A batida do coração

4 O Corredor do Silêncio Estéril



​O Hospital Central cheirava a antisséptico, café requentado e angústia. Àquela hora da madrugada, as luzes fluorescentes do teto pareciam cruas demais, banhando o saguão de espera em um tom pálido e fantasmagórico. Anya não conseguia parar de tremer. Suas mãos, frias como o gelo da tempestade lá fora, ainda guardavam a memória do aperto firme de Derick, embora ele tivesse soltado seus braços assim que cruzaram as portas automáticas para amparar a mãe.

​Paola Laurentis mal conseguia parar em pé. Carlos a sustentava pelo ombro, com os olhos vermelhos e fixos no balcão da recepção, onde uma enfermeira digitava lentamente no computador. Pouco tempo depois, o som de passos apressados ecoou pelo corredor. Rose e Arthur Drake surgiram, os rostos marcados pela preocupação. Rose correu imediatamente para abraçar a filha única.

​— Anya! Minha menina, como você está? Cadê o Jace? — Rose sussurrou com urgência, enquanto Arthur apertava a mão de Carlos em um cumprimento silencioso de solidariedade entre pais.

​— Nós não sabemos de nada ainda, mãe... Ninguém fala nada — a voz de Anya saiu como um sopro, os olhos cravados nas portas duplas que davam acesso à Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

​Derick estava um pouco mais afastado do grupo, encostado na parede de azulejos claros. Ele havia tirado o suéter cinza, vestindo apenas uma camiseta escura, e seus braços estavam cruzados sobre o peito. A mandíbula dele estava tão travada que um músculo saltava em sua bochecha. Ele não chorava. Mantinha a postura rígida de quem precisava ser a rocha da família, mas seus olhos escuros e opacos entregavam o turbilhão interno.

​A espera, que parecia durar séculos, foi interrompida pelo clique metálico da porta da UTI. Um homem de meia-idade, vestindo pijamas cirúrgicos verdes e um jaleco branco com o nome Dr. Andrews bordado no peito, caminhou em direção a eles. Ele segurava uma prancheta e tinha uma expressão cansada e grave — o tipo de semblante que nenhum familiar deseja ver em um hospital.

​— Família de Jace Laurentis? — o médico chamou, com a voz baixa e compassiva.

​Imediatamente, todos se moveram para formar um semicírculo ao redor dele. Carlos deu um passo à frente, puxando Paola para junto de si. Anya avançou instintivamente, mas parou a um passo de distância, sentindo o ar faltar. Sem que ela percebesse, Derick se aproximou, postando-se logo atrás dela, como uma barreira silenciosa contra o impacto do que estava por vir.

​— Sou o pai dele, doutor. Esta é a mãe, o irmão e a namorada — Carlos disse, a voz trêmula. — Por favor, nos diga... Como está o meu filho?

​O Dr. Andrews soltou um suspiro imperceptível e olhou para cada um deles antes de falar.

​— O quadro do Jace é extremamente crítico — começou o médico, escolhendo as palavras com precisão técnica, mas sem esconder a gravidade. — O impacto contra o poste de alta tensão concentrou-se quase todo no lado do motorista. O cinto de segurança evitou que ele fosse arremessado, mas a desaceleração brusca causou o que chamamos de Traumatismo Cranioencefálico (TCE) grave, além de uma forte contusão pulmonar e fraturas nas costelas.

​Paola soltou um soluço doloroso, escondendo o rosto no peito do marido. Anya sentiu suas próprias lágrimas transbordarem, escorrendo frias pelo pescoço.

​— O que isso significa na prática, doutor? — a voz de Derick cortou o ambiente. Era a primeira vez que ele falava no hospital. Sua voz era firme, quase cirúrgica, exigindo a verdade nua e crua que os pais talvez tivessem medo de ouvir.

​O médico olhou para Derick, reconhecendo a necessidade de clareza naquele momento.

​— Significa que houve um edema cerebral substancial — explicou o Dr. Andrews. — O cérebro dele inchou devido ao trauma. Para proteger as funções vitais e diminuir a pressão dentro do crânio, nossa equipe médica precisou intervir imediatamente. Nós o colocamos em um coma induzido e ele está conectado a um ventilador mecânico para respirar. No momento, o Jace não responde a estímulos externos. O quadro dele é de um coma profundo.

​— Ele vai acordar? — Anya disparou, a voz falhando, dando um passo involuntário à frente. O desespero em seus dezoito anos era dilacerante. — Ele estava sorrindo e tocando guitarra há duas horas... Ele estava bem! Ele não pode simplesmente...

​A voz dela sumiu em um choro sufocado. O médico olhou para ela com profunda empatia.

​— As primeiras setenta e duas horas são cruciais para monitorarmos a pressão intracraniana — disse o médico, de forma realista. — Nós fizemos uma tomografia de emergência e, por enquanto, conseguimos estabilizar os sinais vitais com medicamentos potentes. Não há indicação cirúrgica imediata, o que é um ponto positivo, mas o cérebro precisa de tempo para desinchar. Nós estamos fazendo tudo o que a medicina permite, mas agora... depende do corpo do Jace. Precisamos esperar. É um dia de cada vez.

​— Podemos vê-lo? — Carlos pediu, a voz embargada pelas lágrimas que tentava segurar.

​— Apenas dois por vez, em visitas curtas na UTI, assim que terminarmos de acomodá-lo no leito definitivo. Uma enfermeira virá chamá-los em alguns minutos. Sinto muito ter que dar essa notícia a vocês.

​O médico fez um aceno respeitoso e retirou-se pelas mesmas portas duplas, deixando para trás o eco de uma sentença brutal.

​Paola desabou em uma das cadeiras de plástico, chorando alto, sendo consolada por Carlos e por Rose, que tentava dar apoio à amiga. Arthur Drake abraçou Anya de lado, mas ela parecia em estado de choque completo. Seus olhos estavam fixos no chão, a mente repetindo as palavras: coma profundo, ventilador mecânico, depende do corpo dele.

​Anya se afastou sutilmente do abraço do pai, sentindo-se sufocada. Ela caminhou até o final do corredor, parando diante da grande janela de vidro que mostrava a chuva forte lavando a cidade escura. O vidro estava frio, e ela encostou a testa nele, deixando os ombros sacudirem com o choro que finalmente vinha sem freios. O futuro perfeito, a viagem de acampamento, o namorado de sorriso fácil... tudo parecia ter sido tragado pela curva perigosa daquela avenida.

​— Você precisa respirar — a voz profunda de Derick surgiu ao lado dela.

​Anya não se virou. Continuou olhando para a chuva através do reflexo do vidro. Derick parou a meio metro de distância, com as mãos nos bolsos da calça jeans. Pelo reflexo, ela viu que o rosto dele estava pálido, e os olhos, geralmente tão impenetráveis, carregavam uma dor pesada e silenciosa.

​— Como você consegue ficar assim? — Anya perguntou, a voz áspera pelo choro, misturando dor com a antiga antipatia. — Ele é seu irmão, Derick. Ele está conectado a máquinas para respirar, e você age como se estivesse ouvindo um relatório de faculdade!

​Derick mudou de posição, e o silêncio dele durou tanto que Anya finalmente se virou para encará-lo de frente. Quando seus olhos se cruzaram, ela viu que estava errada. Não era indiferença. Era uma barreira de proteção quase desesperada.

​— Se eu desabar, Anya, quem vai segurar a minha mãe? — Derick disse, a voz saindo baixa, mas carregada de uma intensidade que fez o peito de Anya apertar. — Quem vai ajudar o meu pai a assinar os papéis da internação? Um de nós precisa ficar de pé. E o Jace... o Jace odiaria ver todo mundo quebrado.

​Anya engoliu em seco. A resposta dele a desarmou. Ela percebeu, pela primeira vez, o peso gigantesco que o irmão mais velho carregava por escolha própria. A hostilidade que sempre existiu entre eles parecia irrelevante, quase infantil, diante do tamanho daquela tragédia.

​— Me desculpa... — ela sussurrou, baixando os olhos, sentindo-se exausta.

​Derick deu um passo curto à frente. Ele não a abraçou — a relação deles ainda não permitia isso —, mas ele estendeu a mão e, com os dedos longos, tocou suavemente o ombro de Anya, dando um aperto leve, mas firme. Um gesto puro de apoio.

​— Meus pais vão entrar primeiro para vê-lo — Derick disse suavemente, mantendo a mão no ombro dela por mais um segundo antes de afastá-la. — Depois, eu quero que você entre comigo. Eu não vou conseguir fazer isso sozinho.

​Anya olhou para ele, vendo através da armadura do cunhado. Ela assentiu com a cabeça, aceitando o pacto silencioso que nascia entre eles na noite mais escura de suas vidas.