A Volta dos Retardados
3 Acho que vi uma Diva
Notas iniciais
POV. Astrid Murray
Fugir de um Papai Noel monstruoso não era minha ideia de tarde relaxante.
Confuso? Tudo bem, eu também estou.
A confusão começou quando o táxi parou na frente da minha casa. Não gosto de me gabar nem nada, mas moro em um dos vilarejos bruxos mais caros da Grã-Bretanha (posso ouvir o choro das inimigas). Para ser sincera, não é exatamente bom. Corro o risco de dar de cara com o Malfoy ou com a Parkinson toda vez que saio na rua.
De qualquer modo, Lyanna e Carol desceram do táxi, abriram o portão de ferro da mansão e correram para a porta. Desci as escadas e o elfo doméstico as recepcionou.
– Senhoritas – ele fez uma profunda reverência.
– Estou com fome – falou Carol – Quero um pedaço de pudim.
– Sim, senhorita – e saiu.
– Que horror! – Lyanna disse indignada – Carolina Peruzzo, não se sente envergonhada por abusar dessa forma um pobre e inocente elfo doméstico?!
– Não – a filha de Poseidon deu de ombros – Olá, Astrid!
– Trouxe os ingressos? – perguntei direta.
Carol enfiou a mão no bolso do jeans e puxou três ingressos vermelhos de cinema. Praticamente pude ouvir o coro de anjos cantando.
– Em Chamas – suspirei – Esperei tanto por esse momento!
– Já estão saindo? – minha mãe saiu da sala de jantar – Pegou sua bolsa, filha?
Cassandra Murray é o que podemos chamar de elegante, afinal, ela nunca desce do salto alto para dar um soco nas pessoas. Ela é muito parecida comigo, com os olhos castanhos e o cabelo cacheado.
– Peguei – segurei a alça da bolsa – Estamos prontas.
Minha mãe nos guiou até a garagem e destravou as portas. Apesar de sermos bruxos puro-sangue, Cassandra adora carros e tem uma coleção enorme. Desconfio que ela não sabe como gastar toda a fortuna dos Murray.
Tudo corria perfeitamente bem. Minha mãe nos levaria até o cinema trouxa mais próximo. Eu veria o Finnick Odair sem camisa e Lyanna teria ataques fangirls pelo Gale Hawthorne. Voltaríamos para casa e comeríamos pizza. O dia perfeito.
Então, claro, os deuses resolveram estragar tudo.
– Sra. Murray! – cumprimentou Blaise Zabini sorrindo e acenando, com Draco Malfoy logo atrás dele.
– Quem são? – perguntou minha mãe confusa.
– Pode atropelar os dois – disse Carol.
– Deuses, não – abri a janela e coloquei a cabeça para fora – O que foi, praga?
– Oi, Astrid – Blaise disse simpático – Onde vocês vão?
– Não te interessa! – respondi irritada. A sugestão da Carol de atropelá-los não parecia tão ruim assim.
Lyanna, a Miss Simpatia, abriu a janela do banco traseiro e disse:
– Nós estamos indo ver Em Chamas!
– Nós também – disse Draco erguendo as sobrancelhas – Não sabia que vocês gostavam de Jogos Vorazes.
– É uma série ótima – Carol falou.
– Eu achava que você não sabia ler, Peruzzo.
– E você não vai mais conseguir andar se continuar me irritando, Malfoy.
– Parem com isso – minha mãe mandou – Meninos, entrem no carro. Vou dar uma carona para vocês.
Draco não pareceu à vontade, mas foi carregado pelo Zabini. Então o carro ficou assim: Minha mãe ao volante, eu no banco do passageiro, Blaise, Lyanna, Draco e Carol espremidos no banco traseiro (não importa o que a Peruzzo diga, ela gostou desse contato com o Malfoy).
[N/Carol: E você ia adorar estar sentada no colo do Zabini!]
[N/Blaise: Estou disponível, garotas]
Vão se ferrar.
Após quinze irritantes minutos, onde Lyanna e Draco ficaram discutindo sobre algo chamado Loiros Alados, chegamos ao cinema. Saltei do carro pronta para correr e me esconder daqueles maníacos, mas minha mãe disse:
– Fiquem todos juntos, pessoal. Estarei aqui quando o filme acabar!
Depois que Lyanna pagou a pipoca de todo mundo (às vezes não sei se ela é naturalmente bondosa ou naturalmente burra), nós entramos na sala do cinema.
– Qual é o número da poltrona de vocês? – perguntou Carol.
– T7 e T8 – respondeu Draco.
– Que pena! Nós vamos sentar bem longe de vocês! – ela sorriu – Até o fim do filme!
E saiu nos carregando até nossas poltronas. Sinto que Carol não gosta deles. Os trailers começaram a passar.
– Oh meu Zeus, o trailer de O Hobbit: A Desolação de Smaug – Carol suspirou – MEU LEGOLAS!
– Ninguém liga para o Legolas, ele está melhor em Piratas do Caribe – Lyanna deu de ombros. A filha de Poseidon lhe deu um olhar assassino.
O filme começou e muitos gritos fangirls fora ouvidos. Tudo correu perfeitamente. Katnnis divando, Finnick sendo sexy, Johanna sendo mais diva ainda e Snow sendo babaca. O problema real não veio do filme, foi quando um mendigo brilhante surgiu.
Reli Em Chamas cinco vezes. Tenho certeza que não existe nenhum mendigo brilhante.
– BLAISE ZABINI! – berrou o mendigo que surgiu da porta da sala de cinema – PREPARE-SE PARA MORRER!
O mendigo usava um roupão verde florescente que brilhava no escuro da sala, pantufas de coelho e carregava uma lança. Parecia um Papai Noel maligno. Até aí, tudo bem, mas o mendigo tinha três metros de altura e só um olho.
Um ciclope muito brilhoso.
– Nossa, esse 3D é bom mesmo! – Blaise riu – Até parece que o mendigo está vindo na minha direção!
Lyanna foi mais rápida e jogou sua pipoca no monstro (que desperdício), puxei Blaise para fora de sua poltrona e Carol gritou:
– ACALMEM-SE, MORTAIS, ISSO NÃO É UM MONSTRO MITOLÓGICO E NÓS NÃO SOMOS SEMIDEUSES GREGOS!
Disseram-me que ela sabe controlar a Névoa. Não sei como.
Corri para fora da sala de cinema com Blaise, Lyanna e Carol me seguiram e o ciclope veio atrás de nós. Os mortais nem se mexerem e continuaram vendo o filme – o que eu também queria fazer.
– Por que ele quer te matar?! – exclamei enquanto corria.
– Não tenho ideia! – Blaise respondeu ofegante – Talvez ele tenha inveja do meu brilho!
Arrebentei as portas do cinema e olhei para eles.
– O que fazemos? – perguntei.
– Matamos aquela coisa – Carol tirou duas facas do seu casaco – Deixem comigo.
– Você viu o tamanho daquela coisa?! – Lyanna exclamou – Não dá para simplesmente ir lá e matar! Precisamos de um plano de ataque!
– Eu tenho um plano – Peruzzo levantou as sobrancelhas – Ataque.
– VOCÊ NÃO É O TONY STARK! – berrei enquanto a idiota com as facas corria na direção do ciclope.
– O que está acontecendo? – murmurou Blaise assustado.
Antes que alguém pudesse responder, algo inesperado aconteceu. Um holograma mostrando salto alto rosa purpurinado brilhou em cima da cabeça do Zabini. Todos ficaram em silêncio.
– Impossível – murmurou Lyanna.
– É verdade – o ciclope avançou e apontou a lança para os céus – Mais uma peça sua, não é?
– Hein?
– Todos saúdam Blaise Zabini – o ciclope sorriu sarcástico – Filho de Zeusa, Rainha do Olimpo e Deusa do Brilho.
– Hãn... Não seria Zeus?
– Não, é Zeusa mesmo – o ciclope cerrou seu único olho – Eu sou Gregório, filho de Zeusa nascido há milhares de anos atrás!
– Então sou seu irmão – Blaise sorriu amarelo – Não me mate.
– Não, vou te matar justamente porque é meu irmão – Gregório franziu a testa – Não é bem óbvio?
– Até demais...
O ciclope brandiu a lança e gritou, soltando... glitter pelas axilas. Como se isso não fosse nojento o suficiente, o glitter atingiu Carol na cara e a jogou de cara no asfalto. Os carros desviavam, como se fosse muito comum uma adolescente coberta de glitter estar jogada no asfalto.
– Pare! – Blaise exclamou e deu um passo avante – Escute, Gregório, por que nos matar? Podemos ser amigos!
– Ele me impediu de ver Em Chamas, não seremos amigos nunca – murmurei.
– Vocês são meio-sangues, nunca seremos amigos! – bradou Gregório, o Papai Noel Maligno.
– Tem razão, eu nunca seria amigo de alguém que se veste tão mal – Blaise cruzou os braços.
Gregório urrou com raiva. Aparentemente, não se pode chamar um filho de Zeusa de desarrumado. Ele avançou com a lança e teria arrancado a cabeça de Blaise, se ele não tivesse levantado a mão e gritado:
– STOP RECALQUE!
O ciclope ficou paralisado por um momento, como uma grande e feia estátua, e caiu de costas no chão. Meu cérebro quase explodiu com aquela idiotice.
– “Stop recalque”? – perguntei – Que droga é essa?
– Minha mãe sempre disse para gritar “Stop Recalque” quando estivesse em perigo – Blaise parecia um pouco abalado – Eu... Eu sou como vocês? Um semideus?
– Aparentemente, sim – Lyanna falou, ela tinha aquele olhar de quem viveu mil anos (o tipo de olhar que ela exibe enquanto assiste Doctor Who) — Sem ofensa, mas você não deveria existir. Quando os Três Grandes fizeram o juramento de não ter mais filhos, isso incluía a Zeuza.
– Zeus e Zeuza não são a mesma pessoa?
– Bem... Sim. Zeuza é uma das personalidades de Zeus. Na verdade Zeuza é um cara, mas é tratada como deusa. Não tente entender. Filhos de Zeuza são ainda mais perigosos do que os de Poseidon, Hades e Zeus juntos. Vocês brilham demais.
– POSSO OUVIR O CHORO DAS INIMIGAS! – berrou Blaise.
– Essa frase é minha! – exclamei.
– EI! – berrou Carol lá no meio da rua – SERÁ QUE PODEM PARAR DE CONVERSAR E ME TIRAR DAQUI?!
Corremos até ela e cortei o glitter com a minha faca. O glitter que Gregório lançou tinha ficado sólido e parecia cola super forte.
– Urgh, glitter de axila – Carol resmungou – Então, Zabini, você é um semideus, huh?
– Pois é – Blaise sorriu para mim – Será que posso dormir no mesmo quarto que você, Astrid?
– Certamente não – respondi fria – O meu chalé é o 11. O seu é o 1.
– Ser um semideus vai ser demais! – ele comemorou.
– Você não pode usar nenhuma tecnologia, tem que passar o verão longe do seu parente mortal, pode morrer a qualquer segundo, seu pai olimpiano nunca vai te dar atenção, sua vida no mundo mortal vai ser horrível e cheia de sofrimento e privações, e provavelmente vai morrer cedo – Carol ergueu as sobrancelhas – Isso é a vida de um semideus.
(silêncio constrangedor novamente ativado)
Carol Peruzzo, desde sempre sendo uma grande motivadora.
– Vamos para o cinema, o filme já deve ter acabado – suspirou Lyanna.
* * *
– Para onde vocês foram?! – Draco exclamou no meio de um ataque de pelancas – Me deixaram sozinho! Tive que explicar para os seguranças que vocês têm uma doença grave e não tinham tomado remédio! Por que Blaise está brilhando? Por que Peruzzo está coberta de glitter fedorento? Por que...
– Draco – disse Carol com suavidade.
– Sim?
– Cale a boca.
Ele fechou a boca furioso e cruzou os braços, tentando parecer intimidante, mas pareceu que estava com dor de barriga. Minha mãe entrou calmamente pela porta do cinema e caminhou até nós.
– Olá, crianças! – ela deu um olhar de nojo para Carol – Por que está fedendo como uma axila?
– AH! – a grifinória gritou de raiva – EU ENCONTRO VOCÊS NA MANSÃO MURRAY MAIS TARDE! URGH!
E saiu pisando duro. Nossa, que revolta.
– Falei alguma coisa errada? – minha mãe perguntou.
– Vamos embora logo – pedi.
* * *
Lyanna escreveu tudo que Blaise precisava saber sobre ser um semideus em um papel e lhe entregou uma sacola com dracmas.
– Se não conseguir enviar mensagens de Íris, peça ajuda para a Astrid – Lya falou.
– Pode deixar – Blaise piscou para mim, revirei os olhos.
Entrei na Mansão Murray e subi as escadas para o meu quarto. Acenei para Lyanna enquanto ela ia embora de táxi e mostrei o dedo do meio para Zabini enquanto ele acenava para mim.
No dia seguinte, enquanto eu tomava meu tranquilo café da manhã, a campainha tocou. O elfo foi atender e voltou segundos depois com uma coisa feia, ridícula, sem senso de moda e com cabelo ruim.
– Oi, Zabini – ergui as sobrancelhas – Por que essa invasão logo cedo?
– Não consegui enviar as mensagens de Íris – ele ergueu a sacola com dracmas – Pode me ajudar?
Franzi a testa.
– Claro – dei de ombros e levantei-me da mesa – Me siga, otário. Mas se for encher meu saco, vou jogá-lo no Tártaro.
Ele sorriu.
– Por isso eu te adoro.
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