Draco chegou cedo à aula de Poções.

Não por escolha.

Blaise tinha decidido que sentar perto da frente diminuiria as chances de Slughorn perceber que ele não terminara uma das leituras indicadas naquela semana. Draco apontara que a lógica era absurda. Blaise respondera que lógica era secundária quando existia a possibilidade de funcionar.

Por isso, enquanto a sala ainda estava quase vazia, os dois já ocupavam a primeira bancada. Draco abriu o livro; ao lado, Blaise copiava alguma coisa de um pergaminho com a dedicação tardia de quem deveria ter feito aquilo na noite anterior.

Na mesa de demonstração, um grande caldeirão soltava uma fumaça clara que subia em espirais lentas. Slughorn ainda não tinha aparecido, mas deixara parte da aula preparada.

Draco tentou ler.

Chegou ao fim de um parágrafo antes de perceber que havia alguma coisa diferente no ar.

Café.

Não o cheiro forte que vinha das jarras do Salão Principal, mas aquele que permanecia no fundo de uma caneca depois de algum tempo.

Depois, pergaminho antigo.

Papel guardado entre livros, tinta seca, biblioteca.

Havia ainda outra coisa misturada aos dois aromas. Mais discreta. Familiar o bastante para incomodá-lo justamente porque Draco não conseguia decidir de onde a conhecia.

Ergueu os olhos para a porta.

Vazia.

Voltou ao livro.

Pouco depois, fez o mesmo movimento outra vez.

Blaise continuou escrevendo por mais alguns segundos antes de largar a pena.

— Está esperando alguém?

Draco manteve os olhos na página.

— Estou esperando Slughorn aparecer para a própria aula.

Blaise apontou com a pena para a porta lateral.

— Ele entra por ali.

Draco sabia.

Blaise também sabia que ele sabia.

— Termine sua leitura.

— Estou tentando. Você continua olhando para a porta e prejudicando minha concentração.

— Impressionante como a culpa pela sua incompetência encontra sempre outra pessoa.

Blaise voltou ao pergaminho.

O aroma continuou no ar.

Agora que Draco o notara, ignorá-lo tinha se tornado difícil. Café. Pergaminho. E aquela terceira coisa.

Ele respirou mais fundo.

Blaise levantou a cabeça novamente.

— O que você está tentando descobrir?

Draco fechou parcialmente o livro.

— Tem um cheiro estranho aqui.

Blaise olhou em volta da sala cheia de ingredientes, frascos e caldeirões.

— Em Poções? Alarmante.

— Familiar.

A palavra saiu antes que Draco decidisse se deveria usá-la.

Blaise apoiou o cotovelo na bancada.

— Isso ficou mais interessante.

— Para você, qualquer coisa que permita evitar seu trabalho fica interessante.

Passos surgiram no corredor antes que Blaise continuasse.

Sarah apareceu na porta com a gravata torta, os cabelos ligeiramente bagunçados e pergaminhos demais presos contra o peito.

— Não estou atrasada.

Hermione consultou o relógio algumas fileiras atrás.

— Ainda não.

Sarah entrou.

— Então não estou atrasada.

Draco voltou a atenção para o livro.

Não adiantou.

A terceira parte do aroma parecia mais definida agora.

Ele conhecia aquilo.

Não o suficiente para descrevê-lo.

O suficiente para saber de onde vinha a associação.

Sarah parou perto da primeira bancada para reorganizar os pergaminhos que ameaçavam escapar de seus braços. Depois franziu o nariz e respirou outra vez.

Virou-se para Draco.

— Merlin, Malfoy.

Ele fechou o livro.

— O quê?

Sarah aproximou-se um pouco.

— Você exagerou hoje.

— Em quê?

— Perfume.

Blaise deixou a pena sobre a mesa.

Draco olhou para Sarah.

— Eu não estou usando perfume.

— Tem certeza?

— Bastante.

Ela respirou novamente.

— Então alguém derramou alguma coisa em você. Está forte.

Draco apoiou um braço sobre a bancada.

— Que cheiro?

Sarah começou a responder, mas a porta lateral se abriu.

Slughorn entrou carregando alguns frascos e falando antes mesmo de chegar à mesa.

— Muito bem, muito bem! Lugares, por favor. Temos bastante coisa para fazer hoje.

Sarah olhou para o professor e depois para Draco.

— Depois.

Ela seguiu para a bancada onde Gina a esperava.

Blaise retomou a pena.

Draco abriu o livro novamente.

— Concentre-se na aula, Zabini.

— Estou fazendo um esforço admirável.

Slughorn parou ao lado do grande caldeirão.

— Alguém reconhece o que temos aqui?

A mão de Hermione subiu.

— Senhorita Granger.

— Amortentia, professor.

A pena de Draco parou sobre a página.

Blaise também interrompeu a escrita.

Slughorn sorriu para a turma.

— Exatamente. A poção do amor mais poderosa do mundo. É importante lembrar que ela não produz amor verdadeiro; causa uma paixão intensa, chegando à obsessão. Há, porém, uma característica particularmente interessante na forma como cada pessoa a percebe.

Draco já sabia.

E, naquele momento, desejou não saber.

— O aroma da Amortentia varia de acordo com aquilo que exerce atração sobre quem a sente.

Draco olhou para o caldeirão.

Café.

Pergaminho antigo.

E o terceiro aroma que, agora, tinha se tornado impossível separar da lembrança de Sarah entrando na sala.

Ele apertou a pena entre os dedos.

Ao lado, Blaise retomou o próprio trabalho.

O silêncio dele foi, de algum modo, pior do que qualquer comentário.

Draco passou o restante da explicação copiando anotações que provavelmente teria dificuldade para interpretar depois.

Quando a aula terminou, Draco guardou os materiais com rapidez suficiente para tornar muito clara sua intenção de ir embora.

Estava fechando a bolsa quando ouviu Sarah atrás dele.

— Malfoy.

Ele terminou de prender a fivela antes de se virar.

Sarah estava ao lado da bancada. Hermione e Gina já seguiam para o corredor.

Blaise, para irritação de Draco, ainda organizava os próprios materiais.

Sarah indicou o caldeirão de Amortentia.

— Acho que te devo uma correção.

Draco passou a bolsa pelo ombro.

— Isso merece ser registrado.

— Você não tomou banho de perfume.

— Fico aliviado por limpar meu nome.

Sarah apoiou uma mão na bancada.

— Era a poção.

— Essa conclusão parece razoável.

— Cedro.

Draco parou.

Sarah procurou a palavra seguinte por um instante.

— E menta.

Blaise colocou um livro dentro da bolsa com um pouco mais de força do que o necessário.

Sarah virou-se para ele.

— Algum problema?

— Nenhum. Estou tendo uma excelente aula prática.

Draco apontou para a porta.

— Ela acabou.

— Tecnicamente, sim.

Sarah voltou para Draco.

— Então é isso. Cedro e menta.

Ele ajustou a alça da bolsa.

— Parece um problema seu.

— Considerando a origem do cheiro, provavelmente é.

A resposta veio tão tranquila que Draco levou um instante a encontrar alguma coisa útil para dizer.

Não encontrou.

Sarah pegou a própria bolsa.

— Podemos deixar esse assunto morrer aqui.

— Apoio integralmente.

Ela já começava a se afastar quando Blaise fechou a mochila.

— Antes disso, existe um detalhe acadêmico relevante.

Draco virou-se para ele.

— Não existe.

Sarah parou.

— Agora existe para mim.

Blaise colocou a bolsa no ombro.

— Quando você entrou, Griller, Malfoy já estava tentando descobrir de onde vinha um cheiro familiar.

Sarah olhou para Draco.

Ele decidiu que assassinar Blaise dentro da sala de Slughorn provavelmente produziria consequências administrativas demais.

— Zabini estava evitando uma leitura obrigatória. Considere a fonte.

— Isso não responde.

Sarah voltou alguns passos.

— O que você sentiu?

Draco poderia mentir.

O problema era que Blaise ainda estava ali.

— Café.

Sarah esperou.

— E?

— Pergaminho.

Ela apoiou a mão na alça da bolsa.

— Café e pergaminho.

— Sim.

Blaise passou por eles em direção à porta.

Draco teria agradecido pela retirada se ele não tivesse parado ao lado de Sarah.

— Ele ainda não explicou por que continuava olhando para a entrada.

Draco fechou os olhos por um segundo.

— Zabini.

Blaise continuou andando.

— Vejo vocês depois.

Sarah esperou até ele sair.

Então virou-se para Draco.

— Tinha mais alguma coisa.

Draco pegou o livro que ainda estava sobre a bancada e colocou dentro da bolsa.

— Tinha.

A resposta direta pareceu surpreendê-la mais do que uma negativa teria conseguido.

— E?

Ele fechou a bolsa.

— Essa parte fica comigo.

Sarah cruzou os braços.

— Você sabe que isso só me deixa mais curiosa.

— Estou disposto a correr o risco.

— Era tão ruim assim?

Draco passou por ela em direção à porta.

Sarah acompanhou.

— Eu não disse que era ruim.

— Então era constrangedor.

— Você possui um talento impressionante para transformar falta de informação em teorias.

— Às vezes elas estão certas.

Chegaram ao corredor.

Sarah caminhou ao lado dele por alguns metros.

— Café e pergaminho.

Draco continuou olhando para a frente.

— Você pretende repetir até eu ceder?

— Estou avaliando a estratégia.

— Poupe energia.

Sarah sorriu.

— Tudo bem. Por enquanto.

Aquilo era mais ameaçador do que deveria.

Draco virou para outro corredor.

— Até depois, Griller.

Sarah continuou na direção oposta.

— Até depois, Malfoy.

Ele avançou alguns passos antes de diminuir o ritmo.

Café era fácil.

Sarah quase sempre tinha uma caneca por perto quando podia.

Pergaminho também. Livros, margens cobertas de anotações, papel esquecido dentro da bolsa.

O terceiro aroma era pior justamente porque não vinha acompanhado de uma explicação tão conveniente. Era apenas algo discreto que Draco já tinha sentido vezes suficientes ao lado dela para reconhecê-lo antes mesmo de saber que estava procurando.

E aquilo ele definitivamente não pretendia compartilhar com Blaise.

Muito menos com Sarah.

Quando voltou à sala para buscar um frasco que havia esquecido sobre a bancada, encontrou Slughorn recolhendo os materiais da demonstração.

O professor entregou o frasco sem fazer perguntas.

Draco já estava na porta quando Slughorn comentou:

— Uma poção bastante instrutiva, a Amortentia. Mesmo quando não é ingerida.

Draco segurou o frasco com mais força.

— Sem dúvida, professor.

Slughorn retomou a organização dos caldeirões.

Draco saiu antes que a aula produzisse qualquer outra descoberta.

🦁🐍

Depois da aula de Poções, Sarah descobriu que Draco realmente pretendia colocar em prática o que tinham decidido no lago no dia anterior.

Não ficaram grudados.

Graças a Merlin.

Mas almoçaram juntos e, depois, atravessaram dois corredores particularmente movimentados lado a lado. Draco escolheu justamente os caminhos em que havia alunos suficientes para reparar neles, embora Sarah suspeitasse que ele jamais admitiria ter calculado aquilo.

No segundo corredor, ela estava tentando equilibrar a mochila no ombro enquanto guardava um pergaminho quando Draco simplesmente a tirou dali.

Sarah parou.

— Me devolve.

Ele já colocava a alça no próprio ombro.

— Não.

— Eu consigo carregar minha mochila.

Draco retomou o caminho.

— Eu sei.

Sarah precisou alcançá-lo.

— Então qual é a lógica?

— Tem gente olhando.

Ela conferiu ao redor.

Duas meninas da Corvinal tinham acabado de passar por eles. Um grupo da Lufa-Lufa vinha mais atrás.

Sarah voltou para Draco.

— Você podia ter avisado.

— E perder essa reação?

— Você vai perder um braço quando eu pegar minha mochila de volta.

Draco segurou a alça com mais firmeza.

— Muito romântico.

A discussão continuou até a escada seguinte e terminou exatamente como começara: com Draco ainda carregando a mochila e Sarah prometendo consequências que não chegou a executar.

Mais tarde, encontraram um lugar nos jardins.

Havia alunos espalhados pela grama, alguns estudando, outros conversando em pequenos grupos. Draco escolheu um ponto próximo o bastante do caminho principal para serem vistos sem que parecesse que estavam deliberadamente se exibindo.

Sarah sentou-se ao lado dele com os livros.

Vinte minutos depois, já não tinha tanta certeza de que aquilo servia para alguma coisa.

Draco lia uma página de Transfiguração. Sarah tentava terminar uma tarefa e, até aquele momento, a contribuição mais significativa dele para a encenação do namoro tinha sido reclamar duas vezes da caligrafia dela.

Ela largou a pena.

— Isso não conta.

Draco manteve um dedo marcando a página.

— Conta.

— Estamos estudando.

— Juntos.

Sarah indicou com a pena os alunos ao redor.

— Se alguém estiver usando isso como prova de namoro, os padrões de Hogwarts estão muito baixos.

Draco finalmente fechou um pouco o livro.

— O que você sugere?

Sarah abriu a boca.

Parou.

Draco esperou.

Ela apontou a pena para ele.

— Não transforma essa pergunta em alguma coisa que eu não disse.

— Eu só perguntei o que você sugere.

— Exatamente. Esse é o problema.

Ele voltou ao livro.

— Então continuamos estudando.

Sarah pegou a pena outra vez.

— Você parece muito satisfeito com uma estratégia medíocre.

— Ninguém presta atenção em casais o tempo inteiro.

Ela começou a escrever.

— Especialmente em casais entediantes.

— Estamos construindo credibilidade.

— Estamos construindo fama de pessoas com hobbies péssimos.

Draco virou uma página.

— Você veio estudar comigo.

Sarah parou a pena no meio da palavra.

— Você também veio estudar comigo.

— Sim.

A resposta saiu sem provocação.

Sarah ficou esperando alguma continuação que não veio.

Draco já tinha voltado à leitura.

Ela retomou a frase no pergaminho.

Alguns minutos depois, dois alunos que estavam sentados mais perto recolheram os livros e seguiram para o castelo.

Sarah reparou porque, de repente, o trecho de grama ao redor deles ficou bem mais silencioso.

Continuou escrevendo.

Draco continuou lendo.

Não havia mais ninguém suficientemente próximo para se importar com o que faziam.

Sarah terminou a questão.

Passou para a seguinte.

— Essa resposta está errada — disse Draco ao lado dela.

Sarah puxou o pergaminho antes que ele alcançasse.

— Nem olhou direito.

— Você confundiu os princípios.

— Não confundi.

Draco colocou o próprio livro no chão e se inclinou para indicar uma linha.

Sarah afastou o pergaminho.

— Cuida da sua tarefa.

— A minha está certa.

— Arrogância não é método de estudo.

— Nesse caso está funcionando muito bem.

Sarah começou a explicar por que ele estava errado.

Quando terminou, percebeu que o caminho próximo aos jardins também tinha esvaziado.

Ainda assim, Draco pegou o próprio pergaminho para provar o ponto.

Sarah se aproximou para comparar os dois.

A discussão levou mais dez minutos.

Quando finalmente chegaram à conclusão de que ambos tinham interpretado partes diferentes da pergunta, Sarah recostou-se na árvore.

— Isso foi uma perda completa de tempo.

Draco retomou o livro.

— Foi você quem insistiu.

— Porque você estava errado.

— Parcialmente.

— É a forma covarde de dizer errado.

Ele soltou uma risada curta e continuou lendo.

Sarah abriu o próprio livro.

Depois de algum tempo, olhou para o caminho.

Não havia ninguém.

A mochila estava caída entre os dois. Draco a tinha devolvido fazia quase meia hora.

Nenhum deles tinha motivo para continuar ali.

Sarah baixou os olhos para a página.

— Você terminou essa parte?

Draco virou uma folha.

— Ainda não.

— Eu também não.

E ficaram.

Mais tarde, quando voltaram para o castelo, o corredor do terceiro andar estava quase vazio.

Sarah ia contar alguma coisa que Gina tinha dito no café da manhã. Draco discordou antes que ela chegasse à metade.

Ela passou os minutos seguintes defendendo Gina.

Quando alcançaram a escada em que normalmente seguiriam para lados diferentes, os dois continuaram andando na mesma direção.

Só na curva seguinte Draco parou.

— Minha sala é para lá.

Sarah apontou para o corredor pelo qual tinham acabado de passar.

— Eu sei.

Ele olhou para trás.

Sarah fez o mesmo.

Tinham ultrapassado a bifurcação fazia algum tempo.

— Você estava discutindo — disse Draco.

— Você também.

Ele ajustou os livros debaixo do braço.

— Ainda está errada.

Sarah retomou o caminho.

— Vai para sua aula, Malfoy.

Draco começou a voltar.

— Finalmente uma sugestão útil.

— E devolve minha pena amanhã.

Ele parou.

Olhou para a própria mão.

A pena de Sarah estava entre seus dedos.

Draco a ergueu.

— Você deixou comigo.

— Você pegou.

— Versões conflitantes.

Sarah estendeu a mão.

Draco voltou os poucos passos que os separavam e colocou a pena na palma dela.

Então seguiu para o outro corredor.

Sarah guardou a pena.

Só depois de descer a primeira escada percebeu que, durante todo aquele trecho, a conversa já não tinha servido a álibi algum.