No sábado, Hogsmeade estava cheia.

Alunos atravessavam a rua principal em grupos, entrando e saindo das lojas com sacolas, doces e bebidas quentes nas mãos, enquanto uma camada fina de névoa pairava sobre os telhados.

Sarah caminhava ao lado de Draco. Apenas ao lado. Tinha deixado isso bastante claro ainda no caminho.

— Não precisamos exagerar.

Draco lançou-lhe um olhar.

— Você dormiu no meu ombro no Grande Salão.

— Eu estava cansada.

— Sei.

Sarah virou para ele.

— Você gostou.

— Não invente fatos.

— Você se ajeitou para eu ficar confortável.

— Havia uma grifinória encostando em mim. Era uma situação de emergência.

Sarah riu.

— Ah, sim. O trauma.

— Você não entenderia.

Draco enfiou as mãos nos bolsos do casaco e olhou ao redor.

— Além disso, metade da escola está aqui.

— Exatamente. Já estão nos vendo juntos. Isso basta.

— Você está surpreendentemente econômica com a atuação hoje.

— Talvez eu esteja poupando energia.

— Para quê?

— Para sobreviver à sua companhia até o fim da tarde.

— Romântico.

Sarah virou o rosto para ele.

— Tem palavra melhor?

— Tenho várias. Nenhuma apropriada para uma via pública.

Sarah riu e, por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Antes que o silêncio ganhasse peso, ela apontou para uma das lojas.

— Quero ir à Dedosdemel.

— Claro que quer.

— Qual é o problema?

— Nenhum. Só explica muita coisa.

Sarah franziu o cenho.

— O quê?

— Sua personalidade.

Ela tentou acertá-lo com o cotovelo.

Draco desviou.

— Violência outra vez.

— Você merece.

— Você usa essa justificativa para tudo.

— Porque funciona.

Entraram na loja e Sarah saiu carregando mais doces do que pretendia comprar.

Ou teria saído, se Draco não tivesse tomado uma das sacolas.

Sarah olhou para a mão dele.

— Você está carregando minhas coisas.

— Estou impedindo que você derrube tudo.

— Namorado exemplar.

— É uma sacola, Griller. Não transforme isso em virtude.

Sarah sorriu.

— Está ficando bom nisso.

Draco olhou para ela.

— Em quê?

Ela gesticulou entre os dois.

— Nisso.

Ele acompanhou o movimento.

— Fingir?

A palavra pousou entre eles com um peso estranho.

Sarah demorou um pouco para responder.

— É.

Draco desviou os olhos para a rua.

— Prática.

— Claro.

Continuaram andando.

Mais tarde, Sarah parou diante da Madame Puddifoot.

Draco olhou para ela.

Depois para a fachada excessivamente decorada.

Depois novamente para Sarah.

— Não.

Ela começou a rir.

— O quê?

— Isso é demais.

— Você sugeriu Hogsmeade.

— Não sugeri uma casa de chá.

Sarah inclinou a cabeça.

— Vai ficar aí fora?

— Estou considerando.

— Por causa de uma casa de chá?

— Por causa das implicações.

Sarah sorriu.

— Isto não é um encontro, lembra? Então entra.

— Sua lógica é péssima.

— Mas você ainda não saiu correndo.

Draco estreitou os olhos.

Sarah sorriu.

Por um momento, ele pareceu considerar seriamente ir embora.

Em vez disso, abriu a porta.

— Insuportável.

Sarah entrou.

— Corajoso.

— Não se acostume.

Encontraram uma mesa e, pouco depois, uma garçonete aproximou-se com os cardápios.

— Primeira vez aqui juntos?

Sarah e Draco se entreolharam.

— Sim — respondeu Sarah.

— Não — disse Draco ao mesmo tempo.

A garçonete piscou. Sarah virou lentamente para ele.

— Excelente.

— Você respondeu errado.

— Eu respondi errado?

A garçonete tentou esconder o sorriso. Não conseguiu. Sarah voltou-se para ela.

— É a primeira vez que viemos aqui juntos.

Enfatizou a última palavra.

Draco apoiou o cotovelo na mesa.

— Foi exatamente o que eu quis dizer.

Sarah arregalou os olhos.

— Você disse não.

— Porque já estive aqui antes.

— A pergunta claramente não era essa.

A garçonete riu.

Sarah apontou para Draco.

— Está vendo com o que eu tenho que lidar?

— Diariamente — respondeu ele.

A garçonete olhou de um para o outro, divertida.

— Vocês são engraçados.

— Não encoraje — disseram os dois juntos.

Sarah fechou os olhos.

Draco passou a mão pelo rosto.

— Perfeito.

A garçonete ainda sorria quando perguntou o que queriam beber.

— Chocolate quente — disse Sarah.

Draco nem abriu o cardápio.

— Café.

Sarah baixou o próprio.

— Você tem uma página inteira de bebidas e vai pedir café?

— Sim.

— Nem considerou outra coisa?

— Não.

— Chá?

— Não.

— Chocolate?

— Griller.

— Alguma coisa que justifique ter entrado numa casa de chá?

Draco apoiou o cardápio sobre a mesa.

— Eu queria café.

Sarah balançou a cabeça.

— Você é profundamente sem graça.

A garçonete mordeu o lábio para não rir.

— Querem alguma coisa para comer?

Sarah examinou a lista.

— O que você recomenda?

— Os bolinhos com creme são bons para dividir.

Draco levantou os olhos imediatamente.

— Não precisamos dividir.

Sarah olhou para ele.

Depois para a garçonete.

— Vamos querer os bolinhos.

— Griller.

— O quê?

— Eu posso pedir minha própria comida.

— E eu posso ignorar você.

— Isso você faz com competência assustadora.

A garçonete anotou e saiu antes que Draco encontrasse mais argumentos.

Sarah esperou até que ela estivesse longe para começar a rir.

— Nem uma palavra.

— Você entrou em pânico.

— Eu não entro em pânico.

— Você respondeu "não" como se ela tivesse perguntado se pretendia se casar comigo.

Draco fez uma expressão horrorizada.

— Não diga coisas assim em público.

Sarah riu ainda mais.

— Está vendo? Pânico.

— Instinto de sobrevivência.

Quando os pedidos chegaram, Sarah recebeu uma caneca enorme de chocolate quente coberto por creme, raspas de chocolate e canela.

Draco analisou a bebida.

— Isso é uma sobremesa.

— Isso é felicidade.

— Tem mais açúcar aí do que em toda a Dedosdemel.

Sarah olhou para a xícara preta diante dele.

— Está com inveja porque seu café parece água de pântano.

— Isto é café.

— Isto é sofrimento líquido.

— Adultos bebem café.

— Você tem dezessete anos.

— Detalhes.

Sarah tomou um gole e fechou os olhos.

— Merlin.

Quando os abriu, Draco estava olhando para ela por cima da própria xícara.

Sarah arqueou uma sobrancelha.

Ele bebeu como se não tivesse sido pego fazendo absolutamente nada.

— O quê?

— Nada.

— Você está sorrindo para uma bebida.

Sarah olhou para a caneca.

— Porque ela merece. Está muito bom.

Empurrou-a na direção dele.

— Experimenta.

Draco olhou para o chocolate.

Depois para Sarah.

— Não.

— Experimenta.

— Não gosto de chocolate quente.

— Você nem provou esse.

— Pretendo continuar vivo sem a experiência.

Sarah aproximou a caneca.

— Medroso.

Os olhos cinzentos se estreitaram.

— Essa estratégia não vai funcionar sempre.

— Funcionou com a casa de chá.

Draco ficou em silêncio.

Depois pegou a caneca.

Sarah abriu um sorriso vitorioso.

Ele provou e fez uma careta.

— Isso é açúcar derretido.

— Você gostou.

— Não gostei.

— Gostou um pouco.

— Minha boca está dormente.

— Exagerado.

Draco devolveu a caneca.

— Fique com seu açúcar líquido.

Sarah tomou outro gole.

— Seu café continua parecendo depressão.

Draco empurrou a própria xícara na direção dela.

— Quer experimentar?

Sarah olhou para o líquido escuro.

— Não.

O canto da boca dele se ergueu.

— Medrosa.

Sarah estreitou os olhos.

Pegou a xícara e provou.

A expressão de desgosto veio imediatamente.

— Horrível.

— Você não tem paladar.

— Isso parece castigo.

— Isso é café de verdade.

— Explica muita coisa sobre sua personalidade.

Draco recuperou a xícara.

— E você caiu na provocação mesmo assim.

Sarah apoiou a caneca sobre a mesa.

— Talvez eu tenha dificuldade em resistir a decisões questionáveis.

O olhar de Draco permaneceu nela.

— Isso explicaria bastante coisa.

Sarah sustentou o olhar.

A resposta parecia falar de outra coisa.

Ela apontou para a xícara dele.

— Exceto escolher isso quando existe um cardápio inteiro.

— Café não é uma decisão ruim.

— É falta de imaginação.

— Você pediu chocolate quente.

— Exatamente. Evolução.

Draco soltou um som baixo pelo nariz e tornou ao café.

Os bolinhos chegaram logo depois, cobertos por uma quantidade pouco razoável de creme.

Draco olhou para o prato.

— Isso parece um ataque.

— Você reclama muito para alguém que vai acabar comendo.

— Não vou.

Não demorou muito para Sarah perceber que boa parte do prato havia desaparecido do lado dele.

Ela apontou.

— Hipócrita.

— São aceitáveis.

— Claro.

Sarah pegou outro e o creme escapou pelo canto de sua boca.

— Merda.

Tentou limpar.

Draco fez uma careta.

— Você piorou.

Sarah parou.

— Onde?

Passou o guardanapo pela bochecha.

— Do outro lado.

Tentou novamente.

— Griller, é no canto da boca.

Sarah ficou imóvel.

Draco, graças a Merlin, apenas apontou para o próprio rosto.

— Mais para a esquerda.

Ela finalmente acertou.

— Pronto?

Ele demorou um instante antes de responder.

— Pronto. Você come como uma criança.

— Obrigada pela delicadeza.

A garçonete passou ao lado deles.

— Mais alguma coisa para o casal?

Sarah e Draco olharam para ela.

Dessa vez, nenhum corrigiu.

— Não, obrigado — respondeu Draco.

— Estamos bem — acrescentou Sarah.

A garçonete assentiu e se afastou.

Sarah ficou olhando para ele.

— Você não corrigiu.

Draco arqueou uma sobrancelha.

— Corrigir o quê?

— Ela chamou a gente de casal.

— Tecnicamente, é exatamente isso que estamos tentando fazer todo mundo acreditar.

Sarah piscou.

— Ah.

Uma pequena risada escapou.

Por mais irritante que fosse admitir, ele tinha razão.

— Faz sentido.

Draco tomou mais um gole de café.

— Além disso, seria estranho corrigir depois de você ter me arrastado para uma casa de chá.

— Eu não te arrastei.

— Coerção emocional.

— Você sentou porque quis.

Draco olhou para ela.

A frase permaneceu entre os dois.

Porque quis.

Ele poderia ter ido embora.

Não foi.

Assim como na cozinha.

Draco desviou os olhos primeiro.

— Coma seu bolinho, Griller.

Sarah escondeu o sorriso atrás da caneca.

— Sim, querido.

Draco revirou os olhos.

Mas permaneceu ali.

🦁🐍

Quando saíram da loja, Hogsmeade estava ainda mais cheia. Alunos ocupavam quase toda a rua, entrando e saindo dos estabelecimentos e se acumulando diante das vitrines.

Sarah precisou desviar de um grupo antes de parar diante de uma loja de penas, tinteiros e objetos que provavelmente custavam mais do que deveriam.

Draco ajeitou a sacola que carregava e apontou para o outro lado da rua.

— Preciso passar ali. Deixei uma encomenda para buscar.

Sarah acompanhou o gesto.

— Vai.

Draco continuou parado.

— Você fica?

Sarah virou para ele.

— Malfoy, eu tenho dezessete anos. Acho que sobrevivo sem supervisão aristocrática.

— Tenho dúvidas.

Mesmo assim, começou a se afastar.

Sarah fez um gesto impaciente.

— Vai embora.

Draco atravessou a rua, mas ainda olhou por cima do ombro.

— Não se meta em problemas.

Sarah ficou encarando-o.

— Você acabou de mandar eu não me meter em problemas?

— Exatamente.

— Hipócrita.

Draco ergueu uma das mãos.

— Já volto, Griller.

— Some, Malfoy.

Ele desapareceu entre os alunos.

Sarah voltou para a vitrine, ainda considerando particularmente ofensivo receber conselhos sobre prudência de Draco Malfoy.

Não ficou sozinha por muito tempo.

— Que cena adorável.

Sarah fechou os olhos.

Claro.

— Parkinson.

Pansy parou ao seu lado, impecável como sempre, com o uniforme arrumado apesar de horas andando pelo vilarejo e um sorriso pequeno demais para ser amigável.

Sarah continuou olhando para a vitrine.

— Se veio comprar alguma coisa, a porta é logo ali.

— Não vim comprar.

— Que pena.

Pansy não foi embora.

Sarah acabou cedendo e virou para ela.

— Então?

— É verdade.

Sarah arqueou uma sobrancelha.

— Muita coisa é verdade. Vai precisar especificar.

— Você e Draco. Aqui.

Sarah olhou ao redor.

— Hogsmeade costuma permitir estudantes aos fins de semana.

Pansy não se divertiu.

— Ele realmente veio passar a tarde com você.

— Tecnicamente, ele veio passar a tarde em Hogsmeade. Eu também estou aqui. Uma coincidência geográfica impressionante.

— Engraçadinha.

— Tento.

Pansy cruzou os braços.

— Está gostando?

O veneno na pergunta dispensava explicações.

Sarah sustentou seu olhar.

— Bastante.

— Imagino.

Sarah tornou à vitrine.

— Ótimo. Fico feliz que tenhamos resolvido isso.

— Você realmente acha que significa alguma coisa?

Sarah não respondeu imediatamente.

Pansy continuou:

— Ele carregando suas coisas. Sentando com você. Aparecendo na mesa da Grifinória. Vindo a Hogsmeade com você.

Alguma coisa desconfortável apertou o peito de Sarah.

Não porque Pansy tivesse mencionado algo que ela própria não houvesse percebido.

Esse era justamente o problema.

— Você presta bastante atenção no que eu faço.

— Não em você.

Pansy deu um pequeno passo na direção dela.

— Nele.

Sarah finalmente a encarou.

— Isso eu já tinha percebido.

A boca de Pansy se contraiu.

— Então talvez devesse perceber outra coisa também. Draco tem uma tendência irritante a acreditar que pode fazer o que quiser e lidar com as consequências depois.

— Até pouco tempo você parecia convencida de que ele perderia o interesse em mim antes que alguém precisasse se preocupar com consequências.

Algo oscilou na expressão de Pansy.

Sarah viu.

— Talvez eu tenha subestimado o tamanho da idiotice.

Sarah arqueou uma sobrancelha.

— Isso quase parece uma admissão de erro. Quer que eu registre?

O olhar de Pansy endureceu.

— Não confunda persistência com importância, Griller.

A frase acertou.

Sarah não pretendia demonstrar, mas o pequeno brilho satisfeito nos olhos de Pansy indicou que talvez tivesse percebido.

— Você acha mesmo que algumas semanas apagam anos?

— Não. Tenho memória.

— Então sabe quem ele é.

— Sei.

— Sabe de onde ele vem.

Sarah ficou quieta.

Pansy inclinou ligeiramente a cabeça.

— Você vê Draco fazendo coisas que nunca fazia antes e acha que isso muda tudo que existe em volta dele.

Sarah fechou os dedos dentro dos bolsos.

— E você veio até aqui para me explicar Malfoy?

— Não. Vim lembrar que você não conhece tudo que vem junto com ele.

— Então explica.

Pansy manteve a voz baixa.

— Famílias como a dele não tratam certas escolhas como assuntos particulares.

— E isso deveria significar o quê?

— Que você está confortável demais achando que o que acontece entre vocês só diz respeito a vocês dois.

Ali estava.

Malfoy e Griller.

Puro-sangue e nascida trouxa.

Tudo aquilo que Sarah sempre soubera e que ultimamente vinha conseguindo esquecer com facilidade demais.

— Você parece muito empenhada em me lembrar disso.

— Talvez porque esteja confortável demais esquecendo.

Sarah sustentou seu olhar.

— Isso não é problema seu.

Algo mudou brevemente na expressão de Pansy.

Não parecia exatamente ciúme.

Parecia irritação.

Talvez preocupação, embora Sarah não estivesse disposta a lhe conceder interpretação tão generosa.

— Você não sabe metade do que pensa que sabe.

Sarah franziu o cenho.

— Sobre Draco?

Pansy hesitou.

— Sobre gente como ele.

A resposta não satisfez.

— Isso foi dramaticamente vago.

— Tome como quiser.

Sarah ficou olhando para ela.

Sem convite, lembrou-se da primeira noite.

Pansy no corredor.

A pressa.

O pequeno objeto prateado nas mãos dela antes da explosão na Ala Norte.

A associação surgiu rápido demais para formar qualquer conclusão.

Sarah a guardou mesmo assim.

— Você está se esforçando demais, Parkinson.

— Para quê?

— Para me atingir.

Pansy inclinou o rosto.

— Está funcionando?

Sarah sorriu.

— Menos do que você gostaria.

Era mentira.

Pansy pareceu saber.

— Você nunca foi particularmente boa em esconder quando alguma coisa incomoda.

— Engraçado. Eu diria o mesmo de você.

A expressão de Pansy endureceu.

Sarah sentiu uma pequena satisfação.

— Se veio defender território, está desperdiçando seu tempo.

— Não estou defendendo território.

— Ótimo. Porque Draco não é um.

Pansy respirou fundo.

— Estou tentando impedir que ele transforme uma decisão impulsiva num problema maior do que imagina.

Sarah soltou uma risada curta.

— Gina disse praticamente a mesma coisa sobre mim. Talvez vocês devam fundar um clube.

— Não me compare com uma Weasley. — Pansy avançou ligeiramente. — Weasley não sabe como essas famílias funcionam.

— E você sabe. Já entendi.

— Não. Acho que não entendeu.

O tom fez Sarah prestar atenção.

Pansy baixou ainda mais a voz.

— Existem coisas das quais você deveria ficar longe simplesmente porque não pertencem a você.

A frase deveria soar apenas como mais uma provocação sobre Draco. Não soou.

— Draco também não pertence a você.

O rosto de Pansy endureceu.

— Não foi isso que eu disse.

— Mas é o que parece estar tentando provar desde que chegou.

Pansy recuperou a expressão controlada.

— Aproveite Hogsmeade, Griller. Só não cometa o erro de achar que uma tarde agradável muda o lugar de onde cada um de vocês veio.

Sarah não respondeu.

Pansy deu um passo para trás.

— Algumas coisas parecem muito diferentes quando deixam de ser brincadeira.

Antes que Sarah encontrasse uma resposta, ela se afastou.

Sarah permaneceu diante da vitrine, olhando o próprio reflexo no vidro.

Era só Pansy.

Ela queria provocar.

Queria fazê-la se sentir deslocada.

Provavelmente era só isso.

Mas as palavras permaneceram.

Famílias como a dele não tratam certas escolhas como assuntos particulares.

Pansy não tinha inventado a diferença entre Sarah e Draco. Sarah sempre soubera que ela existia.

Só tinha parado de pensar nela.

— Griller?

Sarah se virou.

Draco tinha voltado, segurando um pequeno pacote embrulhado em papel escuro. Ao vê-la parada diante da vitrine, reduziu o passo.

— O que aconteceu?

— Nada.

A resposta saiu automática.

— Você estava bem quando eu saí.

— Continuo bem.

Draco não insistiu de imediato. Olhou além dela. Pansy ainda podia ser vista mais adiante.

— Parkinson falou com você.

Sarah deu de ombros.

— Infelizmente.

— O que ela disse?

— Nada importante.

— Sarah.

Ela odiava quando ele fazia aquilo.

O primeiro nome, a voz baixa, a atenção inteira voltada para ela.

— Draco, sério. Não quero falar sobre isso.

Ele continuou observando-a.

Sarah tentou sorrir.

Não funcionou.

— Vamos?

Draco não se mexeu.

— Você está chateada.

— Não estou.

A sobrancelha dele subiu.

Sarah perdeu a paciência.

— Você virou especialista em mim agora?

A frase saiu mais dura do que pretendia.

Draco recuou o suficiente para fazê-la se arrepender.

Sarah passou a mão pelos cabelos.

— Eu só não quero falar sobre isso, está bem?

Ele olhou novamente na direção de Pansy.

— Posso perguntar para ela.

Draco começou a se virar.

Sarah segurou seu braço.

— Não.

Ele baixou os olhos para a mão dela.

— Não vai.

— Por quê?

Sarah soltou o braço.

— Porque aí ela vai saber que conseguiu exatamente o que queria. E eu não vou dar esse prazer para ela.

Draco ainda parecia insatisfeito.

— O que ela disse?

— Deixa pra lá.

Ele sustentou o olhar por um momento antes de assentir.

— Certo.

Sarah piscou.

— Certo?

— Você pediu para deixar pra lá.

Ela demorou um pouco.

— Ah.

— Isso não significa que eu tenha acreditado no "não foi nada".

Sarah desviou os olhos.

— Chato.

— Frequentemente.

Draco ergueu a embalagem.

— Vamos.

Sarah o acompanhou.

Durante algum tempo, caminharam sem falar. As palavras de Pansy permaneciam incômodas demais, mesmo com o barulho das ruas ao redor.

Sarah olhou discretamente para Draco.

Casaco escuro impecável, postura reta; as pessoas abriam espaço quando ele passava. Pansy tinha sido cruel, mas não inventara o abismo entre o mundo dele e o de Sarah.

Talvez Sarah só tivesse começado a esquecê-lo porque Draco também parecia esquecer quando estavam sozinhos.

Na cozinha, sentara no chão com ela para dividir torta.

No castelo, continuava por perto quando não havia ninguém observando.

E naquele dia tinha ido a Hogsmeade porque quis.

Era mais fácil ignorar sobrenomes quando Draco fazia coisas assim.

— Está com frio?

Sarah piscou.

— O quê?

Ele indicou as mãos escondidas nos bolsos.

— Você está tentando desaparecer aí dentro.

— Um pouco.

Continuaram andando.

Draco ainda a observou por um momento antes de estender a mão.

Sarah olhou para os dedos abertos.

Depois para ele.

— O que é isso?

— Uma mão, Griller.

— Essa parte eu reconheci.

— Fico aliviado.

Sarah não a segurou.

Draco deixou o braço cair.

Pouco depois, chamou:

— Sarah.

Ela levantou os olhos.

O tom era diferente.

— Sobre aquele dia...

Sarah soube imediatamente.

O corredor.

A discussão.

A palavra que ele quase tinha usado.

— Ah.

Draco manteve os olhos na rua.

— Eu não devia ter feito aquilo.

Sarah franziu o cenho.

— Você não fez.

— Cheguei perto o suficiente. Nós dois sabemos o que eu ia dizer.

Sarah ficou quieta.

— Sabemos.

O desconforto nele era tão evidente que, em qualquer outra situação, Sarah teria aproveitado.

Não naquela.

— Foi uma merda.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Essa é sua versão de um pedido de desculpas?

— Estou chegando lá.

— Desculpa. Não queria interromper o evento histórico.

— Griller.

Sarah quase sorriu.

Draco respirou fundo.

— Eu estava com raiva. Não justifica. Não devia ter chegado nem perto de usar aquilo contra você. Então... desculpa.

Não havia sarcasmo.

Nem explicação tentando reduzir a culpa.

Sarah tentou levar a solenidade do momento a sério. Não conseguiu.

— Você está bem?

A expressão dele se fechou.

— Não estrague.

Sarah riu.

A primeira risada verdadeira desde que Pansy aparecera.

Draco percebeu.

— Estou falando sério.

Ela assentiu.

— Eu sei.

Ele esperou.

— E?

— E o quê?

— Vai mesmo me deixar depois de eu me humilhar dessa maneira?

Sarah sorriu.

— Desculpas aceitas.

A tensão nos ombros dele diminuiu.

— Ótimo.

— Mas você demorou.

— Não abuse.

— Estou preservando o registro histórico.

Draco revirou os olhos.

Então estendeu a mão novamente.

Sarah olhou para ela.

— Isso faz parte da atuação?

Houve uma pequena hesitação.

— Estamos em Hogsmeade.

Claro.

Alunos por toda parte.

Gente olhando.

O álibi continuava sendo uma explicação perfeitamente disponível.

Sarah tirou a mão do bolso e entrelaçou os dedos aos dele.

Draco fechou a mão ao redor da sua e retomaram o caminho.

Depois de algum tempo, os dedos dele apertaram os de Sarah.

Uma única vez.

Pequeno demais para qualquer pessoa passando pela rua perceber.

Sarah percebeu.

Virou o rosto.

Draco continuava olhando para a frente.

— Estou melhor — disse ela, mais baixo.

Ele olhou para Sarah.

— Eu não perguntei.

— Eu sei.

Draco sustentou seu olhar.

— Ótimo.

Sarah sorriu.

Continuaram andando de mãos dadas por Hogsmeade.

Havia plateia suficiente para explicar o gesto.

A mão dada podia ficar na conta do namoro falso.

O aperto dos dedos era um pouco mais difícil.