A casa mais alta da rua
2 Cozinha
Notas iniciais
Me lembro de ter escutado ou lido em algum lugar que um dos sinais de que uma residência possui alguma entidade, espírito, fantasma, não sei o que lá, é se for fria. E geralmente se concentrava em cozinhas e banheiros. A minha casa é muito, muito, muito fria. Poderia ser uma noia minha, só que sou uma pessoa bastante calorenta e pelo que percebi essa constante queda de temperatura se tornou algo normal na família. Mesmo em dias quentes, essa frieza que deveria deixar a gente mais fresco consegue ser horrível, em tempos mais gelados então se torna insuportável. Como não poderia ser diferente, justamente a cozinha e os banheiros são frios e de bônus o meu quarto. Mas hoje focarei na cozinha.
A cozinha costumava ser, depois da sala de TV, o cômodo mais frequentado. Havia uma época quando eu era criança que meu pai puxava uma cadeira, colocava um caderno na mesa e com um colar pendurado na ponta dos dedos fazia algumas perguntas em voz alta, as vezes em silêncio. Isso de olhos fechados. Aí o pingente nesse colar balançava para os lados, as vezes rodava em si, e ele ia anotando ‘’SIM’ ou ‘’NÃO’’, letra por letra até que formassem palavras ou frases. Dizendo ele que conseguiu nesse meio descobrir o nome do filho de um tio meu que estava para nascer naquele ano e os que nasceriam uns cinco ou sete anos depois. E até o nome da esposa. E bom, como eu era criança e achava que aquilo ali deveria ser alguma forma de mágica tentei fazer a mesma coisa, nem recordo que diabo tinha perguntando, só sei que a resposta tinha sido ‘’Sim’’.
Enfim, quando faço uma lista de acontecimentos em cada cômodo o primeiro que me vem em mente é justamente a cozinha, inclusive o evento do pedreiro caindo eu vi pela cozinha. Uma vez, tinha por volta de uns oito anos eu acho fui até lá para guardar alguma coisa no armário ou pegar algo para comer. Sei que estava fuçando por ali, eis que quando fecho a portinha e olho para mesa, não sei porque resolvi encará-la, de repente uma das seis cadeiras de arrastou sozinha para trás. Nem preciso dizer que quando isso aconteceu saí correndo, não tive coragem de contar para os meus pais, só para alguns amigos que claro, não acreditaram. E com isso por um bom tempo me senti desconfortável em ficar só ali.
Dois anos anteriores a isso, eu estava lá em uma parte com a lâmpada acesa de frente para a outra parte do cômodo com a luz apagada, no chão folheando numa boa o livro da escola nova. Era um livro que para mim parecia grosso porque era uma compilação de todas as matérias da primeira série, um alívio se comparar que normalmente são separadas. A primeira matéria desse livro era de português e começava com um texto sobre a lenda do lobisomem. Junto a história tinha um desenho de uma silhueta do tão lobisomem uivando para a lua. Insisti em ler e reler aqui para que chegasse na aula sabendo já a história e fazer o papel da criança chata sabe-tudo, porém com a mão tampando a imagem, não aguentava olhá-la. Aquele desenho mesmo feito de forma tosca me dava um medo sem lógica, e eu sabia que tinha filme de terror milhões de vezes mais assustador que aquilo no papel.
Eu até tentava ganhar coragem destampando ele, encarar aquele desenho e me convencer de que era besteira ficar com medo daquilo. Só que quando mais eu olhava, mais o desenho parecia estar vivo. Aquela cozinha dos infernos não colaborava muito porque o medo crescia junto com o frio. Aí resolvi fechar o livro e olhar qualquer coisa para diminuir esse terror. E não adiantou muito, a minha frente como estava vagamente escuro por conta da lâmpada não acesa meus olhos foram parar direto na janela que recebia uma quase nada iluminação da lua, se fosse de dia dava para ver a área de serviço, mas como era a noite só tinha o breu.
Foi só olhar ali que como se alguém estivesse do meu lado mandando mensagens telepáticas, veio com força ‘’O lobisomem está lá na janela te observando, não está vendo ali mão dele encostando no vidro?’’. Ele estaria lá me encarando atráves da janela com seus olhos amarelos, cheio de fome, corpo de longos pelos finos, enormes orelhas pontudas e que faria um barulho igual o dos cachorros dos vizinhos chorando. A certeza dele ali sendo alimentada pelos pensamentos intrusivos me deu um pavor tão forte que no mesmo instante meu pai me mandou subir para tomar banho, e por acaso para que isso acontecesse eu deveria passar perto dessa desgraça de janela. Quem disse que eu levantei do chão para obedecer? Ele repetiu a ordem mais duas vezes e eu no nervosismo comecei a chorar berrando com nariz escorrendo e engasgando com as lágrimas que não iria subir, não falei o motivo, só disse que estava com medo.
Hoje em dia acho meio besta a situação quando lembro, porém quando está de noite e não tem ninguém nesse andar passo pela cozinha evitando olhar para essa janela, as vezes me vem um pensamento repentino de que tem alguém na janela me observando. E olha que agora tem uma lâmpada no lado de fora que ilumina essa janela, dá para ver o que tem ali, nada, mas ainda assim eu acho que tem.
Em 2007 adotamos uma cachorrinha, Xuxu era seu nome. Como a Xuxu era pequena e novinha tinha a casa inteira a sua disposição então em qualquer cômodo você topava com ela. Era uma cadela arteira e tranquila com as pessoas da casa e com gente de fora porque não tinha desenvolvido, até então, o senso da maioria dos cachorros de estranhar as visitas. E eu só escutava ela latir quando ficava indignada com alguma brincadeira nossa ou a outra cachorra que era mais velha ficar pentelhando a coitada.
Uma vez estávamos todos na cozinha e Xuxu presente conosco como sempre. Perto da janela, meu pai preparava o lanche da gente e típico de cachorro ela foi atrás dele quando sentiu o cheiro. Esperávamos a comida rindo de alguma besteira quando a Xuxu começa a latir, por um momento ignoramos porque veio aquela coisa de ‘’Ah é cachorro, deixa, daqui a pouco já para’’. Porém ela continuou. Olhamos e a cadela latia para o meu pai, pelo menos foi isso que pensamos de início e mandamos calar a boca, era incomum porque como falei, ela era tranquila com todo mundo da casa. Nem quando brigamos ela parou, quando foi para surpresa de todo mundo, meu pai resolveu sair dali a cachorra continuava latindo nervosa para a janela.
Me recordo que meu pai fez algum comentário de que ela estava vendo algo que aos olhos de humanos comuns não poderia ser visto, aquilo meio que acabou com a nossa zoeira. Ninguém teve tão cedo vontade de fazer alguma piada ou ânimo para mudar de assunto. Tempos depois Xuxu foi posta para dormir fora da casa.
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