A batida do coração
39 Confissões na Penumbra e o Guardião do Sono
O final da tarde trazia uma calmaria mansa para o quarto de enfermaria do Hospital Municipal de Santa Bárbara. A pedido de Derick e após uma insistência quase cômica de Murilo e Sônia, a administração do hospital havia autorizado a colocação de uma cama de solteiro extra, encostada na parede lateral do quarto, logo abaixo da janela. Era ali que Anya Drake agora repousava.
O esforço da sessão de fisioterapia e o peso do quarto mês de gestação haviam exaurido suas energias. Ela dormia um sono profundo, sereno, com uma das mãos espalmada sobre a curvatura já evidente de sua barriga. O macacão manchado de tinta dera lugar a um pijama confortável de algodão claro, e os cabelos escuros estavam espalhados pelo travesseiro, emoldurando um rosto que, finalmente, não trazia as marcas da tensão.
No leito principal, Guga estava recostado nos travesseiros hospitalares, com a perna esquerda suspensa por um suporte e os hematomas das costelas devidamente protegidos. Sentado na cadeira de metal ao lado da cama, Derick Laurentis mantinha a postura relaxada, com os braços apoiados nos joelhos. Os dois homens olhavam fixamente para a jovem adormecida, mantendo o tom de voz em um sussurro quase inaudível, temendo quebrar o santuário daquele descanso.
— Ela não se mexeu nos últimos quarenta minutos — Guga cochichou, com a voz rouca, um sorriso terno desenhando-se em seus lábios enquanto observava o subir e descer ritmado do peito de Anya. — Acho que o susto da bola azul na fisioterapia gastou a última gota de adrenalina que ela tinha no corpo.
Derick soltou um riso soprado pelo nariz, olhando de soslaio para o baterista antes de voltar a fitar a noiva do amigo.
— Se você tivesse caído em cima dela com aquele seu tamanho de girafa, a Letícia me matava e depois matava você. Ela precisa dormir, Telles. O Dr. Álvaro me disse em particular que o sistema imunológico dela estava no limite antes de você acordar. Ela estava se sustentando puramente por teimosia.
— Eu sei... — Guga suspirou, o semblante tornando-se sério e carregado de uma gratidão profunda. Ele olhou para a própria mão calejada, movendo os dedos devagar. — Quando eu estava lá na UTI, preso naquele silêncio esquisito, eu conseguia sentir quando ela segurava a minha mão. Era como se... como se o peso dos dedos dela fosse a única coisa que me impedia de sair flutuando por aquele quarto.
O Relato do Invisível
Derick ajeitou-se na cadeira, cruzando os dedos das mãos. A menção ao período de coma trouxe à tona a sombra do passado que os dois compartilhavam através de Jace, mas agora, sem a barreira do orgulho.
— Você me disse no corredor que o Jace falou com você sobre o bebê na praia — Derick comentou, o tom de voz caindo ainda mais, tocado por uma curiosidade genuína e dolorosa. — Como... como foi isso, Guga? De verdade.
Guga recostou a cabeça no travesseiro, olhando para o teto cinzento do quarto por alguns segundos, organizando as memórias daquele limiar entre a vida e a morte.
— Cara, no começo eu achei que estava apenas sonhando com a praia onde a gente ia no final de ano na faculdade — Guga confessou, virando o rosto para olhar diretamente nos olhos escuros de Derick. — Mas o Jace... ele não parecia um fantasma ou uma lembrança. Ele estava ali, com aquela jaqueta de couro que ele se recusava a lavar, cheio de uma luz que quase doía de olhar. Ele estava feliz, Derick. Rindo daquele jeito escandaloso dele.
Derick engoliu em seco, sentindo o peito apertar, mas manteve-se imóvel, absorvendo cada palavra do relato.
— Ele se sentou comigo na areia e a primeira coisa que me disse foi sobre o show na praça — Guga continuou, com os olhos brilhando. — Ele estava orgulhoso. Disse que ouviu cada nota do baixo do Paulinho, cada virada que eu dei na bateria e que a voz dele no telão saiu com a mixagem perfeita. Ele me agradeceu por não deixar a música dele sumir do mundo. Mas o que me quebrou, Derick... foi quando ele me falou do hospital.
— O que ele disse? — Derick perguntou, a voz saindo ligeiramente embargada.
— Ele disse que passou os últimos anos cuidando da Anya nas sombras, ajudando a guiar os pincéis dela para que ela não se afogasse no vermelho-cádmio que ela pintava — Guga sorriu de canto, limpando uma lágrima rápida que escorreu por sua têmpora. — E ele me disse que estava bem ali, do lado esquerdo da minha cama de UTI, na tarde em que a Anya desmaiou. O Jace viu o coração do bebê pelo celular dela, cara. Ele me disse que o nosso filho era a composição mais bonita que a nossa banda já tinha colocado no mundo. Ele estava radiante por ser tio.
A Emoção do Irmão Mais Velho
Ao ouvir aquelas palavras, a armadura de empresário implacável que Derick Laurentis sustentara por cinco anos ruiu por completo na penumbra daquele quarto de hospital. Ele abaixou a cabeça, cobrindo o rosto com uma das mãos enquanto os ombros subiam e desciam em um soluço contido. As lágrimas começaram a correr livres por entre seus dedos, lavando a culpa, a dor e o luto que ele carregara como uma sentença de morte desde o acidente na estrada.
Guga estendeu o braço direito, o que estava livre dos acessos, e colocou a mão espalmada sobre o ombro de Derick, apertando-o com uma força de irmão.
— Ele te viu na praça também, Derick — Guga sussurrou, o tom preenchido por uma compaixão pura. — O Jace me pediu para te dizer que ele está em paz. Ele disse que o ciclo dele fechou do jeito mais lindo que podia e que você já pagou todas as dívidas que achava que tinha com o passado. Ele está orgulhoso de ver você seguindo em frente com a Letícia. Ele quer ver você viver, irmão.
Derick puxou o ar com dificuldade, limpando o rosto com a palma das mãos e respirando fundo até conseguir estabilizar a voz. Ele olhou para Guga com os olhos vermelhos, mas o olhar trazia uma leveza que Anya nunca tinha visto nele antes.
— Eu passei tanto tempo com raiva de você, Guga... com raiva da Anya, com raiva do mundo porque achei que vocês tinham esquecido ele rápido demais — Derick desabafou, a voz trêmula de emoção. — Mas vendo vocês dois agora... percebo que eu era o único que estava trancado naquele cemitério. Obrigado por me trazer esse recado dele. Significa... significa o mundo para mim.
— O Jace era o nosso vocalista, Derick, mas você sempre foi a base que mantinha a estrutura de pé — Guga sorriu, apertando o ombro do empresário mais uma vez antes de recolher o braço. — A gente é uma família agora. Quer você queira ou não, vai ter que aguentar esse baterista aqui nas reuniões de domingo.
Derick soltou uma risada fraca, limpando o canto dos olhos com o polegar.
— Desde que você não tente tocar bateria com os talheres na mesa da minha mãe, eu acho que posso suportar.
Os dois homens voltaram a olhar para a cama de solteiro onde Anya Drake continuava imersa em seu sono profundo, alheia à trégua definitiva que acabara de ser selada no silêncio do quarto. O sol finalmente desapareceu no horizonte de Santa Bárbara, dando lugar a uma noite estrelada e calma. O fantasma de Jace Laurentis já não assombrava as fendas do passado; ele agora era a luz que abençoava o recomeço daquela mesa, o crescimento daquele bebê e os passos firmes que os três, juntos, dariam em direção ao amanhã.
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