Deixei Judith com Carl e desci as escadas. Na sala encontrei Rick.

–Já arrumaram suas coisas?- ele perguntou.

–O quê? Ainda vamos viajar?

–Sim.

–Rick, não paramos em uma casa a uma semana, eu não aguento mais dormir naquela van. Por que não passamos a noite aqui?

–Não é seguro, você viu o tanto de zumbis que enfrentamos a poucos quilômetros daqui, não podemos correr o risco de encontrar mais deles.

–Mas todo o grupo esta cansando, todos nós estamos exaustos!

Rick parou um pouco pensando na minha proposta.

–Tudo bem, falta poucas horas até o anoitecer, acho que não seria muito seguro seguir viagem.

Naquela noite dormir feito uma pedra, depois de dormir uma semana na cadeira da van, aquela cama era o paraíso.

Quando acordei Carl ainda estava dormindo ao meu lado e Judith – que estava no berço do quarto- tinha sumido.

Me arrumei e desci, quando passei pela sala ouvi uns grunhidos, olhei por baixo da porta da sala e vi uma sombra, era apenas um zumbi, depois do café eu iria cuidar dele. Fui até a cozinha onde todos estavam reunidos.

–Bom dia.- disse.

–Bom dia.- todos responderam.

Não consegui esconder minha cara de desdém quando vi Hylla, e ela estava com Judith. Eu não sabia que aquela mulher tinha ficado com o grupo.

Depois que Carl acordou, Rick pediu para que todos do grupo arrumassem suas coisas, e adivinha, Hylla viria com a gente e o pior é que ninguém do grupo protestou contra, todos pareciam feliz com a nova integrante.

Hylla começou a andar com Judith até a sala e eu fui atrás.

–Posso segura-la um pouquinho.- eu disse tentando parecer educada.

–Não, eu estou com ela, depois você a pega.

–Mas eu queria segura-la agora, talvez depois eu não tenha tempo.

Hylla que estava de costas para mim virou em minha direção e olhou por cima dos meus ombros certificando-se que não tinha ninguém. Ela deu um passo para perto de mim e disse em voz baixa e ameaçadora.

–Olha aqui garota, eu sei que você não gosta de mim e que tenta me deixar o mais longe possível de Judith, mas eu tenho uma coisinha para te dizer: Você não vai conseguir.

–Do que está falando.- perguntei sentindo a raiva crescendo dentro de mim.

–Preciso ser mais clara? Judith é minha, e você não vai tira-la de mim.

–Judith não é sua! Me dê ela agora!- eu avancei, mas Hylla puxou uma arma e fui obrigada a parar.

–Rick!- gritei.

–Você não vai tira-la de mim, ela é minha!- Hylla tinha um olhar louco.- Minha filha...minha Bia.

–Você é louca, ela não é sua filha!

Foi nessa hora que todos do grupo entraram na sala.

–O que está acontecendo aqui?- Rick perguntou com voz dura.

–Hylla enlouqueceu, ela acha que Judith é a filha dela.- expliquei.

–Olha Hylla...- Rick deu um pequeno passo na direção dela, mas logo ela apontou a arma para ele.

Os olhos de Hylla estavam selvagens, suas mãos estavam um pouco tremulas e ela apertava Judith contra ela.

–Não! vocês não vão tira-la de mim! não de novo.

Hylla estava começando a me assustar, ela estava definitivamente louca. Ela deve ter ficado muito tempo lá fora, afinal, não são todos que tem sanidade mental suficiente para sobreviver a um apocalipse zumbi.

–Abaixe a arma e iremos conversar.- Rick disse calmo.

Com certeza ele estava sentindo o mesmo que eu, medo. Medo de Hylla machucar Judith, e no estado que essa mulher se encontra não me surpreenderia se ele atirasse na bebe.

–Você não quer conversar! Você quer tira-la de mim! Eu não vou permitir que tirem Bianca de mim outra vez!

Hylla começou a dar passos para trás em direção a porta da sala.

–Hylla...!- tentei falar.

–Nos deixem em paz, não queremos ficar com vocês!- ela gritou e Judith começou a chorar.- Shiiu meu amor, tudo vai ficar bem.

Senti algo gelado segurar minha mão era Carl.

Hylla chegou até a maçaneta da porta.

Puxei minha arma e apontei para ela. Mas quase no mesmo instante ela apontou a arma para Judith.

–Alana.- Rick me repreendeu.

Abaixei minha arma.

–Rick...A porta.- tentei avisar, mas já era tarde demais.

Hylla abriu a porta e três zumbis pularam em cima dela e de Judith.

Soltei a mão de Carl e peguei minha arma com as duas mãos.

Eu tentava mirar mas Hylla não parava de empurrar os zumbis e ficar se debatendo.

Os outros atiravam, mas graças a Hylla não conseguiam acertar o alvo.

Judith gritava entre o choro, o chão estava cheio de sangue.

Fiquei desesperada, comecei a atirar. Consegui acertar um zumbi, errei por poucos centímetros e atirei no ombro de Hylla. Isso fez ela parar de se debater o os outros mataram os zumbis restantes.

Era tarde, o choro de Judith tinha cessado.

Hylla empurrou os corpos dos zumbis de cima dela.

Dei um passo a frente para ver melhor o que acontecera com Judith, desejei que fosse um pesadelo, era a coisa mais horrível que eu tinha visto na vida. Judith estava toda estraçalhada.

Olhei para Hylla e ela estava com o rosto molhado de lagrimas e sangue, ela tinha uma mordida no pé, e no braço e antebraço esquerdo. Ela podia sobreviver, mais depois que ela fez pra Judith eu não queria que ela sobrevivesse.

Levantei meu revolver e mirei em sua cabeça, atirei varias vezes, eu não enxergava mais nada com lagrimas nos olhos, atirei até que meu revolver ficou sem balas.

Cai de joelhos no chão, minhas mãos tremiam, eu nunca tinha matado uma pessoa viva antes, era uma sensação horrível, mas lá no fundo eu a apreciava, eu tinha gostado de matar Hylla, de vigar Judith. Esse sentimento, por menor que fosse, me assustava.

Ouvi passos correrem escada acima e uma porta batendo com força. Não precisei me virar para saber que era Carl.

A sala estava mergulhada no silencio.

...

Naquele dia cavamos uma pequena cova, no quintal da casa onde estávamos.

Enterramos Judith, e na cruz encima de sua cova foram colocados seus sapatinhos.

O corpo de Hylla foi queimado junto com os dos zumbis, sem nenhuma cerimônia.

Carl tinha ficado no quarto e não veio para o enterro de Judith.

Eu não conseguia parar de me culpar. Se eu tivesse matado o zumbi...Talvez....talvez...

...

A casa estava em um profundo silencio, todos tinham se separados para ficar sozinhos, Judith era o “xodó” de todos, não havia uma pessoa naquele grupo que não estivesse triste.

Subi até onde Carl havia se trancado. Dei duas batidas na porta.

–Carl.- chamei e o silencio veio em resposta.- Carl, me deixa entrar.- nada- Eu sei que você não quer conversar mas... Não precisamos, eu só quero ficar ao seu lado, abre a porta.

Eu já estava quase dando as costas, quando ouvi passos arrastados vindo em direção à porta.

Carl a abriu e me deu passagem sem me olhar.

Ele parecia bem, seus olhos estavam limpos e não vermelhos e inchados como achei que estariam, para falar a verdade eu acho que ele nem chorou.

Ele sentou na cama encarando o nada, sentei do seu lado e segurei sua mão, mas meu aperto não foi retribuído. Carl estava guardando a dor só para ele, ele estava se isolando até de mim.

Ficamos uns 20 minutos em silencio até que Carl o quebrou.

–Quando isso vai acabar?- ele olhou para mim com seus olhos implorando resposta.- Quando que isso tudo vai acabar? Primeiro minha mãe, depois Judith, quem será o próximo? Meu pai? Você? –ele se levantou e começou a andar pelo quarto.- Eu não aguento mais viver nesse mundo! Viver cercado dessas coisas! A vida não era pra ser assim! Judith deveria crescer ir para creche e escola, ela deveria ter amiguinhas, brincar de bonecas e se vestir de princesa! Eu deveria se o irmão chato que implicava com coisas bobas! Nós dois, deveríamos ir ao cinema juntos, trocar presentes de dia dos namorados e coisas assim, mas não! Nada nesse mundo é duradouro! Eu não aguento mais acordar todo dia com a possibilidade de perder as pessoas que eu amo! Isso tudo parece mais um pesadelo! Um pesadelo do qual eu não consigo acordar!

Me levantei e o abracei forte, demorou um pouco para o abraço se retribuído. Carl afundou seu rosto no meu ombro.

–Eu quero acordar, Alana, eu preciso acordar.

Notas finais
Vocês nãos esperavam por isso né? Não ia postar hj mas...