A batida do coração

38 O Peso do Ritmo e os Passos da Trégua



​Duas semanas após o despertar milagroso, a rotina no Hospital Municipal de Santa Bárbara havia mudado de tom. O clima de funeral e os bipes assustadores dos monitores da UTI deram lugar ao som de risadas, reclamações teatrais e ao barulho de passos arrastados nos corredores da ala de reabilitação. Guga fora transferido para um quarto de enfermaria e, embora seu coração estivesse batendo no ritmo perfeito, seus músculos — acostumados à maratona de duas horas de espancamento de tambores nos palcos — pareciam ter esquecido como sustentar seus quase um metro e noventa de altura após dias de coma.

​O grande problema da transição era puramente físico. Guga era pesado, de estrutura larga, e a reabilitação exigia esforço bruto para fazê-lo andar e recuperar a flexibilidade das costelas fraturadas. Como Anya entrara no quarto mês de gestação e precisava seguir as ordens rígidas de Letícia para não carregar peso ou fazer esforços abdominais, uma figura inusitada preencheu a vaga de "braço direito" no tratamento: Derick Laurentis.

​O empresário de feições rígidas e ternos impecáveis havia assumido o papel de irmão mais velho de alma de forma definitiva. Ele trocara os sapatos de couro por tênis esportivos e aparecia no hospital todas as tardes, pronto para servir de escora para o homem que outrora vira como rival, mas que agora reconhecia como parte de sua própria família.

​A Sala de Tortura (Com Vista para o Jardim)

​Na tarde de segunda-feira, a sala de fisioterapia do hospital — um espaço amplo com paredes verde-claras, bolas suíças coloridas, halteres de borracha e barras paralelas de metal — foi o palco de um verdadeiro espetáculo de comédia e superação.

​O responsável pela sessão era o Dr. Marcelo Linhares, o novo fisioterapeuta da ala de traumas. Marcelo era um homem jovem, com energia de sobra, cabelos cacheados presos por uma faixa e um senso de humor blindado contra pacientes teimosos.

​Guga estava sentado na ponta de uma maca baixa, vestindo uma bermuda de moletom e uma camiseta sem mangas que deixava à mostra os hematomas amarelados nas costelas em processo de cura. Ele encarava uma enorme bola inflável de borracha azul à sua frente como se estivesse diante de um inimigo mortal.

​— Vamos lá, Gustavo! Sem drama — o Dr. Marcelo comandou, batendo palmas para animar o ambiente. — Hoje o objetivo é simples: equilíbrio de tronco e fortalecimento de core. Eu quero que você sente na bola azul e tire os dois pés do chão por dez segundos.

​Guga olhou para o médico e depois para Anya, que estava sentada em uma cadeira de canto, comendo um pote de salada de frutas e exibindo uma barriguinha que começava a marcar suavemente o vestido de algodão.

​— Marcelo, meu amigo, o meu core serve para eu segurar a postura enquanto meto o pé no bumbo a cento e oitenta batidas por minuto — Guga reclamou, a voz rouca ecoando pela sala. — Essa bola azul aí é um atentado contra a minha dignidade de roqueiro. Se eu cair disso, vou virar meme na internet antes de lançar o álbum.

​— Deixa de ser mole, Telles — Derick cortou, aproximando-se da maca. Ele usava uma camiseta polo preta e já estava com os braços cruzados, ostentando aquela postura de comando que não o abandonava. — Se você cair, eu te pego antes de você quebrar o resto das costelas. Anda logo, a Anya não tem o dia todo para ficar te assistindo passar vergonha.

​— Olha só quem fala, o sargento Laurentis — Guga resmungou, mas aceitou a ajuda.

​Derick deu um passo à frente, espalmou as duas mãos grandes e firmes abaixo das axilas de Guga, içando o baterista da maca com uma facilidade impressionante. Guga cambaleou um pouco, testando o peso nas pernas compridas, e se escorou no ombro de Derick até conseguir se posicionar em cima da bola suíça.

​O Equilíbrio do Rock

​Assim que o peso de Guga pressionou a borracha, a bola quicou de leve para o lado, e o baterista abriu os braços, os olhos arregalados, parecendo um equilibrista de circo iniciante.

​— Segura ele, Derick! — Anya riu alto de sua cadeira, quase engasgando com um pedaço de melão. — Meu amor, a sua pose de bad boy do rock sumiu completamente agora. Você parece um boneco de posto de gasolina ao vento!

​— Não escorrega, artista! Não me filma assim! — Guga protestou, tentando tensionar o abdômen, o que o fez soltar um gemido baixo. — Ai, minha costela... Marcelo, essa bola está viva, ela está tentando me arremessar na parede!

​— É o efeito da gravidade em quem passou dias dormindo, Gustavo — o Dr. Marcelo se divertia, anotando os segundos no cronômetro. — Agora, tira o pé esquerdo do chão... Devagar. Derick, fica na contenção traseira.

​Derick posicionou-se logo atrás de Guga, com as pernas afastadas para dar base, segurando levemente a cintura do músico para que ele não capotasse para trás. A cena era hilária: o empresário mais temido do distrito financeiro servindo de para-choque para um baterista gigante em cima de uma bola de borracha.

​— Concentra, Guga. Para de olhar para a salada de frutas da Anya e foca no seu equilíbrio — Derick instruiu perto do ouvido dele, segurando firme quando a bola deu uma guinada para a direita. — Se você cair e me puxar junto, eu juro que cancelo o contrato da turnê que eu ajudei a fechar com a gravadora.

​— Você não teria coragem, Laurentis... Você é o nosso maior fã secreto, eu vi você chorando na praça — Guga rebateu, arrancando um esforço extra do abdômen e conseguindo, finalmente, tirar os dois pés do chão por exatos cinco segundos antes de a bola deslizar e os dois — Guga e Derick — irem direto para o chão de borracha da sala, rolando em um emaranhado de pernas e braços.

​A sala explodiu em gargalhadas. Anya ria tanto que precisou colocar o pote de frutas na mesa para segurar a própria barriga com as duas mãos, os olhos lacrimejando de felicidade. O Dr. Marcelo batia palmas, rindo da performance.

​No chão, Guga estava deitado de costas, rindo alto apesar da dor nas costelas, enquanto Derick se sentava, limpando a poeira invisível da calça esportiva com uma expressão de falsa indignação.

​— É... o equilíbrio ainda precisa de um ajuste de estúdio, mas a queda foi nota dez — Marcelo brincou, estendendo a mão para ajudar Derick a se levantar.

​O Próximo Passo

​Após o momento de comédia com a bola, o Dr. Marcelo indicou as barras paralelas de metal no centro da sala. Era a hora do exercício mais sério da tarde: a caminhada assistida de ida e volta para testar a resposta do quadril.

​Guga levantou-se com a ajuda de Derick, que se posicionou do lado esquerdo do noivo de Anya, servindo de apoio firme para o braço dele. Anya caminhou devagar até o início das barras, parando bem na linha de chegada, cruzando os braços com um olhar cheio de orgulho e expectativa.

​Guga segurou as barras de metal com as mãos, sentindo a solidez do ferro. Ele olhou para os próprios pés e depois ergueu os olhos para Anya. O divertimento deu lugar a uma determinação bonita.

​— Vamos lá, Gustavo. No compasso — Marcelo orientou. — Um pé de cada vez.

​Guga deu o primeiro passo com a perna direita. O joelho tremeu sutilmente, mas o suporte do braço de Derick o manteve na linha reta. Ele deu o segundo passo, arrastando o pé esquerdo de leve pelo chão.

​— Isso aí, cara... mantém a cabeça erguida — Derick incentivou, a voz grave saindo num tom de companheirismo puro, sem o gelo de outrora. — Você já correu palcos maiores que essa barra aqui. Anda logo que o seu filho está assistindo.

​A cada passo dado, Anya dava um sorriso mais largo. Ela estendeu a mão esquerda para a frente, esperando por ele no final do percurso de três metros. O anel de noivado brilhava sob as luzes da sala de fisioterapia.

​Quando Guga finalmente alcançou o final da barra, exausto e com o suor escorrendo pelas têmporas, ele soltou o ferro e agarrou a mão de Anya, puxando-a para um abraço cuidadoso. Ele enterrou o rosto nos cabelos dela, respirando o perfume de jasmim que sempre o trazia de volta para a realidade.

​— Eu consegui, artista... — ele sussurrou, a voz cansada, mas cheia de uma satisfação imensa.

​— Você foi maravilhoso, meu amor — ela respondeu, beijando o canto dos lábios dele e limpando o suor de sua testa com os dedos. — O ritmo está voltando.

​Derick aproximou-se do casal, pegando a toalha de rosto na maca e jogando no ombro de Guga com um tapa leve nas costas.

​— Muito bem, Telles. Por hoje chega de pagar mico — Derick sorriu, olhando para os dois com uma paz que preenchia o ambiente. — Agora vamos voltar para o quarto. Eu fiz a Letícia prometer que passaria lá depois do expediente dela para checar como o nosso pequeno baterista aqui dentro reagiu às suas quedas cinematográficas.

​Guga riu, passando o braço pelo pescoço de Derick em um gesto de pura gratidão de irmão. Eles caminharam juntos em direção à porta da sala, com Anya liderando os passos, ciente de que, entre as quedas na bola azul, os passos firmes na barra de ferro e as risadas divididas com o irmão mais velho que a vida lhes devolvera, a reabilitação de Guga não era apenas física; eles estavam curando a própria história, passo a passo, no compasso mais bonito de todos.