A batida do coração

40 O Crescimento do Fruto e o Ritmo da Cura



​O tempo, que outrora parecera um inimigo arrastado nos corredores do hospital, passou a correr com a leveza de uma melodia bem ensaiada. Três meses se desdobraram desde o despertar de Guga. Em Santa Bárbara, as folhas de outono deram lugar ao frio sutil do inverno, transformando a paisagem da cidade histórica e emoldurando a evolução daquela pequena família que renascia das cinzas.

​Aos sete meses de gestação, a silhueta de Anya Drake mudara por completo. A barriguinha discreta de antes agora era uma curva proeminente, linda e perfeitamente redonda, que ela carregava com um orgulho que transparecia em cada gesto. Seu caminhar era mais lento, mas seus olhos castanhos tinham um brilho de sol que há anos não se via. No ateliê da casa da piscina, as telas escuras e os tons de luto haviam sumido em definitivo. Agora, os cavaletes ostentavam pinceladas de verde-oliva, tons terrosos e o azul daquela praia que Guga a descrevera.

​Guga, por sua vez, desafiara os prognósticos mais pessimistas da medicina. A dedicação dele na fisioterapia — impulsionada pelas piadas e pela força bruta de Derick nas tardes de treino — dera resultados surpreendentes. As costelas estavam totalmente coladas, o pulmão recuperara a capacidade expansiva total e as pernas compridas andavam sem qualquer sinal de hesitação. O baterista estava quase inteiro de novo. Seus cabelos escuros haviam crescido, a cor viva voltara ao seu rosto e ele já passava horas sentado no estofado do apartamento 402, segurando uma baqueta em cada mão e praticando exercícios de rebote em uma almofada de borracha, reeducando os pulsos para o retorno aos palcos.

​Uma Manhã de Sol e Chuteiras

​Na manhã de um sábado ensolarado, o apartamento do casal estava impregnado com o aroma de panquecas caseiras e café fresco. Anya estava sentada na banqueta alta da cozinha americana, vestindo um camisão de linho de Guga que ficava esticado sobre a grande barriga de sete meses. Ela segurava uma xícara de chá morno, observando o noivo.

​Guga estava de pé diante do fogão, vestindo apenas uma calça de moletom velha. Ele usava uma espátula de silicone para virar as panquecas no ar, arriscando um pequeno passo de dança ritmado enquanto cantarolava uma linha de baixo. Ao ver a cena, Anya soltou uma risada clara.

​— Gustavo, se você deixar essa panqueca grudar no teto, você vai limpar sozinho — ela brincou, apoiando o queixo nas mãos.

​Guga virou-se, exibindo um sorriso gigante no rosto limpo, sem as marcas do hospital. Ele colocou a espátula de lado, pegou o prato com as panquecas perfeitas e caminhou até ela, depositando o café da manhã no balcão.

​— Respeita o chefe de cozinha, artista — ele rebateu, aproximando-se e inclinando o corpo para a frente.

​Antes de beijar os lábios dela, Guga ajoelhou-se no chão da cozinha, ficando com o rosto exatamente na altura da grande barriga de Anya. Ele espalmou as duas mãos quentes e calejadas nas laterais do ventre dela, colando a orelha direita na pele protegida pelo tecido do camisão.

​— E aí, meu parceiro de banda? Como é que estão as coisas aí nessa concha acústica hoje? — Guga perguntou em um tom de voz dócil, arrastando os dedos de leve pela pele dela.

​No mesmo milésimo de segundo, a barriga de Anya sofreu uma pequena ondulação do lado esquerdo. O bebê deu um chute firme, pontual e forte, bem contra a orelha do pai.

​— Caramba! — Guga exclamou, rindo alto e afastando o rosto com os olhos arregalados de choque e alegria. — Sentiu isso, Anya? Esse moleque não dá um chute sem ritmo. Foi direto no tempo forte do compasso!

​— Eu senti, meu amor — Anya sorriu, colocando a mão por cima dos cabelos dele, acariciando os fios escuros. — Ele passa o dia inteiro se mexendo sempre que você começa a praticar com as baquetas na sala. Acho que ele já está escolhendo o instrumento.

​Guga levantou-se do chão, puxando uma banqueta para sentar-se bem ao lado dela. Ele pegou a mão esquerda de Anya, entrelaçando seus dedos e roçando o polegar contra o anel de noivado que reluzia sob a luz da manhã.

​— Falta pouco agora, né? Só mais dois meses — Guga comentou, o olhar mudando para uma intensidade madura, cheia de uma responsabilidade bonita. — Às vezes, quando estou treinando os rebotes na sala, eu olho para essa casa e ainda me custa acreditar. O asfalto quase levou tudo, Anya... e hoje, eu olho para você, olho para esse barrigão e sinto que eu sou o cara mais rico desse mundo.

​Anya se inclinou, encostando a testa na dele, sentindo a respiração calma de Guga.

— Nós vencemos a linha reta, Guga. Nós dois. E o Jace deu o empurrão final que a gente precisava para entender que a vida não pode esperar.

​O Almoço dos Recomeços

​Mais tarde naquele mesmo dia, o casal recebeu a visita de Derick e Letícia para um almoço descontraído na área externa da casa da piscina. Derick chegara vestindo roupas casuais, sem a costumeira armadura corporativa, trazendo uma sacola de uma loja infantil de grife. Letícia, radiante ao lado do noivo, trazia a prancheta de acompanhamento pré-natal de Anya por puro preciosismo médico.

​Enquanto Guga ajudava Arthur Drake a cuidar das carnes na churrasqueira, Derick caminhou até a mesa de madeira do jardim, onde Anya e Letícia organizavam os pratos. Ele colocou a sacola sobre o banco com um pigarreio sutil, tentando disfarçar a timidez do gesto.

​— A Letícia me arrastou até o shopping ontem — Derick começou, coçando a nuca, apontando para a sacola. — Ela disse que a gente precisava começar a montar o guarda-roupa do herdeiro da banda. Eu... bem, eu escolhi isso aqui. Achei que combinava com a dinastia Laurentis-Telles.

​Anya sorriu e abriu a embalagem de papel acetinado. De dentro, ela retirou um pequeno macacão de bebê feito de algodão preto texturizado, com uma estampa minimalista de um par de baquetas cruzadas em linhas douradas na parte da frente. Era delicado, moderno e carregava um simbolismo imenso.

​— Derick... isso é lindo — Anya disse, sentindo os olhos marejarem, olhando para o empresário com um afeto puro. Ela se aproximou e deu um abraço apertado nele, que retribuiu com duas batidinhas carinhosas nas costas dela. — Vai ser a primeira roupa que ele vai usar quando o Guga voltar a tocar.

​— É bom que ele use mesmo — Derick brincou, cruzando os braços e olhando em direção à churrasqueira, onde Guga erguia um espeto e fazia uma pose cômica para os dois. — O pai dele já está conseguindo andar sem parecer um pinguim manco, então a minha função de suporte físico está oficialmente encerrada. Agora a minha energia vai ser para cobrar que esse moleque nasça saudável.

​Letícia aproximou-se de Anya, colocando a mão espalhada nas costas da amiga, massageando de leve.

— A altura uterina está perfeita, Anya. Os batimentos que chequei no prontuário ontem continuam excelentes. O Guga ter ficado bom tirou um peso invisível dos seus ombros, e o bebê está respondendo a essa calmaria. Você está maravilhosa. Uma mãe linda.

​— Eu me sinto inteira, Letícia — Anya confessou, olhando para o jardim, para os pais que sorriam na varanda, para os sogros Murilo e Sônia que acabavam de cruzar o portão com mais doces, e para Guga, que vinha caminhando na direção deles com dois copos de suco nas mãos, sem qualquer dor, sem qualquer sombra.

​Guga parou ao lado de Anya, passando o braço forte pelos ombros dela, trazendo-a para perto de seu peito. Ele olhou para o pequeno macacão preto na mesa, depois para Derick, e ergueu o copo em um brinde à vida que pulsava ali fora.

​Os meses de inverno haviam passado, levando consigo o resto do gelo que um dia travara os corações daquela história. A barriga de Anya crescia como o anúncio de uma nova primavera, e a saúde de Guga era a prova de que o compasso do amor havia sido restabelecido. Em Santa Bárbara, a música já não falava de ausência; ela se expandia na presença, nos chutes rimados do bebê e na certeza de que o futuro que eles estavam desenhando seria a obra de arte mais bonita de suas vidas.