​A sexta-feira do show da banda de Jace chegou trazendo uma daquelas chuvas típicas de outono: persistente, fria e que deixava o asfalto brilhando sob os postes de luz da cidade. O bar no centro estava lotado, abafado e cheio de energia. Quando Jace subiu ao palco com sua guitarra, ele parecia o dono do mundo. Anya, na primeira fileira, não conseguia desviar os olhos dele. Ele tocou olhando para ela, sorrindo entre os acordes, exalando aquela vivacidade de dezenove anos que a arrebatava.

​Os pais dele, Paola e Carlos, também foram prestigiar, orgulhosos, dividindo uma mesa no fundo com Rose e Arthur, os pais de Anya. Por algumas horas, tudo foi perfeito. Duas famílias unidas pela felicidade daquele jovem casal.

​Quando o show terminou, por volta da meia-noite, Jace estava elétrico, com a adrenalina no topo.

​— Foi incrível, Anya! Você viu a galera na última música? — ele dizia, enquanto colocava a guitarra no banco de trás do seu carro, na garagem escura atrás do bar.

​— Você foi maravilhoso, Jace — ela disse, ajeitando a gola da jaqueta de couro dele e recebendo um beijo molhado e apaixonado em troca. — Mas a chuva está aumentando. Seus pais já foram. É melhor irmos também.

​— Eu só preciso passar no estúdio de ensaio rapidinho para deixar o amplificador do guga, prometi para ele. Coisa de dez minutos. Vai indo na frente com o seu carro, te encontro na minha casa para a gente comemorar!

​Anya hesitou por um segundo. Olhou para o céu fechado e para as poças d'água que se formavam no chão.

​— Tem certeza? Não quer que eu vá com você?

​— Não precisa, meu amor. O estúdio é aqui perto. Vá devagar por causa da pista — ele piscou, com aquela autoconfiança de quem se achava invencível. — Te amo.

​— Também te amo. Toma cuidado.

​Anya entrou em seu carro e seguiu o caminho de volta, dirigindo com cautela sob o temporal. Ela chegou à casa dos Laurentis cerca de vinte minutos depois. A luz da varanda estava acesa. Ao entrar, encontrou Paola e Carlos na cozinha, tomando um chá para se aquecerem. Para a surpresa de Anya, Derick também estava ali, encostado no balcão, segurando um livro fechado, com seu habitual semblante sério.

​— O Jace ainda não chegou? — Paola perguntou, sorrindo para Anya.

​— Ele foi deixar um amplificador no estúdio, dona Paola. Disse que vinha logo atrás — Anya explicou, sentando-se à mesa.

​Meia hora se passou. Depois, uma hora.

​O clima na cozinha, antes leve, começou a murchar. Carlos tentou ligar para o celular do caçula, mas caía direto na caixa postal.

​— Ele deve ter ficado conversando com os meninos da banda — Carlos tentou acalmar a esposa, mas seu próprio tom de voz entregava a preocupação.

​Anya olhava para o celular a cada trinta segundos, o estômago começando a se contrair em um nó doloroso. Ela ergueu os olhos e, por um instante, cruzou o olhar com Derick. Ele não disse nada, mas a rigidez em seus ombros mostrava que ele, o irmão mais velho e protetor, também estava em alerta. Derick guardou o livro.

​Foi quando o telefone fixo da casa tocou. O som estridente cortou o silêncio da madrugada como uma lâmina.

​Carlos atendeu no segundo bipe. Anya prendeu a respiração. Ela viu a cor sumir completamente do rosto do pai de Jace. As mãos do homem começaram a tremer.

​— Sim... Sim, sou eu. O pai dele. Hospital Central? Meu Deus... Como ele está? — a voz de Carlos quebrou. Paola soltou um grito sufocado, levando as mãos à boca.

​O mundo de Anya desabou ali mesmo. O ar sumiu de seus pulmões. Ela se levantou da cadeira, mas suas pernas vacilaram, e ela teria caído se duas mãos firmes e fortes não tivessem segurado seus braços pelo lado. Era Derick. Ele a segurou com força, impedindo-a de desabar, embora seus próprios olhos estivessem arregalados pelo choque.

​— O que aconteceu? — a voz de Derick saiu rouca, direcionada ao pai.

​— O carro... — Carlos tentou falar, as lágrimas inundando seus olhos. — O Jace perdeu o controle na curva da avenida perimetral. Aquaplanagem. Ele bateu contra um poste de alta tensão. Estão levando ele para a emergência agora.

​O caos se instalou na casa. Paola chorava copiosamente, sendo amparada por Carlos, que tentava achar as chaves do carro com os dedos trêmulos. Anya sentia as lágrimas queimarem seu rosto, uma tontura violenta a atingindo. O choque era anestesiante.

​— Eu dirijo — a voz de Derick ecoou pelo hall, firme, assumindo o controle da situação enquanto todos desmoronavam.

​Ele olhou para Anya, que chorava silenciosamente, perdida em seu próprio desespero. Pela primeira vez, não havia frieza ou distância nos olhos de Derick. Havia uma preocupação genuína e uma urgência sombria. Ele estendeu a mão para ela.

​— Anya. Vamos. Você vem comigo.

​Sem pensar, ela segurou a mão do cunhado. Os dedos de Derick eram quentes e se fecharam com força ao redor dos dela, oferecendo a única segurança que existia naquele momento de horror. O caminho até o hospital foi um borrão de luzes de freio vermelhas e o barulho dos limpadores de para-brisa lutando contra a tempestade.

​A estrada ensolarada do futuro de Anya havia sumido na escuridão daquela noite. E, ao seu lado, no banco do motorista, o homem que ela sempre considerou um estranho era agora o único laço que a prendia à realidade.