A bruxa que não estava no roteiro.
1 Capítulo 1.
Hogwarts estava envolta numa atmosfera tensa, cinzenta, completamente diferente dos anos anteriores. A vigilância dos Carrows e a sombra da guerra do lado de fora haviam mudado a rotina nos corredores, mas, dentro da Torre da Grifinória, ainda restava alguma coisa parecida com normalidade.
Ou, pelo menos, uma tentativa dela.
Sarah Griller estava afundada numa poltrona gasta perto da lareira, com um romance trouxa aberto sobre as pernas. O fogo estalava baixo enquanto a noite caía sobre o Lago Negro e, ao redor dela, alguns alunos tentavam estudar enquanto outros cochichavam sobre detenções, patrulhas e quem havia sido levado para a sala dos Carrows naquela semana.
Sarah tentava ler. Já havia voltado ao mesmo parágrafo vezes suficientes para começar a desconfiar de que não fazia a menor ideia do que estava acontecendo na história.
Do outro lado da sala, Harry e Rony conversavam em voz baixa perto de uma janela. Hermione, por sua vez, ocupava praticamente metade de uma mesa com pergaminhos, livros e a expressão concentrada de quem pretendia resolver todos os problemas de Hogwarts antes de dormir.
Rony disse alguma coisa que Sarah não conseguiu ouvir e guardou depressa um pedaço de pergaminho no bolso. Harry respondeu ainda mais baixo.
Ela obrigou os olhos a voltarem para o livro e conseguiu avançar três linhas antes de perceber que estava olhando para os três outra vez.
Hermione finalmente largou a pena.
— Conseguiu ler alguma coisa com esse barulho todo, Sarah?
Sarah baixou os olhos para a página, como se precisasse conferir.
— Tecnicamente? Li o mesmo parágrafo umas quatro vezes. Então alguma coisa eu li. Só não garanto que tenha entendido.
Hermione sorriu e inclinou o rosto para tentar ver a capa.
— O que é?
Sarah ergueu um pouco o livro.
— Romance trouxa. Minha prima me deu nas férias.
— Faz tempo que não vejo um desses por aqui.
— Eu estava tentando me distrair, mas aparentemente escolhi mal o lugar.
O sorriso de Hermione diminuiu quando ela olhou ao redor da Sala Comunal.
— É... não está exatamente fácil.
— Minha família é barulhenta — disse Sarah, acomodando melhor o livro sobre as pernas. — Sempre achei que, depois de crescer com eles, conseguiria ler em qualquer lugar. Hogwarts está fazendo o possível para provar que eu estava errada.
Hermione soltou um pequeno riso, mas o som foi praticamente engolido pelo restante da sala.
O barulho vinha aumentando aos poucos. Dois alunos discutiam perto da lareira, alguém arrastou uma cadeira do outro lado do salão e um grupo mais próximo das escadas conversava alto demais sobre uma detenção ocorrida naquela semana. Rony reclamou de alguma coisa para Harry, que respondeu sem levantar muito a voz, e Hermione voltou a organizar os pergaminhos que já estavam organizados.
Sarah encarou a mesma página por mais alguns segundos antes de desistir.
Gostava deles. Gostava mesmo.
Só não precisava gostar de todo aquele barulho naquele exato momento.
Fechou o livro e se levantou.
— Vou procurar alguma coisa para comer.
Hermione ergueu os olhos dos pergaminhos.
— A essa hora?
— Pretendo cometer o terrível crime de procurar torta. Não acho que o Ministério tenha tipificado ainda.
— Sarah...
Ela já estava colocando o romance dentro da mochila.
— Volto rápido.
Antes que Hermione pudesse transformar aquilo numa discussão sobre toque de recolher, Sarah pegou a mochila e deixou a torre.
♦
Os corredores estavam frios e quase vazios, e a diferença de temperatura em relação à Sala Comunal atingiu-a assim que o retrato se fechou às suas costas. Sem precisar pensar muito no caminho, desceu até o porão, encontrou o quadro da fruteira e fez cócegas na pera verde até que a fruta se contorcesse, transformando-se numa maçaneta.
A cozinha de Hogwarts estava quente, iluminada e cheirava a pão.
Perfeito.
Ela mal havia entrado quando um dos elfos a reconheceu.
— A senhorita Griller está pálida! Precisa de açúcar para o estômago e para a alma!
Antes mesmo que Sarah pudesse responder, uma travessa de torta de chocolate apareceu diante dela.
Sarah decidiu que aquele elfo compreendia a vida consideravelmente melhor do que a maioria dos adultos que conhecia.
Já estava na metade do primeiro pedaço quando ouviu passos rápidos do lado de fora. A entrada se abriu logo depois e Draco Malfoy entrou, lançando primeiro um olhar breve por cima do ombro antes de deixar a passagem se fechar atrás dele.
Foi só então que percebeu que não estava sozinho.
Ele parou.
Sarah continuou mastigando, sem qualquer pressa.
— Grifinória na cozinha dos elfos a essa hora? — perguntou Draco, recuperando rapidamente a expressão habitual. — Perdeu o rumo da Torre ou os santinhos da sua casa finalmente ficaram insuportáveis?
Sarah terminou o pedaço antes de responder e, com toda a calma possível, limpou com a língua uma gota de chocolate que havia ficado no polegar.
— Malfoy. Perdão. Não tinha te visto aí.
O olhar dele foi até seu rosto, desceu para o polegar e voltou.
— Você podia, pelo menos uma vez na vida, aprender a usar um guardanapo, Griller.
— Sete anos e você ainda acha que pode me educar.
— Sete anos e você continua tornando isso necessário.
Sarah deixou escapar um sorriso curto.
Era assim com Malfoy. Sempre tinha sido. Bastava um deles dizer alguma coisa para o outro devolver, e então uma provocação puxava a seguinte até que algum dos dois ficasse sem tempo, sem paciência ou simplesmente encontrasse coisa melhor para fazer.
Normalmente, Sarah gostava de descobrir quem desistiria primeiro.
Um elfo surgiu oferecendo suco de abóbora. Draco aceitou o copo quase sem olhar e se encostou à mesa oposta, enquanto Sarah pegava outra garfada de torta.
— E você? — perguntou ela. — Resolveu fazer inspeção noturna voluntária agora?
Draco bebeu um pouco do suco antes de responder.
— Não sabia que precisava apresentar um relatório dos meus movimentos para você.
— Não precisa. Só pensei que talvez estivesse sentindo falta do distintivo.
Dessa vez, a resposta não veio imediatamente.
Foi quase nada, uma pausa curta o bastante para passar despercebida para qualquer outra pessoa. Sarah, no entanto, conhecia Draco Malfoy havia tempo suficiente para saber que, normalmente, ele já teria devolvido a provocação antes mesmo que ela terminasse a frase.
Ela ergueu os olhos do prato.
— Acertei algum nervo?
— Não se dê tanta importância.
— Difícil, considerando o quanto você facilita.
Draco tomou outro gole, mas, em vez de responder, olhou novamente para a entrada da cozinha.
Sarah acompanhou o movimento com os olhos. Esperou alguns segundos, certa de que ele diria alguma coisa por conta própria.
Não disse.
— Malfoy.
Ele tornou a olhar para ela.
— O quê?
Sarah hesitou por um instante. A pergunta já estava na ponta da língua, embora a expressão dele não parecesse exatamente convidativa.
— Está tudo bem?
Draco ficou olhando para ela.
Não pareceu ofendido. Se alguma coisa, parecia irritado pelo simples fato de ela ter perguntado.
— Está tudo sob controle.
Sarah pousou o garfo no prato.
— Isso não foi exatamente um “sim”.
— Ainda bem que não pedi uma análise.
Ele deixou o copo sobre a mesa. Sarah percebeu então que havia bebido pouco mais de dois goles.
— Tenho coisas melhores para fazer do que passar a madrugada discutindo com você.
Ela arqueou ligeiramente uma sobrancelha.
— Isso é novidade.
Draco já seguia em direção à saída.
— Fica com a torta, Griller.
Sarah olhou para o prato.
— Era o plano.
Antes de desaparecer pelo corredor, ele ainda lançou um último olhar para fora.
Sarah permaneceu encarando a entrada fechada por alguns segundos.
Estranho.
Malfoy sempre fora estranho, mas aquilo tinha sido diferente.
Ela voltou os olhos para a torta, pegou outra garfada e decidiu que, qualquer que fosse o problema, era exatamente isso.
Problema dele.
♦
Sarah permaneceu na cozinha por mais alguns minutos. Em parte porque ainda havia torta; em parte porque não estava particularmente interessada em encontrar Draco no corredor tão cedo e, por algum motivo, acabar retomando aquela discussão estranha de onde haviam parado.
Quando finalmente saiu, o castelo parecia ainda mais silencioso.
Ela seguiu pelas escadas e pelos corredores de pedra tentando ignorar o quanto Hogwarts mudava depois do toque de recolher. Durante o dia, havia alunos por toda parte, vozes atravessando os corredores, passos apressados e quadros reclamando de qualquer coisa que lhes desse motivo. Àquela hora, restavam apenas sombras compridas, algumas tochas acesas e o som dos próprios sapatos contra o chão.
Sarah acabava de dobrar uma esquina quando alguém surgiu depressa na direção contrária. Nenhuma das duas teve tempo de desviar, e seus ombros se chocaram.
— Olha por onde...
A reclamação morreu antes de terminar.
Pansy Parkinson ajeitou a capa da Sonserina com um movimento irritado e, quase no mesmo instante, endireitou o distintivo de monitora preso ao peito.
Sarah pensou seriamente em apenas continuar andando.
As duas nunca tinham tido motivo para conversar. Na verdade, Parkinson parecia dedicar um esforço considerável a agir como se Sarah não existisse, o que era uma dinâmica bastante conveniente para ambas. Naquela noite, porém, ela se deslocou o suficiente para impedir a passagem.
— O que você está fazendo aqui, Griller?
O olhar de Sarah desceu deliberadamente para o distintivo antes de voltar ao rosto dela.
— Boa noite para você também, Parkinson.
— O toque de recolher vale para todo mundo.
Sarah demorou um instante para responder, olhando ao redor do corredor vazio.
— Curioso ouvir isso de alguém que também está passeando pelo castelo.
Pansy mexeu a mão junto ao corpo, e foi então que Sarah percebeu que ela segurava alguma coisa. Um reflexo prateado escapou entre seus dedos antes que fechasse a palma com força demais.
Sarah viu, e a expressão que atravessou o rosto de Parkinson deixou claro que ela também sabia disso.
— Eu sou monitora.
— Certo. Então o distintivo agora também dá autorização para andar pelos corredores escondendo coisas na mão?
Por um instante, Pansy ficou completamente imóvel. Sarah inclinou levemente a cabeça, agora muito mais interessada do que alguns segundos antes.
— O que é isso?
— Não é da sua conta.
— É uma pena. Normalmente, quando alguém responde assim, significa que é justamente a parte interessante.
Pansy lançou-lhe um olhar duro.
— Cuidado, Griller. Curiosidade demais costuma acabar mal por aqui.
A irritação superficial havia desaparecido de sua voz, substituída por um tom mais baixo e sério. Sarah já preparava uma resposta quando Pansy acrescentou:
— Principalmente para sangue-ruins que ainda não aprenderam o próprio lugar.
A palavra acertou como sempre acertava, mas Sarah não lhe daria o prazer de perceber.
— Acabou?
Pansy pareceu incomodada com a falta de reação.
— Você realmente não sabe quando ficar quieta, não é?
Sarah deu de ombros e tornou a olhar para a mão fechada.
— Já ouvi isso algumas vezes. Ainda quero saber o que tem aí.
— E eu ainda não pretendo contar.
— Então alguma coisa tem. Ótimo, já avançamos bastante.
Pansy soltou uma risada curta e sem humor.
— Você realmente se acha importante.
A provocação teria funcionado melhor se ela não parecesse tão tensa. Sarah percebeu isso no mesmo instante, mas não chegou a responder, porque passos começaram a ecoar no corredor transversal, pesados e regulares.
Uma patrulha.
Sarah virou o rosto na direção do som. Quando tornou a olhar para Pansy, a irritação havia desaparecido completamente.
Ela estava assustada.
Aquilo, sim, não fazia sentido. Pansy tinha o distintivo de monitora no peito e uma desculpa perfeitamente aceitável para estar fora da cama. Poderia simplesmente entregar Sarah à patrulha e seguir seu caminho. Em vez disso, fechou os dedos ainda mais ao redor do objeto prateado e recuou.
— Parkinson?
Pansy não respondeu. Virou e saiu depressa na direção contrária, deixando Sarah acompanhá-la com os olhos até que os passos da patrulha se aproximassem o bastante para criar um problema mais urgente.
— Merda.
Ela se virou e começou a andar depressa, abandonando qualquer tentativa de parecer casual. Não chegou muito longe.
Uma mão fechou-se em torno de seu braço e a puxou bruscamente para uma alcova escondida pela sombra de uma estátua. Sarah mal teve tempo de reagir antes que outra mão cobrisse sua boca.
— Shiu.
Seu corpo inteiro enrijeceu.
Por um instante, pensou em acertar o cotovelo em quem quer que fosse. Então reconheceu o cheiro.
Cedro e hortelã.
Sarah fechou os olhos por um segundo.
É claro. Malfoy.
A luz distante de uma tocha atravessou o corredor e confirmou os cabelos claros e os olhos cinzentos a poucos centímetros dos seus.
Sarah tentou dizer o nome dele contra a palma de sua mão.
O resultado foi pouco convincente.
— M'foy.
Draco estreitou os olhos.
— Se você gritar, eu te entrego pessoalmente.
Sarah respondeu apenas com um olhar que, esperava, conseguisse transmitir pelo menos três ameaças diferentes.
Os passos chegaram ao corredor.
Draco não se moveu, e Sarah foi obrigada a fazer o mesmo.
Era estranho perceber que, depois de sete anos de implicância cuidadosamente cultivada, aquela provavelmente era a primeira vez que ficavam perto o bastante para que Sarah reparasse em detalhes que nunca tivera necessidade de observar.
Os fios muito claros caíam um pouco sobre a testa dele. A luz fraca desenhava a linha de sua mandíbula e, quando Sarah percebeu, seus olhos haviam descido até a boca de Draco.
Por uma fração de segundo.
Ela imediatamente tornou a encará-lo.
Irritante.
Sarah sempre soubera que Malfoy era bonito. Era uma constatação objetiva; seria preciso estar deliberadamente distraída para não notar. Só nunca tivera motivo algum para confirmar a informação a poucos centímetros de distância.
Os passos começaram a se afastar.
Draco ainda esperou alguns segundos antes de retirar a mão de sua boca.
Assim que ficou livre, Sarah apoiou as duas palmas no peito dele e o empurrou.
— Por Merlin, seu idiota.
Ele recuou o suficiente para lhe dar espaço.
— De nada.
Sarah ajeitou a capa, ainda recuperando o fôlego.
— Você quase me matou de susto. Podia ter avisado antes de me arrancar do corredor desse jeito.
— Claro. Da próxima vez, eu paro no meio da patrulha e explico com calma o que estou fazendo.
Ela lançou-lhe um olhar atravessado.
— Eu estava lidando com a situação.
Draco olhou para ela por um instante, depois para o corredor por onde Sarah tentara fugir.
— Correndo no meio do corredor?
— Eu ainda estava formulando a estratégia.
— Então formulou uma péssima.
— Ainda poderia ter funcionado.
— Certamente. Até alguém correr mais rápido que você.
Sarah abriu a boca para responder, mas desistiu e começou a ajeitar as próprias vestes, ainda irritada.
Foi então que percebeu que Draco não parecia ter qualquer pressa de ir embora.
Ele olhava para o corredor, atento demais para alguém que simplesmente havia saído da cozinha e estava voltando para a própria sala comunal.
Sarah franziu o cenho.
Algo não fechava.
— Espera um pouco.
Draco voltou os olhos para ela.
— O quê?
— Você saiu da cozinha antes de mim.
— Excelente memória.
Sarah ignorou o sarcasmo.
— Bem antes de mim.
Dessa vez, Draco não respondeu.
Ela lançou um olhar para o corredor atrás dele e depois tornou a encará-lo.
— Então por que você ainda está aqui?
A hesitação durou pouco.
Mas existiu.
— Não é da sua conta.
Sarah soltou uma pequena risada incrédula.
— Você acabou de me puxar pelo braço e enfiar numa alcova para me esconder de uma patrulha. Acho que isso me dá direito a pelo menos uma pergunta.
— Não dá.
— Malfoy, você claramente está fazendo alguma coisa.
Antes que ele respondesse, o ar pareceu vibrar.
O estrondo veio de repente.
Uma explosão sacudiu as paredes, e um clarão atravessou o corredor por uma fração de segundo. Sarah levou a mão à varinha por puro reflexo.
— Mas que porra foi essa?
Draco não respondeu.
Toda a mudança nele aconteceu tão rápido que Sarah quase não acompanhou. O sarcasmo desapareceu, os ombros ficaram tensos e ele permaneceu completamente imóvel, olhando para o corredor à esquerda.
Na direção da Ala Norte.
Sarah percebeu.
— Malfoy?
Ele pareceu voltar a si.
— Volta para a sua torre.
Sarah ficou encarando-o.
— O quê?
— Você ouviu. Volta para a Torre da Grifinória. Agora.
— E você vai fazer o quê?
Draco já saía da alcova.
Sarah deu um passo atrás dele.
— Draco.
Foi a primeira vez naquela noite que usou seu primeiro nome.
Ele parou.
Não por muito tempo, apenas o suficiente para olhar por cima do ombro.
— Torre da Grifinória.
Então virou novamente e seguiu na direção oposta.
Na direção da explosão.
Sarah ficou parada por um segundo, tentando decidir qual das opções diante dela era menos absurda. Segui-lo parecia idiota. Deixá-lo ir sozinho também. Poderia chamar alguém, exigir uma explicação ou simplesmente ignorar tudo e fingir que aquela noite ainda fazia algum sentido.
Não teve tempo para escolher.
Portas começaram a se abrir em diferentes pontos do castelo, e vozes surgiram junto com uma quantidade crescente de passos. Professores apareceram nos corredores enquanto alunos curiosos saíam dos dormitórios e das salas comunais tentando descobrir o que havia acontecido.
McGonagall surgiu no alto de uma escada e sua voz atravessou o corredor, ordenando que todos retornassem imediatamente às respectivas salas comunais.
Sarah ainda olhou uma última vez na direção em que Draco havia desaparecido.
Depois guardou a varinha.
E fez exatamente o que ele havia mandado.
O que, por si só, já era preocupante.
♦
A Sala Comunal da Grifinória estava um caos quando Sarah atravessou o retrato. Alunos ocupavam os sofás, as escadas e até pedaços do chão; alguns ainda estavam de pijama, enquanto outros falavam ao mesmo tempo, tentando descobrir de onde viera a explosão e se alguém sabia o que realmente tinha acontecido.
Hermione a viu quase imediatamente e se levantou.
— Sarah!
Rony apareceu logo atrás dela, com uma expressão que misturava alívio e irritação.
— Onde você estava?
Sarah mal teve tempo de terminar de entrar.
— Na cozinha.
Rony franziu o cenho.
— Na hora da explosão?
— Eu estava voltando. Não explodi nada, se é isso que você está pensando.
Harry surgiu naquele momento, descendo as escadas do dormitório masculino. Havia uma capa dobrada de qualquer jeito sobre seu braço, mas Sarah não prestou muita atenção nela de início.
— Você estava perto? — perguntou ele.
Sarah hesitou.
A imagem de Pansy surgiu primeiro: a mão fechada, o reflexo prateado entre os dedos e o medo repentino quando ouvira a patrulha. Depois veio Draco, parado no corredor muito tempo depois de ter saído da cozinha, e a rapidez com que seguira justamente na direção da explosão.
— Perto o bastante para ouvir.
Harry se aproximou um pouco.
— Mas você viu alguma coisa? Alguém por perto?
Sarah sustentou o olhar dele por um instante.
— Não exatamente.
Não era uma mentira completa. Também não era exatamente verdade.
Hermione pareceu perceber a diferença, porque ficou observando Sarah por alguns segundos, mas ela tratou de atravessar a sala e se jogar numa das poltronas antes que começasse outro interrogatório.
— Eu só queria torta — reclamou, deixando a cabeça cair contra o encosto. — Era para ser um ano calmo.
Rony soltou uma espécie de riso pelo nariz.
— Você realmente acreditou nisso? Com a nossa sorte?
Sarah cobriu o rosto com as mãos.
— Por alguns dias. Deixem-me ter tido esperança.
— Otimismo perigoso — comentou ele.
Hermione sentou-se perto dela, mas Harry continuava de pé, inquieto demais para acompanhar a brincadeira.
— Aquilo não pareceu uma explosão pequena.
Sarah falou por trás das mãos:
— Excelente observação, Potter. O castelo inteiro tremeu.
— Não foi isso que eu quis dizer. — Harry olhou na direção do retrato, como se ainda pudesse ouvir alguma coisa do lado de fora. — Acho que aconteceu na Ala Norte.
Isso fez Sarah afastar as mãos do rosto.
— Como você sabe?
Harry lançou um olhar rápido para Rony.
Rony devolveu o olhar e, quase por reflexo, levou a mão ao bolso das vestes.
Hermione percebeu a troca e fechou os olhos por um segundo.
— Não. Nem comecem.
Harry ignorou o aviso.
— Dá para descobrir.
Hermione virou-se para ele.
— Harry.
— Eu só quero olhar.
Ela soltou um suspiro.
— Você nunca “só olha”. Esse é exatamente o problema.
Rony apontou discretamente para Hermione.
— Nisso ela tem razão.
Rony enfiou a mão no bolso e tirou o pedaço de pergaminho que Sarah o vira esconder mais cedo. Ela reconheceu na mesma hora.
— Espera. É isso que você guardou antes?
Rony parou com o pergaminho na mão.
— Você viu?
— Você não foi exatamente discreto. O que é isso?
Harry estendeu a mão, e Rony lhe entregou o pergaminho.
— O Mapa do Maroto — respondeu Harry.
Sarah se endireitou na poltrona.
— O quê?
Rony se aproximou da mesa e apontou para o pergaminho.
— Ele mostra Hogwarts.
Sarah olhou de Rony para Harry.
— Isso continua não explicando muita coisa. Mostra Hogwarts como?
Harry começou a abrir o papel.
— Os corredores, as passagens e quem está andando por eles.
Sarah demorou um instante para entender a última parte.
— Pessoas também?
Harry assentiu.
— Em tempo real.
— Você está brincando comigo.
— Não.
Sarah olhou novamente para o pergaminho.
— E vocês tinham isso esse tempo todo?
Antes que qualquer um dos dois pudesse responder, Hermione soltou um suspiro comprido.
— E antes que alguém tenha outra ideia brilhante, talvez seja bom lembrar que o castelo inteiro está em alerta. Professores estão patrulhando os corredores e ninguém deveria sair daqui.
Harry ergueu ligeiramente o braço.
Foi então que Sarah prestou atenção de verdade ao tecido prateado que ele carregava.
Hermione também.
Seu olhar foi da capa para Harry.
— Não.
Ele piscou.
— Eu nem falei nada ainda.
— Não precisa. Eu conheço você.
Sarah apontou para o tecido.
— Espera aí. Isso é uma Capa da Invisibilidade?
Harry olhou para ela e depois para a capa, como se a resposta fosse óbvia.
— Quer ver a Ala Norte?
Hermione soltou um ruído de pura incredulidade.
Sarah olhou para a capa.
Depois para o mapa.
Por fim, para Hermione.
— Eu sei que a resposta correta é não.
Hermione pareceu quase aliviada.
— Finalmente alguém nesta sala com algum—
— Mas eu não vou conseguir dormir sem saber o que aconteceu.
A expressão dela desmoronou.
Hermione deixou a cabeça cair para trás contra o sofá.
Rony, ao contrário, se levantou.
— Eu fico aqui.
Harry olhou para ele.
— Tem certeza?
— Alguém precisa estar na Sala Comunal se McGonagall aparecer e perceber que metade de vocês resolveu desaparecer no meio da noite.
Hermione abriu a boca.
Rony antecipou-se, empurrando para perto dela a caneca que estava sobre a mesa.
— E você fica também.
Ela franziu o cenho.
— Eu não disse que ia com eles.
— Ainda não.
— Rony...
— Você está exausta, Hermione. Fica aqui. Se eles demorarem, a gente começa a se preocupar de maneira organizada.
Hermione olhou para a caneca e depois para ele. Pareceu considerar uma discussão, mas acabou puxando-a para mais perto.
— Obrigada.
Rony apenas deu de ombros.
Sarah se levantou da poltrona e ajeitou as vestes.
— Eu fico de olho no Potter.
Hermione soltou uma pequena risada, apesar de tudo.
— Boa sorte. Ninguém conseguiu até hoje.
Harry já começava a abrir a capa.
— Vamos antes que alguém aqui recupere o bom senso.
Antes de saírem, Harry estendeu o pergaminho sobre uma das mesas da Sala Comunal. Sarah se aproximou, ainda tentando entender como aquele pedaço de papel aparentemente comum poderia fazer tudo o que ele acabara de descrever.
Harry encostou a ponta da varinha no pergaminho.
— Eu juro solenemente não fazer nada de bom.
Por alguns segundos, nada aconteceu. Então linhas finas começaram a surgir no papel, espalhando-se em todas as direções como tinta correndo sozinha pela superfície.
Sarah esqueceu completamente o cansaço.
Corredores tomaram forma diante dela. Escadas, salas, passagens que se cruzavam e pequenos pontos acompanhados por nomes se moviam por diferentes partes de Hogwarts. No alto da página, uma inscrição apareceu pouco a pouco:
Os senhores Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas têm o orgulho de apresentar o Mapa do Maroto.
Sarah ficou olhando para o pergaminho, fascinada.
— Isso é sensacional.
Harry sorriu de lado.
— Eu sabia que você ia gostar.
— Quem fez isso?
— História longa.
— Naturalmente.
Harry deslizou o dedo pelo mapa antes que ela pudesse começar outra sequência de perguntas. Vários nomes estavam concentrados numa mesma região do castelo.
— Aqui. Ala Norte.
Sarah se inclinou sobre a mesa. Havia professores e outras figuras espalhados pelos corredores próximos, alguns praticamente parados, outros se deslocando de um lado para o outro.
Harry acompanhou uma das linhas com o dedo até encontrar uma passagem lateral.
— Se formos por aqui, conseguimos chegar perto sem atravessar a área principal.
Do outro lado da sala, Hermione murmurou alguma coisa que soou bastante como uma ameaça dirigida aos dois.
Sarah preferiu fingir que não tinha ouvido.
Poucos minutos depois, ela e Harry já estavam espremidos sob a Capa da Invisibilidade.
Dividir o espaço era mais complicado do que Sarah imaginara. Precisavam andar praticamente ombro a ombro para não deixar um pé, uma mão ou qualquer pedaço das vestes aparecer do lado de fora, enquanto Harry mantinha o mapa aberto diante deles e tentava consultá-lo sem esbarrar nas paredes.
Sem poder conversar normalmente, o castelo parecia ainda mais silencioso.
A cada curva, Harry verificava o mapa antes de avançar. Em duas ocasiões, tiveram de recuar e esperar que uma patrulha passasse; em outra, ficaram imóveis junto à parede enquanto um professor atravessava o corredor a poucos metros deles.
Sarah começava a compreender por que Hermione odiava tanto aquela ideia.
Também começava a compreender por que Harry continuava tendo ideias como aquela.
Funcionavam com frequência demais.
Finalmente, alcançaram uma tapeçaria antiga. Harry afastou discretamente uma das pontas, revelando uma passagem estreita escondida atrás dela, e os dois entraram antes de deixar o tecido voltar ao lugar.
O túnel era apertado e escuro, obrigando-os a caminhar mais devagar. Terminava alguns metros adiante, diante de uma grade de ferro.
Do outro lado, ainda havia fumaça suspensa no ar.
Sarah se aproximou apenas o suficiente para enxergar através das barras.
Pedras quebradas cobriam o corredor. Poeira se acumulava sobre o chão e parte das paredes estava marcada por fuligem. Snape estava no centro da área destruída, acompanhado por dois homens de vestes escuras que reviravam os escombros sob suas ordens.
Mas Sarah percebeu quase imediatamente que não havia nenhuma abertura para o lado de fora.
Aquilo não parecia uma parede simplesmente destruída por uma explosão.
O dano se concentrava ao redor de uma estrutura embutida nela: um arco de pedra parcialmente destruído, cercado por marcas queimadas e pelos restos do que pareciam ter sido antigas proteções mágicas.
Sarah estreitou os olhos.
Grande parte dos destroços estava espalhada pelo corredor, longe da estrutura.
Como se alguma coisa os tivesse empurrado para fora.
Snape se abaixou diante de uma das marcas e passou os dedos perto da pedra sem tocá-la.
— Não foi rompida daqui.
Um dos homens parou de mexer nos escombros.
— Diretor?
Snape passou lentamente a ponta da varinha sobre a superfície queimada.
— A proteção cedeu de dentro para fora.
Sarah virou imediatamente o rosto para Harry.
Mesmo na penumbra, conseguiu perceber que ele também havia entendido.
De dentro para fora.
Do outro lado da grade, Snape se levantou.
— Quero este corredor isolado. Ninguém entra, ninguém remove nada e ninguém toca nessas pedras sem minha autorização.
O outro homem hesitou antes de perguntar:
— Acredita que alguém estava lá dentro?
Snape permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando o arco destruído.
Quando respondeu, sua voz veio fria.
— Acredito que tirar conclusões antes de termos informações é uma maneira bastante eficiente de destruir uma investigação.
O homem se calou imediatamente.
Sarah tornou a olhar para a estrutura. Queria chegar um pouco mais perto, tentar enxergar as marcas ao redor do arco, e acabou se inclinando na direção da grade.
Harry segurou seu braço antes que avançasse mais.
Ela virou o rosto, pronta para reclamar, mas ele apenas apontou para o mapa.
Um nome se aproximava pela passagem lateral.
Sarah recuou na mesma hora.
Os dois avançaram alguns metros para dentro do túnel e se encostaram à parede, imóveis sob a capa.
Os passos chegaram perto da entrada.
Diminuíram.
Pararam.
Sarah prendeu a respiração.
Por alguns segundos, não houve absolutamente nada além do próprio coração batendo rápido demais.
Então os passos recomeçaram e foram se afastando pelo corredor.
Harry ainda esperou antes de se mexer. Consultou o mapa mais uma vez e, só então, abaixou um pouco o pergaminho.
— Chega.
Sarah abriu a boca, pensou melhor e apenas assentiu.
Dessa vez, não discutiria.
Enquanto faziam o caminho de volta, ela continuava repetindo mentalmente as palavras de Snape.
De dentro para fora.
Aquilo não combinava com uma invasão comum.
Na verdade, não combinava com quase nada.
Quando Sarah e Harry finalmente retornaram à Sala Comunal, boa parte dos alunos já havia desistido de esperar por novidades. O fogo da lareira estava mais baixo, as conversas tinham desaparecido e restavam apenas algumas luminárias acesas espalhando uma luz fraca pelo salão.
Rony ainda estava acordado no sofá.
Hermione, não.
Ela havia adormecido com a cabeça apoiada no ombro dele, e Rony parecia estar naquela posição havia tempo suficiente para já ter desistido de tentar se mexer. Assim que percebeu Harry e Sarah entrando, levou imediatamente um dedo aos lábios.
— Demoraram.
Harry retirou a Capa da Invisibilidade com cuidado.
— Tivemos que esperar uma patrulha passar.
Rony olhou rapidamente de um para o outro, como se conferisse por conta própria.
— Mas vocês estão inteiros?
— Estamos.
Só depois da resposta ele pareceu relaxar. Tentou mudar um pouco de posição no sofá, provavelmente porque o braço já devia estar dormente, mas o movimento foi suficiente para acordar Hermione.
Ela piscou algumas vezes, ainda confusa, antes de perceber onde estava. Em seguida viu Harry e Sarah de pé diante deles.
— Graças a Merlin.
Hermione se endireitou devagar e esfregou os olhos com as pontas dos dedos.
— Não. Não quero saber os detalhes agora.
Harry começou a sorrir.
— Excelente, porque—
— Amanhã — interrompeu ela, erguendo uma mão. — Vocês me contam amanhã, quando eu tiver energia suficiente para ficar horrorizada direito.
Rony pegou a caneca que Hermione havia abandonado sobre a mesa e a estendeu para ela.
— Ainda está morna. Mais ou menos.
Hermione aceitou a caneca, olhou para ele por um instante e bebeu um pouco sem comentar.
Sarah, que observava a cena, arqueou uma sobrancelha.
— Certo. Boa noite, Trio Ternura.
Rony fez uma careta.
— Vai dormir, Griller.
— Pela primeira vez hoje, uma excelente sugestão.
Sarah não precisou ouvir duas vezes. Subiu para o dormitório, largou a mochila perto da cama e praticamente caiu sobre o colchão, exausta demais para fazer qualquer outra coisa.
O problema era que seu cérebro parecia ter recebido uma opinião diferente.
Assim que fechou os olhos, a noite inteira começou a voltar fora de ordem: Pansy Parkinson andando pelo castelo depois do toque de recolher com alguma coisa prateada escondida na mão e o medo repentino em seu rosto quando ouvira a patrulha; Draco saindo da cozinha muito antes dela e, ainda assim, permanecendo exatamente naquela região; a explosão e a rapidez com que ele seguira para a Ala Norte sem sequer hesitar.
Por fim, a voz de Snape voltou com clareza:
A proteção cedeu de dentro para fora.
Sarah virou de lado na cama. Nada daquilo se encaixava direito. Pansy estava escondendo alguma coisa, Draco claramente fazia algo que não queria explicar e havia uma estrutura protegida na Ala Norte que, aparentemente, tinha sido destruída pelo lado de dentro.
No meio de tudo isso, porém, uma lembrança particularmente inútil continuava se intrometendo: cedro e hortelã, a mão de Draco cobrindo sua boca e o espaço apertado da alcova, perto o suficiente para que ela reparasse em coisas que normalmente não precisava reparar.
Sarah abriu os olhos.
Aquilo não tinha importância.
O que importava era que Draco não deveria estar naquele corredor. E, por algum motivo que ela ainda não conseguia explicar, tinha certeza de que ele também sabia disso.
Só muito depois o cansaço finalmente venceu.
Fale com o autor