A bruxa que não estava no roteiro.
3 Capítulo 3.
Na manhã seguinte, Sarah desceu para o Grande Salão com uma decisão simples: agir normalmente.
Parecia um plano razoável.
Durou aproximadamente até ela atravessar as portas.
O burburinho habitual não chegou a cessar, mas mudou de natureza à medida que Sarah avançava entre as mesas. Algumas conversas diminuíam quando ela passava; outras começavam logo depois. Ela continuou andando como se não percebesse os olhares que saltavam da Grifinória para a Sonserina e depois voltavam para ela.
Não precisou esperar muito para descobrir o motivo.
— Dizem que Snape encontrou Malfoy e Griller juntos nas masmorras — cochichou uma garota da Corvinal alguns lugares adiante.
Outra se inclinou imediatamente.
— Juntos como?
— Juntos.
— Isso não explica nada.
A primeira garota baixou ainda mais a voz, embora não o suficiente.
— Eu ouvi que estavam se agarrando.
Uma risadinha veio logo depois.
— O Malfoy perdeu completamente o juízo.
Sarah continuou andando.
Não fazia ideia de como aquela história tinha conseguido sair das masmorras. Poderia ter sido um retrato, um fantasma, algum aluno que passara pelo corredor, alguém que vira Snape chegando ou simplesmente a capacidade sobrenatural de Hogwarts de pegar meia informação e transformá-la em certeza coletiva antes do café da manhã.
O fato era que um beijo que deveria ter servido apenas para sustentar uma mentira durante trinta segundos agora tinha se transformado em entretenimento público.
Na mesa da Sonserina, Draco estava sentado entre Blaise e Pansy. Mantinha a atenção no próprio prato com dedicação excessiva, rígido demais para alguém que supostamente não prestava atenção ao restante do salão.
Pansy parecia particularmente desagradável naquela manhã. Não dizia nada, mas também não precisava. Sarah desviou os olhos antes que os das duas se encontrassem.
Fugir seria pior, portanto atravessou o restante do salão, chegou à mesa da Grifinória e se sentou ao lado de Harry como se absolutamente nada estivesse acontecendo.
Por isso atravessou o restante do salão, chegou à mesa da Grifinória e se sentou ao lado de Harry como se absolutamente nada estivesse acontecendo.
Rony estava com uma torrada parada a meio caminho da boca. Hermione segurava uma xícara de chá que claramente não vinha bebendo havia algum tempo. Harry simplesmente olhava para Sarah.
Ela puxou uma tigela de aveia para perto.
— Bom dia. Dormiram bem?
Ninguém respondeu.
Sarah começou a se servir.
— Ótimo papo. Muito acolhedor.
Harry foi o primeiro a quebrar o silêncio. Inclinou-se um pouco na direção dela.
— Sarah, essa história sobre você e o Malfoy...
Ela virou imediatamente para Rony.
— O suco está melhor hoje?
Rony, pego de surpresa, olhou para o próprio copo.
— Está. Bem melhor, na verdade. Ontem estava com uma textura estranha.
Sarah concentrou-se na aveia como se aquela fosse uma discussão muito importante.
— Deve ter sido a polpa.
Rony estreitou os olhos.
— Você falou exatamente isso ontem.
— Porque continua sendo uma excelente explicação.
— Não é, não.
— Você bebeu mesmo assim.
Ele pareceu ofendido com a lógica.
— Eu estava com sede.
Sarah apontou a colher para ele.
— Está vendo? E sobreviveu. Melhorias.
Rony ainda a observou por um momento antes de pegar outra torrada.
— Também tem um bolão na Torre.
A colher de Sarah parou no meio do caminho.
Ela virou lentamente o rosto.
— Tem um quê?
Rony mastigou antes de responder.
— Um bolão. Sobre vocês.
— Vocês estão apostando na minha vida?
— Na duração dela — corrigiu ele. — Mais especificamente, dessa parte envolvendo Malfoy.
Sarah largou a colher.
— Isso não melhora em absolutamente nada o que você acabou de dizer.
— Simas acha que vocês chegam até sexta. Dino apostou no fim do mês. Eu coloquei cinco sicles em tentativa de homicídio antes do jantar.
Sarah ficou olhando para ele.
— Você apostou contra mim?
Rony franziu o cenho, genuinamente confuso.
— Não. Apostei contra a capacidade de vocês dois permanecerem no mesmo ambiente por mais de seis horas sem alguém sacar uma varinha. É diferente.
Harry abafou uma risada.
Sarah apontou para Rony.
— Obrigada pela confiança.
— Sete anos vendo vocês discutirem em corredores, Sarah. Não estou trabalhando sem evidências.
Ela voltou para a aveia, decidida a ignorar todos eles.
O problema era que Hermione ainda a encarava.
Sarah pegou outra colherada.
Hermione continuou olhando.
Ela mastigou.
Nada.
Por fim, Sarah largou a colher.
— Para de me olhar assim.
Hermione ergueu as sobrancelhas.
— Assim como?
— Como se estivesse montando um daqueles quadros investigativos dentro da cabeça e faltasse só começar a ligar as coisas com barbante.
Hermione tomou um gole do chá.
— Ainda não comecei.
Sarah parou.
— Isso foi uma ameaça?
— Um aviso.
Antes que a discussão avançasse, Rony estendeu a mão para pegar mais torradas e, no caminho, empurrou discretamente um prato para mais perto de Hermione.
— Come alguma coisa.
Ela nem olhou.
— Estou comendo.
Rony lançou um olhar significativo para a xícara diante dela.
— Chá não conta.
— Eu vou comer.
— Você disse isso há dez minutos.
Hermione soltou o ar, pegou uma torrada e levantou-a ligeiramente na direção dele.
— Pronto. Satisfeito?
Rony voltou ao próprio prato.
— Bastante.
Sarah olhou de um para o outro.
Nenhum dos dois pareceu perceber que havia qualquer coisa digna de nota naquela interação.
Interessante.
Ela estava prestes a comentar quando McGonagall surgiu entre as mesas distribuindo os horários das aulas. Deixou o de Sarah diante dela e, em vez de seguir imediatamente, permaneceu parada por um segundo além do necessário.
Sarah ergueu os olhos.
McGonagall a observou por cima dos óculos.
Não disse absolutamente nada.
Então seguiu adiante.
Sarah esperou até que ela estivesse longe antes de soltar o ar.
— Isso foi muito pior do que se ela tivesse falado alguma coisa.
Harry assentiu.
— Foi.
Sarah pegou o horário.
A primeira aula era Feitiços.
Ótimo.
Flitwick, pelo menos, provavelmente estaria mais interessado em feitiços do que na velocidade com que a vida social dela havia se transformado numa tragédia pública.
Começou a guardar as coisas e procurava a alça da mochila quando uma mão pousou sobre seu ombro.
Sarah congelou.
Atrás dela, Rony parou de mastigar.
— Bom dia, leãozinha.
O silêncio ao redor da mesa foi imediato.
Sarah fechou os olhos.
Não.
Não havia acontecido.
Abriu-os novamente e olhou por cima do ombro.
Draco Malfoy estava parado atrás dela com uma expressão educada demais para ser verdadeira.
— Posso acompanhar você até a aula?
Sarah simplesmente o encarou.
Leãozinha.
Ele tinha acabado de chamá-la de leãozinha.
No meio do Grande Salão.
Draco sustentou seu olhar como se aquilo fosse perfeitamente normal. A única coisa que o traía era a rigidez do maxilar.
Rony foi o primeiro a recuperar a capacidade de falar.
— Quero mudar minha aposta.
Sarah chutou a canela dele por baixo da mesa.
— Ai!
— Foi sem querer.
Rony fez uma careta.
— Não foi.
Draco desviou os olhos para ele.
— Algum problema, Weasley?
Rony pareceu pensar seriamente na pergunta.
— Vários. Mas esse é novo.
— Rony — advertiu Hermione.
Sarah se levantou antes que aquilo conseguisse se transformar em outra coisa.
— Certo. Vamos.
Estendeu a mão para pegar a mochila, mas Draco chegou primeiro.
Sarah segurou a alça ao mesmo tempo que ele.
— Eu consigo carregar minha própria mochila.
— Eu sei.
— Então me dá.
Draco puxou a mochila para si e a colocou no ombro.
Sarah ficou olhando.
Ele respondeu apenas:
— Griller.
Ela apertou os lábios.
Claro.
Aquilo não era sobre a mochila.
Olhares vinham de todos os lados. Da mesa da Grifinória, da Sonserina e, a julgar pelo silêncio suspeito nas mesas vizinhas, provavelmente de metade do Grande Salão.
Sarah soltou a alça.
— Certo. Excelente. Maravilhoso.
Draco fez um pequeno gesto na direção da saída.
— Depois de você.
Sarah começou a andar antes que sua vontade de estrangulá-lo superasse qualquer preocupação com as aparências.
Ao passar por Harry, ouviu Rony murmurar:
— Retiro o homicídio antes do jantar.
Harry respondeu em voz igualmente baixa:
— Já?
— Agora acho que vai ser mais elaborado.
Sarah continuou andando.
Principalmente porque, se olhasse para trás, provavelmente começaria a rir.
Assim que as portas do Grande Salão se fecharam atrás deles e o barulho ficou abafado do outro lado, Sarah parou no meio do corredor.
Draco ainda deu mais dois passos antes de perceber que ela não o acompanhava.
— Leãozinha?
Ele se virou com a maior naturalidade do mundo.
— Funcionou.
Sarah ficou olhando para ele, incrédula.
— Você me chamou de leãozinha.
— Estou ciente. Eu estava lá.
— Na frente de todo mundo.
— Esse era exatamente o objetivo.
Sarah apontou para ele.
— Nunca mais.
Draco pareceu pouco impressionado com a ameaça.
— Não seja dramática.
— Malfoy, parece nome de animal de estimação.
— Você é da Grifinória.
— E daí?
Ele fez um pequeno gesto, como se a lógica fosse óbvia.
— Leão.
Sarah apertou os olhos.
— Eu entendi a associação. Ela continua sendo ridícula.
Draco pareceu considerar aquilo por um momento.
— Precisamente por isso funciona. Ninguém inventaria uma coisa tão ruim sem algum motivo.
Sarah abriu a boca para discutir, mas desistiu.
Infelizmente, havia alguma lógica naquela atrocidade.
Draco tirou a mochila dela do ombro e a deixou junto aos pés de Sarah.
— Agora que não tem ninguém olhando, pode voltar a carregar.
Sarah olhou para a mochila, depois para ele.
— Que cavalheiro.
— Não espalhe. Tenho uma reputação.
Ela pegou a mochila e a colocou no ombro.
— Então aquilo foi o quê? Uma apresentação oficial?
Draco cruzou os braços.
— Controle de danos.
Sarah soltou uma risada curta.
— Achei que você tivesse odiado a minha mentira.
— Eu odeio. Profundamente.
— Não parecia, enquanto você estava me chamando de leãozinha e carregando minha mochila pelo Grande Salão.
Draco respirou fundo, já demonstrando sinais de que se arrependia de ter vindo falar com ela.
— Minha manhã começou com Zabini perguntando se deveria reservar um lugar na primeira fileira do nosso casamento. Parkinson passou o café inteiro agindo como se eu tivesse cometido um crime contra a linhagem bruxa. E dois alunos que nunca dirigiram uma palavra a mim na vida decidiram me dar parabéns. Então, não, Griller. Eu não estou me divertindo.
Sarah mordeu a parte interna da bochecha para conter um sorriso.
Não conseguiu completamente.
— É um pouco engraçado.
— Não é.
— Um pouco.
— Griller.
O sorriso dela desapareceu aos poucos.
A conversa do dia anterior voltou à memória com facilidade demais.
Sarah ajustou a alça da mochila.
— Eu sinto muito pela história com Snape.
Draco não respondeu imediatamente. O olhar dele se afastou por um instante antes de voltar para ela.
— Devia.
— Eu estava desesperada.
— Isso ficou bastante evidente.
Ela deixou passar.
Havia outra coisa que não pretendia deixar.
— Mas não significa que eu esqueci o que você quase me chamou ontem.
A mudança nele foi pequena, mas clara. Draco olhou para o corredor lateral, como se verificasse se estavam realmente sozinhos, e só então tornou a encará-la.
— Eu sei.
Sarah esperou.
Quando ficou claro que aquilo era tudo, franziu o cenho.
— Só isso?
— Só isso o quê?
— “Eu sei”. Achei que talvez viesse alguma coisa depois.
A mandíbula dele se contraiu.
Por alguns segundos, Draco pareceu considerar uma resposta diferente. Quando falou, porém, sua voz estava mais baixa.
— Não tenho mais nada para dizer sobre isso agora.
Sarah permaneceu olhando para ele.
Parte dela queria insistir. Queria obrigá-lo a dizer em voz alta exatamente o que quase tinha acontecido e por que ele parara.
Mas qualquer pedido de desculpas arrancado à força provavelmente não valeria muita coisa.
— Certo.
Draco franziu o cenho, quase desconfiado.
— Certo?
— Não significa que passou. Só significa que não vou ficar arrancando uma resposta de você no meio do corredor.
Ele sustentou o olhar dela.
— Eu sei.
Dessa vez, Sarah acreditou.
Respirou fundo e resolveu voltar ao problema mais imediato.
— Então explica uma coisa. Se você odeia tanto essa história, por que acabou de fazer questão de piorar tudo?
Draco soltou o ar pelo nariz.
— Porque sua mentira funcionou bem demais.
Sarah inclinou a cabeça.
— Isso continua parecendo uma coisa boa.
— Não quando metade da escola acredita nela.
— Você preferia que ninguém acreditasse?
— Eu preferia que você não tivesse inventado.
— Essa opção já passou.
Draco olhou para ela como se dissesse exatamente.
— E é esse o problema. Se nós dois começarmos agora a negar desesperadamente qualquer coisa, alguém vai querer saber por quê.
Sarah ficou quieta.
O tom dele havia mudado de novo. Não era mais irritação por causa dos boatos.
Era preocupação real.
Draco continuou:
— Snape sabe que estávamos juntos. Sabe que você mentiu sobre alguma coisa. E existe uma investigação sobre a Ala Norte acontecendo. Se, depois de ontem, nós começarmos a agir como se a ideia de estarmos juntos fosse absurda, alguém pode resolver descobrir o que realmente estávamos fazendo naquele corredor.
O estômago de Sarah apertou um pouco. Aquilo fazia sentido demais.
Então outra coisa lhe ocorreu.
— E o seu pai?
Draco ficou imóvel por um instante.
— O que tem ele?
— Ontem você praticamente fez um discurso sobre o quanto seria ruim se essa história chegasse até ele. Hoje você resolveu chamar atenção de metade de Hogwarts.
A expressão de Draco se fechou um pouco.
— Continuo preferindo que ele não saiba.
— Sua estratégia está excelente.
Ele ignorou a provocação.
— Se eu tiver que escolher entre explicar ao meu pai um boato ridículo sobre você e explicar por que meu nome apareceu perto de uma investigação da Ala Norte, fico com o boato.
Sarah ficou olhando para ele.
Aquilo dizia mais sobre a Ala Norte do que Draco provavelmente pretendia.
— Então você quer que a gente...
— Não.
Ela piscou.
— Você nem sabe o que eu ia dizer.
Draco lançou-lhe um olhar cansado.
— Sei perfeitamente.
Sarah sorriu, já sabendo que ele odiaria.
— Finja que está namorando?
Draco fechou os olhos por um instante.
— Eu pedi explicitamente para você não terminar essa frase.
Sarah cruzou os braços.
— Mas é isso.
— Não. É sustentar uma versão.
— Namoro falso.
— Álibi.
— Namoro falso.
— Griller.
— Você pode chamar do que quiser. Continua sendo namoro falso.
Draco passou a mão pelo rosto.
— Até a história da Ala Norte esfriar, se alguém perguntar, nós estávamos juntos naquela noite. Se comentarem, não vamos reagir como se a ideia fosse impossível. E, principalmente, você não inventa mais absolutamente nada sem falar comigo antes.
Sarah inclinou a cabeça.
— Parece cheio de regras para uma coisa que você se recusa a chamar de namoro falso.
— Primeira regra: pare de chamar assim.
— Essa eu já vou quebrar.
— Imaginei.
Passos começaram a surgir atrás das portas do Grande Salão, junto com o aumento gradual das vozes. O café da manhã estava terminando.
Draco olhou por cima do ombro.
— Temos que ir.
Sarah ajeitou melhor a mochila.
— Posso carregar agora ou isso prejudica nossa paixão devastadora?
Ele lançou-lhe um olhar seco.
— Aqui, pode.
— Que pena. Eu estava começando a gostar da servidão.
— Não abuse da sorte.
Voltaram ao fluxo de alunos que começava a ocupar os corredores. Dessa vez, Draco não pegou a mochila, não tocou nela e nem tentou criar qualquer novo gesto para alimentar a história. Apenas caminhou ao seu lado, perto o bastante para que, visto de longe, parecesse uma escolha intencional.
Não demorou para Sarah notar alguns cochichos.
— Estão olhando.
— Eu sei.
Ela virou o rosto para ele.
— Você sempre sabe quando estão olhando?
— Quando são tão discretos quanto Weasley tentando ouvir uma conversa atrás de uma porta, sim.
Sarah soltou uma risada curta.
— Ele não é tão ruim assim.
— Você é amiga dele. Seu julgamento está comprometido.
— E você é você. O seu já nasceu comprometido.
Draco assentiu lentamente.
— Tocante.
Andaram mais alguns metros antes de Sarah tornar a falar.
— Então qual é o plano, de verdade?
— Parecer minimamente plausíveis.
Sarah fez uma careta.
— Isso não é um plano.
— É mais do que tínhamos ontem.
— Ontem eu tinha um plano.
Draco virou o rosto para ela.
— Você me beijou por pânico.
— E funcionou.
Ele respirou fundo.
— Essa frase ainda vai acabar me matando.
Sarah sorriu.
— Então o Rony perdeu cinco sicles.
Draco olhou para ela, confuso.
— Ele realmente apostou em homicídio?
— Antes do jantar. Segundo ele, era análise estatística.
Draco pareceu refletir seriamente sobre a informação.
— Retiro o que disse. Há algum método.
Sarah apontou para ele.
— Não incentive.
Sarah e Draco chegaram à sala de Feitiços ainda discutindo, embora, a essa altura, ela já não soubesse exatamente se continuavam a mesma discussão do corredor ou se tinham começado outra no caminho.
Alguns alunos já estavam sentados. Draco entrou primeiro, lançou um olhar rápido para as mesas disponíveis e ocupou uma delas, deixando vaga a cadeira ao lado.
Sarah parou a alguns passos.
Ele abriu a mochila como se não houvesse nada estranho naquilo.
— Você decidiu que eu vou sentar aí?
Draco ergueu os olhos.
— Você prefere atravessar a sala inteira e fingir que não me conhece cinco minutos depois de sair comigo do Grande Salão?
Sarah olhou ao redor.
Duas pessoas já estavam observando.
Talvez três.
Soltou o ar e puxou a cadeira.
— Odeio quando você tem razão.
— Vai ser um ano difícil para você.
Ela se sentou e começou a tirar o material da mochila. Draco fez o mesmo, e por alguns segundos os dois conseguiram permanecer em silêncio.
Sarah foi a primeira a estragar.
— Só para constar, isso não significa que vamos começar a sentar juntos em todas as aulas.
Draco nem levantou os olhos do pergaminho.
— Não pretendia convidar você.
— Ótimo.
— Excelente.
Mais alguns segundos.
Sarah abriu o tinteiro.
Tentou deixar para lá.
Não conseguiu.
— E “leãozinha” continua sendo ridículo.
Draco virou uma página com calma.
— Funcionou.
— Uma coisa não anula a outra.
— Você continua falando sobre isso. Estou começando a considerar uma vitória.
Sarah estava procurando uma resposta suficientemente ofensiva quando Flitwick entrou na sala e obrigou todos a se aquietarem.
A aula começou com uma revisão de teoria antes da parte prática. Sarah gostava de Feitiços. Nunca fora do tipo que conseguia tudo na primeira tentativa, mas aprendia rápido e tinha uma teimosia particular com qualquer feitiço que se recusasse a sair exatamente como queria. Se errava, repetia. Se errava de novo, repetia mais uma vez. Em algum momento, normalmente por pura insistência, conseguia.
Flitwick ainda terminava de formular uma pergunta quando a mão de Sarah já estava no ar.
Ao seu lado, Draco virou discretamente o rosto.
Sarah percebeu.
— O quê? — murmurou, sem baixar a mão.
— Nada.
— Você olhou.
Ele voltou a atenção para a frente.
— Você ainda faz isso.
Sarah franziu o cenho.
— Faço o quê?
— Levanta a mão antes de ele terminar a pergunta.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
A palavra havia chamado mais atenção do que o comentário.
— “Ainda”?
Draco parecia muito interessado nas próprias anotações de repente.
— Você faz isso desde o primeiro ano.
Sarah esqueceu completamente o que Flitwick estava perguntando.
— E você lembra?
Draco deu de ombros, mantendo os olhos para a frente.
— É difícil esquecer quando alguém parece passar as aulas competindo com Granger para responder primeiro.
— Eu não compito com Hermione.
— Naturalmente.
— Não compito.
— Senhorita Griller?
Sarah virou-se tão depressa para a frente que quase derrubou a pena.
— Sim, professor.
Por sorte, ainda lembrava a pergunta.
Respondeu corretamente, e Flitwick assentiu, satisfeito, antes de continuar a explicação.
Sarah esperou alguns segundos e se inclinou discretamente na direção de Draco.
— Viu?
Ele virou apenas os olhos para ela.
— O quê?
— Acertei.
Houve uma pequena pausa.
— Parabéns. Um acontecimento histórico.
Sarah conteve um sorriso e voltou ao pergaminho.
— Você está com inveja.
— De você saber teoria básica do sétimo ano?
— O tom parece inveja.
— O diagnóstico parece delírio.
Sarah sorriu para as anotações e decidiu que aquela discussão, pelo menos, tinha sido vencida por ela.
Alguns minutos depois, Flitwick passou à parte prática da aula.
Sarah executou o movimento indicado.
Nada aconteceu.
Franziu o cenho e tentou novamente. Ao seu lado, Draco realizou o encantamento na primeira tentativa, e Sarah desviou os olhos primeiro para o resultado dele e depois para seu rosto.
Draco já estava olhando para ela.
Sarah levantou um dedo.
— Nem uma palavra.
Ele tornou a atenção para o próprio exercício.
— Eu não disse nada.
— Seu silêncio foi arrogante.
— Meu silêncio não tem personalidade própria, Griller.
— O seu tem.
Ela repetiu o encantamento.
Dessa vez alguma coisa aconteceu, mas o resultado foi fraco demais para satisfazê-la.
Sarah ajeitou a varinha para tentar novamente.
— Pulso.
Ela parou e olhou para Draco.
Ele continuava trabalhando no próprio exercício.
— O quê?
— Seu pulso. Você está fechando o movimento cedo demais.
Sarah observou a posição da própria mão, desconfiada, mas repetiu o encantamento seguindo a orientação.
Melhor.
Bem melhor.
Ela virou lentamente para ele.
— Você estava me observando?
Draco finalmente ergueu os olhos.
— Estava tentando impedir que seu feitiço viesse parar na minha mesa.
Sarah tornou a olhar para o resultado.
— Funcionou.
— Infelizmente.
Ela tentou mais uma vez.
Dessa vez, o encantamento saiu exatamente como deveria.
Sarah sorriu imediatamente.
— Agora sim.
Draco examinou o resultado por um instante.
— Aceitável.
Sarah virou para ele.
— Você é fisicamente incapaz de elogiar alguém como uma pessoa normal?
— Sou perfeitamente capaz. Ainda não vi motivo.
Ela bufou e voltou ao exercício.
Era irritante.
Mais irritante ainda era saber que ele estivera certo sobre o pulso.
O restante da aula passou sem nada particularmente extraordinário. Discutiram duas vezes sobre a pronúncia de um encantamento, uma sobre quem estava ocupando espaço demais na mesa e outra porque Draco insistia que a pena de Sarah estava invadindo o lado dele, acusação que ela considerava completamente infundada.
Em algum momento entre uma discussão e outra, Sarah simplesmente parou de pensar no fato de estar sentada ao lado de Draco Malfoy.
Talvez porque aquilo fosse estranhamente fácil.
O sinal tocou antes que ela tivesse qualquer motivo para pensar melhor sobre isso.
Sarah começou a guardar o material enquanto Draco se levantava. Fechou a mochila depressa e a colocou no ombro antes que ele sequer olhasse em sua direção.
— Nem tenta.
Draco franziu o cenho.
— Eu não fiz nada.
— Estou me prevenindo.
— Paranoica.
— Experiente.
Saíram juntos da sala, misturados aos outros alunos. Na primeira bifurcação do corredor, Draco parou.
Sarah continuou andando.
— Griller.
Ela deu mais dois passos.
— Griller.
Sarah finalmente virou.
Draco apontou para o corredor oposto.
— Sua próxima aula é para lá.
Ela olhou por cima do ombro.
Depois para a escada à frente.
Então voltou a olhar para ele.
— Eu sabia.
Draco não disse nada.
O que, de alguma maneira, era pior.
Sarah estreitou os olhos.
— Pode falar.
— Não tenho nada para dizer.
— Ótimo.
— Ótimo.
Ela voltou pelo corredor com toda a dignidade que ainda conseguia reunir.
Draco começou a andar ao lado dela.
Sarah lançou-lhe um olhar.
— Você não precisa vir.
— Minha aula também é nessa direção.
Ela demorou um instante.
— Certo.
Draco olhou de lado.
— Decepcionada?
— Profundamente. Eu estava apreciando a despedida.
— Vai sobreviver, leãozinha.
Sarah parou no meio do corredor.
Draco continuou andando.
— MALFOY.
Ele nem olhou para trás.
— Estamos em público, Griller.
Sarah acelerou o passo para alcançá-lo, já preparando uma lista bastante razoável de motivos pelos quais aquele apelido precisava morrer antes do fim do dia.
Só quando chegaram à escada seguinte percebeu que continuavam andando juntos.
Nenhum dos dois tinha perguntado se o outro queria companhia.
Nenhum dos dois parecia ter achado necessário.
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