos brancos parecia um bêbado morto ou morrendo.
—Peço desculpas!-ela sussurrou e ficou em pé com a cabeça baixa.
—Sente aqui!-A tia apontou para a poltrona do meio, ela se sentou, mas a poltrona era tão desconfortável que ela preferiu ficar em pé, a tia lhe deu uma xícara de chá que fedia a sangue podre, ela hesitou, mas a tia tinha olhos tão firmes, tão firmes que ela bebeu tudo de uma vez.
—Sinto muito por seu pai!-ela exclamou e continuou -Era um bom homem!
—Sim!-Keyra confirmou com a cabeça -Todos morreram, a minha mãe, minha babá, meu pai, tio Clint!
—Ah -a tia exclamou com um pouco de nojo -Sua mãe, você se parecesse muito com ela!
—A senhora já a viu antes?-Keyra perguntou se sentindo animada.
—Sim, ela já morou aqui, há um tempo!-A tia exclamou arqueando a sobrancelha, engolindo o chá e se levantou da poltrona -Vou lhe mostrar seu quarto!
A tia subiu as escadas e Keyra a acompanhou em silencio.
Era um grande corredor, cheio de velas, e mesmo assim escuro, haviam dez quartos e o seu era o ultimo.
—Você não tem permissão para entrar em outro quarto além do seu!-A tia exclamou, só saia do seu quarto quando for comer, suas roupas, banheiro e o que precisar estará tudo aqui dentro, pode ir a cidade quando eu der a ordem e mesmo assim deve voltar antes do anoitecer, não abra as janelas a noite, tem muitos lobos ao redor e eles costumam caçar!
Ela abriu a porta do quarto, Keyra se lembrou do seu quarto, tinha vários brinquedos uma cama grande e macia uma enorme janela e cortinas bejes, mas esse era totalmente o oposto era frio, havia uma cama quebrada e um criado ao lado, o guarda-roupa era sujo, suas malas já estavam lá dentro, com toda certeza seus criados deviam ser eficientes e ela não os deixava limpar nada. O chão tinha buracos estranhos e também rangiam.
—Agora durma, deve estar cansada!-A tia a empurrou para dentro do quarto, saiu e bateu a porta.
Ela olhou a paisagem pela janela, conseguia ver o comercio da cidade, os raios de sol já se formavam no horizonte, os trabalhadores já montavam suas barracas, o mar já se tornava mais claro, os corvos voltavam para a floresta.
E não tão distante, um lobo uivou.
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