Notas iniciais
Caso alguém queira escutar durante a leitura ou depois: https://www.youtube.com/watch?v=JcdSSnxW_yQ Eu vivo para contemplar e enaltecer Anna-Varney ♥ *HPAP = Atualmente Hospital São Vicente de Paulo, muito conhecido entre as pessoas de Brasília. É um hospital psiquiátrico que não tem boa fama :v

Acordei com a determinação de contar o que realmente aconteceu na minha casa antes que me mandem logo para o HPAP. Ninguém acreditaria que uma enorme e bonita residência que chama a atenção de quem passa na rua abriga uma coisa ruim e invisível que se nem as visitas que pressentem suportam, quem dirá eu que residi aqui maior parte da minha vida.

Pois então, diferente de filmes de terror com aquele tema batido da família que se muda para o local que aconteceu alguma morte pesada ou ritual de invocação e acontecem fenômenos paranormais, aqui começou como um lote. Meus pais construíram tudo do zero, acho que não imaginariam a proporção que a casa tomaria já que se tratava de um projeto simples.

Nenhuma casa no começo é bonita, então não chamava atenção como atualmente. Naquela época a ideia era uma casa de sobrado. De vez em quando apareciam coisas no telhado, pedras, pedaços de pau e inclusive pombos mortos, sobrava para o meu pai limpar. Algumas crianças vizinhas diziam ser a casa do demônio ou que era mal assombrada.

Lembro que uma vez durante essa reforma inicial no que seria o andar de cima da nossa morada, um dos pedreiros caiu. Só me recordo de barulho alto, minha mãe correndo e uma blusa branca cheia de sangue. Não sei se isso seria o primeiro sinal de alguma coisa, mas depois disso não teve um pedreiro que não tenha saído sem se machucar. Uma vez um mestre de obra tentou passar a perna nos meus pais, andava fazendo muita coisa torta e errada na casa, foi tão estressante a ponto de que minha mãe que até então sempre foi uma mulher calma e diplomática perdeu as estribeiras e brigou verbalmente com ele. Tive até um pesadelo naquela mesma semana de que os dois brigavam de porrada, esse cara matava a nossa cadela de guarda deixando as tripas dela para fora e minha mãe matava ele com uma faca. Eu não acreditava em premonições nem nada, como disse, um pesadelo, mas no fundo ainda me dava medo essa possibilidade.

Pois então, depois dos meus pais se livrarem dele e o cara ter feito um monte de merda na nossa residência, alguns dias ou foram semanas depois ele foi atropelado perto da nossa casa, fugia de alguém armado com faca e sei que atingiu a cabeça dele, quase morreu, até hoje é sequelado. Talvez seja carma, ou acaso, ele tinha aprontado alguma coisa com a pessoa com faca. Meu pai usou essa história com o restante que era contratado no caso de tentarem passar a perna quando estavam fazendo mais um andar, no fim, outros também tentaram e não aconteciam coisas boas com eles. E quando meu pai jogava uma praga em alguém, acontecia.

Enfim, voltando ao começo da casa, tirando os eventos ali não consigo me lembrar de mais nada a ponto de ter ficado gravado na cabeça de maneira tão forte quando a da queda do pedreiro. Diz meu pai que naquela época minha irmã mais nova e eu víamos coisas pela casa, que eu falava ver um menino e entrava em pânico. Que só parei de ver quando a minha irmã nasceu e então isso passou para ela. Uma vez ela acordou todo mundo gritando que tinha uma mulher na casa tentando matar todo mundo, principalmente eu. Foi um custo para fazê-la parar, isso era constante, toda semana tinham esses episódios, nisso como meu pai era fã da Márcia Fernandes e sempre assistia ao programa dela aprendeu uma dica de colocar um saco preto embaixo da cama porque os ditos fantasmas tinham preferencia por casa de laje.

Fez isso e nunca mais a minha irmã teve essas gritarias noturnas. Hoje em dia não tocamos muito nesse assunto porque é constrangedor, com exceção do meu pai que aparentemente se formou em Márcia Fernandes e fala dessas coisas com propriedade porque segundo o próprio é sensitivo.

Outros relatos deixarei a seguir, mas a questão é que nunca existiu uma pessoa que pisou nessa casa e se sentiu bem. E aconteciam coisas com as visitas, atualmente é até difícil alguém querer vir para cá e se aparecem não costumam permanecer muito tempo, todos se sentem incomodados sem saber explicar. São sempre as mesmas histórias, que sentiu uma energia pesada e muito ruim, que a casa era carregada, viram ou foram tocadas por alguma coisa, isso mesmo aqui passando por benzedeiras, padres e pastores.

Toda vez que eu saio nunca quero voltar para cá, é como se tivesse alguma coisa falando e implorando no meu ouvido ‘’Por favor, qualquer coisa, vá pra qualquer lugar, mas não para casa’’. E mesmo assim tenho que voltar, as vezes até acho que é coisa da minha cabeça, mas começa só de dobrar a esquina e avistar a casa mais alta da rua. A casa que ouço dizerem ter o desejo de morar lá, essa mesma que eu sinto cheiros estranhos do nada e que nunca acho a fonte, que vive fria mesmo com todas as janelas fechadas e cômodos abafados, que sinto um incômodo medonho quando me deixam só ainda que prefira o silêncio para me concentrar. A casa mais alta da rua é a casa monstro em 3D.

Notas finais
Essa ideia surgiu enquanto eu lia A arte do terror - Volume 4, tentando me concentrar em um dos contos repensando sobre eu constantemente reclamar da minha casa. Quando vi que tava perdendo o foco, retomei a leitura e li uma parte em que o protagonista descrevia as ações dele no escuro, aí me veio em mente sobre um hábito meu de andar no escuro dentro de casa. Daí fui maquinando, né? Sempre falei que aqui em casa daria um ótimo filme de terror se juntar os ‘’causos’’ que o pessoal contava quando pisava aqui, tá que eu sou ateu e sei explicar a maioria das coisas, mas achei que seria interessante escrever isso pra relaxar enquanto ainda trabalho em histórias que dependem de pesquisa. E pelo menos pra falar daqui só vou depender da minha memória, aí jogo aquele marketing básiquinho de ‘’baseado em fatos reais’’ alterando o nome dos envolvidos no caso de constrangimento (vai que) e os gêneros. O título se refere pela forma que a gente descreve quando vai dar o endereço daqui, fica mais fácil falar ‘’é a casa mais alta da rua’’, ainda mais se o GPS mandar pra outro portal do inferno (esse é o termo que eu pessoalmente uso) que não seja a dita moradia.