A bruxa que não estava no roteiro.
16 Capítulo 16.
Sarah e Draco seguiram com uma rotina que já não parecia exigir planejamento. Encontravam-se no café da manhã, cruzavam corredores, discutiam nas aulas que dividiam e, vez ou outra, permaneciam juntos mesmo depois que a plateia desaparecia. Na segunda-feira, saíram de Feitiços conversando e continuaram até a escadaria muito depois de o corredor esvaziar. Na terça, Sarah passou boa parte de um intervalo reclamando de Transfiguração enquanto Draco lia ao lado dela e corrigia, sem ser solicitado, tudo o que considerava necessário.
Nenhum dos dois parecia disposto a comentar que aquilo já vinha acontecendo com frequência suficiente para deixar de parecer acidente.
🦁🐍
Na quarta-feira, Hogwarts resolveu interferir.
Blaise percebeu que havia alguma coisa errada quando Draco perguntou novamente:
— Onde está Griller?
Ele ergueu os olhos do pergaminho.
— Na biblioteca.
Draco observava o movimento do corredor diante de uma das janelas.
— Sozinha?
Blaise deixou a pena de lado.
— Isso está começando a ficar estranho.
— Só perguntei.
O problema era que não parecia apenas curiosidade. Draco estava inquieto desde o meio da tarde, atento demais a cada aluno que surgia no corredor e incapaz de permanecer muito tempo concentrado em qualquer coisa.
Blaise apoiou-se no encosto do banco.
— O que tem de errado com você?
Draco virou para ele.
— Nada.
Tornou a olhar para o corredor.
— Quero ir à biblioteca.
Blaise passou a mão pelo rosto.
— Claro que quer.
Draco já começava a andar.
— Você vem?
— Alguém precisa testemunhar o desastre.
Encontraram Sarah numa das mesas mais afastadas da biblioteca, cercada por livros, pergaminhos e uma caneca vazia que provavelmente não deveria estar ali. O cabelo estava preso de qualquer jeito no alto da cabeça, e ela mordia a ponta da pena enquanto lia.
Draco parou tão de repente que Blaise, logo atrás, precisou desviar para não esbarrar nele.
— Que foi?
Draco não respondeu. Apenas retomou o caminho.
Sarah levantou a cabeça quando os dois se aproximaram e franziu o cenho assim que olhou para ele.
— Não.
Draco parou diante da mesa.
— O quê?
— Seja lá o que estiver acontecendo com a sua cara, para.
Ele a observou por um instante.
— Seu cabelo está bonito.
Sarah ficou imóvel. Então virou lentamente para Blaise.
— O que aconteceu com ele?
Blaise puxou uma cadeira.
— Ainda estou tentando descobrir.
Draco sentou-se ao lado dela, próximo o bastante para obrigá-la a afastar um dos livros. Sarah baixou os olhos para o joelho dele encostado no seu.
— Por que você está praticamente dentro da minha cadeira?
— Não estou.
Sarah apontou para baixo.
— Seu joelho está encostando no meu.
Draco acompanhou o gesto e não se afastou. Antes que Sarah pudesse reclamar novamente, reparou na mão dela apoiada sobre a mesa e simplesmente a pegou.
— Está fria.
Sarah congelou.
Blaise também.
Draco virou a mão dela na própria palma com uma seriedade absolutamente incompatível com a situação.
— Está gelada.
Sarah encarou Blaise.
— Ele bateu a cabeça?
— Ainda não descartei.
Ela tentou retirar a mão, mas Draco a manteve por um instante.
— Draco.
Ele ergueu os olhos.
— Hm?
— Me solta.
Draco abriu os dedos imediatamente.
— Certo.
Sarah recolheu a mão e a escondeu debaixo da mesa. Draco passou a examinar os livros espalhados diante dela.
— Você está aqui há muito tempo?
— O suficiente. Por quê?
— Comeu alguma coisa desde o almoço?
Sarah piscou.
— Isso é um interrogatório?
— É uma pergunta.
— Por que quer saber?
Draco demorou um instante, como se a pergunta não fizesse sentido.
— Porque você esquece quando está estudando.
Sarah ficou quieta. Blaise inclinou a cabeça.
— Ela esquece?
Draco nem olhou para ele.
— E fica insuportável quando está com fome.
Sarah relaxou um pouco.
— Ah. Aí está você.
— Eu estava aqui o tempo inteiro.
— Tenho minhas dúvidas.
Passos surgiram entre as estantes. Hermione apareceu carregando livros, com Rony logo atrás. Ela viu a mesa e parou tão abruptamente que ele quase esbarrou nela.
— Que foi?
Hermione indicou discretamente o grupo.
Rony olhou. Draco estava praticamente colado em Sarah, enquanto Blaise assistia aos dois com a resignação de alguém que vinha acumulando informações demais.
— Que porra está acontecendo?
Madame Pince ergueu a cabeça ao longe.
— Silêncio!
Rony baixou a voz.
— Que porra está acontecendo?
Sarah abriu os braços.
— Eu adoraria saber.
Hermione deixou os livros sobre a mesa e observou Draco.
— Malfoy, você está bem?
— Perfeitamente.
Blaise fez um ruído de descrença.
Sarah apontou para Draco.
— Ele apareceu aqui, elogiou meu cabelo e decidiu que minhas mãos são responsabilidade dele.
Então olhou para Blaise.
— Espera. Ele estava me procurando?
Draco respondeu antes dele.
— Sim.
Sarah virou para ele.
— Por quê?
A pergunta pareceu confundi-lo.
— Porque queria te ver.
O silêncio veio imediatamente. Rony ficou imóvel. Hermione olhou para Blaise, que ergueu as mãos numa demonstração absoluta de inocência.
Sarah encarou Draco.
— Certo.
Ele franziu o cenho.
— Certo o quê?
— Você definitivamente não está bem.
Draco pareceu ofendido.
— Eu disse que queria te ver, não anunciei uma doença terminal.
Rony murmurou:
— Para você, talvez seja a mesma coisa.
Draco virou para ele.
— Weasley.
— Malfoy.
Rony puxou uma cadeira para perto de Sarah. Draco acompanhou o movimento.
— Tem outras cadeiras.
Rony parou.
— Tem.
— Então use uma.
Sarah levou a mão ao rosto.
— Meu Deus.
Rony sentou naquela mesma cadeira.
— Gosto dessa.
Draco continuou olhando para ele.
Sarah apontou entre os dois.
— Não. Vocês não vão transformar uma cadeira numa disputa territorial.
Hermione já não parecia particularmente entretida.
— Blaise, ele estava assim antes de vir para cá?
— Inquieto. Procurando pela Griller. Mas ficou pior quando encontrou.
Hermione franziu o cenho.
— Alguma coisa diferente aconteceu hoje? Ele comeu ou bebeu alguma coisa fora do habitual?
Blaise pensou.
— Depois do almoço havia uma garrafa de suco na mesa dele.
Draco finalmente desviou a atenção de Rony.
— Eu sempre bebo suco.
— Aquela garrafa não era sua.
— Era igual.
Blaise olhou para Hermione.
— Exatamente.
A expressão dela ficou séria.
— Você bebeu muito?
Draco deu de ombros.
— O suficiente.
Sarah percebeu a mudança na postura da amiga.
— Hermione?
Ela olhou novamente para Draco.
— O início repentino, a inquietação e essa fixação específica... Pode ser uma poção do amor. Ou alguma variação dela.
Rony arregalou os olhos.
— Espera. Alguém fez Malfoy ficar apaixonado por ela?
— Obcecado, não apaixonado — corrigiu Hermione imediatamente. — Poções do amor não criam amor verdadeiro. Algumas formulações podem produzir uma fixação muito específica, mas ainda estou supondo. Precisamos levá-lo à enfermaria.
Draco cruzou os braços.
— Eu não estou obcecado.
Blaise apoiou o queixo na mão.
— Onde está Griller?
Draco lançou-lhe um olhar mortal.
— Ela está literalmente na minha frente.
Rony começou a rir.
Sarah bateu a palma na mesa.
— Isso não tem graça.
— Tem um pouco — disse Rony.
Draco parecia considerar atravessar a mesa. Sarah apontou para ele.
— Não.
Ele parou.
Rony percebeu, e o sorriso que surgiu em seu rosto foi suficiente para Sarah prever uma péssima decisão.
— Rony.
— Pesquisa científica.
Antes que Hermione pudesse impedi-lo, passou um braço pelos ombros de Sarah.
Draco ficou imóvel. Seu olhar desceu diretamente para o braço de Rony.
— Tira.
Rony mordeu a parte interna da bochecha.
— Por quê?
— Porque ela não gosta.
Sarah virou para Draco.
— Eu não gosto?
— Você reclama quando amassam seu cabelo. Ele está amassando.
O sorriso de Rony diminuiu. Sarah levou a mão ao próprio cabelo.
Draco tinha razão.
Isso era irritante.
— Ele presta atenção demais — murmurou ela.
Draco franziu o cenho.
— Você reclama alto demais.
Rony retirou o braço.
— Continua assustadoramente específico.
Hermione fechou os livros.
— Pesquisa encerrada. Enfermaria.
Sarah começou a juntar os pergaminhos e Draco se levantou no mesmo instante.
— Vou com você.
Ela parou.
— Eu também estou indo para a enfermaria, Draco.
— Eu sei. Não vou deixar você andar sozinha.
Rony precisou desviar o rosto.
Sarah fechou os olhos.
— Eu ando sozinha todos os dias.
Draco pareceu considerar aquilo uma informação profundamente inconveniente.
— Isso devia mudar.
Blaise abaixou a cabeça, rindo.
Sarah apontou para ele.
— Para.
— Estou tentando.
— Tenta melhor.
Draco alcançou a mochila dela, mas Sarah segurou primeiro.
— Nem pensa.
— Está pesada.
— Eu sei.
— Você reclama dela o tempo inteiro.
Rony olhou de um para o outro.
— Isso também é efeito da poção ou ele normalmente sabe tudo sobre sua mochila?
— Rony.
— Já parei.
Hermione já se preparava para sair quando parou.
— Blaise, a garrafa.
Ele franziu o cenho.
— O quê?
— A que estava no lugar do Malfoy. Precisamos dela.
Blaise pensou por um instante.
— Se os elfos ainda não recolheram.
— Descubra. Se havia alguma coisa misturada ao suco, não vamos simplesmente deixar a única evidência para trás.
Blaise assentiu.
— Encontro vocês na enfermaria.
Saíram da biblioteca antes que Madame Pince resolvesse fazer isso por eles.
Madame Pomfrey precisou ouvir apenas um resumo dos sintomas para conduzir Draco até uma cama e começar a procurar alguma coisa no armário.
— Outra suspeita de poção do amor.
Sarah ergueu as sobrancelhas.
— Outra?
— Vocês ficariam impressionados com a quantidade de adolescentes que considera alterar magicamente a vontade de outra pessoa uma demonstração aceitável de afeto.
Ela voltou com um copo.
Draco olhou para o líquido.
— Isso tem um cheiro horrível.
— É o antídoto. Beba.
Ele não pegou.
Sarah cruzou os braços.
— Draco.
Draco pegou o copo.
Rony virou para Hermione, que fez um sinal discreto para que ele mantivesse a boca fechada.
Draco bebeu e fez uma careta.
— Isso é repugnante.
— Vai sobreviver — respondeu Madame Pomfrey.
— Esse parece ser o tema da semana.
Ela levou o copo e mandou que esperassem o antídoto fazer efeito. Sarah permaneceu perto da cama enquanto Rony e Hermione ocupavam as cadeiras próximas.
Draco continuava olhando para ela.
— Para.
— O quê?
— De ficar me olhando.
— Você está na minha frente.
Sarah mudou de lugar.
Os olhos dele acompanharam.
Rony começou a rir.
— Isso é incrível.
— Eu vou matar você quando isso passar.
— Ótimo. Já é um sinal de recuperação.
Sarah não conseguiu esconder completamente o sorriso.
Draco percebeu.
— Você está rindo.
— Um pouco.
Aquilo pareceu satisfazê-lo.
A porta da enfermaria se abriu pouco depois, e Blaise entrou segurando a garrafa pela boca.
— Encontrei antes que limpassem a mesa.
Hermione se levantou imediatamente.
— Não bebeu mais ninguém?
— Não que eu tenha visto.
Madame Pomfrey pegou a garrafa com uma expressão de profundo desagrado.
— Vou guardar isto. Se precisarmos saber exatamente o que colocaram aqui, Slughorn poderá analisar o restante.
Draco acompanhou a garrafa desaparecer no armário.
Aos poucos, porém, a inquietação começou a diminuir. Ele piscou, passou a mão pelo rosto e finalmente pareceu registrar o restante da enfermaria. Olhou para Rony, Hermione e Blaise antes de parar em Sarah. Então fechou os olhos.
— Merda.
Rony soltou uma gargalhada.
— Voltou.
Draco abriu os olhos.
— Weasley.
— Definitivamente voltou.
Sarah cruzou os braços.
— Como está?
— Considerando seriamente homicídio.
Blaise sorriu.
— Temos candidatos?
— Você está no topo.
— Injusto. Eu trouxe você até aqui.
— Você riu durante todo o processo.
Hermione se aproximou.
— Você lembra do que aconteceu?
Draco ficou em silêncio.
Rony sorriu.
— Lembra.
— Não fale comigo.
Sarah mordeu o lábio.
Draco imediatamente olhou para ela.
— E você também não.
O sorriso escapou.
— Você disse que queria me ver.
— Eu estava sob efeito de uma poção.
— E disse que meu cabelo estava bonito.
— Quimicamente comprometido.
Draco apertou a ponte do nariz.
Hermione, porém, continuava séria.
— Tem uma coisa que precisamos considerar.
O humor da sala mudou.
Ela olhou para Blaise.
— A garrafa não era dele.
— Não.
— E estava exatamente onde ele costuma sentar.
Blaise assentiu.
Hermione voltou-se para os outros.
— Se realmente havia uma poção nela, precisamos descobrir como foi parar ali. E, se essa formulação foi preparada para provocar uma fixação específica na Sarah, então não foi simplesmente alguém colocando qualquer poção numa bebida ao acaso.
Sarah ficou séria.
— Dá para fazer isso?
— Existem formas de direcionar efeitos desse tipo. Não sei qual foi usada aqui e ainda não sabemos se foi exatamente o que aconteceu. A garrafa deve ajudar a confirmar.
Draco já não parecia constrangido. A postura havia mudado.
Hermione continuou:
— Pode ter sido uma brincadeira cruel, uma tentativa de constranger vocês ou de interferir no namoro que todo mundo acredita que vocês têm. Mas precisamos confirmar antes de concluir qualquer coisa.
Blaise cruzou os braços.
— A garrafa estava no lugar certo para Malfoy pegar sem desconfiar.
Draco olhou para ele.
— Então alguém sabia onde colocar.
— Possivelmente — corrigiu Hermione. — É exatamente por isso que não vamos sair acusando ninguém.
Sarah olhou para Draco.
— Por quê?
Ninguém tinha resposta.
Draco se levantou.
— Vou descobrir.
— Não sozinho — disse Hermione.
— Granger.
— Não sabemos quem fez, por quê ou qual era o objetivo. Sair ameaçando pessoas sem informação nenhuma não ajuda.
Blaise assentiu.
— Ela tem razão.
Draco lançou-lhe um olhar.
— Não se acostume.
Sarah cruzou os braços.
— E ninguém vai sair ameaçando ninguém até a gente entender o que aconteceu.
Draco virou para ela.
— "A gente"?
Sarah percebeu tarde demais.
— Eu fui o alvo da fixação, Malfoy. Acho que ganhei participação no problema.
Ele a observou por um momento.
— Certo.
Rony fez uma careta.
— Eu odeio quando vocês fazem isso.
Sarah virou.
— Isso o quê?
— Começam uma conversa e parecem esquecer que tem mais gente no lugar.
Hermione tocou o braço dele.
— Rony.
— O quê? Acontece.
Sarah revirou os olhos e pegou a bolsa.
Draco passou por ela em direção à saída, mas diminuiu o passo quando chegou ao seu lado. Parou.
Sarah olhou para ele.
Draco observou o cabelo preso de qualquer jeito no alto da cabeça.
— Seu cabelo está bonito.
Sarah ficou imóvel.
Draco retomou o caminho.
Ela virou para ele.
— Você já tomou o antídoto.
Ele olhou por cima do ombro.
— Eu sei.
E saiu.
Sarah permaneceu parada.
Rony olhou para Hermione. Hermione olhou para Blaise. Blaise começou a sorrir.
Sarah apontou para os três.
— Ninguém.
Rony abriu a boca.
— Principalmente você.
Ele tornou a fechá-la.
Sarah pegou a bolsa.
Descobrir quem havia colocado aquela poção no copo de Draco acabara de subir consideravelmente na lista de prioridades.
🦁🐍
Até aquela tarde de quinta-feira, continuavam sem saber quem tinha colocado a poção na bebida de Draco. Madame Pomfrey havia mantido a garrafa para análise, mas ainda não tinham qualquer resposta sobre quem a deixara na mesa ou por quê.
A questão permanecia no ar, mas Gina aparentemente decidira que Sarah já tinha passado tempo demais pensando nela. Depois das aulas, praticamente a arrastara para fora do castelo sob o argumento de que precisava "ver alguma coisa que não tivesse páginas por pelo menos uma hora".
Sarah levara um livro mesmo assim.
Gina confiscara o livro no caminho.
Agora Sarah estava sentada nas arquibancadas do campo de Quadribol, enrolada no próprio casaco enquanto os jogadores da Sonserina cruzavam o céu diante dela. Gina aguardava o horário da Grifinória, marcado logo depois, e ainda tinha alguns minutos antes de precisar descer para o campo.
Sarah puxou as mangas do casaco sobre as mãos.
— Você sabe que eu odeio assistir treino, né?
Gina continuou olhando para o campo.
— Você odeia assistir qualquer coisa que não possa interromper para dar opinião.
— Isso não é verdade.
Gina virou para ela.
Não precisou dizer nada.
Sarah sustentou o olhar antes de ceder.
— Tá. Talvez um pouco.
A ruiva sorriu e voltou a atenção para o treino.
Sarah fez o mesmo.
A Sonserina trabalhava velocidade e recuperação de posse. Perto do gramado, alguns jogadores da Grifinória já começavam a se reunir para o treino seguinte.
Draco estava no ar.
Sarah já o tinha visto jogar antes. Anos em Hogwarts tornavam difícil não assistir a algumas partidas, mesmo quando ela comparecia muito mais por Gina do que pelo esporte.
Mas fazia tempo que não prestava atenção nele de verdade.
E havia alguma coisa diferente em observá-lo agora.
No castelo, Draco parecia sempre controlado demais. A postura reta, os movimentos calculados, a maneira como até gestos banais davam a impressão de passar por algum filtro antes de acontecer.
Na vassoura, aquilo desaparecia.
Ainda havia precisão, talvez até mais do que no chão, mas não havia rigidez. Draco acelerava sem hesitar, inclinava o corpo nas curvas e mudava de direção com uma facilidade que fazia a vassoura parecer menos um objeto sob seu comando e mais uma extensão do movimento.
Sarah acompanhou quando ele atravessou o campo, desviou de outro jogador e tornou a ganhar altura.
Só percebeu que estava olhando havia tempo demais quando Gina falou:
— Você está olhando para o lado errado.
Sarah não desviou imediatamente.
— Não estou.
— O pomo está do outro lado.
Ela finalmente virou para a amiga.
— Eu não estava procurando o pomo.
Gina fez um pequeno som de compreensão.
— Eu sei.
Sarah estreitou os olhos.
— Guarda essa conclusão para você.
— Eu nem cheguei a formular uma.
— Exatamente desse jeito.
— Que jeito?
Sarah abriu a boca, mas não encontrou nenhuma explicação que melhorasse sua situação.
Voltou para o campo.
Draco acabara de mergulhar atrás de outro jogador e subia novamente sem perder velocidade.
Gina acompanhou a direção de seu olhar.
— Muito concentrada para alguém que odeia Quadribol.
— Estou tentando entender por que vocês fazem isso voluntariamente.
— E chegou a alguma conclusão?
— Problemas de julgamento.
Gina assentiu.
— Justo.
Alguém chamou seu nome do gramado. Ela se levantou e começou a ajustar as luvas enquanto descia os degraus.
— Tenta não cair da arquibancada enquanto estuda a psicologia dos sonserinos.
Sarah mostrou o dedo do meio.
Gina riu sem diminuir o passo.
Sozinha, Sarah tentou prestar atenção em qualquer outra coisa.
Realmente tentou.
Não funcionou.
Quando percebeu, Draco estava novamente em seu campo de visão, pairando acima dos outros jogadores enquanto esperava uma jogada se formar. O vento empurrava o cabelo claro para trás, e foi então que Sarah entendeu o que havia chamado sua atenção desde o início.
Ele parecia mais leve.
Não exatamente feliz. A palavra não encaixava.
Mas menos cansado.
A tensão que Sarah vinha percebendo havia dias parecia ter ficado no chão junto com todas as outras coisas que Draco insistia em controlar. Lá em cima, havia apenas a próxima jogada, a próxima curva, o movimento da vassoura.
Por um instante, ele parecia simplesmente ocupado em voar.
Sarah não soube por que aquilo lhe chamou tanta atenção. Gostou menos ainda de perceber que continuava olhando.
Draco inclinou a vassoura para corrigir a direção e virou o rosto para as arquibancadas.
Sarah ficou imóvel.
A distância era grande demais para ter certeza de que ele olhava especificamente para ela.
Então Draco fez um pequeno movimento com a cabeça.
Merda.
Sarah respondeu da mesma maneira, tentando transmitir uma casualidade que provavelmente não enganaria ninguém.
Draco permaneceu no ar por um instante antes de voltar ao treino.
Sarah cruzou os braços.
— Ridículo — murmurou.
Não havia ninguém perto o bastante para perguntar a quem se referia.
Quando o treino da Sonserina terminou, Gina já estava no campo com Harry e os outros jogadores da Grifinória, preparando-se para o horário seguinte. Sarah desceu das arquibancadas e esperou perto da saída enquanto os sonserinos começavam a abandonar o gramado carregando vassouras e equipamentos.
Draco apareceu pouco depois com a vassoura apoiada no ombro. O vento tinha acabado completamente com qualquer tentativa de ordem em seu cabelo, havia uma marca avermelhada perto da mandíbula e suas bochechas ainda estavam coradas pelo esforço.
Quando viu Sarah, diminuiu o passo.
— Griller.
Ela encostou melhor as costas na madeira atrás de si.
— Malfoy.
Draco olhou para o campo e localizou Gina.
— Weasley ainda está lá.
— Eu sei.
— Então está esperando por ela.
Sarah arqueou uma sobrancelha.
— Impressionante.
— Só queria esclarecer.
Ela baixou os olhos para a vassoura.
— Então você voltou mesmo para o time.
Draco passou os dedos distraidamente pelo cabo de madeira.
— Ao que tudo indica.
— Gina comentou depois daquele treino.
— Imagino que tenha sido um relato equilibrado.
— Nem um pouco.
Sarah inclinou o rosto.
— Por que voltou?
Draco deu de ombros.
— Precisavam de jogador.
— Essa é a resposta oficial?
Ele soltou o ar pelo nariz.
— Você sempre faz interrogatórios depois de treino?
— Só quando as respostas são ruins.
Draco ajustou a vassoura no ombro e tornou a olhar para o campo.
Sarah imaginou que o assunto morreria ali.
Quando ele respondeu, porém, a voz veio sem ironia.
— Lá em cima ninguém me pergunta nada.
Sarah ficou quieta.
Draco manteve os olhos no gramado.
— Era uma das poucas coisas que ainda parecia normal.
A simplicidade da resposta tirou dela qualquer vontade de transformá-la numa piada.
Sarah pensou no que havia acabado de observar. Lá em cima, Draco não parecia esperar pelo próximo problema, pela próxima pergunta ou por alguma coisa que precisasse controlar.
— Entendi.
Ele virou para ela.
— Só isso?
— Você queria uma análise?
— Normalmente você tem várias.
Sarah ajeitou o casaco.
— Posso inventar uma, se estiver decepcionado.
— Não precisa.
Ela ainda relacionava a resposta ao que tinha visto quando acabou dizendo:
— Você fica diferente lá em cima.
Draco franziu o cenho.
— Diferente como?
Sarah escolheu as palavras.
— Menos... você.
— Isso parece ofensivo.
— Era um elogio.
— Piorou.
Sarah riu.
— Quero dizer que você parece menos preocupado em controlar tudo.
Draco não respondeu de imediato. Apenas mudou o peso da vassoura sobre o ombro, e Sarah decidiu não pressionar.
— Continua arrogante, obviamente. Só mais rápido.
— Que alívio.
— Não queria destruir sua reputação.
Draco passou a mão pelos cabelos numa tentativa inútil de reorganizá-los.
Sarah sorriu.
— Não adianta.
A mão dele parou.
— O quê?
— Seu cabelo. Está horrível.
Draco passou os dedos pelos fios novamente.
— Melhor?
Sarah fez uma careta.
— Pior.
Ele tentou outra vez.
Ela começou a rir.
— Para de mexer. Vai ficar impossível.
Draco deixou a mão cair.
— Eu odeio você.
Sarah ainda sorria.
— Não parece.
A resposta escapou fácil demais. O silêncio que veio depois foi breve, mas suficiente para que Sarah percebesse exatamente o que tinha dito.
Voltou os olhos para o campo.
— Quero dizer... considerando a quantidade de tempo que você passa voluntariamente me irritando.
Draco demorou um pouco para responder.
— Você facilita.
Sarah olhou novamente para ele.
— Que romântico.
— Não estrague.
Ela sorriu.
Do outro lado do campo, Gina gritou seu nome.
Sarah virou na direção dela.
— Estou indo!
Quando tornou a olhar, Draco já começava a se afastar.
— Malfoy.
Ele olhou por cima do ombro.
Sarah indicou a vassoura.
— Você joga bem.
Draco parou.
Por um instante, não respondeu.
Sarah quase se permitiu aproveitar a rara oportunidade de tê-lo deixado sem provocação.
— Eu sei.
Ela revirou os olhos.
— Pronto. Estragou.
— Você demorou bastante para comentar. Não vou fingir modéstia agora.
Sarah sustentou seu olhar.
— Eu já sabia. Só nunca tinha dito.
Dessa vez, Draco realmente ficou sem resposta. Não houve nada dramático; apenas um intervalo inesperado antes que ele encontrasse alguma coisa segura para devolver.
Sarah decidiu não lhe dar tempo.
Virou-se na direção de Gina.
— Até amanhã, Malfoy.
A resposta veio atrás dela:
— Até, Griller.
Sarah continuou andando sem olhar para trás.
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