A batida do coração
37 A Cor da Vida e a Nova Partitura
O ateliê na casa da piscina estava imerso em um silêncio cortado apenas pelo som rítmico do pincel de cerdas grossas contra a textura da tela de linho. Anya Drake estava de pé diante do cavalete, completamente alheia ao relógio. Ela vestia seu velho macacão de brim azul-escuro, salpicado por manchas secas de tinta a óleo de todas as cores — vestígios de suas fases de dor, mas agora cobertas por pinceladas recentes de amarelo-sol e azul-celeste. Seus cabelos escuros estavam presos no topo da cabeça em um coque apressado, sustentado por um lápis de desenho, e nos pés, ela usava suas pantufas felpudas de lã cinza. Pintar era a única forma que encontrava para acalmar a ansiedade que ritmava a espera pelo despertar de Guga.
A porta do ateliê se abriu de forma abrupta, quebrando a atmosfera de concentração. Rose Drake entrou no recinto, com o rosto banhado em lágrimas e a respiração visivelmente cortada pela emoção. Nas mãos trêmulas, ela estendia o próprio telefone celular.
— Anya... — a voz de Rose falhou, os lábios tremendo enquanto ela dava mais um passo na direção da filha. — Pega. É do hospital. É ele, minha filha... É o Guga.
Anya parou o pincel no ar. Uma gota de tinta amarela pingou no chão do ateliê, mas ela não se importou. Seus dedos largaram o instrumento de madeira e agarraram o aparelho celular com uma urgência cega. Ela colou o visor ao ouvido, sentindo o coração chutar contra as costelas.
— Alô...? — a voz de Anya saiu num fio trêmulo, assustada.
Do outro lado da linha, após um breve chiado característico da recepção do hospital, uma voz rouca, arranhada, cansada, mas preenchida por aquela cadência familiar e cheia de afeto que ela tanto conhecia, flutuou pelo alto-falante:
— Oi, artista... — Guga tossiu de leve, soltando uma risada fraca que fez o peito de Anya aquecer instantaneamente. — Eu voltei. E estou aqui esperando você para ajustar o nosso compasso.
Anya não respondeu com palavras. Ela soltou um soluço alto, entregando o celular de volta para a mãe. Ela não pensou em tirar o macacão sujo, não olhou no espelho para arrumar o coque desfeito e sequer lembrou que estava calçando as pantufas de quarto. Ela apenas correu. Passou pela porta do ateliê como um raio, arrancou as chaves do carro das mãos de Rose no corredor e correu em direção à garagem.
A Invasão no Corredor
O trajeto até o Hospital Municipal de Santa Bárbara foi um borrão de pressa e preces silenciosas. Anya estacionou o carro da mãe de qualquer jeito na vaga da emergência, bateu a porta e correu pelos corredores de linóleo. A imagem dela era inusitada: uma jovem grávida, vestindo um macacão manchado de tinta, cabelos desgrenhados e pantufas que arrastavam pelo chão hospitalar, mas ninguém no hospital ousou pará-la. O brilho de determinação em seus olhos castanhos abria qualquer caminho.
Ao se aproximar da porta do quarto 305, Anya reduziu o passo, tentando controlar a respiração. A porta estava semiaberta, e o som que vinha lá de dentro fez o choro dela se transformar em um sorriso involuntário.
— Doutor Álvaro, com todo o respeito à sua faculdade de medicina, mas isso aqui não é comida. Isso é um experimento científico de mau gosto! — a voz de Guga ecoava, ranzinza e cheia de uma energia teimosa que alegrava o ambiente. Ele gesticulava com a mão livre, apontando para uma tigela de plástico sobre a mesa de cabeceira. — É uma sopa misteriosa, cinzenta! Eu passei dias em coma, eu mereço um hambúrguer de verdade, com bastante queijo, bacon e uma Coca-Cola trincando de gelada!
O Dr. Álvaro Mendonça segurava a prancheta contra o peito, rindo abertamente da petulância do paciente recém-desperto.
— Gustavo, o seu estômago ficou paralisado por dias. Se eu te der um hambúrguer agora, você volta para a mesa de cirurgia em duas horas. Come a sopa de legumes e não reclama.
Guga ia rebater, mas seus olhos focaram na silhueta que acabara de empurrar a porta por completo. Ele parou de falar no mesmo segundo. O semblante ranzinza derreteu, dando lugar a um olhar profundo, marejado e transbordando um amor que não cabia naquele quarto. Ele estava sentado no leito, com o tórax enfaixado e um dreno lateral, mas os olhos dele estavam totalmente vivos.
— Você demorou, artista... — ele sussurrou, a voz falhando sutilmente pela emoção, abrindo os braços o máximo que as dores no corpo permitiam.
— Você que demorou cinco anos para voltar para mim, Gustavo Telles! — Anya rebateu, as lágrimas correndo livres por suas bochechas sujas de pó de grafite.
Ela atravessou a distância que os separava e jogou-se nos braços dele. Anya envolveu o pescoço de Guga em um abraço desesperado, apertado, enterrando o rosto na curvatura do ombro dele, sentindo o cheiro de pele e o calor real de seu noivo. No calor do momento, ela acabou pressionando as costelas feridas dele.
— Ai...! — Guga soltou um gemido contido de dor, contraindo o maxilar, mas sem desfazendo o abraço. Pelo contrário, ele apertou os braços ao redor das costas dela com ainda mais força.
— Meu Deus, desculpa! Desculpa, meu amor, eu esqueci dos ferimentos — Anya tentou se afastar rapidamente, assustada, mas Guga a segurou pela cintura, impedindo-a de se distanciar.
— Não solta não... a dor na costela a gente aguenta, o que eu não aguentava mais era a saudade de você — ele sorriu de canto, beijando a testa dela, os lábios dele demorando-se nos cabelos bagunçados de Anya.
O Recado da Praia e a Nova Canção
O Dr. Álvaro, percebendo a santidade daquele reencontro, deu um toque respeitoso no ombro de Derick — que assistia a tudo da porta com um sorriso cúmplice — e os dois se retiraram do quarto, fechando a porta para dar privacidade ao casal.
Anya sentou-se bem na beira do colchão, segurando as mãos de Guga. Ela olhou para ele, analisando cada traço do seu rosto, garantindo para si mesma de que ele era real. Guga, então, soltou uma das mãos dela e, de forma lenta e reverente, levou os dedos compridos até a barriga de Anya, espalmando a mão por cima do tecido manchado de tinta do macacão. Ele acariciou o ventre dela de três meses com uma delicadeza extrema.
— O Tio Jace mandou um oi para você... e para o nosso pequeno parceiro de banda aqui dentro — Guga disse, a voz caindo para um tom suave, os olhos brilhando com uma sabedoria nova.
Anya parou, com o coração dando um solavanco. Ela cobriu a mão dele com a sua.
— O Jace...? Guga, você... você viu ele?
— Vi, Anya. Foi tão real... — Guga suspirou, olhando para o vazio do quarto por um segundo antes de voltar a focar nela. — Eu estava caminhando em uma praia muito bonita, perdida, com medo de não achar o caminho de volta. E aí ele apareceu. O mesmo Jace de sempre, com aquela jaqueta de couro velha e um sorriso que iluminava tudo. A gente sentou na areia e conversou. Ele me contou que estava lá na praça com a gente. Disse que ouviu o show, que ouviu o áudio dele e que achou a nossa homenagem a coisa mais linda do mundo. Ele disse que o ciclo dele fechou em paz.
Anya começou a chorar baixinho, encostando a testa no ombro de Guga, ouvindo o relato com a alma aberta.
— E aí ele me falou do bebê, Anya — Guga continuou, a voz embargada pela emoção, os dedos dele massageando o ventre dela. — Ele disse que ouviu o coraçãozinho quando você colocou o celular no meu ouvido ontem. Ele me disse que eu precisava acordar porque o meu sobrinho ou sobrinha estava aqui fora me esperando para ensinar a tocar o bumbo. O Jace me deu um abraço forte, bateu no meu peito e mandou eu voltar para você. Ele me salvou de novo, artista. Mas agora, ele me salvou para eu viver o nosso para sempre.
Anya soltou um soluço, erguendo o rosto para beijá-lo. Foi um beijo molhado de lágrimas, mas cheio de um sabor de ressurreição, de vitória. A boca de Guga era quente, acolhedora, ditando o ritmo de uma vida que se recusara a parar.
Quando se afastaram, Guga limpou as lágrimas do rosto de Anya com o polegar, mantendo um sorriso largo e vitorioso nos lábios.
— Sabe de uma coisa? — ele sussurrou, os olhos brilhando com aquela faísca de gênio musical que o caracterizava. — Enquanto eu estava acordando, enquanto o tubo saía da minha garganta e eu sentia o meu peito puxar o ar... uma melodia inteira começou a tocar na minha mente. Um arranjo novo, forte, cheio de graves e com uma batida que não para por nada.
— É? E qual vai ser o nome dela? — Anya sorriu entre as lágrimas, acariciando os cabelos dele.
Guga puxou a mão dela e a colocou em cima de seu próprio peito, bem em cima da cicatriz da cirurgia, onde o coração do baterista pulsava forte, firme e compassado. Em seguida, ele moveu a mão dela de volta para o ventre de três meses, unindo as duas batidas no mesmo espaço.
— Ela vai se chamar A Batida do Coração — ele respondeu, com a voz cheia de certeza. — Porque é a música que provou que, não importa o tamanho do acidente ou o peso do asfalto... quando o amor é de verdade, o compasso sempre encontra um jeito de continuar tocando.
Anya deitou a cabeça no peito dele, ouvindo o som firme do coração de Guga ritmar o silêncio do quarto de hospital. O macacão manchado de tinta e as pantufas felpudas eram as vestes perfeitas para aquela celebração: a arte e a vida haviam se fundido, e em Santa Bárbara, a melodia do recomeço finalmente tocava a sua nota mais bonita e definitiva.
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