A batida do coração
36 O Despertar no Limiar do Mar
O mundo de Guga havia se reduzido a um silêncio profundo e a uma névoa densa, até que, lentamente, a escuridão deu lugar a uma claridade mansa. Ele se viu caminhando descalço pela areia de uma praia deserta, infinita, onde o mar tinha uma cor azul-celeste viva e as ondas quebravam sem fazer barulho. O vento era morno, mas ele não sentia o peso do próprio corpo; andava sem direção, tateando uma sensação de calmaria que há muito não experimentava.
Foi quando, ao longe, perto de onde a espuma do mar tocava a areia, uma silhueta conhecida apareceu.
Jace Laurentis estava lá. Ele vestia sua jaqueta de couro surrada por cima de uma camiseta branca, os cabelos bagunçados pelo vento e os olhos brilhando com aquela luz vibrante e o carisma indomável que sempre arrastava multidões. Ao avistar o baterista, Jace abriu um sorriso gigante, o mesmo sorriso que iluminava o galpão de ensaios da faculdade.
Guga parou, o coração espiritual dando um sobressalto. Ele olhou para as próprias mãos, depois para o amigo.
— Jace...? — Guga chamou, a voz saindo limpa, livre do peso do hospital. Ele deu passos rápidos até o irmão de alma. — Cara... eu morri? Eu mudei de plano?
Jace soltou uma risada calorosa, dando um tapa estalado no ombro de Guga antes de puxá-lo para um abraço rápido.
— Não, seu moleque panaca! Você não morreu — Jace respondeu, a voz cheia de eco e luz. Ele apontou para o horizonte do mar. — Senta aqui comigo. A gente tem uma folga no ensaio antes de você pegar o voo de volta.
O Diálogo na Areia do Tempo
Os dois se sentaram na areia fina, olhando para o oceano que parecia não ter fim. Guga sentia uma paz absurda, mas a imagem de Anya chorando no asfalto começou a piscar em sua mente como um sinalizador de emergência.
— Você viu o que aconteceu, Jace? — Guga perguntou, o semblante ficando sério. — O asfalto... a moto. Eu estava voltando para ela. Eu prometi que ia cuidar dela.
— Eu vi tudo, Guga. Eu estava lá — Jace disse, o tom de voz tornando-se terno e profundo, uma sabedoria que não pertencia aos vivos. — Eu estava do seu lado no palco daquela praça, cara. Eu ouvi você cantando as minhas músicas com os meninos. Eu vi o telão, vi a praça inteira chorando e celebrando a nossa história. Foi o show mais maravilhoso que a gente já fez. E quando a minha voz saiu naqueles alto-falantes... cara, o som estava perfeito. Obrigado por não deixar a minha bateria emudecer.
Guga deu um meio sorriso, os olhos marejados.
— A gente fez por você, irmão. A Anya... as telas dela abriram as portas. Ela te ama tanto.
— Eu sei. E eu amo vocês dois — Jace virou-se para Guga, o olhar brilhando com uma intensidade divina. — E sabe de uma coisa? Eu estava lá no hospital também, ontem à tarde. Eu estava do lado esquerdo daquela cama de UTI quando a Anya encostou a cabeça no seu peito e colocou aquele áudio para você ouvir. Eu vi o fruto do amor de vocês, Guga. Aquele coraçãozinho batendo na barriga dela... aquilo é a parada mais bonita que a nossa banda já produziu. Um pedacinho seu e dela. Uma nova música começando.
Guga arregalou os olhos, uma urgência humana e avassaladora subindo por sua alma de uma vez só.
— Um bebê...? A Anya está grávida, Jace?
— Grávida de três meses, seu baterista cabeçudo! — Jace riu alto, levantando-se da areia de um salto só e estendendo a mão para puxar Guga para cima. — O meu sobrinho ou sobrinha está lá fora esperando o pai para ensinar a bater no bumbo.
O Grito da Vida
Jace mudou de postura. O sorriso brincalhão deu lugar a uma expressão de comando, uma autoridade de irmão de alma que exigia o retorno. Ele segurou Guga pelos dois ombros com uma força descomunal, os olhos fixos nos dele.
— Já chega de dormir, Gustavo! O seu tempo de descanso nesta praia acabou — Jace disse, a voz ecoando como um trovão bom pelo cenário de luz. — A sua mulher precisa de você. O seu filho precisa de você. Eu já tive o meu encerramento, o meu ciclo fechou da forma mais linda do mundo naquela praça... agora a história é sua.
Jace fechou as mãos em punhos e bateu com força, duas vezes, contra o peito de Guga, bem em cima do coração.
— VOLTA! — Jace gritou, o sorriso de luz voltando ao rosto enquanto a praia começava a se desintegrar em feixes dourados. — VOLTA LOGO, MEU IRMÃO!
A Superfície da Vida
BIP-BIP-BIP-BIP-BIP!
No quarto 305 do Hospital Municipal de Santa Bárbara, os alarmes do monitor de sinais vitais dispararam em um ritmo frenético. Do nada, o corpo de Guga deu um solavanco violento na cama de hospital. Seus olhos se abriram completamente, as pupilas dilatadas fixando-se no teto branco-frio.
Ele sentou-se na cama de forma abrupta, ofegante, com o peito subindo e descendo em um desespero físico puro. O tubo endotraqueal da ventilação mecânica em sua boca causava um reflexo de náusea violento. Instintivamente, com as mãos trêmulas mas cheias de uma força renascida, Guga levou os dedos ao tubo, tentando arrancá-lo para conseguir respirar o ar do mundo real.
A enfermeira que estava checando os acessos no balcão deu um grito, derrubando a prancheta no chão.
— Doutor Álvaro! Doutor Álvaro, corre aqui! O paciente do 305 acordou! Ele está tentando extubar sozinho!
O Dr. Álvaro Mendonça cruzou as portas duplas da UTI a passos largos, com duas enfermeiras logo atrás. Ele segurou as mãos de Guga gentilmente, impedindo-o de rasgar as cordas vocais.
— Calma, Gustavo! Calma, não puxa! Eu vou tirar para você. Respira pelo nariz, relaxa os ombros — o médico comandava com precisão profissional, usando uma seringa para esvaziar o balonete do tubo.
Com um movimento técnico e rápido, o Dr. Álvaro puxou o tubo plástico da garganta do músico. Guga tossiu violentamente, curvando o corpo para a frente, puxando o ar puro de Santa Bárbara para os pulmões pela primeira vez em dias. O suor brilhava em sua testa, e a coloração pálida de sua pele começava a dar lugar ao tom vivo do sangue que circulava forte.
O médico colocou uma máscara de oxigênio leve sobre o nariz e a boca dele, ajustando os aparelhos que agora mostravam sinais vitais perfeitamente estáveis e conscientes. O Dr. Álvaro olhou para o baterista com um sorriso emocionado de quem acabara de testemunhar o impossível pela segunda vez.
— Bem-vindo de volta à vida, Gustavo — o médico disse, limpando o rosto do rapaz com uma gaze. — Você venceu a linha reta.
Guga piscou as pálpebras pesadas, a garganta seca e ardendo como brasa. Ele olhou ao redor do quarto, tateando a realidade, sentindo o calor do próprio corpo. Ele puxou o ar com força, tirou a máscara de oxigênio de leve com os dedos trêmulos e, com a voz saindo em um sussurro rouco, arranhado, mas absolutamente consciente e cheio de amor, pronunciou a sua primeira palavra:
— An... Anya...
A batida do coração de Guga no monitor estabilizou-se em um ritmo firme, forte e constante. O baterista estava de volta, o comando de Jace havia sido cumprido, e a nova música de sua vida pedia licença para começar a ser tocada no presente.
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