A Yullen Horror Story

10 Para Sempre. Literalmente.


Notas iniciais
Antes de mais nada MIL PERDÕES pela demora colossal, e podem xingar a autora o quando quiserem por que eu tô merecendo. Mas em minha defese eu digo que não foi por preguiça nem nada do tipo, apenas meu tempo que resolveu sumir.
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Tenho três notícias para dar, uma boa, uma que depende do ponto de vista, e uma ruim.
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A ruim é que esse é o último cap da história.
A que depende, é que hoje eu estarei postando o primeiro cap de My Guardian Angel (pessoal do face que tava aguardando o lançamento dela~)
E a boa é que ainda vai rolar um especial depois do último cap.
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Voje vocês nas notas finais e muito obrigada a todos que chegaram até aqui~
Kissus~

Japão, 15 de abril de 2013

Em uma casa no meio das montanhas.

23h 45min.

... ...

Suspirei pesadamente quando a voz do albino soou da cozinha pela milésima vez.

- Yuu Kanda, eu juro que se você não largar esse notebook A-GO-RA, eu vou te amarrar em uma árvore e te estuprar! Entendeu?

Apenas ri alto. Começando por chamar o nome completo e terminando com ameaça... Ele realmente estava muito puto.

- Venha tentar. – Comentei com um sorriso sacana, sem desgrudar os olhos da tela enquanto digitava.

- Que tipo de idiota demora uma tarde inteira para escrever algumas páginas? – Apareceu na porta da cozinha, todo ensangüentado, com uma faca de carne na mão e um biquinho adorável.

- Em primeiro, foi você que fez toda a questão do mundo que eu escrevesse minha parte nesse maldito diário. E segundo, eu não me lembro bem dos acontecimentos daquele dia então vai demorar mais ainda. – Respondi cruzando os braços e me virando na sua direção.

- Aarrrgghhhh!! Eu morro de tédio e você não termina com isso! – Exasperou enterrando a faca na parede e voltando a fazer sabe-se lá o que na cozinha.

- Vai tomar alguma coisa pra TPM e não me enche. – Resmunguei baixo, mas mesmo assim ele ouviu.

Bem, se não tivesse ouvido não teria jogado o fogão na minha cabeça. Desviei por sorte.

- BAKANDA!!!!!

- Eu disse alguma mentira? – Falei com um risinho cínico ouvindo apenas um rosnado bestial vindo da cozinha.

Uma coisa curiosa sobre meio-demônios é que eles começam a perder o controle do próprio temperamento quando estão com fome, e como mais de cem anos não foram suficiente para mudar nenhum traço da sua personalidade (o que eu definitivamente aprovo) ele sempre fazia uma questão enorme para se alimentar e por isso periodicamente (afinal tínhamos que comer pelo menos uma vez por mês) tinha suas crises de TPM.

Ah, qual o motivo da birra toda?

Enquanto demônios se alimentam de almas, meio demônios se alimentam de comida normal... E carne... Humana.

Claro que depois de varias tentativas fracassadas de se manter sem isso o Moyashi acabou cedendo (leia-se foi praticamente obrigado pela minha pessoa). Mas ai veio a questão: Quem comer.

Ele tentou devorar a pessoa só depois que ela estivesse morta... Inútil (inclusive acabou doente), tentou vítimas de acidentes, mas acabou salvando-as. Tentou suicidas... Mas acabou os convencendo a desistir da idéia... E depois de todas essas experiências frustradas, acabamos nos criminosos irrecuperáveis.

Sim, acabamos.

Acabei convencido a não comer qualquer um que me desse vontade por livre e espontânea pressão por parte do pequeno. Mas admito que embora não pareça, eu tenho uma consciência filha da puta que ama me lembrar do que eu aprontei no passado e também não queria o Moyashi puto com a minha cara.

Mesmo achando que não tinha direitos sobre a vida de ninguém, digamos que ele acabou se acostumando um pouco com isso. Afinal era parecido com o que ele fazia quando era humano de certo modo, já que mesmo matando, sabia que estava salvando os humanos “de bem” que poderiam vir a ser vitimas daqueles miseráveis.

- Já pensou em parar de destruir a cozinha e ir caçar logo de uma vez? – Falei ao ouvir mais um estrondo vindo de lá quando ele descobriu que não tinha mais carne na geladeira.

- Já pensou em largar essa porcaria e vir me distrair? – Retrucou com um sorrisinho sacana.

É por isso que amo as TPMs do Moyashi... Ele tinha um jeito bem prazeroso de compensar a fome.

- Eu já estou te “distraindo” há dois meses. Você precisa comer ou vai cair morto de tanto transar. – Falei lançando um olhar sério para suas orbes escarlates, sorrindo de leve ao vê-lo corar violentamente quando falei a última parte.

- Humpf. – Resmungou simplesmente e saiu batendo a porta.

Ahhh, finalmente aquele momento em que ele aceita a verdade e resolve me ouvir.

Era realmente irônico ver Allen Walker fazendo drama para comer.

Se bem que por um lado era extremamente divertido vê-lo descontrolado daquele jeito. Eu me aproveitava para me vingar por todas as vezes em que ele me provocava sempre nessa fase, afinal agora era ele que ficava com pavio curto e eu que pagava de Sr. Controlado.

Coloquei o fogão de volta no lugar e voltei as minhas anotações. Acontece que depois de mais uma crise existencial (coisa normal quando se passa dos cem e o mundo onde você vivia desaparece) o Moyashi teve uma idéia... Interessante até. Nos iríamos registrar todos os momentos da nossa vida humana em um diário, para não nos esquecermos de quem um dia fomos (e ainda continuamos sendo, já que aparentemente nossas personalidade acabaram tão imutáveis quanto nossos corpos).

Cai de testa na mesa, tentando me lembrar com o máximo de exatidão os acontecimentos daquele último dia que acabou mudando as nossas vidas para sempre.

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Final do século XIX

Em uma cidadezinha desgraçada.

... ...

Sai vagando pela floresta, me apoiando em cada árvore que encontrava no caminho, me concentrando em chegar o mais longe possível daquele lugar. Minha cabeça queimava como se tivessem injetado ácido no meu cérebro e depois ainda tivessem me jogado em um rio de lava. E aquilo não era nenhum pouquinho bom... Há dias em que eu estava em uma luta incessante com um filho da puta de um demônio dentro da minha cabeça. Uma hora sua mente começa a se desgastar.

E se fosse para perder o controle, que fosse o mais longe do Moyashi possível.

A medida que meu tempo se esgotava eu tentava ir mais rápido, mesmo que mais tropeçando do que correndo, eu já tinha me afastado uns bons quilômetros. Embora que não o bastante para nem ao menos atrasar um demônio.

- AAAAAARRRRGHHHHH DESGRAÇADO!! – Gritei caindo de joelhos no chão quando minhas pernas ficaram imóveis de repente.

É muito prepotente da sua parte achar que pode me desafiar...

Sua voz soou na minha mente como se estivesse sendo amplificada por milhões auto-falantes e acompanhada de uma pressão esmagadora, como se uma avalanche de pedras caísse sobre a minha cabeça.

- É mesmo? Então vai se acostumando por que eu não estou minimamente disposto a desistir. – Sussurrei em um fio de voz, me concentrando em me manter parado no mesmo lugar enquanto meus membros insistiam em fazer o oposto, como se eu fosse uma marionete e o demônio filho da puta estivesse manipulando os fios.

Oh que nobre de sua parte... Mas você e eu sabemos a razão pela qual você esta fazendo isso...

Não de ouvidos... Não dê ouvidos... Não dê ouvidos...

Você sabe o quanto a vida daquele garoto é difícil, e te asseguro que uma alma como aquela encontraria maior paz em qualquer lugar do que aqui...

NÃO DÊ OUVIDOS... NÃO DÊ OUVIDOS...

Ah, mas você não liga, não é mesmo? Pare de se enganar. Você é o único culpado nisso tudo.

Não ouça o que ele diz... É um demônio, demônios enganam...

Você não o ama, nem nuca amou. Monstros não possuem essa capacidade. Você é apenas um egoísta e o quer junto a si de qualquer maneira, isso causando dor a ele ou não.

- Não é verdade...

É sim. Você sabe que é Kanda. Eu estou dentro de você, não pode mentir pra mim. Se quer tanto protegê-lo, por que não partiu logo depois daquela noite no porão depois de ter me aprisionado dentro de si?

- Porque eu...

Porque você preferia vê-lo sofrendo do que se afastar não é mesmo?

- NÃO! MAS QUE MERDA! SAI DA MINHA CABEÇA!!!

Você é tão doente que abriu mão da própria humanidade para não ver outra pessoa competindo por aquele que você considera sua posse.

- NÃO FOI ISSSO!

Pare de mentir para si mesmo. Aliás, você se tornou um mentiroso compulsivo, não?

Imagino como ele vai reagir quando descobrir tudo que você fez...

- Ele vai me odiar...

Mais do que isso. Ele vai descobrir que aquele em que tanto confia não passa de um assassino imundo e psicótico. Isso vai doer tanto... Tanto que ele preferiria a morte.

- Isso não vai acon...

Não vai acontecer? Quem te garante isso? Esqueceu que minhas filhas podem facilmente ter mostrado tudo isso a ele?

- Você não...

Fiz sim. Elas não podem me desobedecer lembra? Só sinto por não ter tido a oportunidade de ver suas feições quando descobriu quem realmente é você... O quanto você não se importou em matar todos aqueles humanos que ele tanto protege...

- Não...

Nesse momento ele não deve sentir nada alem nojo de você...

- Mas...

Por que você não simplesmente some? Aposto que se você morresse tudo seria mais fácil para ele...

- Eu não...

Quer tanto que ele continue sofrendo?

- Não!

Então deixe-o em paz. Livre-o do desprazer de ter que suportar a presença de um traidor como você. Se fizer isso... Talvez eu possa dar uma chance ao garoto.

- C-Como assim?

Posso dar a ele uma chance de lutar, afinal duvido que ele vá se importar que você morra.

Parei por um segundo.

Eu sabia que se o Moyashi lutasse, ele poderia se livrar. Afinal, estávamos nesse impasse porque não queríamos machucar um ao outro, mas se nos parássemos de nos importar...

- ... Que seja.

Fraquejei pela primeira vez em semanas, e acho que nunca senti tanto peso saindo da minha cabeça de uma só vez. Logo minha cabeça começou a ficar mais e mais leve, na medida em que tudo a minha volta ia escurecendo, ficando numa leve penumbra onde eu ainda podia ver cada passo que meu corpo dava se fizesse algum esforço.

Eu quase podia imaginar o cenário: O demônio aparecendo confiante, o Moyashi puto da vida ativando a inocência, uma luta daquelas de tirar o fôlego terminando com o albino todo ferrado, mas são e salvo voltando para a Ordem onde sua chegada seria comemorada e o cozinheiro faria todos os pratos favoritos do pequeno.

A única diferença é que dessa vez eu não estaria lá pra ver isso.

- Está desistindo muito fácil para alguém que lutou tão bravamente até agora. – Uma voz estranha interrompeu meus pensamentos, me fazendo entrar em alerta.

Putamerda, quem é infeliz que invadiu minha cabeça agora?

- Oe, seja lá quem for apareça! – Gritei tentando transmitir algum tipo de ameaça, mas me sentia demasiado cansado para tal.

Aos poucos um campo lamacento de lótus começou a se materializar a minha volta, mas não apenas visualmente, eu também podia sentir o cheio das folhas, a umidade, o vento bagunçando meu cabelo e a textura macia das pétalas soltas que flutuavam pelo ar. Pouco mais a minha frente havia uma larga pedra, onde se encontrava um jovem loiro que me encarava de volta com um sorriso gentil.

- É um prazer finalmente conhecê-lo diretamente Kanda-san, sou o Dr. Alistair Marcus. – Falou em uma tranqüilidade de dar inveja.

- Aham... Sei. E quem me garante que não é aquele demônios me fazendo alucinar? – Murmurei desconfiando.

- Você vai ter certeza logo que eu terminar de falar. – Disse com um sorriso tranqüilo como se já esperasse aquela minha reação.

- E o que quer? – Indaguei cruzando os braços e me mantendo parado no mesmo lugar.

- Apenas ajudar. – Praticamente sussurrou, se virando para ficar de frente pra mim. – Não quero ver mais alguém perdendo o que tem de mais importante pelas próprias mãos. – Completou com um olhar de dor que combinava excessivamente com a sua expressão solene, porém cansada.

- E por que eu acreditaria em você? – Perguntei erguendo uma sobrancelha questionadora.

- Por que você é o que eu estive esperando todo esse tempo. – Falou olhando dentro dos meus olhos de uma maneira intensa do suficiente para que eu desviasse o olhar. – Todo esse tempo em que estive preso a esse demônio desgraçado eu só queria alguém que estivesse disposto a lutar.

Na medida em que as palavras fluíam pelos seus lábios, ele se aproximava cada vez mais de mim, e só ai que eu percebi a grossa corrente em seu tornozelo, prendendo-o a pedra.

- Eu fui ingênuo e perdi tudo o que tinha. Passei todos esses anos pensando em como acabar com a tragédia que eu comecei, mas só a vi se repetir seguidas e seguidas vezes... Até que encontrei um meio de parar. – Seu olhar torturado foi substituído por um olhar astuto e eu não tive dúvidas de que tínhamos algo em comum.

Atingíamos os nossos objetivos independentemente dos meios.

E isso me fez entender muita coisa.

- Você esta dizendo que...

- Sim Kanda, desde o momento em que você soube da história até agora, eu sempre estive interferindo. Com a ajuda das gêmeas eu consegui transformar um meio demônio em um hospedeiro e...

Filho. Da. Mãe.

- Sinceramente eu estou pouco me fodendo para os detalhes de como você em manipulou até aqui. – Cortei-o com um tom frio. – Vá direto ao ponto.

- Demônios em geral, mestiços ou não, podem se alimentar de almas humanas para aumentar sua força. – Explicou se aproximando devagar, usando um tom de voz aveludado como se quisesse me convencer de algo. – Mas para isso é preciso um contrato.

- Não estou interessado em comer a alma de ninguém. – Cortei mais uma vez, concentrando minha atenção nos movimentos que meu corpo executava.

“Eu” estava na parte antiga da cidade e caminhava lentamente em direção a uma pedra. Demorei um pouco para conseguir focalizar a imagem à minha frente, e por isso só quando estava muito perto que eu percebi uma coisa branca amarrada ali.

Uma coisa branca calma e conformada demais para ser o meu Moyashi.

Por que diabos ele não lutava?

- Você deveria acreditar mais em si mesmo, nos seus próprios sentimentos. Alguém que te amaria até depois da morte não começaria a te odiar tão fácil. – Sussurrou aquela coisa loira elevando o meu ódio a um nível insano.

Ódio daquele demônio miserável, ódio de mim mesmo por ter duvidado, ódio da minha fraqueza e ódio daquele infeliz que era o culpado de tudo isso e ainda ficava numa boa.

- CALA A BOCA DESGRAÇADO!

O desespero tomou conta do meu ser como se eu estivesse injetando ácido na veia, mas sem nenhuma daquelas clássicas reações como coração acelerando ou frio na barriga, era a mais pura e intensa agonia que tomava conta da minha alma, já que meu corpo não respondia a nenhuma da minhas emoções no momento.

Meu corpo não me pertencia.

E não importava o quanto eu lutasse e me debatesse, não conseguia tomá-lo de volta.

Definitivamente a coisa tinha saído do controle.

Uma angústia desesperada corroia minha alma a cada passo que me deixava mais próximo do pequeno, a cada fracasso em parar o desgraçado que já preparava a faca para enterrar nas entranhas do meu Moyashi. E usando as minhas mãos.

Não... Eu nunca permitiria. Eu não podia permitir. Eu morreria antes que aquilo acontecesse.

Redobrei meus esforços em tomar o controle, intensificando-os a cada derrota, batalhando enlouquecidamente, apostando todas as chances em um momento de distração do maldito.

- Mestiços não precisam devorar almas, mas se tornam tão fortes quando um demônio normal ao fazê-lo. – Sussurrou o médico próximo ao meu ouvido, usando seu usual tom de voz tranqüilo que agora me dava ainda mais vontade de socá-lo até a morte.

Bem, se ele já não estivesse morto.

- Eu lhe proponho um contrato. – Continuou tomando a minha frente e me obrigando a encará-lo. – Eu te dou minha alma, e em troca... Você acaba com o demônio. – Concluiu com uma determinação de ferro, de quem estava disposto a tudo para conseguir o que queria.

Assim como eu.

- Eu vou matar aquele demônio nem que tenha que morrer junto. – Respondi no mesmo tom, me surpreendendo totalmente com a próxima atitude da criatura.

- Se é assim, que minha força seja sua... – Sussurrou em um tom suave como o vento, vindo na minha direção.

Sem cerimônias, ele avançou rapidamente até mim, me puxando bruscamente para si e aproximando nossos rostos repentinamente. Quando seus lábios encostaram nos meus, não senti toque algum, apenas a sensação de algo frio e espectral fluindo para dentro do meu corpo, me preenchendo de uma energia que nem ao menos se comparava a que circulava pelo meu corpo quando eu ativava a terceira ilusão e ao fim de tudo deixando um forte sabor agridoce na minha boca.

Como um balde de água fria depois de um porre, meus sentidos voltaram, e de repente a força esmagadora do demônio não era algo tão impossível assim de lidar. Mas já era tarde demais, a lâmina já estava perto demais do Moyashi, nem com a força de mil elefantes eu poderia parar.

Parar não, mas já desviar...

Virei a lamina na minha direção, sentindo o metal frio atravessando cada camada de pele, músculos, ossos, e se encravando profundamente no meu coração.

ENLOUQUECEU SEU VERME MALDITO?!!

A voz do demônio ecoava pela minha mente carregada de ira. Não, ira não era a palavra certa. Era um nível de ódio colossal que teria destruído cada osso do meu corpo se ele ainda estivesse em condições.

Sim por que afinal...

- Eu sou seu hospedeiro não sou? – Sussurrei sentindo o sangue jorrar do meu peito. – Se eu morrer... Você também morre. – Completei com um meio sorriso nos lábios.

Sim... Não posso viver nesse mundo sem um hospedeiro. E mesmo que você não morra, não poderei me manter sem um sacrifício, mas... Toda vitória tem um preço, concorda?

A medida em que a presença do demônio se dissipava da minha mente a minha visão clareava, e só quando focalizei a imagem do albino em cima de pedra que eu entendi do que aquele maldito estava falando.

Os olhos do Moyashi estavam perdidos e vidrados, mergulhados numa dor excruciante, e logo eu percebi a causa quando vi meu sangue se esgueirando pelos múltiplos cortes que ele tinha espalhados pelos corpo.

- Não... Não... NÃO É POSSIVEL!!! – Berrei a pelos pulmões já sentindo a visão turva tanto pelas lágrimas que ameaçavam cair quanto pela perda de sangue em massa.

Eu havia transformado o Moyashi em um meio demônio. Em um demônio imundo assim como eu.

E não era o tipo de coisa que tinha volta.

- Kanda... Você...Voltou. – Sua voz soou fraca e quase irreconhecível.

- Perdão. – Respondi simplesmente, sem coragem de encará-lo e sem força para conseguir me mover.

- Só... – Senti um toque morno no meu pulso, sentindo seus dedos escorregarem até a minha mão que estava apoiada na pedra. – Não vá embora de novo... – Parou por um momento tentando refrear um gemido agudo de dor. — ... Nunca mais. – Completou apertando minha mão com força.

- É... Uma promessa? – Murmurei sentindo minha visão perder o foco gradativamente.

Era tanto sangue saindo do meu peito que eu me impressionava como ainda não tinha me desintegrado e morrido ressecado.

- Suas promessas... Duram para sempre? – Indagou fazendo um esforço brutal para falar sem gritar devido a dor no processo.

- Sim... – Respondi quase inaudívelmente, caindo sobre seu corpo sem forças para me manter de pé quando minha visão escureceu por completo.

- E-Então... Prometa-me. – Sua voz praticamente não saia, ou talvez fosse apenas minha audição que estivesse indo embora junto com a minha consciência.

- Sim... Para sempre.

Foram minhas últimas palavras antes do mundo a minha volta desaparecer.

-------------------------- POV do Allen ---------------------------------

Japão, 17 de abril de 2013

Em uma casa no meio das montanhas.

... ...

Fechei o notebook enxugando as lágrimas que caiam incessantemente com a manga do casaco.

Eu sabia que tinha sido difícil, mas não o quanto.

Depois daquela noite continuamos como exorcistas, mas não podíamos mais voltar à Ordem devido a nossa condição de não-humanos, então por dez anos fomos dados como mortos. Até o dia da batalha final, quando derrotei o Conde do Milênio e o Clã Noah foi destruído.

E todo esse tempo, por mais de um século, sempre houve uma sombra em seus olhos que só agora eu era capaz de compreender realmente.

Ele se culpava.

E com o passar dos anos, quando todos que conhecíamos se foram... A cada morte, ele se culpava ainda mais.

- Droga BaKanda, por que você tinha que ser tão problemático? – Resmunguei para o nada, saindo para o quintal de casa em busca de um certo moreno para ter a conversa que deveríamos ter tido a mais de um século atrás.

Muitas décadas depois do fim da batalha final o Japão voltou a ser habitado, e depois de viver em tantos lugares do mundo acabamos nos fixando em uma casa isolada no meio das montanhas, onde podíamos cultivar um lindo jardim, treinar com nossas inocências, fazer muito barulho de dia e de noite (se é que me entende...) e sermos nós mesmos.

Olhei para a frente encontrando-o cochilando embaixo de uma cerejeira, e praticamente coberto de pétalas cor de rosa, o que era uma cena realmente belíssima de se apreciar.

Me ajoelhei ao seu lado, afastando o cabelo do seu rosto e sussurrando baixinho no seu ouvido.

- Yuu... – Rocei meu nariz na sua bochecha, fazendo-o sorrir adoravelmente durante o sono.

- Kanda... – Voltei a chamar, mas ele apenas resmungou algo incompreensível e se virou para o outro lado.

Ah, então é assim que vai ser?

- Ba-Kan-da! – Chamei-o mais alto dessa vez, dando um belo chupão no seu pescoço, fazendo-o acordar num pulo.

Pulo esse que acabou comigo imobilizado no chão e um namorado pervertido em cima de mim.

- Você demorou dessa vez, senti sua falta. – Sussurrou contra a pele do meu pescoço, roçando levemente os lábios na região.

- Sentiu? Você estava parecendo muito bem dormindo... – Provoquei com um sorriso de canto quando seus braços me envolveram carinhosamente, colando nossos corpos.

- Estava sonhando com você, baka. – Respondeu mordiscando minha orelha, fazendo minha coluna se arrepiar.

- Quando foi que você ficou tão meloso, heim? – Comentei rindo distraidamente, lembrando da imagem que tive de Kanda logo que nos conhecemos.

- Excesso de convivência com você. – Mordiscou meu lábio inferior vagarosamente, era quase um convite a perdição. – Mas não pretendo resolver esse problema. – Continuou se aproximando para me capturar em um daqueles seus beijos arrebatadores, mas o parei com o indicador.

- Antes eu quero que saiba de uma coisa. – Falei invertendo as posições, sentando sobre si e reaproximando nossos rostos a ponto de enxergar cada nuance de seus olhos negros. – Quero que saiba que sou imensamente grato a tudo que aconteceu naquela última noite na cidade amaldiçoada, e por ser o que sou agora. E que se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo para que pudéssemos estar assim como estamos nesse momento.

- Mas e... – Ele começou, mas eu o calei com um selinho carinhoso.

- Kanda, eu vi tudo o que você fez, e também vi como você estava perturbado naquela época. Não foi culpa sua. E quanto aos nossos amigos, eu lamentei por cada um deles, pela Lena, pelo Lavi, pelo Komui, pelo Krory, pela Miranda, por todos os que fizeram parte da nossa vida e se foram com o passar dos anos. Mas apenas lamentei, afinal eu amava cada um deles. A única coisa que eu não suportaria era perder você, entende?

Ele desviou o olhar corando discretamente de maneira adorável. E como ele permaneceu em silêncio apenas continuei.

- O que eu sinto por você não é o suficiente para viver em apenas uma vida, e agora nos temos varias. Não preciso me limitar a te amar por décadas, eu posso te amar por séculos, por milênios... E ainda sim me parece pouco às vezes. – Não pude evitar corar bastante no meio do discurso, o que acabou arrancando um sorriso do meu moreno. – A imortalidade para mim não é uma maldição, é um milagre. Eu não ligo se o mundo acabar, não me importo de ver todos aqueles que conheço morrerem antes de mim, nada vai me derrubar se eu tiver você. Você é o meu mundo, seu BaKanda bastar...

Antes que eu dissesse mais algo, ele me interrompeu com um beijo intenso de me fazer tremer até os ossos.

Nunca precisei que Kanda me dissesse nada, conhecia-o bem demais para saber o desastre que faria se tentasse usar palavras. Ele era o tipo de homem que deixava suas ações falarem por si, e a entrega que demonstrava a cada beijo e a cada carícia era sua maneira de dizer que era meu de corpo, alma e coração.

Entre nós, nunca eram apenas simples toques, nunca era apenas sexo, nunca era uma simples troca de olhares. Em todos esses anos nossos sentimentos apenas se tornaram mais fortes, mais complexos e mais absolutos. Nossos mundos se resumiam um ao outro. E embora pareça, não era nenhum pouco solitário, afinal sua presença era mais do que suficiente para mim.

Nossas existências se completavam.

Claro que tínhamos nossas brigas, e eram muitas, umas bem bestas e outras nem tanto. Não seríamos o Moyashi e o BaKanda se não brigássemos porém... Em mais de cem anos eu nunca quis me afastar da sua presença.

- Dizer “eu te amo” é tão insignificante para expressar o que sinto agora. – Comentou ofegante como se tivesse plena ciência do rumo dos meus pensamentos. E talvez realmente tivesse.

- Então só me mostra. – Respondi com um daqueles sorrisos de quem sabe exatamente onde aquilo vai dar.

Mesmo não sabendo ao certo.

Pelo sorrisinho de um milhão de significados que surgiu no rosto de Kanda eu já podia esperar uma noite insana, intensa e enlouquecedora, marcada por orgasmos de quebrar árvores e arrancar todo o gramado do chão, beijos selvagens e arrebatadores e uma sincronia perfeita.

Mas uma noite nunca era igual à outra, nunca eram as mesmas palavras sussurradas, nem os mesmos gestos ou carinhos. E poderia não ser apenas uma noite, era normal passarmos semanas assim até alguém precisar desesperadamente fazer alguma coisa (na maioria das vezes era meu estômago pedindo socorro), afinal, nós não nos cansávamos.

Pela primeira vez em toda minha vida, pude realmente acreditar que algo poderia durar para sempre.

Mesmo que nossas existências terminem, nossa história nunca terá um fim.

Pois mesmo que tudo se vá...

... Nossas almas pertencerão uma a outra...

...Eternamente.

Notas finais
Então pessoal, muito obrigada a todos que acompanharam a história e tiveram paciência com essa autora maluca.
Gostaria de agradecer a Nicky Yume, Azurichan, Bell e Nanda chan por recomendarem a fic.
Mas também quero agradecer a Flavia-chan (que me acompanha desde o inicio de TSBYE), LilyYuuPotter (uma das minhas leitoras mais kawaiis), a Rin_chan, Taisu (só quem sacou o Yeegar logo de cara), Maya chan, Samarih, Mika,Okumura Maru,thatakuran, roze,Tsuki no Tenshi,Flávia Elric, Júlia,lou chan, maaih-chan,nyaa_yumi, Neverfallen (agradeço muito as suas críticas a escrita, eu realmente precisava delas - ainda preciso), Lis Pinheiro (pessoa que me apresentou o fantástico mundo de Vocaloid e várias outras coisas além de me fazer desejar que existisse chat de bate papo no nyah), a fofa da Gih Chii que junto com a Stefany_Zanoni, a Akemy, e a fodona da Dri Kiryuu tem muita paciência comigo tanto nessa fic como nas outras.
Desculpa se eu esqueci de alguém (por favor tomara que não, mas é que eu fiz a lista de cabeça enquanto vinha no ônibus).
Muitíssimo obrigada a todas vocês pelo apoio e também aos fantasminhas que acompanham a história.
Até o especial~
Kissus da Bloody Tsuki.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!