A bruxa que não estava no roteiro.
15 Capítulo 15.
Na manhã seguinte, Sarah descobriu que havia subestimado seriamente a velocidade com que informações circulavam em Hogwarts.
Sentou-se à mesa da Grifinória esperando tomar café da manhã em paz. Gina apareceu pouco depois, ocupou o lugar ao lado dela e, de maneira profundamente suspeita, permaneceu em silêncio enquanto Sarah passava geleia na torrada.
Sarah suportou aquilo até tomar o primeiro gole de café.
— Fala logo.
Gina virou o rosto para ela.
— Talvez eu esteja apreciando a manhã.
Sarah a encarou.
— Você não aprecia manhãs.
Gina pensou.
— Verdade.
Mordeu a maçã e voltou ao silêncio.
Sarah largou a torrada.
— Gina.
— Então... como estava Hogsmeade?
Sarah retomou o café.
— Normal.
— Normal.
— Sim.
— Lojas?
— Algumas.
— Doces?
— Muitos.
Gina assentiu como se estivesse apenas organizando informações absolutamente banais.
— Casa de chá?
A faca de Sarah hesitou sobre a torrada.
O sorriso da ruiva apareceu imediatamente.
— Interessante.
Sarah fechou os olhos.
— Quem contou?
— Seamus. Parvati. Algumas pessoas aparentemente viram vocês.
— Que escola maravilhosa.
— Segundo a versão que chegou até mim, você e Malfoy passaram parte da tarde numa casa de chá. Sozinhos.
— As mesas não comportavam a escola inteira.
Gina escondeu o sorriso atrás da maçã.
— Ele também estava carregando suas compras.
— Eu tinha comprado muita coisa.
— Claro.
Sarah apontou a faca de geleia para ela.
— Nem vem.
Gina apoiou o cotovelo na mesa.
— E depois vocês saíram de Hogsmeade de mãos dadas.
Sarah ficou quieta por um instante.
— Fazia parte da atuação.
— Claro.
— Fazia.
Gina mordeu a maçã outra vez, sem comentar.
Sarah tomou café.
— Estava frio.
A ruiva piscou.
— O quê?
Sarah percebeu tarde demais que talvez devesse ter parado antes.
— Minha mão estava fria.
— E Malfoy virou sistema de aquecimento?
Sarah quase engasgou.
— Gina!
Ela começou a rir.
Sarah tentou ignorá-la, mas a lembrança veio depressa demais: Draco estendendo a mão depois do pedido de desculpas, os dedos quentes fechando-se ao redor dos seus e aquele aperto pequeno que ninguém além dela tinha motivo para perceber.
Gina ainda sorria.
— Quem pegou na mão de quem?
Sarah olhou para ela.
— Isso é relevante por quê?
— Curiosidade científica.
— Ele ofereceu.
O sorriso desapareceu por um instante.
— Malfoy ofereceu a mão?
— Havia gente por toda parte.
Gina soltou um som pensativo.
Sarah apontou para ela.
— Não inventa coisa.
— Eu nem precisei.
Antes que Sarah decidisse se uma maçã poderia ser considerada arma, Harry, Rony e Hermione se aproximaram.
Rony sentou-se do outro lado da mesa.
— Casa de chá?
Sarah fechou os olhos.
— Bom dia para você também.
Harry ocupou o lugar ao lado dele.
— Eu falei para começar pelo bom dia.
— Comecei mentalmente.
Hermione sentou-se ao lado de Rony.
— Pensar não conta.
Sem interromper a conversa, ela estendeu a mão. Rony colocou o pote de geleia na palma dela sem sequer olhar.
Sarah encontrou os olhos de Gina.
Gina já estava olhando para ela.
Rony percebeu.
— O quê?
— Nada — responderam as duas.
Hermione abriu o pote.
— Eu gostaria de voltar ao assunto relevante.
Sarah apontou para ela.
— Não existe assunto relevante.
— Você foi a Hogsmeade com Malfoy ontem.
— Sim.
Harry apoiou os braços na mesa.
— E aparentemente o passeio virou notícia.
— Contra a minha vontade.
Gina mordeu a maçã.
— Ela escolheu a casa de chá.
Sarah virou imediatamente.
— Traidora.
Harry começou a rir.
Rony franziu o cenho.
— Então vocês realmente tiveram um encontro?
— Não. Foi manutenção de álibi.
Harry tentou controlar o sorriso.
— Esse é um nome muito ruim para encontro.
— Harry.
Hermione tomou um gole de café.
— De quem foi a ideia de Hogsmeade?
Sarah hesitou.
Não havia maneira de responder àquilo sem piorar a própria situação.
— Draco sugeriu.
Gina virou lentamente para ela.
— Draco sugeriu Hogsmeade.
— Não fala assim.
— Assim como?
— Como se ele tivesse me pedido em casamento.
Harry abaixou a cabeça, rindo.
— Foi pelo álibi — insistiu Sarah. — Bellamy comentou que quase nunca somos vistos juntos fora das aulas e dos corredores. Draco achou que fazia sentido aparecermos em algum lugar mais público.
Hermione assentiu.
Aquilo, pelo menos, era uma explicação racional.
Rony parecia menos convencido.
— E vocês passaram a tarde inteira fazendo manutenção de álibi?
— Hogsmeade não é exatamente um corredor, Rony.
— Só estou perguntando.
— Tente menos.
— Grossa.
Gina apoiou o queixo na mão.
— Conta para eles quem ofereceu a mão.
Sarah virou-se para ela.
— Você acordou querendo morrer?
Harry franziu o cenho.
— Que mão?
— Nenhuma.
— A do Malfoy — respondeu Gina. — Foi ele quem ofereceu.
Harry piscou.
Hermione ficou em silêncio por um momento.
Sarah apontou para os três.
— Hogsmeade estava cheia. Isso fazia parte da farsa.
Hermione olhou para ela.
— Certo.
Só isso.
Nenhuma conclusão.
De alguma forma, foi pior.
Sarah voltou para a torrada.
Gina ainda não tinha terminado.
— E foi só isso?
Sarah pensou no chocolate quente. Na garçonete chamando os dois de casal. Em Pansy. No pedido de desculpas.
No aperto dos dedos de Draco.
— Foi.
Mentira.
Gina sustentou seu olhar por alguns segundos, mas Sarah começou a passar geleia em outra torrada com interesse excessivo.
— Acabou o interrogatório.
— Nem chegamos na sobremesa.
Sarah congelou.
Virou devagar para a amiga.
— Como você sabe que teve sobremesa?
O sorriso de Gina cresceu.
— Agora eu sei.
Sarah fechou os olhos.
— Eu te odeio.
— Infelizmente não é recíproco.
Rony apontou para Gina, impressionado.
— Isso foi bom.
— Obrigada.
Hermione ergueu os olhos para ele.
— Não incentive.
— Reconhecer talento não é incentivar.
Hermione continuou olhando.
Rony pegou uma torrada.
— Tá bom.
Sarah viu.
Gina também.
Nenhuma comentou.
Harry acabou desviando a conversa.
— Pelo menos você se divertiu?
A pergunta era simples demais.
Sarah olhou para a xícara.
Pensou em Draco reclamando do chocolate quente e tomando mesmo assim porque ela o provocara. Nos bolinhos que ele jurara que não comeria. Na discussão idiota sobre café. No pedido de desculpas dito sem sarcasmo.
E na mão.
— Foi... legal.
Gina parou de mastigar.
Hermione ergueu os olhos.
Harry sorriu.
Sarah percebeu imediatamente.
— Normal. Quero dizer normal.
Gina apontou a maçã para ela.
— Você acabou de trocar a palavra.
— Porque vocês estão transformando tudo em alguma coisa.
Hermione balançou a cabeça.
— Ninguém precisa transformar nada.
Sarah estreitou os olhos.
Harry ainda sorria.
— Você acabou de dizer que passar uma tarde inteira com Malfoy foi legal.
— E daí?
Rony entrou na conversa:
— Com Malfoy?
Sarah virou para ele.
— Eu não disse que ele é legal. Disse que o passeio foi legal. São frases diferentes.
Rony considerou.
— Continua estranho.
Sarah pegou uma uva e jogou nele.
Rony desviou.
— Você acabou de jogar comida em mim.
— E errei. Esse é meu verdadeiro arrependimento.
Hermione soltou um suspiro.
— Vocês têm dezessete anos.
— Isso não impede ela de me atacar com frutas — disse Rony.
— Nem você de merecer — respondeu Sarah.
Harry riu.
Sarah voltou ao café e decidiu que, se o preço de manter aquele namoro convincente fosse sobreviver a um interrogatório coletivo toda vez que ela e Draco aparecessem juntos, Thomas Bellamy poderia simplesmente ter ficado quieto.
O pior era que os amigos estavam tratando a tarde como um encontro porque, vista de fora, tinha parecido um.
Sarah sabia que não tinha sido.
Pelo menos era essa a versão que continuava repetindo para si mesma.
🦁🐍
Do outro lado do Grande Salão, Draco Malfoy também não estava tendo uma manhã particularmente tranquila.
Sentou-se à mesa da Sonserina, serviu café e abriu o Profeta Diário com a intenção bastante clara de não falar com ninguém.
Blaise ocupou o lugar à sua frente.
— Casa de chá.
Draco não levantou os olhos.
— Bom dia para você também, Zabini.
— Hogsmeade. Mãos dadas.
A página parou.
Draco finalmente ergueu os olhos.
Blaise sorria.
— Como foi o encontro do namoro que não existe?
— Não foi um encontro.
— Certo.
— Foi manutenção de álibi.
— Esse é o nome oficial?
Draco dobrou parcialmente o jornal.
— Existe algum motivo específico para você estar particularmente irritante hoje?
— Curiosidade.
— Arranje outra.
Blaise puxou a própria xícara para perto.
— Só achei interessante você ter escolhido uma casa de chá.
— Eu não escolhi.
— Griller?
— Sim.
Blaise assentiu lentamente.
— E você entrou.
— Eu já estava em Hogsmeade com ela. Ir embora seria idiota.
— Poderia ter sugerido outro lugar.
Draco tornou ao jornal.
— Ela queria aquele.
O silêncio de Blaise durou só o suficiente para incomodar.
— Só estou impressionado com sua capacidade de adaptação.
— Vá se ferrar.
Draco abriu o jornal novamente, considerando o assunto encerrado.
Blaise respeitou a decisão até mudar de assunto.
— Parkinson estava lá?
Draco baixou o jornal.
A pergunta o pegou desprevenido não por ser difícil, mas porque era justamente a parte da tarde que preferia não revisitar.
— Estava.
O humor de Blaise diminuiu.
— Falou com Griller?
— Falou.
— O que disse?
Draco passou o polegar pela borda da xícara.
— Não sei. Sarah não quis contar.
O primeiro nome saiu sem esforço.
Blaise tomou um gole do próprio café.
Não comentou.
De algum modo, isso foi mais irritante.
— Quando voltei, ela estava diferente — continuou Draco.
— Diferente como?
— Quieta.
Blaise arqueou uma sobrancelha.
— Griller?
Draco lançou-lhe um olhar.
— Já entendi.
— Só estou tentando visualizar.
— Parkinson tinha acabado de sair. Não precisava ser particularmente brilhante para perceber que tinha acontecido alguma coisa.
— E você fez o quê?
— Perguntei. Ela pediu para eu deixar.
Blaise esperou.
— E você deixou.
— Sim.
Blaise apoiou a xícara na mesa.
— Isso é quase crescimento pessoal.
— Posso voltar ao meu jornal?
— Ainda não.
Draco soltou o ar.
— O que mais?
Blaise indicou vagamente o salão.
— Depois disso vocês foram vistos de mãos dadas.
Draco voltou ao café.
— Nosso namoro precisa parecer convincente.
— Foi você quem ofereceu a mão?
Ele não respondeu imediatamente.
— Isso importa?
— Para mim, bastante.
— Então aprenda a conviver com a dúvida.
Blaise sorriu.
Draco sabia que aquilo não encerraria a questão.
— Ela estava com frio.
Blaise inspirou pelo nariz.
Draco baixou a xícara.
— Não faça isso.
— O quê?
— Essa reação.
— Eu respirei.
— De um jeito irritante.
Blaise escondeu o sorriso na xícara e, quando olhou por cima do ombro de Draco, sua atenção se fixou em alguma coisa do outro lado do salão.
— Griller também parece estar tendo uma manhã agradável.
Draco não virou.
— Problema dela.
— Potter, Granger e os dois Weasley estão em volta dela. Parece um interrogatório.
A xícara de Draco parou antes de chegar à boca.
— Sobre o quê?
O sorriso de Blaise voltou.
Draco estreitou os olhos.
— Você acabou de dizer que parece um interrogatório.
— Provavelmente Hogsmeade.
Draco tentou não olhar.
A tentativa durou o suficiente para tornar evidente que estava tentando.
Então virou.
Sarah estava cercada pelos amigos. Gina ocupava o lugar ao lado dela; Potter, Granger e Ronald Weasley estavam do outro lado da mesa. Sarah dizia alguma coisa enquanto Gina ria, e mesmo à distância Draco reconheceu a irritação no movimento com que ela se virou para a amiga.
— Estão falando de você — comentou Blaise.
Draco tornou à própria mesa.
— Metade da escola fala de mim.
— Humildade admirável.
— Não vejo por que isso me interessa.
— Nem eu.
Draco lançou-lhe um olhar.
Blaise bebeu café.
Do outro lado do salão, Sarah virou na direção da mesa da Sonserina. Ela olhou primeiro para Blaise, depois para Draco, e ergueu as sobrancelhas numa pergunta clara. Draco respondeu com um movimento mínimo de cabeça. Sarah continuou encarando-o. Evidentemente, não acreditou.
Quando Draco tornou à mesa, Blaise o observava com um interesse renovado.
— Nem pense.
— Essa parte vai ser difícil.
Draco levantou o jornal entre os dois.
Blaise finalmente pareceu disposto a deixá-lo em paz.
Até perguntar:
— Ela se divertiu?
Draco baixou o jornal devagar.
— Pergunte a ela.
— Estou perguntando a você. Você estava lá.
Draco tornou a olhar para a mesa da Grifinória.
Sarah discutia com Potter agora. Gina disse alguma coisa, Sarah protestou e Granger entrou na conversa. Pouco depois, Sarah começou a rir.
Draco pensou no chocolate quente que ela tratara como se fosse a maior descoberta gastronômica da Inglaterra. Na expressão de nojo depois de provar seu café. Nos bolinhos que jurara que ele acabaria comendo.
Pensou também em Parkinson.
No pedido de desculpas.
Na mão dela dentro da sua.
— Acho que sim.
Blaise aceitou a resposta em silêncio.
Draco permaneceu esperando.
Nada.
Franziu o cenho.
— O quê?
— Você vive mandando eu ficar quieto. Estou tentando respeitar.
— E resolveu começar agora?
— Estou tentando ser um amigo melhor.
— Péssimo momento.
Blaise sorriu e voltou ao café.
Draco abriu novamente o jornal.
A provocação do início da conversa continuava irritantemente presente.
O encontro do namoro que não existe.
Porque esse era exatamente o ponto.
O namoro não existia.
Tinha começado por causa de Snape, da Ala Norte e de um álibi que Sarah inventara porque precisava tirá-los de uma situação impossível. Eles apenas continuavam sustentando a história.
Em algum momento aquilo acabaria.
Não havia nada de complicado nisso.
Mesmo assim, ouvir Blaise formular daquela maneira tinha sido desagradável.
Draco decidiu que não precisava descobrir por quê.
Conseguiu finalmente voltar ao artigo.
— Bolinhos com creme, Malfoy?
Draco fechou os olhos.
Amassou o jornal e arremessou contra Blaise.
— Eu vou te matar.
🦁🐍
Harry estava terminando uma fatia de torta quando decidiu retomar uma provocação que Gina havia começado alguns dias antes.
— Lembram quando a Gina disse que os dois casos estavam competitivos?
Rony nem levantou os olhos do prato.
— Não.
Hermione continuou lendo o pergaminho aberto diante dela.
— Infelizmente, eu lembro.
— Ótimo. Porque vocês passam metade do tempo comentando sobre Griller e Malfoy como se eles fossem incapazes de perceber qualquer coisa que está acontecendo entre eles.
Rony finalmente ergueu os olhos.
— Porque são.
Harry recostou-se no banco.
— Certo. Só acho curioso.
Hermione baixou o pergaminho devagar.
— Harry.
— Eu nem terminei.
— Conheço você.
Rony apontou para ela.
— Ele está fazendo aquela cara.
Harry olhou de um para o outro.
— Interessante vocês dois terem desenvolvido um sistema conjunto para identificar minhas caras.
Hermione voltou ao texto.
— Não existe sistema nenhum.
— Claro.
Rony pegou um pedaço de pão.
— Termina logo.
Harry recostou-se no banco.
— Eu só estava pensando que vocês dizem que Sarah e Malfoy discutem demais para perceber o que está acontecendo. Que estão sempre reparando onde o outro está, ficam irritados quando aparece outra pessoa e implicam por absolutamente tudo.
Rony diminuiu o movimento da mão. Hermione continuou olhando para o pergaminho com uma concentração repentinamente exemplar.
Harry sorriu.
— Acho bonito ver vocês analisando relacionamentos alheios com tanta competência.
Rony olhou para Hermione, mas ela não levantou a cabeça.
— Não sei o que você está insinuando — disse ele.
— Não estou insinuando coisa nenhuma.
— Está, sim.
Harry deu de ombros.
— Você decidiu isso sozinho.
Hermione finalmente ergueu os olhos.
— Você está estranhamente interessado na vida amorosa dos outros ultimamente.
Harry apontou para si mesmo.
— O quê? Eu não sou o protagonista dessa história, não. É a Sarah.
Rony ficou olhando para ele.
— Que porra isso quer dizer?
Harry pegou o copo.
— Não sei. Pareceu certo.
Hermione estreitou os olhos como se considerasse seriamente discutir a lógica da frase.
Desistiu.
Rony apontou para Harry.
— Você está muito parecido com Malfoy falando desse jeito.
Harry fez uma careta.
— Retiro tudo.
Hermione soltou uma risada antes de conseguir disfarçar.
Rony virou para ela.
— Você achou graça?
— Um pouco.
— Traição.
Hermione ainda sorria quando percebeu que ele continuava olhando.
— O quê?
Rony desviou para o prato.
— Nada importante.
Harry viu.
Dessa vez teve bom senso suficiente para continuar comendo.
Por algum tempo, a mesa voltou à tranquilidade. Hermione retomou a leitura, Rony pareceu disposto a fingir que a conversa anterior nunca existira e Harry resolveu colaborar.
Foi Rony quem quebrou o silêncio.
— Você quase não comeu.
Hermione ergueu os olhos.
— Estou sem muita fome.
Rony não insistiu. Apenas puxou o prato de batatas alguns centímetros para mais perto dela, num gesto tão automático que Hermione pegou uma antes mesmo de olhar.
Harry baixou os olhos para a própria torta. Aquilo também já tinha acontecido antes. Mais curioso era nenhum dos dois parecer perceber que tinha virado hábito.
O assunto poderia ter morrido ali, mas Rony acabou se inclinando para observar o texto diante dela.
— O que é isso?
— Runas Antigas.
Ele analisou os símbolos.
— Parece desagradável.
Hermione olhou para ele.
— Você nem sabe o que está escrito.
— Estou julgando pela aparência.
Ela apontou para uma das linhas.
— Essa parte é relativamente simples.
Rony se aproximou um pouco mais.
— Para você.
— É uma substituição de símbolos. Se você observar aqui...
Hermione começou a explicar.
Rony não conhecia a matéria, mas continuou acompanhando o dedo dela sobre o pergaminho, fazendo perguntas quando alguma coisa não fazia sentido e comentários suficientes para arrancar algumas correções impacientes e, eventualmente, uma risada.
Harry observou enquanto a conversa mudava completamente de rumo.
Hermione agora estava inclinada na direção de Rony. Ele parecia genuinamente interessado em entender uma matéria que não cursava simplesmente porque ela estava explicando.
Em algum momento, os ombros dos dois encostaram.
Nenhum se afastou.
Harry apoiou o copo na mesa.
— Impressionante.
Os dois olharam para ele.
— O quê? — perguntou Hermione.
Harry tomou um gole.
— Estava pensando na Griller e no Malfoy.
Hermione estreitou os olhos.
— Claro que estava.
Rony apontou uma batata para ele.
— Você não vai largar isso, vai?
Harry olhou inocentemente para os dois.
— Só achei curioso como vocês começaram essa conversa concordando tão rápido sobre a minha cara.
Rony bufou.
— Você só está com inveja porque ninguém te entende tão bem.
O silêncio veio imediatamente.
Rony congelou.
Hermione também.
Harry pousou o copo com cuidado.
Rony apontou para ele antes que abrisse a boca.
— Potter.
Harry mordeu o interior da bochecha.
Hermione baixou os olhos para o pergaminho outra vez, mas não retomou a explicação.
Rony percebeu.
A provocação desapareceu de seu rosto.
— Está cansada?
Hermione levantou os olhos.
— Um pouco.
— Quer voltar para a sala comunal?
Ela olhou para o prato dele.
— Você ainda não terminou.
Rony deu de ombros.
— Termino depois.
A resposta pareceu surpreendê-la.
Harry também notou.
Hermione ficou olhando para Rony antes de finalmente enrolar o pergaminho.
— Tudo bem.
Rony levantou primeiro. Quando Hermione começou a reunir as coisas, ele pegou os livros dela antes que conseguisse alcançá-los.
— Eu consigo carregar.
— Eu sei.
— Então por que pegou?
Rony ajeitou os volumes debaixo do braço.
— Porque já estou carregando.
Hermione pareceu considerar discutir.
Não discutiu.
Harry acompanhou os dois atravessarem o Salão Principal.
Perto da porta, Hermione disse alguma coisa que Harry não conseguiu ouvir. Rony respondeu, e ela riu. Rony continuou olhando para ela mesmo depois que o riso terminou.
Harry voltou para a própria torta.
Talvez Sarah Griller e Draco Malfoy não fossem as únicas duas pessoas em Hogwarts precisando urgentemente de um espelho.
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