A bruxa que não estava no roteiro.
4 Capítulo 4.
No dia seguinte, Sarah chegou à sala de História da Magia e encontrou, mais uma vez, a cadeira ao lado de Draco vazia.
Parou diante da mesa.
As outras duas cadeiras próximas estavam ocupadas: uma pela mochila dele; a outra, por uma pilha de livros e pergaminhos que claramente poderiam estar em qualquer outro lugar.
Sarah olhou para a única cadeira disponível.
Depois para Draco.
— Você está fazendo isso de novo.
Ele ergueu os olhos do livro.
— Fazendo o quê?
Sarah apontou para as cadeiras ao redor.
— Guardando lugar para mim.
Draco acompanhou o gesto, como se estivesse vendo a própria mochila e os livros pela primeira vez.
— Não coloquei nenhuma placa.
— Você literalmente eliminou todas as outras opções.
Ele olhou para a mochila.
Depois para a pilha de livros.
— Que coincidência inconveniente.
Sarah ficou encarando-o por um segundo, mas acabou puxando a cadeira vazia e se sentando.
— Muito sutil, Malfoy.
Draco voltou ao livro.
Sarah abriu o próprio material, mas a questão continuou incomodando o suficiente para que ela tornasse a olhar para ele.
— Só para constar, você sabe que eu disse para Snape que a gente estava se beijando, não que estava namorando, certo?
Draco fechou os olhos por uma fração de segundo.
— Lembro dolorosamente bem do que você disse.
— Então quem transformou isso numa história de namoro foi você.
Dessa vez ele fechou o livro e virou um pouco na direção dela.
— Foi você quem inventou o beijo, Griller. Eu só estou tentando impedir que a história desmorone em cima de nós.
Sarah apontou discretamente para a cadeira em que estava.
— Isso ainda não explica o lugar reservado.
— Você pode aceitar ou procurar outro.
Ela olhou ao redor.
A sala começava a encher, e dois alunos algumas fileiras atrás já prestavam atenção demais na conversa.
Sarah tornou a encará-lo.
— Mandão.
— Demorada.
— Eu não estava demorando. Estava questionando minhas escolhas.
Draco abriu novamente o livro.
— Recomendo fazer isso com mais frequência.
Antes que Sarah pudesse responder, o professor Binns atravessou o quadro-negro e começou a falar no meio de uma frase sobre conflitos entre comunidades bruxas no século XVII.
Ninguém pareceu saber se aquilo era continuação da última aula ou se ele simplesmente tinha passado os últimos dois dias discursando sozinho em algum lugar do castelo.
Sarah abriu o pergaminho e começou a escrever.
Durante alguns minutos, conseguiu acompanhar de verdade. Copiou datas, nomes e acontecimentos com alguma atenção, mas a voz monocórdica de Binns foi aos poucos se misturando ao som das penas arranhando pergaminhos e ao calor sonolento da sala.
Quando percebeu, havia desenhado três círculos no canto da página enquanto copiava uma data.
Estava começando o quarto quando alguma coisa branca pousou ao lado de sua mão.
Sarah parou.
Um pequeno pássaro de papel bateu as asas uma última vez antes de ficar imóvel sobre o pergaminho.
Ela olhou para Draco.
Ele continuava escrevendo como se não tivesse absolutamente nada a ver com aquilo.
Sarah pegou o pássaro e desfez as dobras com cuidado.
Você está prestes a dormir.
Ela virou o rosto novamente.
Draco não olhou.
Sarah pegou a pena e escreveu logo abaixo:
Estou prestando atenção.
Tentou refazer as dobras.
Falhou na segunda.
Tentou outra vez.
O resultado parecia menos um pássaro e mais alguma criatura que tivesse sofrido um acidente grave durante o voo.
Foi isso que finalmente fez Draco olhar.
Sarah colocou o papel deformado diante dele.
— Nem uma palavra.
O canto da boca dele quase se mexeu.
Quase.
Draco pegou o bilhete, escreveu alguma coisa, refez as dobras em poucos movimentos e tocou o papel com a ponta da varinha. O pequeno pássaro ganhou vida novamente e atravessou a curta distância entre os dois.
Sarah o abriu.
Abaixo da própria resposta, havia uma nova frase:
Você desenhou quatro círculos enquanto escrevia que estava prestando atenção.
Sarah olhou para o pergaminho.
Quatro círculos.
Droga.
Pegou a pena outra vez.
Talvez seja um ritual para fazer você desaparecer.
Dessa vez nem tentou dobrar. Apenas empurrou o papel na direção dele.
Draco leu.
Não escreveu imediatamente.
Em vez disso, pegou a pena da mão de Sarah antes que ela pudesse impedir e acrescentou uma última linha:
Precisa melhorar a execução. Continuo aqui.
Sarah leu.
Depois olhou para ele.
— Infelizmente.
Draco devolveu a pena.
— Presta atenção na aula, Griller.
— Você começou.
— E já estou arrependido.
Sarah dobrou o papel uma vez e o escondeu debaixo do pergaminho.
A conversa deveria ter terminado ali.
Binns continuou falando, Sarah voltou às anotações e, por alguns minutos, conseguiu acompanhar de verdade. Quando os olhos começaram a pesar outra vez, ajeitou-se na cadeira e obrigou a mão a continuar copiando uma sequência de datas que provavelmente esqueceria antes do jantar.
— Griller.
Ela continuou escrevendo.
— O quê?
— Você pulou uma.
Sarah parou e conferiu o quadro.
Tinha mesmo.
Acrescentou a data no espaço certo.
— Obrigada.
Draco virou outra página.
— Não transforme isso num evento.
Sarah olhou para ele de lado.
— Você também faz isso?
Ele franziu ligeiramente o cenho.
— O quê?
— Fica prestando atenção no meu pergaminho em vez da aula?
Draco baixou os olhos para a mesa.
— Seu pergaminho está ocupando metade do meu espaço. É difícil não perceber.
Sarah acompanhou o olhar.
Estava mesmo.
Puxou o pergaminho alguns centímetros para o próprio lado.
— Resolvido.
— Finalmente.
Ela voltou a escrever.
Dessa vez, não conversaram mais.
Quando Binns atravessou o quadro-negro ainda falando sobre alguma disputa que ninguém parecia disposto a acompanhar até a próxima sala, os alunos começaram a guardar o material.
Sarah enrolou o pergaminho e encontrou o pequeno pássaro achatado embaixo dele.
Pegou-o.
Era só um pedaço de papel. Algumas frases idiotas trocadas durante uma aula entediante. Não servia para absolutamente nada. Sarah poderia ter jogado fora.
Ficou olhando para ele por um instante a mais do que precisava.
Então dobrou o papel outra vez, sem qualquer tentativa de reproduzir o pássaro, e o colocou no bolso das vestes.
Draco já guardava o próprio livro e, se percebeu o que ela tinha feito, não comentou.
Sarah fechou a mochila.
— Hoje não vai sequestrar minhas coisas?
Ele ergueu os olhos.
— Ontem estávamos saindo do Grande Salão na frente de metade da escola.
Sarah colocou a mochila no ombro.
— Então era só atuação.
Draco demorou um instante antes de responder.
— Era esse o acordo.
Sarah ajeitou a alça.
— Ótimo.
— Ótimo.
Nenhum dos dois pareceu particularmente convencido.
Saíram da sala junto com o restante dos alunos e, durante alguns metros, caminharam lado a lado mais porque o corredor estava cheio demais para qualquer outra coisa do que por escolha.
Quando chegaram à primeira bifurcação, Sarah começou a virar à esquerda.
— Griller.
Ela parou.
Draco apontou com o livro para o corredor oposto.
Sarah olhou para onde estava indo.
Depois para onde ele indicava.
— Eu sabia.
Draco ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
— Então estava fazendo um desvio recreativo?
Sarah mudou de direção com toda a naturalidade que conseguiu reunir.
— Exatamente.
— Fascinante.
Ela lançou-lhe um olhar atravessado enquanto voltava a andar.
— Você é muito irritante para alguém que passou a aula inteira me mandando bilhetinho.
Draco acompanhou o passo.
— Foi um bilhete.
— Foi e voltou.
— Continua sendo o mesmo pedaço de papel.
Sarah pensou por um instante.
— Tecnicamente, foram várias mensagens.
Draco virou o rosto para ela.
— Você está contabilizando?
— Estou registrando os fatos.
— Isso é preocupante.
Sarah ignorou.
— E você fez um passarinho.
— Era o método de transporte.
— Um passarinho.
— Griller.
Ela olhou para ele com um sorriso que já começava a aparecer.
— Achei delicado.
Draco parou por uma fração de segundo.
Foi pouco.
O suficiente.
Sarah percebeu e continuou andando antes que ele encontrasse uma resposta.
— Anda, cobrinha.
Dessa vez, foi Draco quem ficou para trás.
— Não.
Sarah começou a rir.
Virou-se parcialmente enquanto caminhava.
— O quê?
Ele a alcançou alguns passos depois, visivelmente pouco impressionado.
— Isso não vai acontecer.
— Espera. Você pode me chamar de leãozinha, mas eu não posso te chamar de cobrinha?
— Exatamente.
Sarah fez uma careta.
— Regra injusta.
— Sobreviva.
Ela ainda sorria quando chegaram à escada seguinte.
Só então percebeu duas coisas.
A primeira era que o corredor já tinha esvaziado bastante. Não havia ninguém perto o suficiente para prestar atenção neles, nenhum motivo para sustentar aparência alguma, e mesmo assim Draco continuava caminhando ao seu lado como se não tivesse ocorrido a nenhum dos dois que poderiam simplesmente seguir caminhos separados.
A segunda era o pequeno volume amassado no bolso das vestes.
O pássaro de papel ainda estava ali.
Sarah passou os dedos rapidamente sobre o tecido, apenas para confirmar.
Não comentou nenhuma das duas coisas.
Draco também não.
Na aula seguinte, o período passou sem bilhetes, apelidos ou qualquer nova tentativa de Draco de monopolizar as cadeiras ao redor. Sarah chegou a considerar aquilo um progresso.
Quando o sino finalmente tocou, a sala inteira se levantou num atropelo de capas, livros e bolsas. Sarah começou a juntar suas coisas enquanto Draco enrolava o próprio pergaminho sem qualquer pressa.
Ela estava prestes a alcançar a mochila quando ele a pegou primeiro.
Outra vez.
Sarah ficou com a mão suspensa no ar.
— Malfoy...
Draco colocou a mochila no próprio ombro.
— Vamos, leãozinha.
Sarah fechou os olhos por um instante.
— Não.
— Não queremos que a nossa paixão tórrida dure apenas dois dias, queremos?
Ela tornou a encará-lo.
— Você está gostando demais disso.
— Da sua humilhação pública?
— Da historinha.
Draco começou a andar em direção à porta.
— Não se iluda.
Sarah o acompanhou, e bastou os dois aparecerem no corredor — Draco carregando a mochila dela como se aquilo já fosse rotina — para alguns cochichos recomeçarem ao redor.
Ela ouviu uma risada alguns passos atrás.
— Maravilha.
Draco inclinou ligeiramente o rosto para ela.
— Tente parecer menos miserável. Está comprometendo a credibilidade da nossa paixão devastadora.
Sarah virou para ele.
— Se você falar “paixão” mais uma vez, eu vou—
— Você está se divertindo um pouco demais com essa situação, Draco.
A voz de Pansy cortou o corredor antes que Sarah terminasse.
Os dois pararam.
Pansy estava alguns passos à frente, posicionada de um jeito que tornava impossível continuar sem passar por ela. Seu olhar foi primeiro para Draco, depois para a mochila de Sarah pendurada no ombro dele.
Demorou ali um pouco mais do que precisava.
— Não sabia que tinha desenvolvido gosto por carregar as coisas dos outros.
Draco soltou o ar devagar.
— E desde quando minhas escolhas dependem da sua aprovação, Parkinson?
Pansy ergueu o queixo.
— Não dependem. Só achei que você tivesse critérios melhores.
A irritação de Sarah veio rápido.
Até a noite da explosão, Pansy praticamente se recusava a reconhecer sua existência. Agora parecia subitamente muito interessada.
— Engraçado. Até ontem você fazia um esforço impressionante para fingir que eu não existia.
Pansy voltou o rosto para ela.
— Até poucos dias atrás você não estava desfilando pelos corredores com Draco Malfoy.
Sarah olhou para a própria mochila no ombro dele.
— “Desfilando” me parece um pouco dramático.
— Você sempre tem alguma coisa para dizer?
Sarah deu de ombros.
— Quando falam comigo, geralmente.
Ao lado dela, Draco murmurou:
— Griller.
Sarah ignorou.
Pansy cruzou os braços e voltou a atenção para ele.
— Sinceramente, Draco, você pretende continuar com isso por quanto tempo?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Com o quê?
— Não se faça de idiota.
— Vai precisar ser mais específica.
Pansy lançou um olhar breve na direção de Sarah.
— Isso.
Sarah abriu a boca, mas Draco respondeu antes.
— Meu relacionamento com Griller não é assunto seu.
Por pouco Sarah não virou o rosto para encará-lo.
Relacionamento.
Até então, Draco insistira em chamar aquilo de álibi, versão, controle de danos — qualquer palavra que não se parecesse remotamente com namoro.
Agora, diante de Pansy, aparentemente tinha decidido abraçar o vocabulário.
Sarah não sabia se aquilo fazia parte da encenação ou se ele só estava tentando irritá-la.
Provavelmente os dois.
Pansy ficou em silêncio por um instante.
— Você não pode estar falando sério.
— Posso.
— Ela é uma grifinória.
Sarah levantou uma mão.
— Presente.
Pansy nem olhou.
— E, caso tenha esquecido, seu sobrenome ainda é Malfoy.
Draco ajeitou a alça da mochila de Sarah no ombro.
— Obrigado pelo lembrete. Tenho o hábito terrível de esquecer.
— Não é engraçado.
— Também não achei que fosse.
Pansy apertou os braços contra o peito.
— Todo mundo está falando de vocês.
— Percebi.
— E você simplesmente não se importa?
Draco demorou um pouco antes de responder.
— Com as fofocas?
— Com o que isso parece.
Dessa vez, a pausa foi maior.
Sarah percebeu a mudança antes mesmo de ele falar.
— Para quem?
Pansy não respondeu de imediato.
Por alguns segundos, Sarah teve a sensação desconfortável de estar presenciando uma conversa que começara muito antes de ela chegar ali.
Olhou de um para o outro.
— Isso está ficando estranhamente pessoal.
Pansy voltou-se para ela.
— Não se dê tanta importância, Griller.
Sarah soltou uma pequena risada.
— Está um pouco difícil, considerando que você me parou no meio do corredor para discutir com quem eu estou saindo.
— Eu não estou discutindo sua vida amorosa.
Sarah apontou para Draco.
— Então fale com ele. Foi ele quem decidiu aderir ao serviço de carregador.
Draco olhou de uma para a outra.
— Não me coloque no meio da discussão de vocês.
Sarah virou-se para ele.
— Você já está no meio. Literalmente é sobre você.
— Esse é exatamente o problema.
Pansy pareceu perder o resto da paciência.
— Vocês acham isso engraçado?
Sarah tornou a encará-la.
— Na maior parte do tempo, não. Mas você está ajudando bastante.
— Griller—
Sarah já estava cansada.
— Olha, Parkinson. Se você tem algum problema mal resolvido com o fato de Draco preferir passar o tempo comigo, desconta sua frustração em outro lugar.
Pansy se calou.
Dessa vez, de verdade.
A frase pareceu acertar algum ponto que Sarah não tinha previsto.
Ela aproveitou o silêncio.
— Agora, se nos der licença, eu já perdi tempo suficiente numa discussão que nem deveria ser minha.
Sarah fez menção de passar, mas Pansy deu um passo à frente.
— Você não faz ideia de onde está se metendo.
Sarah parou.
A irritação desapareceu quase imediatamente.
Por um instante, não estava mais naquele corredor cheio de alunos.
Viu novamente a mão fechada de Pansy, o reflexo prateado entre os dedos e a mudança em seu rosto quando ouvira a patrulha se aproximando.
Curiosidade demais costuma acabar mal por aqui.
Talvez Pansy estivesse falando apenas de Draco.
Talvez não.
Sarah observou-a com mais atenção.
— O que isso quer dizer?
— Chega.
A voz de Draco veio ao lado dela.
Sarah olhou para ele.
A expressão dele havia mudado também.
Draco não esperou resposta de Pansy. Apenas passou por ela e começou a andar pelo corredor, levando a mochila de Sarah consigo.
Depois de alguns passos, chamou:
— Griller.
Sarah continuou parada por mais um segundo, ainda olhando para Pansy.
— Anda.
Dessa vez, ela foi.
Acompanhou Draco sem dizer nada, mas a frase de Pansy seguiu com ela pelo corredor.
Os cochichos começaram quase imediatamente atrás deles.
Sarah precisou acelerar um pouco o passo para alcançar Draco, que seguia pelo corredor com a mochila dela ainda pendurada no ombro como se nada tivesse acontecido.
— Você sabe que eu conseguia terminar aquela discussão sozinha.
Draco lançou-lhe um olhar breve.
— Eu sei.
Sarah esperou alguma coisa além daquilo.
Não veio.
— Então por que interrompeu?
— Porque você ia continuar até uma das duas sacar a varinha.
Sarah pensou por um instante.
— E você resolveu proteger quem?
Dessa vez, Draco virou um pouco mais o rosto para ela.
— Minha tarde.
Sarah soltou uma risada curta.
— Egoísta.
— Prático.
Ela olhou por cima do ombro.
Pansy ainda estava parada onde os dois a haviam deixado, embora outros alunos já passassem ao redor dela. Por um instante, os olhos das duas quase se encontraram.
Sarah virou novamente para a frente.
Andou mais alguns passos antes de falar:
— Malfoy.
— Hm?
— O que ela quis dizer?
Ele não perguntou imediatamente. Continuou andando por alguns segundos, como se realmente precisasse pensar no assunto.
— Vai precisar ser um pouco mais específica. Parkinson disse várias coisas desagradáveis nos últimos cinco minutos.
— “Você não faz ideia de onde está se metendo.”
Draco continuou olhando para a frente.
— Ela gosta de ameaças vagas.
Sarah esperou.
— Só isso?
— Só.
— Isso não respondeu à pergunta.
Ele soltou o ar pelo nariz.
— Era o máximo que você ia conseguir.
Sarah ficou observando o perfil dele enquanto caminhavam.
— Você é péssimo nisso.
Draco franziu ligeiramente o cenho.
— Em quê?
— Em fazer alguém parar de fazer perguntas.
— E você é péssima em perceber quando não vai receber uma resposta.
Sarah sorriu de lado.
— Então estamos empatados.
Draco balançou a cabeça.
— Não estamos.
— Por quê?
Ele finalmente olhou para ela.
— Porque você continua perguntando.
Sarah abriu a boca para provar exatamente o ponto dele.
Draco apontou para a frente com um movimento do queixo.
— Aula.
Só então ela percebeu que tinham chegado à escada.
Sarah diminuiu o passo.
— Essa conversa também não acabou.
— Imaginei.
Draco continuou andando.
Foi aí que Sarah reparou que sua mochila ainda estava com ele.
— Pode devolver agora.
Draco olhou rapidamente ao redor.
— Ainda tem gente olhando.
Sarah acompanhou o movimento e percebeu dois alunos alguns metros atrás, aparentemente interessados demais numa conversa própria que ninguém acreditaria que estavam tendo.
— Você está levando esse trabalho muito a sério.
— Um de nós precisa levar.
Sarah soltou um suspiro, mas não tentou pegar a mochila de volta.
Continuaram andando em silêncio por alguns metros.
O problema era que, sem a discussão para distraí-la, a frase de Pansy voltou imediatamente.
Você não faz ideia de onde está se metendo.
Talvez fosse só mais uma ameaça vazia.
Pansy era boa nisso.
Mas Sarah também tinha visto aquela mesma garota fugir de uma patrulha com um objeto prateado escondido na mão poucas horas antes de uma parte da Ala Norte explodir.
Aquilo tornava um pouco mais difícil simplesmente ignorá-la.
Sarah tornou a olhar por cima do ombro.
Pansy ainda estava no corredor.
E observava os dois se afastarem.
Sarah voltou lentamente para a frente.
— Malfoy.
Draco fez um som baixo, indicando que estava ouvindo.
— A Parkinson sempre fala como se soubesse alguma coisa que ninguém mais sabe?
Dessa vez, ele demorou.
Não o bastante para que Sarah pudesse acusá-lo de hesitar.
Mas mais do que uma pergunta tão simples exigia.
— Frequentemente.
Sarah esperou mais um pouco.
Nada.
— Irritante.
— Bastante.
Ela deixou o silêncio se prolongar, dando a ele a oportunidade de acrescentar alguma coisa.
Draco não acrescentou.
Continuou andando ao lado dela, com os olhos voltados para a frente e a mochila de Sarah ainda no ombro.
E, por algum motivo, a falta de resposta fez aquela conversa parecer muito menos encerrada do que antes.
♦
O sol da tarde entrava pelas janelas altas da biblioteca, espalhando faixas douradas sobre as mesas e estantes. Sarah estava diante de um tratado de Transfiguração Avançada havia tempo suficiente para ter lido o mesmo parágrafo quatro vezes e compreendido menos a cada tentativa.
A cadeira ao lado rangeu.
Draco se sentou.
Sarah não tirou os olhos do livro.
— Não tem nada melhor para fazer?
Ele se acomodou na cadeira como se tivesse sido convidado.
— Neste momento? Não.
— Que vida triste.
— Disse a garota que está na mesma página há dez minutos.
Sarah ergueu os olhos.
— Você estava contando?
— Não precisava. Você faz aquela cara quando está tentando intimidar o texto até ele se explicar sozinho.
Ela fechou o livro um pouco mais forte do que o necessário.
— Eu sei perfeitamente o que estou lendo.
— Então a situação é ainda mais preocupante.
Sarah ergueu o tratado.
— Quer apanhar com ele?
Draco olhou para a grossura do livro.
— Provavelmente seria a interação mais produtiva que você teve com esse capítulo até agora.
Ela desistiu de responder e voltou ao pergaminho, começando uma anotação qualquer apenas para não lhe dar a satisfação de continuar.
Draco estendeu a mão e puxou o pergaminho alguns centímetros para o próprio lado.
Sarah parou de escrever.
— O que você está fazendo?
Ele leu uma das linhas.
— Isso está errado.
— Não está.
— Está.
— Eu conferi.
— Então conferiu errado.
Sarah tentou recuperar o pergaminho.
— Me dá.
Draco puxou-o um pouco mais.
— Não.
— Malfoy.
— Griller.
Ela avançou a mão no mesmo instante em que ele fez o mesmo.
Seus dedos se encontraram sobre o pergaminho.
Os dois pararam.
Sarah baixou os olhos.
Draco não a segurava. Era apenas o toque de seus dedos contra os dela, leve e quase acidental, pequeno demais para justificar o silêncio que de repente parecia ter tomado conta daquela parte da biblioteca.
Mesmo assim, nenhum dos dois afastou a mão.
Sarah foi a primeira a falar.
— Isso faz parte do álibi também?
Draco olhou ao redor.
As mesas próximas estavam vazias. Não havia ninguém entre aquelas estantes, ninguém prestando atenção neles.
— Não tem ninguém olhando.
Sarah tornou a encará-lo.
— Então por que...
Parou.
Draco esperou.
— Por que o quê?
Ela puxou um pouco os dedos, mas não o suficiente para realmente interromper o contato.
— Nada. Esquece.
— Você começou.
— E desisti. Isso acontece.
Draco se inclinou um pouco mais sobre a mesa.
— Covarde.
Sarah estreitou os olhos.
— Eu não sou covarde.
— Então termina.
Ela queria responder.
Deveria responder.
Em vez disso, percebeu que ele estava perto demais e que, por alguma razão, nenhum dos dois ainda tinha afastado a mão.
Sarah desviou os olhos para a boca dele por um instante e imediatamente se irritou consigo mesma.
— Você fala demais — murmurou.
— Essa acusação, vindo de você, chega a ser ofensiva.
— Cala a boca.
Draco ficou quieto.
Sarah deveria ter ficado satisfeita.
Não ficou.
O silêncio durou alguns segundos.
Então ele arqueou uma sobrancelha.
— Viu? Nem cinco segundos.
— Idiota.
— Barulhenta.
— Convencido.
— Griller.
— Malfoy.
Dessa vez, quando o olhar dele desceu, Sarah percebeu.
A próxima provocação simplesmente desapareceu.
Draco se aproximou.
E a beijou.
Não havia explosão.
Nenhum Snape dobrando a esquina.
Nenhuma mentira que precisasse ser sustentada e absolutamente ninguém para quem provar coisa alguma.
Sarah ficou imóvel por um segundo.
Depois—
Abriu os olhos.
O teto da Sala Comunal da Grifinória entrou lentamente em foco.
Sarah permaneceu parada na poltrona, com um livro aberto sobre o colo e o coração batendo rápido demais para alguém que acabara de dormir. A lareira estava baixa, e poucos alunos ainda permaneciam espalhados pelo salão, conversando em voz baixa ou terminando deveres.
Nenhum Draco.
Nenhuma biblioteca.
E, principalmente, nenhum beijo.
Sarah fechou os olhos outra vez.
— Merda.
— Concordo.
Ela tornou a abri-los.
Gina estava sentada no braço do sofá próximo, terminando de prender o cabelo.
Sarah virou o rosto devagar.
— Há quanto tempo você está aí?
— Tempo suficiente.
Aquilo não parecia promissor.
— Tempo suficiente para quê?
Gina terminou de prender o cabelo.
— Para ouvir você mandar alguém calar a boca enquanto dormia.
Sarah relaxou um pouco.
— Certo.
Gina continuou, casualmente:
— E chamar essa pessoa de Malfoy.
O livro quase escorregou do colo de Sarah.
— Eu fiz o quê?
Gina imitou, com uma irritação exagerada:
— “Cala a boca, Malfoy.” Bem convincente, inclusive.
Sarah piscou algumas vezes.
— Eu estava brigando com ele.
— Dormindo.
— Meu cérebro é comprometido com a continuidade.
Gina soltou uma risada.
— Então você estava sonhando com ele.
Sarah ajeitou o livro sobre as pernas.
— Tecnicamente, estava tendo um pesadelo.
Gina inclinou a cabeça.
— Você não parecia muito angustiada.
Sarah apontou para ela.
— Não começa.
— Eu nem comecei.
— Ótimo. Continue assim.
Gina sorriu.
— Só estou dizendo que, há poucos dias, se alguém me contasse que você ia passar o tempo falando com Malfoy até enquanto dorme, eu teria cobrado dinheiro pela previsão.
Sarah pegou uma almofada e a apertou contra o rosto.
— Eu odeio esta escola.
— Isso já sabemos.
Gina puxou a almofada para baixo.
— E aí?
Sarah tentou recuperá-la.
— E aí o quê?
— O sonho.
— Não.
— Sarah.
— Definitivamente não.
Gina ficou pensando.
— Ele estava sendo assassinado?
Sarah lançou-lhe um olhar.
— Gina.
— Você estava assassinando ele?
Sarah considerou.
— Melhorou bastante.
— Vocês estavam discutindo?
Sarah demorou um pouco mais dessa vez.
— Estávamos.
Gina assentiu.
— Isso parece plausível.
— Obrigada.
Ela continuou olhando.
Sarah percebeu tarde demais.
— O quê?
— Só discutindo?
Sarah ficou em silêncio.
Gina também.
Era muito boa naquilo. Apenas esperava até a pessoa se entregar sozinha.
Sarah decidiu recorrer a métodos mais baixos.
— Na verdade, eu estava sonhando com você.
Gina fez uma careta.
— Péssima tentativa.
Sarah se jogou contra ela mesmo assim.
— Meu docinho.
— Sai daqui.
Sarah beijou a bochecha dela de propósito.
— Minha ruivinha favorita.
Gina tentou afastá-la.
— Você conhece umas quinze pessoas ruivas da mesma família!
— E, ainda assim, você venceu.
Gina já estava rindo quando tentou empurrá-la novamente.
— Grude.
Sarah deu outro beijo barulhento na bochecha dela.
— Admite que gosta.
— Admito que um Aguamenti resolveria isso muito rápido.
Sarah finalmente se afastou e acabou espremida ao lado dela no sofá. Entre as duas, noções de espaço pessoal nunca tinham funcionado particularmente bem.
Gina ajeitou a manga do suéter.
— Tática de distração aceita temporariamente. Mas você continua me devendo uma explicação sobre o Malfoy.
Sarah soltou o ar e deixou a cabeça cair contra o encosto.
— Não tem muito o que explicar.
— Você está fingindo namorar Draco Malfoy.
Sarah fez uma careta.
— Quando você fala desse jeito, parece muito pior.
— Existe algum jeito de falar isso que faça parecer melhor?
Sarah pensou.
— Álibi estratégico.
— Não.
— Operação de contenção de danos.
Gina fez uma careta ainda maior.
— Conseguiu piorar.
Sarah cobriu os olhos com uma das mãos.
— Então namoro falso mesmo.
— Credo.
— Obrigada pelo apoio.
A diversão no rosto de Gina diminuiu um pouco.
Quando tornou a falar, havia menos provocação na voz.
— Falando sério. Você está bem com isso?
Sarah tirou a mão do rosto.
A pergunta parecia simples.
A resposta, por algum motivo, não era.
— Acho que sim. Quer dizer... é ridículo. A escola inteira está olhando, Pansy decidiu que eu sou pessoalmente responsável pela decadência da linhagem Malfoy e ele descobriu a palavra “leãozinha”, o que talvez seja o pior de tudo.
— Posso matá-lo só por isso.
— Entra na fila.
Gina esperou.
Sarah percebeu.
— O quê?
— Tem um “mas” aí.
Ela desviou os olhos para a lareira.
— Mas o álibi funcionou. Snape não me pressionou mais e... sei lá. Malfoy podia ter negado tudo depois. Não negou.
Gina deu de ombros.
— Porque ele também precisa da história.
— Eu sei.
Sarah sabia.
Aquela era justamente a parte que não conseguia esquecer.
Antes que Gina pudesse continuar, Hermione se aproximou carregando uma pilha de livros grande o suficiente para lesionar uma pessoa comum.
Gina olhou primeiro para ela, depois para os livros.
— Você pretende ler Hogwarts inteira antes de dormir?
Hermione deixou a pilha sobre a mesa com algum esforço.
— Só o necessário.
— Essa resposta não me tranquiliza nem um pouco.
Hermione ignorou o comentário e se acomodou na poltrona em frente às duas.
— Sarah, precisamos conversar.
Sarah fez uma careta.
— Essa frase nunca termina bem.
— Harry quer saber exatamente o que Malfoy está fazendo.
Sarah soltou um riso curto, sem humor.
— Pode entrar para o clube.
Hermione apoiou os braços nos joelhos.
— Eu também quero.
Sarah se ajeitou no sofá.
— Vocês estão tratando isso como se eu tivesse assinado algum tipo de contrato com ele.
Uma voz surgiu atrás da poltrona de Hermione.
— Tecnicamente, um contrato seria melhor. Pelo menos teria cláusula de rescisão.
Sarah virou o rosto.
Rony estava parado ali com um Sapo de Chocolate na mão.
— Há quanto tempo você está ouvindo?
Ele pensou por um instante.
— Desde “namoro falso mesmo”.
Sarah estreitou os olhos.
— E conseguiu ficar quieto esse tempo todo?
Rony ergueu o chocolate.
— Eu estava comendo.
— Milagre.
Ele puxou a poltrona ao lado e se sentou.
— Eu sei que tem alguma coisa estranha nisso tudo. Só ainda não decidi se Malfoy está tentando sair de um problema ou entrar em outro.
Sarah ficou olhando para ele.
— Isso foi surpreendentemente útil.
Rony pareceu ofendido.
— Eu sou útil com frequência. Vocês é que mantêm uma campanha difamatória contra mim.
Hermione nem se deu ao trabalho de responder.
— Mas ele tem razão. Se Malfoy quisesse destruir a sua história, poderia ter feito isso logo depois. Bastava procurar Snape, dizer que você inventou tudo e encerrar o assunto.
Rony mordeu o chocolate antes de acrescentar:
— Agora, se ele fizer isso, vão perguntar por que sustentou a mentira durante dois dias. Então ele ficou preso nela também.
Sarah assentiu devagar.
— Foi praticamente o que ele disse.
Hermione imediatamente se interessou.
— O que exatamente?
Sarah explicou, em linhas gerais, a conversa que tivera com Draco no corredor. Contou que negar o suposto romance com insistência poderia acabar chamando atenção para o verdadeiro motivo de os dois estarem juntos naquela noite e que, enquanto a investigação da Ala Norte continuasse, precisavam sustentar a mesma versão.
Não mencionou Pansy.
Ainda não.
Hermione ficou alguns segundos em silêncio, organizando as informações.
— Então a pergunta continua sendo o que ele estava fazendo naquela região.
Sarah desviou os olhos para o fogo.
— Sim.
— E por que está tão preocupado em não ser associado à explosão.
A voz de Harry veio do outro lado.
Sarah ergueu a cabeça e o encontrou se aproximando.
— Você também estava ouvindo?
Harry deu de ombros.
— Sala comunal pequena.
Sarah olhou para os quatro.
— Traidores. Todos vocês.
Harry sentou-se no braço de uma poltrona.
— Eu não estou dizendo que Malfoy causou aquilo. Mas ele sabe alguma coisa.
Sarah lembrou da forma como Draco havia reagido à explosão. Da pressa em seguir para a Ala Norte, da insistência para que ela não mencionasse o nome dele a Snape.
E, agora, havia Pansy.
Você não faz ideia de onde está se metendo.
Sarah franziu ligeiramente o cenho.
— Eu também acho.
Gina, que até então permanecera mais quieta, cruzou uma perna sob o corpo.
— E o que você pretende fazer com essa informação?
Sarah respondeu sem muita hesitação.
— Descobrir o que ele sabe.
Rony soltou uma risada.
— Excelente. Porque suas últimas investigações noturnas terminaram com uma explosão e um namorado falso. Estou curioso para descobrir qual é o próximo prêmio.
Sarah pegou a almofada ao lado e atirou nele.
Rony conseguiu segurá-la antes que atingisse o rosto.
— Viu? Reflexos.
— Pena que não ajudam sua personalidade.
— Nada ajuda. Já aceitei.
Hermione entrou no meio antes que aquilo virasse outra discussão.
— Não faça nada sozinha.
Sarah tornou a olhar para ela.
— Eu não disse que ia—
Hermione ergueu uma sobrancelha.
Sarah desistiu.
— Certo. Continue.
— Harry pode acompanhar a movimentação da Ala Norte pelo Mapa. Amanhã pensamos com mais calma no que exatamente estamos procurando e no que já sabemos.
Sarah olhou de Hermione para Harry e depois para Rony.
— “Pensamos”? Então vocês estão oficialmente envolvidos?
Rony trocou um olhar com Harry.
— Acho que já estávamos envolvidos antes de você perguntar.
Hermione soltou um suspiro.
— Como sempre.
Rony apontou para ela.
— Isso não foi um elogio.
— Eu sei.
Sarah ficou em silêncio por alguns segundos.
Investigar Draco deveria ser simples.
Ele sabia mais do que dizia. Ela precisava descobrir quanto.
Esse era o problema.
Só esse.
Infelizmente, seu cérebro parecia insatisfeito com a quantidade de confusão disponível e havia decidido acrescentar sonhos à equação.
Sarah empurrou a lembrança para longe antes que ela conseguisse se formar por inteiro.
— Certo. Amanhã a gente pensa.
Gina apontou imediatamente para ela.
— E agora você vai dormir. Numa cama, de preferência.
Sarah lançou-lhe um olhar.
— Pretendo.
— Ótimo. E tenta deixar o Malfoy fora dos sonhos desta vez.
Sarah já estava procurando outra almofada.
— Gina.
A ruiva levantou as mãos.
— O quê? Só estou preocupada com a qualidade do seu sono.
A almofada voou.
Rony se abaixou por puro reflexo.
— Ei! Eu nem estava participando!
— Dano colateral.
Hermione soltou um suspiro que não conseguiu esconder completamente o riso.
Pouco depois, o grupo começou a se dispersar. Harry e Rony seguiram para o dormitório masculino ainda discutindo alguma coisa sobre o Mapa; Hermione começou a recolher os livros espalhados pela mesa, e Gina se levantou para buscar suas coisas.
Sarah já havia subido os primeiros degraus quando uma lembrança atravessou o cansaço.
Parou.
— Gina.
A ruiva olhou para trás.
— Hm?
— Você viu meu livro trouxa?
Gina franziu o cenho.
— Qual deles?
— O de capa preta. Aquele romance que eu estava lendo.
Ela pensou por alguns segundos.
— Não. Por quê?
Sarah voltou um degrau.
— Não estou achando.
Hermione, ainda junto à mesa, ergueu os olhos.
— Você estava com ele ontem?
Sarah hesitou.
— Tenho quase certeza. E normalmente deixo na mochila.
Desceu mais um degrau e abriu a bolsa outra vez, embora já tivesse procurado ali antes.
Pergaminhos.
Pena.
Tinteiro.
Livros das aulas.
Nenhuma capa preta.
Hermione começou a organizar a pilha nos braços.
— Talvez tenha deixado em alguma sala.
— Talvez.
Sarah fechou a mochila, mas não pareceu convencida.
Aquele livro quase sempre ficava ali justamente porque era o que carregava para ler nos intervalos.
E havia outra coisa que tornava a ideia de perdê-lo particularmente desagradável.
As margens.
Sarah tinha o hábito de escrever nelas.
Comentários sobre a história, reclamações sobre personagens, observações aleatórias e coisas que só faziam algum sentido para ela.
Algumas bastante inconvenientes se alguém resolvesse lê-las.
Gina bocejou.
— Procura amanhã. Provavelmente está embaixo da sua cama junto com metade das coisas que você jura que desapareceram misteriosamente.
Sarah soltou o ar.
— Provavelmente.
Fechou a mochila e tornou a subir as escadas.
Mas continuou pensando no livro... que estava em algum outro lugar do castelo, guardado numa gaveta que definitivamente não pertencia a Sarah Griller.
O dormitório da Sonserina estava mergulhado no silêncio esverdeado das masmorras. A água do Lago Negro se movia além das janelas, projetando sombras lentas pelas paredes de pedra e pela escrivaninha diante da qual Draco estava sentado.
Deveria estar estudando. Havia um livro de Poções aberto à esquerda, um pergaminho praticamente em branco à direita e uma pena imóvel entre seus dedos havia tempo suficiente para que já tivesse desistido de fingir que estava fazendo alguma coisa útil.
Draco largou a pena e olhou para a gaveta. Tentou voltar a atenção para Poções.
Não funcionou.
Abriu a gaveta.
O livro de capa preta estava ali.
Ficou alguns segundos encarando-o.
Aquilo não era roubo.
Era uma retenção temporária de propriedade alheia.
A diferença era jurídica.
Provavelmente.
O livro estava parcialmente para fora da mochila de Griller naquela tarde, enquanto Draco a carregava pelo corredor. Sarah havia se distraído olhando para trás depois da discussão com Parkinson, e ele aproveitara aqueles poucos segundos para puxá-lo sem que ela percebesse.
Havia uma razão perfeitamente aceitável para isso.
Depois de tudo o que acontecera na Ala Norte, Sarah já tinha demonstrado uma capacidade impressionante de se meter exatamente onde não devia. Se estava escrevendo teorias, nomes ou qualquer informação sobre aquela noite num objeto que carregava pelo castelo inteiro, Draco precisava saber.
Quanto menos ela soubesse sobre aquela parte do castelo, melhor.
Principalmente enquanto ele próprio ainda não sabia até onde aquilo podia chegar.
Era prevenção.
Só isso.
Ele retirou o livro da gaveta e o abriu.
Um romance trouxa.
Folheou algumas páginas.
Nenhuma anotação sobre a explosão.
Nenhum nome ligado à Ala Norte.
Nenhuma descrição de Parkinson escondendo alguma coisa prateada.
Nenhuma teoria sobre o que ele próprio estivera fazendo naquele corredor.
Nada.
Draco deveria ter fechado o livro naquele exato momento e devolvido na manhã seguinte.
Não fechou.
As margens estavam tomadas pela letra de Sarah.
Ela aparentemente era incapaz de simplesmente ler uma história. Discutia com ela. Corrigia personagens, questionava decisões, acrescentava comentários inteiros ao lado dos parágrafos e insultava qualquer pessoa fictícia que demonstrasse níveis excessivos de arrogância.
Draco virou algumas páginas.
Uma frase estava sublinhada três vezes.
Ao lado, Sarah escrevera:
Malfoy faria exatamente essa merda.
Ele releu.
— Eu não faria.
Virou a página.
Arrogância não é personalidade. Alguém devia avisar certas pessoas.
Draco respirou fundo pelo nariz.
Mais adiante:
Pelo menos esse pediu desculpas.
Dessa vez, parou.
A frase era particularmente irritante depois da conversa que tinham tido no corredor no dia anterior.
Draco virou a página.
Depois outra.
Sarah discutia com os protagonistas como se eles tivessem alguma possibilidade de responder. Em determinado trecho, escrevera apenas:
IDIOTA.
Algumas páginas depois:
Retiro o que disse. Esse consegue ser pior.
Draco continuou.
Era estranho como conseguia ouvir a voz dela nas margens. O tom exato das reclamações, as pausas antes de alguma provocação, a insistência em continuar uma discussão vários minutos depois de qualquer pessoa razoável já ter desistido.
Virou mais uma página.
Dessa vez, não havia piada.
Malfoy parecia exausto hoje. Mais que o normal.
Draco parou.
A frase ocupava pouco espaço no pé da página.
Só aquilo.
Nenhum insulto depois. Nenhuma observação sarcástica para diminuir a importância do comentário.
Sarah simplesmente havia reparado.
Ele passou os olhos pela frase outra vez antes de virar a página com mais força do que precisava.
Ali havia uma crítica ao protagonista.
Melhor.
Continuou folheando.
Não confiar em homens que dizem “confie em mim”. Regra básica de sobrevivência.
Quase passou direto pela anotação seguinte.
Ele está mentindo. Gina diria que eu vejo problema em tudo.
Draco avançou algumas linhas.
Lembrar de devolver o cachecol da Gina.
Outra página.
Nada relevante.
Mais algumas.
Perguntar à Gina se ela quer ir comigo a Hogsmeade.
Draco ficou olhando para a frase.
Era um lembrete banal. Nada além disso.
Virou a página e leu algumas linhas antes de voltar.
Perguntar à Gina se ela quer ir comigo a Hogsmeade.
Que tipo de pessoa precisava escrever no meio de um romance trouxa que pretendia convidar Weasley para Hogsmeade? Se queria convidá-la, convidava. Não parecia uma tarefa particularmente complexa.
Draco virou a página outra vez.
Gina ia odiar esse personagem.
Mais adiante:
Mostrar esse trecho para Gina.
E depois:
Ela vai dizer “eu avisei”. Não dar esse gostinho.
Draco fechou o livro.
O baque pareceu alto demais no dormitório vazio.
Ficou alguns segundos olhando para a capa preta sem saber exatamente por que aquelas anotações tinham começado a irritá-lo.
Aquilo já não tinha absolutamente nada a ver com a Ala Norte.
Na verdade, fazia várias páginas que não tinha.
Esse deveria ter sido um motivo excelente para parar.
Draco abriu o livro novamente.
Só para terminar de verificar.
Essa continuava sendo a razão.
Provavelmente.
Avançou mais algumas páginas até encontrar um comentário ao lado de uma cena em que o protagonista insistia saber exatamente o que a mocinha estava pensando.
Homens têm uma confiança impressionante na própria capacidade de ler mentes. Malfoy faz a mesma coisa. Fica olhando como se tivesse entendido tudo e depois diz alguma idiotice completamente errada.
Draco ficou ofendido por aproximadamente meio segundo.
A frase logo abaixo piorou.
O pior é que às vezes ele presta atenção demais.
Ele parou de virar as páginas.
Abaixo, numa tinta ligeiramente mais clara, Sarah havia acrescentado em outro momento:
É perturbador quando alguém percebe coisas que você não queria que percebessem.
Draco releu.
Depois fechou o livro até a metade.
Então ela tinha percebido.
Não sabia exatamente o quê. Nem quando.
Mas, em algum momento, Sarah Griller havia reparado que ele prestava atenção.
O que era ridículo.
Estudavam no mesmo castelo havia sete anos. Ela falava alto, discutia com professores quando achava alguma coisa injusta, levantava a mão antes de as perguntas terminarem e tinha uma capacidade quase profissional de aparecer em seu campo de visão justamente quando estava fazendo alguma coisa irritante.
Qualquer pessoa perceberia essas coisas.
Provavelmente.
Draco tornou a abrir o livro.
No canto de outra página:
Se Malfoy continuar me encarando nas aulas, vou começar a cobrar ingresso.
Ele soltou uma respiração curta pelo nariz.
Idiota.
Virou outra página.
Hoje ele estava insuportável.
Logo abaixo:
Mais que o normal.
Draco ficou alguns segundos encarando a anotação antes de continuar.
Na página seguinte, havia outro comentário sobre Gina.
E, pela primeira vez, ocorreu-lhe com clareza que estava lendo coisas que Sarah provavelmente nunca permitiria que ele lesse.
Fechou o livro outra vez.
— Pelo amor de Salazar.
Passou a mão pelo rosto e recostou-se na cadeira.
Já deveria ter devolvido aquilo.
Poderia colocá-lo de volta na mochila de Sarah no café da manhã. Ela provavelmente concluiria que não tinha procurado direito.
Simples.
Sem explicações.
Sem consequências.
Draco olhou para a capa.
Abriu novamente.
A porta do dormitório rangeu.
Ele fechou o volume no mesmo instante.
Blaise entrou enquanto retirava o manto dos ombros e parou.
Olhou para Draco.
Depois para o livro sob a mão dele.
Draco sustentou o olhar.
— O que foi?
Blaise jogou o manto sobre a cama.
— Nada.
Draco empurrou o livro para dentro da gaveta.
Blaise acompanhou todo o movimento.
— Isso pareceu bastante com alguma coisa.
— Você deveria procurar ocupações melhores.
Draco fechou a gaveta.
Blaise começou a desfazer a própria gravata.
— Eu tinha uma. Aí entrei aqui e encontrei você escondendo literatura.
— Trágico.
Draco tocou a fechadura com a ponta da varinha.
Um clique confirmou o feitiço.
Blaise parou com a gravata pela metade.
Olhou para a gaveta.
Depois para Draco.
— Você acabou de trancar.
— Parabéns.
— Por causa de um livro.
Draco abriu o volume de Poções.
— Zabini.
Blaise ergueu as mãos.
— Certo.
Voltou a arrumar as próprias coisas.
Draco tentou ler.
Uma linha.
Duas.
Não absorveu nenhuma.
A voz de Blaise surgiu do outro lado do dormitório:
— Era da Griller?
Draco ergueu os olhos.
Blaise estava de costas, guardando alguma coisa no malão.
— Por que seria?
— A capa preta.
Draco não respondeu.
Blaise fechou o malão.
— Ela vive carregando um parecido.
Draco apoiou os braços sobre a mesa.
— Você anda prestando atenção demais em Griller.
Blaise olhou para ele por cima do ombro.
— Não tanto quanto você.
Silêncio.
Blaise se virou completamente.
— Foi só uma observação.
— Faça menos.
— Posso tentar.
Sentou-se na própria cama e pegou um livro.
Draco voltou para Poções.
Por algum tempo, o dormitório ficou quieto.
Então Blaise comentou, sem tirar os olhos da página:
— Parkinson passou metade da noite reclamando de vocês.
Draco virou uma página.
— Parkinson reclama de tudo.
— Hoje estava particularmente inspirada.
— Problema dela.
— Foi basicamente o que eu disse.
Draco percebeu que tinha passado para outra página sem terminar a anterior.
Voltou.
— Então por que está me contando?
Blaise deu de ombros.
— Achei interessante.
— Você acha coisas demais interessantes.
— E você anda fazendo coisas interessantes demais para alguém que insiste que tudo isso é só um álibi.
Draco fechou o livro de Poções.
— Estamos sustentando uma história. Quanto mais convincente parecer, menos perguntas fazem sobre aquela noite.
— Eu sei.
A resposta veio sem qualquer provocação.
Isso fez Draco olhar para ele.
Blaise apenas deu de ombros.
— É uma boa estratégia.
Draco relaxou um pouco.
— Finalmente.
— Eu só disse que é convincente.
Draco esperou.
Blaise abriu o próprio livro.
Não acrescentou nada.
Alguma coisa naquela ausência de comentário conseguiu ser mais irritante do que qualquer piada teria sido.
— O quê?
Blaise ergueu os olhos.
— Nada.
— Zabini.
— Estou lendo.
Draco continuou encarando-o.
Blaise virou uma página.
— Boa noite, Malfoy.
A conversa estava encerrada. Ou, pelo menos, Blaise tinha decidido fingir que estava.
Draco tornou a abrir o livro de Poções e tentou voltar ao capítulo. Dessa vez, conseguiu chegar ao fim de um parágrafo sem compreender uma única frase. Seus olhos acabaram voltando para a gaveta.
Pensou na anotação sobre a Ala Norte que não existia, na frase dizendo que ele parecia exausto e na reclamação de que prestava atenção demais. Principalmente no fato irritante de Sarah também ter percebido isso.
Draco puxou o livro de Poções um pouco mais para perto, como se a proximidade pudesse obrigá-lo a se concentrar. Não funcionou.
Irritantemente, pensou outra vez no lembrete sobre Hogsmeade.
Não abriu a gaveta novamente, mas também não pretendia devolver o livro ainda.
Fale com o autor