A Volta dos Retardados
2 A Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts
Notas iniciais
POV. Carol Peruzzo
– Certo... – olhei para o mapa de Londres que carregava – A Estação Kings Cross fica a duas ruas de distância daqui.
– Tem certeza? – Lyanna perguntou puxando seu malão e arfando por conta do peso – Você já nos fez errar o caminho cinco vezes, Carol.
– Não, ela está certa agora. Meus sentidos como filha do deus dos viajantes confirmam – Astrid disse, seu malão prendeu em uma pedra e caiu no chão com um estrondo – Droga! Maldita Atena, não poderia nos deixar logo na droga da estação?
Suspirei, dobrei o mapa e o guardei no bolso do casaco. Pelo menos, dessa vez, estamos perto.
Talvez eu deva me apresentar. Meu nome é Carol Peruzzo. 11 anos. Filha de Poseidon, deus grego do mar – ou, como gosto de pensar, Maior Otário do Mundo -. Há um mês eu recebi uma carta que dizia que eu era uma bruxa e que tinha uma vaga na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, o que pode parecer ótimo, mas me trouxe várias complicações.
1ª complicação: Atena
A deusa da sabedoria e desocupada decidiu que iria nos levar para o Beco Diagonal porque “como deusa da inteligência, deve cuidar das mentes onde futuras ideias para um mundo melhor irão geminar”. Bleh. E hoje, dia 1º de setembro, ela nos largou em uma rua aleatória de Londres com um mapa e mandou nos virarmos para chegar até a estação.
2ª complicação: Amigos
Eu não sou exatamente o que as pessoas chamam de sociável. Meu melhor amigo até a semana passada era um pégaso chamado Napoleão. A coruja que trouxe minha carta de Hogwarts ainda carregava mais duas cartas endereçadas para Lyanna Harper e Astrid Murray, as idiotas que me acompanham.
Lyanna Harper é uma garota tão adorável que parece uma boneca. Cabelos dourados perfeitamente escovados que desciam até os ombros, olhos castanhos e um sorriso bondoso. Ela é filha de Dionísio. A vida não faz o menor sentido.
Astrid Murray já é um pouco mais parecida comigo. Com cabelos escuros, olhos grandes e expressivos e orelhas pontudas, ela parece um elfo cleptomaníaco. É filha de Hermes.
Enfim, Atena deixou minha vida ainda mais complicada do que ela já era.
– Ali! – Lyanna exclamou feliz – A Estação Kings Cross!
A estação estava cheia de pessoas que andavam apressadas de um lado para o outro. Meu relógio marcava dez e meia da manhã, o trem saia às onze. Eu saí empurrando as pessoas com o meu malão, mas Lyanna pedia desculpa para as pessoas. Astrid parou de andar e franziu a testa para o bilhete de trem.
– Que foi, Hades? – perguntei irritada.
– Aqui está dizendo que nós temos que entrar na Plataforma Nove e Três Quartos – a filha de Hermes coçou a nuca – Não sou muito inteligente, mas sei que só existem as plataformas nove e dez aqui.
Lyanna parou no meio das plataformas nove e dez, pensou um pouco, coçou o queixo e voltou-se para nós com um sorriso enorme, que me pareceu um pouco arrogante.
– Isso é tão óbvio – ela disse orgulhosa – Temos que entrar na Plataforma Nove e Três Quartos. Então é claro que essa plataforma fica no meio do nove e do dez.
Bati palmas sarcásticas.
– Parabéns, filha de Atena – falei – Mas, caso seu grande cérebro não tenha notado, não existe nada no meio das plataformas nove e dez.
A garota loira simplesmente sorriu, segurou seu carrinho e o empurrou com força contra a parede. Eu estava prestes a gritar “OTÁRIA!”, mas Lyanna e o carrinho sumiram ao invés de bater na parede. Astrid e eu nos entreolhamos pasmas.
– Bem... – engoli em seco – Acho que... Devemos fazer o mesmo.
– Você primeiro – Astrid disse.
Olhei para a parede, que me parecia muito sólida, respirei fundo e empurrei meu carrinho naquela direção, derrubando umas duas pessoas que passavam por ali. Fechei os olhos e... Quando os abri de novo, estava em uma plataforma diferente. Uma placa indicava que estava na Plataforma Nove e Três Quartos.
– Há – riu Lyanna satisfeita enquanto Astrid surgia ao meu lado.
Engoli algumas ofensas enquanto olhava ao redor. Muitas conversas, fumaça, pios de coruja e um garoto chorando por ter perdido o sapo. Seguimos Lyanna até o trem, onde achamos uma cabine vazia, guardamos nossas malas e nos sentamos nos confortáveis bancos de couro.
Poucos minutos depois, o trem começou a andar e paisagem da janela mudou. Meu peito apertou um pouco ao ver todas aquelas crianças se despedindo dos pais. Ninguém veio se despedir de mim, nem mesmo o pégaso Napoleão.
– Então... – me ajeitei no banco e encostei a cabeça no vidro da janela — Agora que estamos no trem, posso tirar um cochilo.
– Estamos indo para a melhor escola de magia do mundo, e você quer dormir?! – perguntou Lyanna chocada.
– Sim. Me acorde quando chegarmos – fechei os olhos e tentei me concentrar, mas era impossível. Eu não estava realmente cansada e a minha hiperatividade me fazia querer sair saltitando pelo corredor.
– Ah, eu já li todos os livros que nos mandaram comprar! – Lyanna dizia animada — Você sabia que em 1342... Por que está dormindo?!
– Hein? Ah! – Astrid levantou a cabeça e esfregou os olhos – Desculpe-me, você começou a falar sobre coisas que não me interessam nem um pouco. Tive que dormir.
A loira revirou os olhos.
– Vou olhar o trem – fiquei de pé e saí para o corredor – Alguém também?
– Eu – Astrid ficou de pé. Lyanna deu de ombros e tirou um livro maior que a minha cabeça de dentro da sua bolsa.
Eu e a filha de Hermes saímos andando pelo corredor, olhando para tudo e todos. Dois garotos ruivos exatamente iguais nos pararam.
– Com licença – um deles disse – Vocês viram nosso irmão Rony?
– Ah, não, desculpe – falei.
– Droga, ele sumiu – o outro disse irritado – Sou George Weasley.
– Eu sou o Fred.
– Astrid Murray.
– Carol Peruzzo – falei não muito animada. Fred e George pareciam dois filhos de Hermes, eles podem roubar minha carteira (isso se a Astrid já não tiver roubado).
– Primeiro ano, certo? – Fred nos deu um tapinha afetuoso nas costas – Espero que fiquem na Grifinória!
E saiu andando com o irmão gêmeo. Depois de andarmos mais um pouco pelo trem, decidi que estava com fome.
– Trouxe comida? – perguntei.
– Não – Astrid suspirou, mas logo sorriu – Ali! O carrinho dos doces!
“O carrinho dos doces”. A coisa mais bonita que já escutei desde que ouvi Clarisse La Rue chamando Drew Tanaka de vagabunda. Segui a filha de Hermes até o carrinho de doces e entramos na fila atrás de dois garotos. Um tinha a pele e cabelo escuro, o outro era oxigenado e pálido.
O oxigenado olhou sobre o ombro com desprezo.
– Sou Draco Malfoy – ele disse nos olhando como se fossemos portadoras de uma doença contagiosa – Vocês são?
– Eu vim comprar doces, não me apresentar – respondi com o mesmo desprezo.
Malfoy iria responder, mas seu amigo moreno se intrometeu e esticou a mão saudosamente para Astrid.
– Sou Blaise Zabini – ele disse rápido.
– Astrid Murray – ela apertou a mão dele. Já shippo os dois.
– Carol Peruzzo – falei olhando para a fila de pessoas na minha frente. Porque tantas pessoas querem comprar doces?!
– Peruzzo? – Malfoy ergueu uma sobrancelha – Como você está aqui? Eu pensei que a Família Peruzzo tivesse sido morta.
– Você será morto se não se calar – dei um sorriso simpático.
(silêncio constrangedor ativado)
– Então... Sabem para qual casa vão? – Blaise sorriu amarelo – Draco e eu queremos ir para a Sonserina, é claro.
– Acho que Grifinória – Astrid respondeu.
– Corvinal – falei orgulhosa.
Eles me olharam com uma cara confusa.
– Você é inteligente? – perguntou Draco.
– Pelo menos sei que água oxigenada demais faz mal para o cérebro – retruquei.
– Se você está se referindo ao tom dourado dos meus cabelos...
– Ah, olha, a fila andou! – Blaise saiu arrastando Draco, o que foi uma pena, pois seria legal jogar um idiota pela janela logo no primeiro dia.
* * *
– CHEGAMOS! – Lyanna berrou pulando pela cabine – AI MEU ZEUS, CHEGAMOS! ESTOU TÃO FELIZ! PARA QUAL CASA EU VOU? SERÁ QUE SOU BOA O BASTANTE PARA ALGUMA CASA? PRECISO DE AR! ACHO QUE...
Astrid lhe deu um tapa na cara.
– Relaxa, garota – mandou a filha de Hermes – Vamos logo.
Saímos do trem. O ar da estação era frio e já era noite, o céu estava cheio de estrelas. Um cara enorme e barbado, como um Papai Noel moreno, gritou chamando pelos alunos do primeiro ano e nos guiou por um caminho de terra.
– Meus sapatos! – reclamou uma garota com cara de buldogue. Revirei os olhos e continuei andando, eventualmente tentando empurrar Astrid ou Lyanna na lama.
– E aqui está – disse o Papai Noel moreno, que se identificou como Hagrid – Vejam... Hogwarts!
Todos soltaram um “Oh!” coletivo, menos eu, porque tropecei em uma pedra e caí no chão. Levantei com as mãos e os joelhos sujos de lama. Olhei para os cabelos dourados e brilhantes de Lyanna bem ao meu lado.
– Hehehe – foi tudo o que eu disse antes de passar minha mão suja na cabeça dela.
– SUA FILHA DE HERA! – berrou a filha de Dionísio.
Ela começou a me perseguir, então saí correndo atrás de Hagrid, jogando lama em todos que passavam ao meu lado. Parei de correr quando cheguei ao lago, para recuperar fôlego. Lyanna pulou como um gato selvagem na minha direção, mas só dei um passo para trás, deixando-a cair de cara na água.
Todas as crianças começaram a rir. Lyanna ergueu-se do lago, com os cabelos pingando e uma expressão assassina... Então começou a rir também.
– Você é uma idiota – ela me deu um soco (não tão afetuoso) no braço.
– Entrem nos barquinhos! – disse o Papai Noel moreno – Somente quatro pessoas em cada barco!
Entrei em um barco junto com Astrid, Lyanna e a garota com cara de buldogue que reclamou dos sapatos sujos.
– Sou Pansy Parkinson – ela disse.
– E eu não me importo – respondeu Astrid, aparentemente irritada. Ela sempre está aparentemente irritada, mas agora está mais.
O resto da viagem foi em silêncio, o único som era os das criaturas do lago se agitando com a minha presença (lado positivo: Se ninguém gostar de mim aqui, pelo menos os peixes do lago gostam). Quando chegamos a Hogwarts, Hagrid nos conduziu até a enorme porta de carvalho e bateu três vezes.
A porta se abriu... Revelando um dinossauro de vestido e óculos. Ficaria mais dramático se tivesse um trovão e um relâmpago cortando o céu.
– Professora McGonagall, os alunos do primeiro ano – informou Hagrid.
– Me sigam – disse a mulher/dinossauro.
Seguimos McGonagall para dentro do castelo enquanto ela falava sobre as casas de Hogwarts. Algo sobre todas serem importantes ou algo assim. Paramos em frente a enormes portas (percebo que em Hogwarts existem muitas portas enormes).
– Vocês têm alguns minutos para se arrumar antes de entrarem no Salão Principal para a Seleção das Casas – disse ela – Volto logo.
E saiu com passos largos. Lyanna respirava rapidamente e recitava baixinho todos os feitiços que conhecia. Astrid olhava para todos com a sua expressão de filha do deus dos ladrões. Eu estava roendo minhas unhas. E então vieram os fantasmas.
Um grupo enorme de vários espíritos vieram de uma das paredes e passaram perto de nós. A maioria das crianças ofegou ou deu um gritinho, mas eles pareciam simpáticos.
– Alunos novos, uh? – perguntou um frei gordo – Espero que fiquem na Lufa-Lufa, minha antiga casa!
Pela cara que Astrid fez, a Lufa-Lufa não parecia ser muito legal. Não li os livros que nos mandaram comprar, então não sei muito bem como são as casas. Antes que eu pudesse perguntar para Lyanna, que estava quase tendo um ataque do coração, McGonagall voltou e nos chamou com um aceno de mão.
Assim que entramos no Salão Principal, meu coração quase parou. Todos estavam olhando para os alunos do primeiro ano. Olhei para o chão e continuei andando, me esforçando para não desmaiar ou fazer algo vergonhoso.
Estava tão nervosa que mal notei o Chapéu Seletor, um ótimo cantor. Chapéus cantores são a minha menor preocupação.
– Eu chamarei seus nomes e vocês se sentarão no banquinho – disse McGonagall.
Ela começou a chamar nomes que eu não conhecia, então fiquei concentrada nos meus sapatos. Só voltei a prestar atenção quando a professora gritou:
– Harper, Lyanna!
Lyanna respirou fundo e se sentou no banquinho. O chapéu mal tocou sua cabeça e gritou:
– CORVINAL!
A mesa azul e bronze aplaudiu enquanto Lyanna sorria trêmula para mim e ia naquela direção. Malfoy teve seu desejo realizado ao ir para a Sonserina (ele foi rebolando para o banquinho. Quem anda rebolando?!).
– Murray, Astrid!
Astrid sorriu confiante enquanto se sentava. O chapéu demorou alguns segundos para se decidir, mas finalmente declarou:
– SONSERINA!
Coitadinha, na mesma casa que o Malfoy. E, depois, na mesma casa que a Pansy Parkinson. Apenas sinto dó dela.
– Peruzzo, Carolina!
Revirei os olhos. Só Carol está bom, Professora Dinossauro. Sentei-me no banquinho e o Chapéu Seletor era tão grande que cobriu meus olhos.
– Hum... – disse uma voz – Uma mente nada má... Okay, mentira. Você é próprio Hades, menina.
– Sou filha de Poseidon – pensei de volta.
– Mas você é uma peste! – disse a voz, que deve ser do Chapéu – De qualquer modo... Você é esperta, não necessariamente inteligente, corajosa, astuta, ambiciosa, não tem o menor respeito pelas regras e improvisa muito bem. Você é a cara da Sonserina.
– Desculpa a pergunta, mas Sonserina não é a casa dos recalcados?
– Sua amiga acabou de ir para lá.
– Ela também é recalcada.
– Sim, muitos bruxos das trevas vieram da Sonserina – falou o Chapéu Seletor – Mas a casa também produziu alguns heróis. Apesar de ter muitas das qualidades de Salazar Slytherin prezava, seu caminho não é lá. Você é brava e acredita na coragem que leva uma pessoa a se levantar em defesa da outra. Seu lugar é na...
– GRIFINÓRIA! – ele berrou isso no meu ouvido. Urgh.
A mesa vermelha e dourada aplaudiu enquanto eu caminhava para lá. Fiquei em tanto triste por não ter ficado na mesma casa que Lyanna ou Astrid, mas tenho certeza que vou conhecer alguém. Sentei-me ao lado de uma garota morena com um cabelo ainda pior que o meu.
– Oi – ela disse sorrindo – Sou Hermione Granger.
– Carol Peruzzo – apertei sua mão.
Depois que Blaise Zabini finalmente foi para Sonserina e sentou-se ao lado de Astrid (preciso de um nome para eles. Blastrid? Astrise?), o diretor Albus Dumbledore fez um discurso no qual eu não prestei a menor atenção.
Finalmente, a melhor parte de estar em Hogwarts: A comida. Acho que comi uns cinco pratos só de sobremesa.
É, talvez eu goste dessa escola.
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