A casa mais alta da rua
3 Sala de Visita
Notas iniciais
A sala de visita se encontra no andar térreo, por meio dela é que você se conecta com as partes principais da casa. E assim que você entra precisa se certificar de fechar bem a porta atrás de si, os ventos no lado de fora fazem aquele barulho uivante dos filmes de terror junto a um corrente de ar gelada. É horrível, mas depois de uns anos acredito que seja possível acostumar, até mesmo se por algum motivo você acordar de repente de madrugada escutando esse som.
Nesse ambiente geralmente se acontece alguma coisa é raro que eu esteja presente. Já ouvi dizer que quando vem um povo fazer reza, benzer, essas coisas, acontece de alguma pessoa presente fica possuída, não que ela vire ali de repente uma Regan MacNeil caçando as estatuetas da Virgem Maria para jogar no chão ou imitar lá a igreja universal. Como nunca vi pessoalmente acho que prefiro nem comentar muito sobre o que realmente acontece, mas a princípio é isso mesmo, o indivíduo fica alterado.
Tirando isso, o que eu consigo testemunhar e em particular nunca vi nada demais, é a frequente aparição de grandes mariposas pretas nesse cômodo. Se não ficam na divisa com a garagem, é perto da escada externa próxima dali, mas normalmente ficam dentro da sala. Essas mariposas quando aparecem se tornam motivo de brigas.
Como já comentei antes sobre meu pai e suas crenças em coisas sobrenaturais, diz que esses bichos são sinais de morte e desgraça, que deve afugentar, jogar sal nelas ou matar para que não puxem mais coisas negativas para a casa. E aí que começam as brigas porque sou a primeira pessoa a reclamar que animal nenhum em pleno século XXI precisa pagar o pato por coisas que as pessoas inventam, nada que seja diferente do gato preto com azar ou joaninha com a sorte.
Mas indo ao que interessa, acredito que só tiveram dois momentos estranhos que eu passei estando nessa sala. Não sei se é por ser o cômodo que menos uso já que como o próprio nome diz, é voltado para visitas. E eu pisando ali só se for para entrar na casa ou limpar.
Uns anos atrás, quando a maioria das pessoas já começava a se desfazer daquelas televisões de tubo nos mantivemos uma para jogar em um Dreamcast. Ela era enorme e cinzenta, uma Phillips de 29 polegadas, só era usada para jogar a noite e ocasionalmente colocávamos filmes para distrair os primos pequenos quando tinha visita. Nessa época o andar acima estava em reforma, como eu não podia ficar no quarto e nem na sala de TV só poderia ficar naquele cômodo. Levei dois livros comigo e sentei no sofá que ficava de frente para essa televisão antiga em cima de uma estante e uma mesinha que usei só para apoiar os pés, e então atrás de mim restava um espaço que dava acesso à escada. Era de dia, não me recordo se meus pais estavam presentes, naquele horário eu estava em casa e minha irmã na escola, de barulho fazendo eco por toda a residência só o do pedreiro quebrando uma parede, arrastando baldes com entulhos e varrendo às vezes.
Eu lia A Megera Domada, disso me recordo perfeitamente, uma versão adaptada para literatura escolar, menos de 115 páginas que consumi bem devagar de propósito. Eu levantava a cabeça de vez em quando por dor no pescoço, olhava a televisão a minha frente e olhava para as janelas atrás dela dando para ver o movimento na rua. Essas janelas quando abertas iluminavam muito a sala, então eu também olhava para o meu reflexo na TV e a escada atrás de mim. Massageei o pescoço e voltei a ler.
Quando foi na última vez de levantar a cabeça, fiquei olhando para o eu reflexo pensando se já estava perto de acabar o serviço do pedreiro para que pudesse subir. E nisso que olho, uma figura de capuz anda de uma ponta a outra do sofá, atrás de mim, passando a mão na parte de cima do encosto. Ela também olhou para a televisão e não tinha nada que pudesse caracterizar como rosto, era escurecido, só um fundo, o que não fazia o menor sentido já que pela iluminação do ambiente poderia ser visto numa boa. E aí essa figura desapareceu.
Acompanhei os segundos desse acontecimento imóvel, assistindo tudo pelo reflexo. Meu corpo congelado e não tive nem coragem para gritar, aliás, não sabia nem para quem deveria fazer isso. O coração estava acelerado, como naqueles desenhos que o personagem fica com a cara branca de medo e a alma sai do corpo, senti meu rosto perder a cor de súbito junto a uma perca de estabilidade física.
Passado um minuto, pude sentir que já podia me mexer, meu coração batia forte ainda e eu tentava parecer uma pessoa calma no caso de alguém surgir ali. E como de praxe, já sabia que seria só mais um evento que não contaria para ninguém, apenas me retirei imediatamente e fui dar atenção para a Xuxu, evitando por muito tempo o reflexo da televisão.
Uns dois ou três anos depois desse evento, já havia me esquecido do que aconteceu, os móveis mudaram de lugar. Essa mesma televisão continuou a ser utilizada para os mesmos propósitos, mas agora ficava encostada na parede e aí o que ela poderia refletir era uma janela enorme que fazia divisa com a parte que possuía a escada para o terceiro andar. Somente de dia refletia essa janela e o que estava além dela, ou seja, se alguém resolvesse subir a escada era fácil de ver. Geralmente esse alguém costumava ser a minha irmã que a usava com bastante frequência.
Em uma ocasião eu estava na sala, fazendo corpo mole no sofá enquanto meus pais estavam na cozinha, dava para vê-los dali conversando enquanto trocavam uma lâmpada. Inclinei para frente com muita preguiça para ligar o aparelho de som que ficava em uma parte abaixo da televisão, consequentemente olhando para o meu reflexo sem muito interesse. Olhei ali o que estava atrás de mim, o sol forte batendo no corrimão, dois pés usando chinelo subiram em ritmo de trote nos degraus até onde minha visão alcançava. Dei de ombros com mais uma vez minha irmã subindo ali e continuei a fuçar o som.
Porém ele não estava conseguindo rodar um disco, aí fui até essa janela grande e a abri gritando pela minha irmã, a chamando para me ajudar com isso. Nisso meu pai aparece falando que ela estava na cozinha com ele, logo não precisava ter gritado. Respondi que tinha acabado de vê-la subido as escadas e ela apareceu dizendo que em nenhum momento do dia tinha cogitado pisar ali.
Obviamente também não quis subir para saber então quem diabos estava lá já que todos os moradores da casa se encontravam no mesmo andar. E sigo sem querer saber quem era até hoje.
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