A Yullen Horror Story
9 O Ritual.
Notas iniciais
Gomem a demora, e ai vai mais um cap.
O penúltimo infelizmente.
IMPORTANTE:
- Os trechos da carta (aquela que começou a desgraça toda) estão SUBLINHADOS e as lembranças (indicarei o capítulo onde cada uma ocorreu nas notas finais) estão em ITÁLICO.
*Recomendo a releitura do cap 6 para melhor entendimento de algumas lembranças.*
Espero que gostem desse cap tanto quanto eu gostei de escrevê-lo!
Até as notas finais~
Acordei vagarosamente com o barulho da tempestade lá fora, sentindo falta de algo quentinho e aconchegante ao meu lado. Sai tateando a cama em busca do meu moreno com um sorriso bobo nos lábios depois de uma das melhores noites da minha vida.
Admito que mesmo temendo algumas delas, eu adorava realizar as fantasias do Yuu, até porque, se eu conseguisse cansá-lo o suficiente, o que era uma longa e principalmente árdua tarefa, eu conseguia o milagre de fazê-lo meu, apreciando cada pequeno gemido seu sussurrando meu nome naquela voz rouca...
Meu sorriso despareceu quando percebi que estava sozinho na cama. O que era definitivamente estranho, já que Kanda sempre gostava de me ver acordando, para se aproveitar da minha lerdeza matinal.
Respirei fundo. Bem, para tudo tem sua primeira vez.
Resolvi procurá-lo pela casa andando sorrateiramente pelos corredores na intenção de lhe dar um susto. Atravessei o portal do cômodo mais próximo em um movimento rápido, entrando na cozinha, mas ele também não estava lá.
Ok, hipótese dois: E se algo tivesse acontecido...?
Quero dizer... Ele parecia bem mal quando eu cheguei (embora tenha se recuperado rapidinho quando foi pra me amarrar na cama) e aquelas alterações na sua fisionomia me eram bem familiares e...
Ah, não...
Como em um estalo, algumas palavras escritas naquela carta me vieram à mente. Corri até a minha mala desesperado, com o coração palpitando como se fosse parar a qualquer momento, abri-a e despejei todo o conteúdo em cima da cama, vasculhando tudo de qualquer jeito até encontrar aquele maldito pedaço de papel envelhecido.
Corri os olhos automaticamente pelas letras escuras e borradas, parando apenas para prestar atenção na parte que me interessava.
“Durante o tempo que se passou depois do retorno do moço,sua aparência começara a mudar aos poucos. Ele estava cada vez mais magro e pálido, seus cabelos antes dourados como trigo, agora começavam a ficar cada vez mais escuros a ponto de começar a se aproximar do tom do das filhas, e no final de treze semanas sua aparência já era assustadora de tão bizarra. Seu cabelo escorria longo e fino pela pele assombrosamente pálida, a ponto de parecer translucida, seus olhos haviam clareado a ponto de parecerem prateados e as extremidades do seu corpo pareciam pontudas, tanto que seus dedos lembravam galhos secos de uma árvore.”
Encarei aquelas palavras com uma expressão indefinida por alguns minutos, mas meu interior estava desmoronando desastrosamente.
Kanda estava começando a apresentar os mesmos sintomas do médico.
Respirei fundo umas duas vezes tentando não ter um ataque de pânico nem nada do gênero, para então me levantar decidido e começar a bolar uma estratégia enquanto me vestia.
Eu iria encontrá-lo custe o que custar.
Espiei brevemente pela janela tendo o maior susto da minha vida quando dei de cara com um dos aldeões que estava com o rosto colado no vidro da janela e o olhar preso em mim. Me encarou por mais alguns segundos até que um sorriso deturpado surgiu em seus lábios, expondo a fileira de dentes amarelos e quebrados.
Logo, vários olhares se voltaram na minha direção e com um breve tremor eu percebi que aparentemente toda a vila estava cercando a casa e me olhando com um interesse perturbador. Parados na chuva torrencial, imóveis, apenas acompanhando cada respiração minha com seus olhos famintos; mais pareciam um bando de zumbis do que humanos.
Fechei a cortina rapidamente e comecei a verificar todas as janelas. Eu estava de fato cercado. Abri o quarto em que fomo atacados, que permanecia trancado desde então, encontrando apenas aquela mão decepada que havia fugido do recipiente de vidro e permanecia parada, arranhando o chão, causando um barulho horrível. E o modo repetitivo como executava os movimentos fazia parecer que...
Estava à espera de algo.
Fechei aquela porta rapidamente, ativando todas as trancas com as mãos ainda trêmulas, sentindo a adrenalina se espalhar pelo meu corpo, queimando minhas veias como se fosse uma espécie de instinto de sobrevivência que me ordenava para sumir daquele local o mais rápido possível.
Levei minhas mãos à cabeça tentando me acalmar, protegendo meus ouvidos do som agonizante daquela mão maldita a arranhar o chão, até que um estrondo ecoou pela casa acompanhado por um relâmpago.
Meu coração parou.
Haviam arrombado a porta.
Sem mais alternativas, corri para os fundos da casa percebendo no mais completo desespero que já haviam começado a invadir por lá também. Dei meia volta vendo que eles já vinham pelo corredor. Dos dois lados. A única saída era porta do quarto que eu havia acabado de trancar, onde estava a mão.
Sentindo cada fibra do meu corpo se retorcer em uma verdadeira agonia devido a tortura que a ansiedade pela fuga me causava, comecei a destrancar fechadura por fechadura, cadeado por cadeado, deixando o molho de chaves cair em alguns momentos, fazendo minha garganta se fechar devido ao medo e angústia. E quando estava a um passo de ser alcançado, consegui abrir a porta, me lançando instantaneamente para dentro daquele quarto anormalmente escuro e frio, sentindo minha espinha gelar com o mais agourento dos arrepios quando saltei por cima da mão, indo em direção a janela.
Cai de mau jeito no chão, deslocando o pé direito e sendo perfurado por inúmeros cacos de vidro da janela que atravessei, me incomodando realmente apenas com um, que me atingira pouco abaixo da sobrancelha, fazendo sangrar bastante, impedindo constantemente a visão daquele olho.
Continuei correndo sem saber ao certo para onde, sentindo que demoraria nada mais que alguns segundos para que começassem a me perseguir. Cogitei ir em direção a parte amaldiçoada da cidade, já que a maioria dos aldeões temia aquele lugar, mas levando em consideração o fato de eles não estarem exatamente em suas plenas faculdades mentais nesse momento (e algo dentro de mim acredita que nunca de fato estiveram), era melhor pensar em outra coisa.
Mudei de rumo indo em direção a floresta, desviando do caminho o máximo de vezes possíveis para despistá-los, e então indo em direção a cabana de Yeegar.
Bati desesperadamente na porta algumas vezes e me contive para não me jogar para dentro do local quando ele a abriu, adquirindo um feição preocupada ao me ver naquele estado deplorável.
- P-Por favor... Me esconde... U-Um tempinho... É rápido... E-Eu... – Não consegui terminar a frase de tanto que meu corpo tremia. Tanto pela corrida insana quanto pelo susto.
- Minha nossa! Entre logo. – Ele me puxou para dentro da cabana, dando uma última conferida na floresta antes de fechar a porta atrás de mim.
- O-Obrigado... – Sussurrei em um fio de voz.
- Quer um copo de água? – Perguntou atenciosamente.
- Por favor. – Respondi me sentando e tentando fazer minhas pernas pararem de tremer.
- Aqui. – Ele me estendeu o copo com água, sentando-se ao meu lado.
Comecei a beber vagarosamente, notando um gosto meio estranho, mas agradecido demais para reclamar. Após terminar, me apoiei sobre meus joelhos me sentindo meio zonzo enquanto imaginava alguma maneira milagrosa de encontrar Kanda no meio de toda aquela confusão.
Respirei fundo olhando em volta e notando algo que eu não sabia se era tranqüilizador ou assustador.
- Yeegar... Por que esta usando um uniforme de General da Ordem? – Perguntei confuso e ele apenas sorriu simpaticamente.
Simpaticamente demais.
- Lembra de quando eu te contei sobre um exorcista que veio aqui antes de vocês? *– Perguntou me encarando com um meio sorriso.
- Sim... – Respondi receoso. – O exorcista que veio sozinho, e uma garota da vila se envolveu com ele. – Complementei recebendo um aceno positivo de sua parte.
- Lembra do que aconteceu com ele? – Indagou com um sorriso sórdido que ia quase de uma orelha a outra.
Apenas arregalei os olhos compreendendo toda a situação. Eu me lembrava que ele tinha sido também vitima da maldição, mas diante dos fatos atuais havia algo que não se encaixava...
- Não entendeu? Eu menti para você, meu caro. Não foi a garota que se tornou o hospedeiro, foi o exorcista. – Falou retirando o casaco e eu pude sentir sangue congelar nas veias quando reparei no seu braço esquerdo.
A mão que estava ali parecia pertencer à outra pessoa, porém costurada no lugar da sua, que estava nesse momento trancada naquele quarto medonho da casa de onde eu havia fugido. Não havia como negar, a costura era exatamente umas cinco polegadas abaixo do pulso, bem onde Kanda havia cortado o troço que atacou a gente quando chegamos à cidade.
Comecei a recuar cautelosamente em direção a porta, me afastando de si passo a passo, sentindo minha mente ficar cada vez mais confusa.
- Onde pensa que vai? – Falou em um tom quase maternal, deixando a cena ainda mais assustadora, avançando vagarosamente na minha direção como um predador brincando de encurralar sua presa.
E como se não pudesse piorar, começo a sentir minhas pernas leves, leves demais para suportar o peso do meu corpo enquanto a minha força parecia se esvair pelos meus poros, me deixando zonzo.
- O que... – Comecei, mas minha voz falhou antes que eu acabasse.
- ... Tinha na água? – Completou com um risinho. – Apenas uma ervinha calmante. – Respondeu aumentado o sorriso satisfeito para um quase maníaco.
- M-Maldito... – Rosnei me sentindo tonto demais para me manter em pé.
- Ora Allen-chan não seja tão mal... – Falou com um tom de voz que me apavorou de uma maneira inexplicável. Sua voz não era mais a mesma, era como se fossem várias vozes monstruosas que ressoavam ao mesmo tempo, criando um timbre demoníaco e macabro. - Sabe, eu poderia estar andando agora livremente em um corpo impressionante, mas sou obrigado a controlar essa carcaça velha por que não posso usá-lo. Por sua culpa. – Concluiu se aproximando de mim enquanto eu me sentia cada vez mais e mais zonzo.
- Inocência... ATIVAR! – Usei o meu último resquício de força para ativar crom clown, partindo para cima dele em um ataque forte, porem lento, o que serviu para que ele me lançasse ao outro lado da cabana, me fazendo quebrar algumas costelas devido a força com que bati na parede.
- Eu deveria te matar, sabia? – Continuou com aquele timbre horrendo que fazia meus ossos vibrarem de pavor, me levantando do chão pelo cabelo. – Mas vai ser muito melhor ver o seu amado meio-sangue te esquartejar, membro por membro, tendo seus gritos de dor como trilha sonora. - Sibilou em meu ouvido, olhando para a porta da cabana que se abriu sozinha.
- M-Meio... Sangue...? – Murmurei em um fio de voz, sentindo o mundo girar a minha volta.
- É isso que um meio demônio é. Alem de minha propriedade, é claro. – Explicou brevemente fazendo meu sangue borbulhar de ódio na última parte.
- Ele... É meu. – Rosnei com o maxilar travado, lhe lançando o olhar mais mortal que eu tinha.
- Ora não fique assim... Olhe lá fora, estão todos te esperando para a festa de hoje à noite. – Ele segurou mais forte no meu cabelo, apontando meu rosto para o lado de fora da cabana onde toda a vila estava reunida.
Meu estômago embrulhou como nunca na vida, a medida que ele me arrastava pra fora. Eu queria gritar, queria poder reagir, mas meu corpo não respondia a nenhum dos meus comandos, até mesmo Crown Clown jazia inerte ao lado do meu corpo. Eu estava sendo arrastado para morte e nem ao menos podia reagir. Era agonizante. A incapacidade diante da situação era enlouquecedoramente agonizante. E a expressão faminta dos aldeões me dava uma repulsa e um pavor tamanhos que se eu pudesse me mexer, eu tentaria cortar meus pulsos com minhas próprias unhas, mas...
Qualquer esforço para fugir desse destino parecia inútil.
Afundando no mais profundo desespero, eu fui jogado no meio da multidão que logo avançou para cima de mim com correntes e cordas, prendendo meus membros com força o suficiente para quebrá-los caso eu me mexesse demais. Mas o pior eram suas expressões vazias e sorridentes, como se fossem um bando de marionetes bizarras.
Capturado, preso, amarrado, o cordeiro vai ao altar...
A profana data de maldição e pecado
Nos vamos celebrar!
Cantavam esse hino doentio como se fosse uma canção de ninar enquanto me arrastavam pelo chão sendo puxado por algumas correntes ate algum lugar desconhecido.
A lua de sangue refletirá,
O mar vermelho que a terra virou.
A calamidade renascerá!
Nosso mestre retornou!
Duas vozes agudas se juntaram a cantoria dos aldeões. Eram duas garotinhas. Uma de longos cabelos escuros e cacheados, usando um vestido branco, a que eu tinha encontrado antes, e outra de feições idênticas, mas com os cabelos lisos e vestido azul.
As mesmas garotas que eu vira naquela visão.
As filhas do médico.
E de repente tudo ficou silencioso. A musica sinistra cantada pelos moradores sumiu junto com o som de passos e de correntes arrastando. Por um momento o mundo se resumia naqueles dois pares de olhos escarlates que me encaravam fixamente.
A menina de branco soltou a mão da irmã vindo saltitante na minha direção, fazendo cada músculo do meu corpo de retrair, em uma fuga inconsciente da sua presença opressora e agourenta.
- Allen Walker... – Falou com um sorrisinho que eu não sabia bem definir se era animado ou assassino. – Agora é minha vez de te mostrar uma coisa. – Concluiu colocando a mão pálida suavemente sobre meus olhos, e de imediato, senti todo meu corpo leve e frio, como se minha alma saísse do meu corpo.
Como se fosse a própria morte que me tocasse nesse momento.
Minha consciência era apenas uma frágil e tênue linha nesse momento. E pouco a pouco ela continuava a se esticar.
Não dava para impedir.
Ela se esticou mais um pouco. Só um pouco mais...
E sumiu.
--------- xx --------
Abri os olhos e percebi que estava de novo na casa do médico, no consultório para ser mais exato. O jovem loiro encarava com um olhar completamente pasmo um calendário fixo na parede, marcando um décimo terceiro “X” sob uma das datas. Depois largou a caneta e contou, uma... Duas... Três... Inúmeras vezes a quantidade de dias marcados como se estivesse desesperado para ter certeza de que havia mesmo passado aquela quantidade de tempo.
Por pura ironia, ou apenas por que minha mente parecia realmente apta a divagar, um trecho da carta me veio a cabeça:
“A esposa do médico morreu de uma doença misteriosa, doença esta que a levou em treze dias.”
Ele parou por um momento respirando fundo. Lágrimas começavam a se acumular nas safiras que eram seus olhos. Ele se abaixou, já com os lábios e as mãos tremendo, pegou a caneta de volta e escreveu em cima da data que marcava cinco dias após o último dos treze marcados: “Hoje”.
Mal tive tempo de começar a me perguntar o que estava havendo quando um cheiro insuportável de enxofre invadiu o cômodo acompanhando de uma voz parecida com a que Yeegar usou anteriormente, só que ainda mais maligna.
- Me chamou querido?
O timbre usado para proferir aquelas três palavras faziam meus ouvidos doerem como se estivessem furando meus tímpanos vagarosamente com uma agulha de costura, e seguidas vezes. Mas isso não me incomodou tanto quanto a visão que tive naquele momento.
Lá estava na soleira da porta a esposa do médico, só que com os olhos amarelos, dentes levemente pontiagudos e em estado avançado de putrefação.
Não sei nem dizer se “oh meu deus” é a expressão correta para esse momento...
E outro trecho me veio à mente:
“Por um período de tempo, que não sei informar ao certo, o jovem doutor se fechou na própria casa somente na companhia das duas filhas. Não atendia nem mesmo os moradores da vila que batiam a sua porta para prestar solidariedade ou os amigos da família que vinham prestar os pêsames e ajudar com o velório.
Velório, aliás, que não aconteceu.
Nem o enterro.
Na verdade, depois desse período de reclusão, o médico voltou a atender como se nada houvesse acontecido. Sem sinal de luto ou tristeza, nem nele, nem nas filhas. Mas poucos foram os que desviaram sua surpresa desse fato para reparar que também não havia nem sinal do corpo da sua esposa.”
- Chamei... Precisamos conversar. – A voz do médico soou fria, mesmo que lágrimas escapassem pelos seus olhos.
- Tudo bem am... – Aquela voz horrorosa soou novamente, mas foi bruscamente interrompida.
- No porão. – Anunciou sério, saindo do consultório e indo na frente.
Permaneci paralisado por mais alguns segundos.
Eu deveria segui-los? Ou melhor, eu conseguiria lidar com o que veria se eu os seguisse?
Bem, se eu havia passado por tudo o que eu já passei e ainda continuava são, que mal havia?
Afinal eles foram o primeiro sacrifício e o primeiro hospedeiro, os que deram origem a maldição, seria bom saber o que aconteceu, não é?
Doce engano da minha parte achar que estava preparado.
Nada, absolutamente nada no mundo, poderia me preparar para presenciar o que presenciei.
Caminhei lentamente até o porão, parando na porta, observando o médico dizer algumas palavras a ela em tom baixo, como se estivesse se despedindo. E realmente estava, já que todas as suas intenções ficaram claras para mim assim que vi o machado escondido em suas costas.
- Se estou fazendo isso... – Sua voz soava firme mesmo em meio ao choro. – É por você. – Completou investindo com o marchado contra o pescoço da mulher que estava pacificamente sentada sobre uma cadeira no porão.
A mesma cadeira onde Kanda colocara aquele esqueleto quando o encontrei naquela noite.
A medida que ele a atacava com machadadas o ar começava a ficar pesado, nebuloso, o chão ficou extremamente frio de repente, a atmosfera da sala parecia querer esmagar todos os seres vivos presentes de maneira que não restasse nem ao menos um fragmento. Era difícil respirar, e mais ainda se manter de pé, mas ainda pude reparar na sutil fumaça preta que abandonava o cadáver doentiamente sorridente pouco a pouco, se acumulando em volta do jovem médico.
Depois de algum tempo, ele parou para admirar seu trabalho com um sorriso de alívio, observando de cima abaixo o cadáver mutilado e imóvel sobre a cadeira, mas que ainda conservava os olhos amarelos fixos em si e um sorriso maníaco nas feições horrendas.
Mas é claro que sim, pode ficar pior.
A fumaça acumulada em torno do jovem médico começava a penetrar pelos seus poros, fazendo sua pele sangrar, como se a resistência oferecida por seu corpo estivesse sendo quebrada, fazendo-o urrar brutalmente de dor, emitindo um grito que beirava o bestial, que parecia estar sendo liberado do mais profundo abismo do inferno.
O jovem caiu se contorcendo no chão, arranhando a pedra escura e fria a ponto das unhas quebrarem até sangrar, assumindo algumas posições impossíveis para um ser vertebrado e quebrando os próprios ossos espontaneamente em alguns movimentos bruscos.
- NÃÃÃOOOO!! PAREE! MALDITOOOO!!!! – Berrava a plenos pulmões, até que uma torrente de sangue negro começou a escapar pela sua boca, impedindo-o de emitir qualquer som articulado.
Depois de mais algumas convulsões onde ele parecia estar agonizando com o próprio sangue, seu corpo ficou inerte por alguns instantes, me fazendo acreditar que estava morto. Mas mortos não se levantam e riem daquela maneira.
Ele se levantou em meio a uma crise de gargalhadas, expelindo ainda mais daquele sangue escurecido pelas narinas e pelos ouvidos, esticando os membros torcidos e quebrados, fazendo os ossos estalarem terrivelmente, como se apreciasse a sensação que esses movimentos lhe causavam.
Com certeza não era mais o médico ali.
Ou melhor, com certeza não havia mais nada de humano ali.
Ele pegou o cadáver da mulher nos braços, tocando seus lábios nos dela gentilmente, para então evoluir aquele singelo toque para um beijo faminto e necessitado que me enojou até a última fibra do corpo.
Com os olhos brilhando em um desejo doentio, deitou-a sobre a pedra no centro da sala, arrancando suas roupas e lambendo a pele em decomposição como se tivesse o mais agradável dos sabores, começando também a se despir enquanto sua boca passeava pelo corpo feminino, ora apenar acariciando, ora literalmente devorando bons bocados de carne podre, me fazendo enjoar e fechar os olhos com todas a minha forças, diante da cena perturbadora o suficiente para me fazer preferir perder a visão do que continuar a assistir aquele show de horrores.
“Na cidade sempre quente e seca, caiu uma tempestade. O médico saiu de casa para visitar a vila pela manhã e voltou à noite como o usual. A única diferença é que ele voltou totalmente ensangüentado, e todos os habitantes estavam mortos de maneiras terríveis de ser imaginar. E ao chegar em casa, estuprou e matou as duas filhas.”
Aquela familiar sensação de sentir o chão sumir embaixo de mim dominou minha mente por alguns segundos e quando voltei a abrir os olhos, estava de pé na varanda de uma casa que nunca tinha visto antes, mas era em meio a uma fazenda.
Abri a porta devagar, perguntando se tinha alguém em casa. Mas como geralmente nessas situações nenhum dos elementos interagia comigo, entrei de vez, acendendo a luz e me arrependendo imediatamente de ter feito isso.
A primeira coisa que vi foram três corpos. Todos destroçados de maneiras horríveis, como se tivessem tido seus membros puxados lentamente, rompendo primeiramente a pele, depois os músculos e pro último deslocando os ossos, derramando bastante sangue no processo. Não sabia dizer se a cena era mais cruel ou grotesca.
Sem suportar continuar ali, avancei pelo corredor encontrando mais dois corpos, eram adolescentes dessa vez. E estavam todos mortos da mesma maneira.
Algo me dizia para não ir alem, talvez fosse a certeza de encontrar o assassino logo adiante (já que o sangue ainda estava fresco), ou talvez fosse o receio de encontrar corpos em piores condições que os adolescentes do corredor que tinham os intestinos fora do corpo e misturados. Mas como sempre, a realidade conseguia ser ainda pior.
Continuei andando cautelosamente pela casa até ouvir algo parecido com rosnados. Era bem provável que apenas uma besta fosse capaz de tal atrocidade, mas o problema não eram os rosnados. Era o timbre da voz que os emitia. Era tão familiar que eu preferia não acreditar.
E só quando me forcei a atravessar a porta para a sala de jantar que eu tive minhas trágicas certezas confirmadas, me fazendo sentir a pior sensação da minha vida, uma mistura de nojo, revolta, mágoa,medo, tristeza, pena e raiva. Aquele tom de voz pertencia a Yuu Kanda.
E com o choque daquela cena do moreno ensangüentado arrancando o coração ainda pulsante de uma criança que não aparentava ter mais de dez anos, várias outras me vinham à mente descontroladamente. Imagens dos corpos destroçados na fazenda se misturavam com as da rua da nossa casa, se intercalando em flashes, até que a fazenda sumiu e eu estava conhecida rua de barro em frente a casa onde estávamos, de joelhos no chão com o coração destroçado e o estômago virado do avesso.
Desejando apenas sair logo daquela maldita dimensão onde minha consciência estava presa, comecei a andar a caminho da casa, encontrando um grupo de moradores em frente a construção e Kanda na varanda. Dessa vez seu olhar não era vago e perdido como na fazenda, mas sim frio, cruel e perfeitamente consciente. E principalmente sádico, mas de uma maneira que eu nunca havia visto.
Com uma calma doentia e um leve sorriso sarcástico, observei-o desembainhar a Mugen e lançar um bando de insetos infernais contra a multidão, disseminando o desespero que era refletido nos olhos de cada um dos presentes, criando uma verdadeira e genuína visão do inferno.
Aquela sensação de calor excruciante me invadiu novamente, foi a mesmo que senti quando voltava assustado da floresta depois de ter a primeira dessas visões.*² Era como se a energia maligna da crueldade cometida permanecesse sobre o local, perturbando todas as pobres almas que por ali passavam, como se fosse uma maldição ali selada pela ira e pelo caos.
Poderia parecer ironia, mas nesse momento algumas lembranças das minhas conversas com Yeegar me invadiram a mente.
“Eu estava prestes a abandonar a cabana quando Yeegar me chama atenção para uma última palavra.
- Allen, só mais uma coisa. – Falou me fazendo virar novamente para encará-lo. – Não se esqueça de que é um demônio, e demônios tem uma sede irrefreável de sangue. Acredito que ele não tocara um dedo em você, mas isso não quer dizer que ele não vá matar outras pessoas... – Concluiu deixando a dúvida no ar.
De imediato eu me lembrei de como ele falou dos desaparecidos hoje cedo... Com aquela certeza implícita de que eles não haviam somente sumido...
Não... Kanda não faria isso...” *³
Eu queria poder desviar o olhar, mas não conseguia. Queria poder impedir, mas meu corpo permanecia paralisado. E logo uma dor agonizante começara a tomar conta da minha cabeça, e aos poucos as imagens captadas pela minha visão começavam a ficar confusas, misturadas, e ainda mais sinistras...
Então abri os olhos. Mesmo sem nem ter percebido que os tinha fechado.
A primeira coisa que me veio foi a dor. Meu corpo inteiro latejava, eu estava todo ferrado e meus pulsos e tornozelos pareciam presos por alguma coisa dura e fria. Depois me veio a visão de um belo e imponente céu noturno, com uma esfera negra se aproximado da lua indicando que havia um eclipse prestes a acontecer. E seguida me veio o barulho, e era alto. Tambores, gritos, rugidos e cantos agourentos enchiam o ar fazendo meus tímpanos doerem.
Lembrei-me de todas as visões que eu tinha tido até agora.** Obra das gêmeas claramente. Olhei em volta tendo apenas um breve vislumbre delas no meio da multidão, na verdade eu não tive nada mais que um vislumbre de tudo em volta já que meu olhar foi praticamente atraído até Kanda.
Ele estava impressionante... Impressionantemente assustador.
Sua pele iluminada pelas tochas espalhadas pelo local era praticamente translúcida, contrastando com os cabelos negros bagunçados lhe dando o aspecto de um gato selvagem. Seus dentes estavam maiores, lhe dando um ar realmente bestial, complementado pelas garras afiadas e o olhar sem cor, tingindo apenas por um brilho de maldade que quase me fazia chorar de saudade das belíssimas chamas negras que outrora foram seus olhos.
Em algum lugar da minha mente, eu repassava um diálogo que eu havia tido com Yeegar em uma das tardes na sua cabana.
“ Eu tinha acabado de surtar imaginando como nós iríamos resolver aquela confusão. Indagando-lhe se tinha idéia do que era ver um maldito demônio lhe roubando o que tinha de mais importante.
- Não, eu não tenho. Mas o médico tinha, é exatamente por isso que é sempre com casais. A esposa do médico era estrangeira e ele realmente a amava, e sofreu quando a matou, por isso acabou possuído. É como se a alma dele tivesse selado essa restrição ao demônio, o ritual deve ocorrer da mesma forma com que foi com ele. – Falou em tom melancólico.
- Eu vou acabar com esse maldito... – Murmurei possesso. Havia algo que me tirava do sério, e esse algo era alguém se meter entre mim e meu Kanda.
- E vocês podem. – Falou puxando uma cadeira e sentando de frente pra mim.
- O que quer dizer com isso? – Perguntei determinado a encontrar uma saída.
- Acho que seu parceiro já sabe como, inclusive. – Continuou ignorando completamente minha pergunta. – Nunca vi um possuído tão são em toda minha vida. A maioria enlouquece de maneira deplorável. E isso só me leva a crer que ele deixou isso acontecer, Kanda não me parece o tipo de garoto que se submeteria a um demônio facilmente...
- Quer, por favor, me explicar o que está havendo? – Perguntei de novo, me sentindo cada vez mais nervoso com tudo aquilo.
- O único jeito de livrar vocês dois de um destino horrível, é acabando com a maldição, ou seja: Despachando o demônio de volta para o inferno. E única maneira de fazer isso é...
- Interrompendo o ritual. – Complementei sua explicação, sentindo as coisas começarem a fazer cada vez mais sentido agora.
- Exato. Deve ter sido por isso que ele se deixou ser possuído. Ele provavelmente acredita que o sentimento que tem por você vai impedi-lo de te matar quando a hora chegar.”***
Sorri amargamente.
Pelo jeito havíamos falhado.
Não apenas falhado, mas quebrado todas as promessas e votos que havíamos feito até aqui.
Nem ao menos tive tempo de entrar em depressão com as minhas divagações. Já que poucos minutos depois os tambores pararam, e tudo entrou em um silêncio mórbido e funesto.
Senti aquelas duas orbes de gelo se fixarem em mim.
Ah, então eu vou mesmo morrer?
Eu sei que vai parecer absurdo, mas eu não conseguia sentir o peso dessa verdade ainda.
Mesmo vendo o moreno avançar na minha direção com uma faca afiada em mãos — a inocência — chegando cada vez mais perto à medida que o eclipse se iniciava e a luz da lua era ocultada.
Eu não me sentia desesperado.
Mesmo vendo os olhos brilhantes em antecipação ao ato que ali iria ocorrer espalhados pela multidão.
Eu não estava com medo.
Mesmo sabendo que Kanda não habitava mais aquele corpo que se movia na minha direção.
Eu não perdi a esperança.
Mesmo agora, sabendo de todas as mentiras e as atrocidades cometidas pelo homem que amo...
Minha confiança nele não diminuiu um milímetro.
Por fim, o eclipse estava completo. Um vento frio e agourento correu pelo local, apagando as tochas e produzindo um som sinistro que me fez gelar os ossos. As únicas coisas visíveis eram os olhos dos demônios ali presentes e o brilho da faca que se erguia sobre mim.
Em um movimento rápido e limpo, a faca desceu perfurando a carne e espalhando sangue de uma maneira especialmente brutal.
Mas... Havia algo de errado na cena toda.
Algo que mudou toda a história daqui em diante.
Notas finais
*² - Cap.7
*³- Cap. 6 (de novo)
** - Quem lembra do flshback do cap 7?
*** - Mais uma cena do cap.6
Então... O que acharam?
Como deu pra notar eu procurei focar bastante na tortura psicológica ao invés da física, então quem achou fraco pode reclamar. Mas admito que para mim, que como atriz sempre procuro sentir as emoções que o personagem sente quando estou escrevendo, a porra ficou séria a ponto do cap ter algumas cenas cortadas (como a de necrofilia onde o "hentai" era completo, embora eu realmente não tenha naaadaaa contra isso).
# Sobre a musiquinha: Ela pertence a uma peça de teatro que apresentei ano retrasado e, acredite se quiser, era uma comédia sobre piratas.
Desculpem pelo erros do cap, mas é que dessa vez eu postei correndo a velocidade da luz.
Emfim, o próximo cap ( o último... buaaaaa *chora inconsolávelmente*) sai daqui a duas semanas, mas se der pra postar antes, eu posto ok?
Vejo vocês nos reviews!
Kissu~
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