A Visão Amaldiçoada
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Harry já havia notado, desde que voltara para Privet Drive, que Dudley estava completamente diferente, principalmente tratando-se de suas roupas. Ainda assim, Harry nunca falou nada sobre o assunto, justamente porque não perdia tempo dando atenção para aquele enorme e estúpido gordo de dezesseis anos que parecia ter vinte e seis. Porém, naquela manhã, Harry estava com um humor que não sentia há tempos.
– O que está vestindo, Dudley? – disse entrando na cozinha. Dudley estava sentado à mesa, de camisa fechada até o pescoço e cabelo cheio de gel – Indo pra igreja?
Dudley não olhou para ele, continuando a tomar sua xícara de chá (não comia nada mais) – Sim, eu estou. E se você quer saber, devia ir também.
– Que bom que está, assim você para de bater em meninos de doze anos.
– Dudley se converteu, Potter – defendeu Tia Petunia – Respeite a escolha dele, que é mil vezes melhor do que a sua.
Harry riu – Tá bom, tá bom. Acho que legal, finalmente você encontrou um caminho. Que pena que demorou mais do que eu.
– Caminho? Você chama bruxaria de caminho? Isso é coisa do inimigo!
Harry ouviu, sem responder nem se incomodar, uma pregação que durou por todo o café da manhã. Ficou sorridente por todo o tempo, lembrando-se do sonho e de tudo o que Sirius havia falado. Ao final do café, interrompeu Dudley, falando com os tios:
– Vou receber uma visita hoje.
Vernon esqueceu que estava mastigando – Visita?!
– Sim, visita. Dois amigos meus vêm por causa do meu aniversário. Porque, você sabe, eu tenho pessoas que na verdade se lembram do meu aniversário.
– Você sabe que não queremos seus amigos dentro de casa! – disse Petunia pousando trêmula sua xicara de chá.
- Ok, então eu saio. – Harry disse ao se levantar – Eu vou sair e ficar na rua, se você quiser. Sozinho!
– Não! – Petunia gaguejou – Você não vai sair da casa.
– Então meus amigos entram.
Vernon, engolindo – Se eles fizerem alguma coisa, você sabe...
– Em primeiro lugar, qualquer coisa que eles façam, exceto se matarem alguém – e percebendo o espanto de Dudley, continuou – por acidente, é lógico, eles poderiam consertar em um segundo. E em segundo lugar, meus amigos não são animais selvagens que vão chegar quebrando tudo.
Quando Harry saiu pela porta da cozinha, a campainha tocou. Harry parou e viu a sombra debaixo da porta. Podia ser qualquer um.
– Saia do meu caminho, eu abro. – disse Vernon empurrando Harry
Ele não tinha medo que fosse um comensal louco tentando matá-lo. Colocou a mão no cós da calça, segurando a ponta da varinha, mas relaxou e sorriu ao ver Remus do outro lado da porta.
– Pois não? – disse Vernon
Harry foi até a porta – Remus! Dá licensa, tio... Tonks!
Vernon deu um passo para o lado mas não saiu de perto. Remus abraçou Harry, com tapas nas costas e muito sorridente – Feliz aniversário!
– Obrigado, Remus! Que bom ver você!
Tonks o abraçou em seguida, e Harry notou nessa hora o nariz torcido de Vernon para seus longos e lisos cabelos azul-marinho.
– Entrem, entrem! – disse Harry sorridente
Vernon tentou falar, mas Harry abriu caminho por ele, ignorando-o e levando Remus e Tonks para o andar de cima.
– Sentem-se! – disse arrancando as cobertas bagunçadas da cama e enfiando-o de qualquer jeito no guarda-roupas.
Remus, sentando-se na cadeira da escrivaninha de Harry – Você parece muito melhor hoje!
Harry se sentou na cama – Estou. Dormi muito bem.
– Apenas pelo aniversário – disse Tonks – ou aconteceu mais alguma coisa?
– Sirius! Sonhei com ele, e foi tão real que pareceu ser mais do que um sonho!
Sorridente, contou com detalhes todo o sonho, desde o corredor até a coruja batendo na janela. Remus gostou de tudo o que Sirius disse, mas pareceu preocupado:
– Você não pode realmene acreditar que ele está atrás das cortinas, Harry. Ele não está.
Harry respirou fundo – Eu sei que ele está morto, Remus, tenho total conciência disso. Mas no sonho ele estava lá, o que eu posso fazer?
Tonks resolveu mudar de assunto, pra não criar clima – Ah! Harry, quase esqueci.
Ela tirou sua varinha do cós da calça e um quadradinho do bolso da jaqueta trouxa que usava. Deu uma batidinha nele e em seu lugar surgiu uma grande caixa de presente, que Tonks quase não aguentou segurar. Remus se levantou para ajudá-la a deixar a caixa no chão.
– Esse é o seu presente. – disse ela depois do esforço – Quero dizer, é do Remus, mas eu estou me incluindo.
Harry ajoelhou-se diante da caixa e a abriu. Franziu a testa sem entender de que se tratava. Remus sentou-se também no chão.
– A maioria deles eram do James, alguns da Loly. Eu não sei o motivo, mas Sirius tinha essa caixa em Grimmauld Place. Eu a encontrei ontem, ele deve ter escondido da família, no sótão.
Harry tirou o primeiro livro da caixa e olhou vidrado para sua capa – Isso é...
– É sim, Harry. – respondeu Remus antes da pergunta – O diário da sua mãe. Ela escrevia enquanto estava em Hogwarts.
De boca aberta, Harry olhou para Remus, que continuou – É claro que eu não o li, e aposto que o Sirius também não. Ele apenas manteve os livros seguros, provavelmente tinha certeza de que um dia os entregaria de volta a você.
Harry não abriu o diário. Colocou-o de volta na caixa, boquiaberto, e fechou-a – Depois... Eu olho melhor...
– Ta certo, Harry – disse Tonks com um sorriso compreensivo – Você vai ter muito tempo depois pra ler todas as palavrar.
Levantaram-se do chão e voltaram a se acomodar.
– E como está a casa? – perguntou Harry, mudando de assunto
– Terminamos de limpar ontem. – respondeu Remus
Harry se espantou – Só ontem? Isso já estava sendo feito no ano passado!
– Eu acho que até que foi rápido! – disse Tonks
– TInha muita coisa, várias salas escondidas com perigos reais dentro delas. – continuou Remus – Além disso, nós paramos de tomar conta quando... Você sabe.
– Sei...
– O sótão foi o ultimo cômodo, e o mais difícil de limpar. E encontramos essa surpresa lá. – disse Remus apontando a caixa – Tantos anos depois... E é lógico que pertence a você.
Harry sorriu observando-a – Obrigado, Remus. É muito bom ter algo que era deles.
Tonks andava pelo quarto, observando o guarda-roupas, a escrivaninha, a cômoda e a cama – Honestamente, Harry... Eu poderia transfigurar esse quarto se você quiser.
– Ah, não precisa. Voc~e não acha que eu pretend ficar aqui por muito tempo, acha?
– É claro que não! – respondeu Remus – Principalmente porque você já está muito grande para caber aqui. – disse abrindo os braços para se comparar ao tamanho do quarto
Desceram as escadas ainda conversando abertamente sem se importar com os donos da casa. Vernon e Petunia correram do corredor para a cozinha, tentando não ser vistos, mas pôde-se perceber que, através do vidro da porta, eles ainda estavam espiando.
– Ah! Quase me esqueci. – disse Remus assim que pararam diante da porta que dava para a rua – Dumbledore me contratou novamente.
Harry sorriu – Jura?! Você vai ser nosso professor de novo?
– Na verdade, Snape vai ensinar os três primeiros anos e eu fico com os outros quarto. Não sei qual a razão.
– Acho que o Dumbledore finalmente decidiu dar pro Snape o emprego que ele sempre quis. Mas o que importa é que você vai ser nosso professor de novo, e isso é muito bom!
Remus sorriu sarcástico – Depois da Umbrige, qualquer um seria um ótimo professor.
– Nem me fale! Olha só...
Harry estendeu as costas da mão para que Remus olhasse. Ainda havia uma marca onde ele escrevera “não devo contar mentiras” várias e várias vezes cortando a própria pele. Remus pareceu revoltado.
– Ela é um montro, aquela gárgula!
– O que aconteceu com ela?
– Foi demitida, logicamente. – respondeu Tonks com um ar satisfeito – Fudge o fez diante dos reporters do Prophet, e disse que ela desonrou Ministério.
– Queria poder ensinar uma lição a eles... – disse Harry olhando ele também para sua cicatriz na mão
– Bem, eu espero que isso vá acontecer um dia, e você ainda terá orglho de si mesmo. – disse Remus e, vendo Harry sorrir sarcasticamente, continuou – Você pode não acreditar nisso agora, mas eu sei que vai acontecer.
– Espero que sim.
– Realmente precisamos ir agora. – disse Tonks consultando o relógio de pulso – Começo a trabalhar em meia hora.
– E eu vou começar a preparer as minhas aulas. – disse Remus esfregando as mãos – Mal posso esperar para estar em Hogwarts de novo!
* * *
Na metade seguinte de suas férias, após o sonho com o padrinho e a visita de Remus e Tonks, Harry ficou muito mais animado. Passava a maioria de seu tempo escrevendo e respondendo cartas, fazendo tarefas que simplesmente esquecera, ou apreciando alguns das centenas de livros de seus pais. Todas as noites, antes de dormir, esperava sonhar novamente com Sirius, mas o fato não se repetiu. Nos últimos dias das férias Harry já desanimara um pouco, temendo que ele nunca mais aparecesse. Apesar disso, continuou ansioso para a volta às aulas, diferente de como estava antes do sonho.
No dia da compra de seus livros – e do reencontro com seus amigos –, os Dursley o levaram até uma das mais movimentadas avenidas de Londres em que ficava o pub bruxo Leaky Cauldron. Pararam o carro do outro lado da rua, Harry mal se despediu e sumiu para dentro do bar, arrastando seu grande malão.
Lá, vários bruxos de má aparência que estavam sentados bebendo olharam para a porta quando esta se abriu. Harry se viu como centro das atenções, já que alguns cochicharam e ficaram olhando sem a menor discrição. Ignorando-os, Harry chegou até o balcão, onde pediu a Tom, o dono do bar, se podia deixar seu malão guardado durante as compras. Apesar da expressão zangada de natureza, Tom aceitou de bom grado. Harry atravessou o bar e chegou até o cubículo no fundo, pelo qual, usando a varinha, chegou ao Diagon Alley.
Sentindo-se finalmente em casa, Harry caminhou entre as pessoas sem pressa, como se tentasse absorver de volta cada espaço de seu mundo. Percebeu novamente que muitos que passavam o olhavam, a maioria cumprimentando-o fervorosamente. Fazia meses que era notícia quase diária no Daily Prophet, The Quibbler, entre outros informativos bruxos, e muitas pessoas aguardavam sua volta tanto quanto ele mesmo. Viu alguns amigos e conhecidos de Hogwarts, e, dentre eles, Draco Malfoy e sua mãe, Narcissa. Fingiu olhar o preço de caldeirões para esconder-se até que Malfoy distanciasse o suficiente para não encontrá-lo cara-a-cara. Os eventos ainda estavam muito recentes para Harry se conter em azarar ou mesmo dar um soco na cara de Malfoy caso ouvisse qualquer provocação, por menor que fosse.
Harry virou-se aliviado e voltou seu rumo à livraria, onde encontraria com seus amigos. No meio do caminho, porém, encontrou Cho Chang, acompanhada dos pais. Ela parecia nervosa e sorriu tímida para ele.
– Oi, Harry. C-Come foi seu verão?
– Ótimo! – mentiu – Você?
– Bem. Esses... Esses são meus pais.
Harry até daria um fraco sorriso se a mãe de Cho não parecesse estar observando até a cor de seu intestino – Bem, preciso ir encontrar Ron e Hermione – disse sabendo que ela se distanciaria após a menção desse nome.
– Hum... Certo. Te vejo na escola. – e saiu, aceitando os puxões de sua mãe para longe.
– Tchau.
Harry já não estranhava o fato de outras pessoas, como a mãe de Cho, terem uma séria aversão por ele, como se fosse algo contagioso e muito ruim. Mas quanto ao ciúme que Cho Chang sentia por Hermione, isso ele jamais entenderia, apesar de não ficar pessoalmente incomodado. O estranho é que por três anos esperara por uma oportunidade com Cho, e agora pelo pouco mais que a havia conhecido, simplesmente não sentia mais nada.
– Oh, lá está ele! Harry! – ele ouviu a voz fina de Hermione se sobressaindo sobre as outras
Ela veio andando depressa do fundo da loja, balançando seus cabelos cacheados e sorrindo. Logo atrás dela estava Rony.
– Que bom te ver, Harry! – disse abraçando-o
– É bom te ver também.
– Como vai, cara? – disse Rony apertando feliz sua mão
Apesar de saber que o ano anterior foi realmente estressante, que havia perdido seu padrinho, que Voldemort voltara e que passou seu último mês todo ouvindo as pregações de seu primo, não teve a mesma sensação ruim quando mentiu “tudo bem” para Cho. Lembrava agora apenas que estava de volta com seus amigos, que tentaram animá-lo pelas férias inteiras, que estiveram com ele nos momentos mais difíceis e que o fizeram feliz durante cinco anos.
– Muito melhor do que na última vez que nos vimos, e agora melhor ainda!
Ginny se aproximou trazendo novos frascos de tinta em uma cestinha seus cabelos ruivos muito vivos agora bem mais longos, caindo pelos ombros – Olá, Harry! – ela sorriu
Harry retribuiu o sorriso – Oi, Ginny, tudo bem?
– Bem... – ela temeu perguntar “e você?” e não fazer bem, mas Harry ficou esperando a pergunta e os dois se olharam em silencio e sorrindo por alguns instantes
– Vamos, precisamos comprar nossos livros. – interrompeu Hermione sem perceber
Encontraram-se com os outros Weasley, que fizeram festa ao vê-lo. Molly lhe deu um abraço de quebrar costelas e Arthur apertou fortemente sua mão, ambos muito felizes. Fred e George o encheram de tapas efusivos nas costas. Quando Molly percebeu que não seria uma boa ideia que todos continuassem enchendo ainda mais a Floreios e Borrões, mandou que os filhos, incluindo Harry e Hermione esperassem do lado de fora, e depois se encontrassem em uma das lanchonetes de lá.
Andando pelo Beco, Harry soube mais profundamente dos assuntos dos últimos dois meses. Arthur havia aumentado de posto no Ministério, era agora o responsável pelas Comunicações Interministeriais. Ginny, ao perceber que Harry não entendera qual era a responsabilidade daquele cargo, sorriu e o explicou que se tratava da chefia em uma seção pouco disputada, mas muito importante tanto para o Ministério trouxa quanto o Bruxo do Reino Unido. Assim como existiriam os dois primeiros-ministros, que se reuniam entre si frequentemente, havia os outros ministérios (como economia, esportes, educação, saúde, etc.) que, para tomar decisões importantes, precisavam comunicar-se, também. E ele era quem cuidava para que tudo isso ocorresse da forma mais discreta e produtiva possível.
– Não poderia existir nada mais a cara de Arthur Weasley! Conectar os mundos mágico e trouxa de uma maneira legal! – ele disse ao entender
– E a melhor parte é o salário, lógico. – disse Fred
– E as horas. – completou George – Desde que entramos em Hogwarts só vemos nosso pai no café da manhã.
– Acho que vou sentir falta de quando ele chegava de manhã cedinho, — disse Ginny sorrindo docemente – e eu acordava antes de todo mundo pra esperar por ele.
Todos os irmãos caçoaram dela por ser a caçula e tão apegada ao pai. Ficando um pouco vermelha e xingando, ainda rindo, Ginny tentou se livrar dos apertos na bochechas que recebeu.
- Mas gente – disse Harry após a bagunça cessar um pouco – porque é que o Fudge resolveu simplesmente mudar de opiniao a respeito da Ordem? É tão ao contrário do que ele vinha fazendo! Demitir a Umbridge faz sentido, porque o ódio por ela era geral, mas além de sete votos de simpatia que ele conseguiu dos Weasley, o que mais o Fudge quer?
– Ora, Harry, não são apenas sete votos, pense bem. – disse Hermione
– Eu não contei o Percy, Mione, a não ser que o Fudge tenha realmente mudado e decidido reunir pai e filho.
– Não estou falando do Percy, Harry, estou falando de você. – ela completou
Todos da mesa o olharam em silêncio por alguns segundos, o que o fez entender.
George, apesar de sorrindo, falou com sinceridade – Harry, você não é mais “como se fosse” nosso irmão. Nós já adotamos você, cara!
– Mas é o seguinte, Harry – completou Ginny – você já tem uma posição boa, politicamente agora, e ele não queria ficar mal com a imagem que você tem, não de novo. Se ele sabe não tem jeito de você virar amigo dele, a única coisa que ele pode fazer é aparecer bem nos jornais.
– Ah, e sobre o Percy voltar – disse George – o Fudge conseguiu até que fazer alguma coisa.
– O que, o Percy voltou?
- Nem perto disso. Agora ele simplesmente sabe que o papai não é incompetente, apenas um homem de princípios, que está agora numa posição muito maior do que um dia ele pode sonhar em chegar.
– Sim, agora ele até cumprimenta o papai no trabalho, mas ainda não conversa com ele. – finalizou Ron
Ainda querendo saber todas as novidades, Harry perguntou aos gêmeos – Bem, e quanto a vocês?
– Ah, não, não pergunta! – Hermione disse ao apoiar a testa nas mãos
– Você não tem idéia do que fez. – disse Ginny fazendo um sinal de negativo com a cabeça – Agora eles vão falar sobre todas as incríveis novidades e estupendos produtos da Weasleys’ Wizard Wheezes...
Fred e George haviam fugido com maestria de Hogwarts ao fim do ano letivo anterior, enquanto a terrível Dolores Umbridge ainda era a diretora. Com o dinheiro que Harry os havia dado ao fim de seu quarto ano escolar, fizeram muitas pesquisas, experimentos e, consequentemente, investimentos na própria escola, e, com os lucros, montaram sua loja de brincadeiras e azarações. A maioria das vendas ainda acontecia por encomenda, então várias noites de suas “férias” ainda foram dedicadas a trens, ônibus, metrôs e vassouras que usaram para entregas mais difíceis, em locais distantes de qualquer casa ligada à rede de flu, já que não podiam desaparatar, por não serem registrados.
– Mas até assim você está nos ajudando, Harry. – disse George após breve explicação
Harry espantou-se – Eu?
– É! – disse George, feliz
- Com toda essa babação do Ministério com a nossa família, eles quiseram nos seixar fazer os testes finais e nos formar... — Fred começou a explicar
- E imagino que vocês estão se preparando pra isso. – ralhou Hermione
- Posso terminar? – disse Fred – A mamãe nos nos deixou fazer isso.
- Por quê? – perguntou Harry
- Ela ainda está furiosa com a nossa fuga, e em vez de fazer os exames, ela perdiu para que eles nos aceitassem de volta em Hogwarts para fazer o último ano. – explicou Fred
- E não se diz não para uma Molly Weasley furiosa. – completou George
- Portanto, cunhadinha, você pode contar conosco estudando novamente em Hogwarts esse ano.
Hermione abaixou a cabeça imediatamente, assim como Ronald, que ficou mais rubro que seus cabelos. Fres e Geroge se olharam satisfeitos, notando a reação imediata. Harry abru a boca e ensaiou antes de conseguir perguntar.
- Peraí… Cunhadinha? O quê... – Harry olhou de Hermione para Rony, surpreso – Vocês dois?
- Calma, Harry, eu explico. – disse Ginny pacientemente – Não é nada, esses dois estão exagerando. É que, você sabe, Hermione está com a gente na Toca há alguns dias, nós achamos que você iria também, e então um dia...
Rony não levantou a cabeça – Eu falei pra eles não entrarem no quarto
Ginny virou-se para Harry – E você sabe que isso é praticamente a mesma coisa que mandar eles entrarem no quarto. E eles estavam…
Harry falou baixo, porém um tanto exasperado – Se beijando?!
Hermione ergueu a cabeça abruptamente – Não! Não, Harry, nós nunca fizemos isso, e você seria o primeiro a saber! Sério, não acredite neles, nada aconteceu.
Ginny cochichou – Mas parecia que estava quase acontecendo. – e baixou ainda mais o tom de voz – Deixa, harry, os dois sofreram o suficiente nessa semana com os gêmeos, e realmente não tem nada acontecendo por enquanto.
Forçando-se para mudar de assunto, Harry perguntou mais sobre os planos de Fred e George, que contaram que, apesar de não serem tão fáceis como imaginavam que seriam, os negócios estavam indo muito bem – ainda mais com pessoas tão especialistas no ramo. Contrataram como gerente o colega de classe Lee Jordan, que além de ser companheiro nos momentos de diversão, tinha uma incrível tática de comerciante e também era ótimo em cálculos, e estavam fazendo de tudo para que Molly não ficasse totalmente decepcionada com eles. Planejavam ainda morar sozinhos assim que se formassem no final daquele ano, mas entre os planos mais imediatos estava realizar uma reforma nA Toca. Além disso, era visível a satisfação dos dois em poder ajudar a família financeiramente. Apesar de Harry nunca ter entendido isso como importante, via que se sentiam bem andando bem-vestidos e podendo comprar materiais de melhor qualidade. Harry, afinal, sentiu desvanecer em si qualquer sentimento de culpa por tê-los ajudado com o prêmio do Torneio Tribruxo.
* * *
Na hora do almoço Fred e George já haviam retornado ao trabalho na loja. Harry, Rony e Hermione sentaram-se em uma mesa à parte enquanto Arthur, Molly e Ginny verificavam os conjuntos de materiais escolares. Preferindo não comentar sobre o assunto que Fred e George instigaram na sorveteria, e muito menos sobre seus problemas, Harry entrou num dos assuntos preferidos de Hermione: as notas dos NOM’s.
– Eu não fui tão mal – começou Harry – Na verdade até me surpreendi.
– Eu também até que não. – disse Ronald – Apesar de eu não achar que isso é tão útil. Veja Fred e George. Eles estão melhores a cada dia, indo em frente, e eles não são nem mesmo formados na escola. Eles estão tomando o lugar do Percy como o grande futuro da família!
Hermione interrompeu – Nem pense nisso, Ron. Ok, eles estão indo bem, mas só porque estão fazendo o que amam e de uma maneira profissional. Você devia simplesmente pensar mais nisso e se concentrar na escola.
– Se você acha que eu vou começar a adorer o Snape por causa disso...
– Não, Ron, eu sei que você odeia Poções por causa do Snape, mas o que eu estou dizendo é que você tem que pensar nas coisas nas quais você é realmente bom na escola.
– Bem... – disse Rony com um ar pensativo – Xadrez, será?
Ginny, que havia terminado de ajudar os pais, se aproximou novamente – Que tal Quiddich, Ron? Você é bom nisso!
– Não sabia que você tinha a mania de se intrometer na conversa dos outros!
Ginny pareceu ofendida – Não, seu animal. Só vim ver se vocês vão querer sobremesa.
* * *
Depois de terminarem as compras, Harry e Hermione foram com a família Weasley para A Toca. Antes de dormir, Harry contou a Ronald e Hermione mais detalhes sobre o sonho. Apesar de ter mais coisas para conversar a sós com eles, como contar o que afinal havia na profecia e sobre o diário de sua mãe que estava lendo desde a metade de suas férias, estava cansado e percebeu que também deveria dormir quando Ronald começou a roncar no meio da conversa. Hermione foi para o quarto de Ginny e Harry ainda ficou alguns minutos com o pensamento revirando antes de adormecer. Gostaria muito de conversar com Sirius novamente, mas antes que seu sono atingisse o estágio de sonhos, foi acordado pela agitação e bagunça que anualmente acontecia nA Toca desde que o mais velho dos sete filhos, Bill, entrara em Hogwarts.
- Vai, Harry, a gent epode parecer desmionado, mas somos bons em matemática e em negócios. – insistiu George
– Fizemos os calculos e temos certeza de que antes do Natal, se você realmente se esforçar – seguiu Fred em um tom sarcasticamente convincente – você pode ter todo o seu dinheiro de volta!
– Exato! Se voc~e não aceita o dinheiro de volta, vamos pagar em mercadorias.
– Não! – respondeu Harry de imediato – Eu disse que não quero que me paguem nada!
Os gêmeos referiam-se mais uma vez ao prêmio que Harry recebera em seu quarto ano de Hogwarts, no torneio Tribruxo, para o qual não havia se inscrito e tampouco ficou feliz em ganhar, afinal ficou face-a-face com Voldemort e viu o colega Cedric Diggory ser assassinado. Harry não pensara duas vezes antes de dar todos os Galeões a Fred e George, que, depois do investimento aplicado, agora faziam toda a questão de devolver.
Fred não desistiu – Isso porque você ainda não conhece a nova e revolucionária Atira-Cuspe! Todas as vantagens da versão anterior, mas agora com muitos novos acessórios, completamente camuflável, silenciosa, gatilho giratório...
George continuou a vender o peixe – ... e se você levar essa maravilha que todo aluno precisa ter, você ainda leva completamente de grace um kit com mais de trinta consistência de cuspe! Bafão Cebola, Supercola, Grudento I e II, Cuspexpresso, Bolhinhas de…
Molly, que desde cedo andava de um lado para o outro, chegou ao quarto de Ronald naquele momento – CHEGA, deixem Harry e Ronald em paz! Saindo, saindo...
– Tá bom mãe, calma, mas harry, não esquece! – disse George tentando se soltar da mãe – Nós mandamos tudo pelo correio sem nenhum custo! Você não vai se arrepender! Ai mãe, larga!
Harry sorriu, continuando a amarrar seu tênis e tentando disfarçar que não se interessou nem um pouco em imaginar alunos do primeiro e segundo anos atirando cuspes em Filch e Norris sem que eles percebessem de onde viriam. Depois de muita confusão (quando Hermione descobriu que Fred e George estavam escondendo “artefatos” nos malões, fez todos esvaziarem e depois arrumarem novamente) todos embarcaram no novo carro da família que os gêmeos compraram, já com o interior magicamente ampliado e um novo sistema de voo que, por insistência de Molly, nunca havia sido usado.
Devido à agilidade do novo carro, impressionantemente chegaram um pouco adiantados em King’s Cross. Como Arthur e Molly tinham compromissos marcados com a Ordem, os jovens foram deixados na Plataforma 9¾ antes de o Expresso partir.
Harry, Ronald, Hermione, Ginny, Fred e George sentaram-se em uma das últimas cabines vazias no trem, acomodando-se depois de encaixar seus pertences nos maleiros. Poucos minutos depois, o trem soltou mais fumaça e começou a andar, deixando lentamente a plataforma cheia de bruxos acenando suas despedidas para os alunos.
* * *
Rafaela entrou desajeitada no trem, carregando seu grande malão, uma mochila nas costas e uma bolsa pendurada. Ainda não se acostumara a usar aquele par de óculos. Eles eram bem finos e discretos, chegavam a ser quase imperceptíveis para quem a visse de longe, mas pesava mais do que a aparência demonstrava. Os óculos escorregavam para a ponta do nariz a todo o momento, o que a atrapalhava muito, já que por fora das lentes não enxergava nada além de borrões escuros e indistinguíveis. O malão entalou em certo ponto do corredor estreito e dois alunos aparentemente mais velhos a ajudaram a passar. Os dois a olharam com certa curiosidade: era um rosto novo e não parecia estar chegando para o primeiro ano, porém não perguntaram nada. Sem encontrar nenhuma cabine vazia e não ter visto por onde passou nenhum rosto que se parecesse com as fotos que vira de Harry Potter e dos amigos dele, por um instante não soube o que fazer.
Foi salva por uma garota, loira, de olhos grandes e sonhadores.
– Olá!
Rafaela sorriu para ela – Olá! Tudo bom?
- Sim. Eu não conheço você.
- Sou nova… Aluna de intercâmbio.
- Meu nome é Luna Lovegood. Prazer em conhecê-la. – disse estendendo a mão
- Rafaela Salles. Pode me chamar de Rafaela..
- Luna. – disse a garota – Em que ano você está?
- Sexto.
- Sou do quinto. Venha, vou te apresentar para alguns amigos meus do sexton ano.
Rafaela seguiu Luna pelo corredor estreito, ainda com dificuldades para levar sua bagagem. O trem começava a sacudir com mais força ao ganhar velocidade rumo ao norte.
- Aqui estão eles. – disse Luna, parando diante da porta de uma cabine. Acenou brevemente e a abriu, entrando em seguida
Rafaela se aproximou e sentiu um frio intenso no estomago. Teve vontade de desistir imediatamente e correr o mais rápido que pudesse, mas se forçou a ficar e sorrir. Luna já cumprimentara Harry Potter, Hermione Granger e Ronald Weasley, além de mais dois rapazes e uma garota tão ruivos quanto Ronald.
- O-Oi.
Ela disse e todos na cabine olharam pra ela.
- Essa é a Rafaela. – disse a voz sonhadora de Luna de dentro da cabine – Acabei de conhecê-la no corredor. Ela é aluna de intercâmbio do sexto ano..
- Olá! – disse um dos rapazes ruivos se levantando e estendendo a mão para ela – Eu sou Fred Weasley e ele é o George.
George atravessou à frente do irmão e cumprimentou-a em seu lugar – Muito prazer em conhecê-la!
Rafaela riu ao cumprimentá-lo – Oi, o prazer é meu!
- Deixe-nos ajudá-la. – disse Fred, passando por ela e pegando a alça do malão de sua mão
George fez o mesmo e Rafaela esperou que eles acomodassem sua bagagem nos compartimentos acima dos bancos e, então, entrou com eles na cabine. Cumprimentou sorridente cada um dos outros alunos com aperto de mãos. Harry achou que fosse mania de perseguição, mas notou que ela o olhou mais longamente, como a maioria dos bruxos que conhecia fazia. Já quase acostumado com isso, fingiu que não percebeu.
- Intercâmbio? – disse Hermione, para iniciar o assunto – Que interessante!
- Sim, sou do Brasil. Vim pra fazer seu sexton ano e conhecer mais sobre a magia internacional. Voltarei pra completar o sétimo ano em Ádvena
- Nossa, que sotaque! – exclamou Ronald
- Ron! – ralhou Hermione
Rafalea sorriu – Bom, sim... Eu sou Brasileira, entao acho que é bem normal que eu tenha sotaque.
– Não, eu quero dizer... Um sotaque muito Americano! – explicou-se Ronald
– Ah, sim, ok. Esse é o ingles que é ensinado no Brasil, então meu sotaque realmente é americano... – Rafaela se explicou um pouco envergonhada
– Não importa. Você sabe falar dois idiomas enquanto nós todos falamos só um! – disse Hermione olhando duramente para Ronald
– Três, na verdade … — disse Rafaela em voz baixa – Sei falar espanhol também.
– Espanhol não é a sua língua? – perguntou Harry
Rafaela arrelagou os olhos espantada ao ouvir aquilo, e Hermione enterrou o rosto em uma mão. Em instantes Rafaela riu e ela e Hermione trocaram um olhar engraçado.
- Ai meu Deus. – disse Rafaela antes de começar a rir com Hermione
- Eles falam português no Brasil, gente! Pelo amor de Deus, vocês não tem nenhuma cultura geral?
- Ai, meu Deus, tudo bem, não são só eles. – disse Rafaela tentando melhorar a situação – Não se preocupem..
- Desculpe. – disse Ronald sorrindo envergonhado
- Eu já li sobre magia em países americanos. – disse Hermione – Achei fascinante.
Rafaela sorriu – É sim, temos criaturas incríveis e uma história muito rica.
- Eu não sabia que eles tinham intercâmbios em Hogwarts. – disse Ronald olhando ainda bastante surpreso para Rafaela
- Bem, sim, na minha escola isso é muito comum, muitos bruxos e bruxas de outros países vão pra lá, e os alunos brasileiros também vão para outros países. Acho que é coisa de brasileiro, nós temos uma enorme mistura de nacionalidades, raças, cores, tudo o que vocês puderem imaginar.
- E quanto á casa? Você sabe como vai ser? – perguntou Harry, imaginando a garota mais velha entrando junto com os aluninhos de dez anos para colocar o chapéu seletor diante da escola toda
Rafaela o olhou e sentiu algo que jamais se esqueceria. Uma raiva a invadiu por dentro de forma tão intensa que a assustou. Sentiu seu estômago afundar, ferver, era como se conhecesse Harry, e como se ele fosse seu pior inimigo. Engoliu o ódio que sentiu na garganta, com força, e continuou a conversa sem transparecer nada.
- Eu não sei. É um chapéu, né? Eu li obre isso em Hogwarts: uma História.
Hermione sorriu. Harry e Ronald se entreolharam querendo rir.
Os colegas fizeram algumas perguntas por curiosidade sobre como era o colégio de onde Rafaela viera, e ela passou todo o início da viagem falando sobre Ádvena, escola e cidade, e também sobre São Paulo e, finalmente chegou ao inevitável, que era o que havia acontecido cerca de um semestre atrás.
- Eu sabia que te conhecia! – exclamou Hermione apontando brevemente para Rafaela, sorrindo – Sim, eu li sobre você no International Post!
- É, provavelmente... – Rafaela respondeu sorrindo timidamente
- O quê? – perguntou George – O que ela fez?
- Existe um International Post? – perguntou Ronald em voz baixa
- Ela duelou contra um dos maiores magos do Brasil! – disse Hermione com empolgação – E venceu!
Todos demonstraram espanto e admiração, perguntando detalhes sobre o que havia acontecido. Rafaela sorriu timidamente.
- Bom, sim... É... Ele era um cara muito mau.
Todos riram da simplicidade que ela usou para explicar o fato, mas pediram mais detalhes. Para disfarçar uma pontada aguda que sentiu na altura do estomago, riu e respirou fundo. Contou brevemente toda a história, desde a situação política do país após a tomada do poder pelo Comandante Alcino até a morte dos invasores ao palácio, sua tentativa de resgate, o duelo com o Comandante e, finalmente, a notícia da morte da mãe.
Houve um silencio constrangedor.
- Eu... – gaguejou Harry – Eu sinto muito.
Rafaela o olhou com simpatia e mais uma vez estranhou saber que era grata e ele por esse sentimento já que ele, de todas as pessoas, era o que melhor podia entendê-la, mas ao mesmo tempo sentiu nova onda de raiva por ele. Desviou o olhar e ficou olhando a paisagem que passava depressa pela janela do trem.
- E foi por isso – ela recomeçou, em voz alta – que eu decidi sair do Brasil por um tempo. Eu sei que o que eu fiz foi o melhor pro meu país, que coloquei um fim numa das épocas mais sombrias da nossa história, mas eu não queria ficar e ter que responder a perguntas e dar entrevistas ou me tornar uma celebridade por causa disso. Eu perdi a minha mãe, gostaria que eles entendessem isso, mas o meu luto não foi respeitado. Eu acho que esse ano vai ser bom pra mim, apesar de saber que eu vou sentir falta de lá, da cidade, da escola, dos meus amigos, do resto da minha família...
Houve mais silêncio, em que todos na cabine se entreolhavam. Apenas aquele pensamento afetou Harry mais a fundo. Imaginou a quantidade de vezes que também quisera tomar aquela atitude, porém não o fez por Hogwarts ser seu verdadeiro lar. Por um momento teve certeza que sua cicatriz ardera novamente. Sabia que Voldemort estava por perto independente de onde estivesse fisicamente, e mesmo não tendo os mesmos sonhos que antes e mesmo não o tendo mais dentro dele, podia sentir sua presença apenas por ele estar vivo e, principalmente, fortalecido.
- Eu sinto muito... – disse Hermione tocando a mão de Rafaela
– Se você quiser, não falamos nisso novamente. – completou Luna, que até agora estava em silêncio, seu olhar sonhador observando Rafaela carinhosamente
Rafaela sorriu e agradeceu – Falar sobre isso não é um problema. O problema é falar sobre isso o tempo todo.
Fred e George continuaram puxando assunto, percebendo o constrangimento da situação, e Rafaela agradeceu internamente. Respondeu mais algumas perguntas sobre o sistema de casas, pontuações, matérias e professores de sua escola. Quando se aproximavam da metade da viagem, Rafaela se levantou e pediu licença, dizendo que iria procurar por um toalete. Recusou a companhia de Hermione, que se ofereceu para mostrar a ela onde ficava. “Vocês devem ter muito o que converser, não se preocupe comigo”.
Assim que ela saiu, Fred e George fizeram uma cena ao colocar suas mãos sobre o coração e fingir desmaios. Harry e Ronald riram.
- Não entendi, o quê? – disse Hermione
- Ah, cunhadinha! – disse Fred – Essa menina arrebatou nossos corações!
- Ela é gatinha e matou um bruxo das trevas! – completou George – O que mas podíamos querer?
- Sai for a, George, eu vi primeiro!
Os dois fingiram brigar e causaram ainda mais risos. Harry concordara que ela era bonita, mas ultimamente quando pensava em uma garota bonita, lembrava-se imediatamente de Ginny, sem poder evitar. Ronald não disse nada, apenas riu, e olhou brevemente para Hermione, deixando claro que não era ele que estava dizendo aquilo.
- Espero que ela fique na Gryffindor. – disse Hermione – Seria bom, pra variar, ter uma colega que realmente se importa com os estudos.
- Como você sabe que ela se importa como você? – perguntou Ronald
- Ela leu Hogwarts: uma História. Nenhum de vocês leu, e nem britânica ela é! Aposto que ela se importa muito mais com o aprendizado do que vocês
Fred e George deixaram a cabine logo depois, procurando pelos colegas do sétimo ano. Logo Luna e Ginny também se retiraram, indo em busca dos colegas do seu ano. Pouco depois, a porta da cabine se abriu novamente e o rosto sorridente do professor Lupin apareceu.
- Tem lugar aí pra mim?
Harry virou-se abruptamente e sorriu – Remus? Aqui?
– Acho que mencionei que seria professor de Hogwarts novamente nesse ano, não mencionei? – disse entrando – Hello, Miss Granger. – disse cumprimentando Hermione
Remus sentou-se com os alunos e começaram a conversar.
- Como eu disse ao Harry quando o visitei em seu aniversário – explicou Remus á pergunta dos alunos se havia alguma novidade vinda da Ordem da Fênix – não vem acontecendo nada de alarmante, e isso é alarmante por si só. Após seu retorno no Ministério, estávamos preparados para ouvir más notícias todos os dias, mas nada aconteceu. Isso apenas nos faz ter certeza de que ele está preparando algo muito maior. Nós temos informações diretas da fonte...
- Ah, é. – interrompeu Harry – Snape. Vocês realmente confiam nele, né?
- Albus confia cegamente nele, Harry, portanto toda a Ordem tamém confia. Eu já te falei isso.
- E o que ele sabe? – perguntou Hermione em voz baixa
- Por enquanto nada de concreto chegou aos ouvidos dele, mas nós sabemos que assim que ele ouvir algo, ele nos contará. E não se preocupe – completou vendo a expressão de incredulidade de Harry – ele não é a nossa única fonte de informações.
Harry já abrira a boca para perguntar quais eram os outros meios quando a porta da cabine se abriu novamente. Era Rafaela retornando.
- Ah, oi... Tudo bem se eu continuar aqui com vocês? – perguntou olhando dos novos colegas para o homem que estava sentado com eles – Tipo, vocês foram as únicas pessoas que eu conheci até agora.
- Claro! – disse Hermione levantando-se do lado de Lupin e indo sentar-se com Ronald
- Obrigada. Olá... – ela disse ao sentar-se ao lado do homem
- Olá. Você deve ser a Srta. Salles, aluna de intercãmbio.
- Sim, sou eu. Muito prazer. – disse estendendo a mão para ele. Sentiu a mão quente de Lupin aquecer sua mão gelada
- Esse é o Professor Remus Lupin – apresentou Hermione
- Serei seu professor de Defesa Contra as Artes das Trevas.
Rafaela sorriu – Uma das minhas matérias preferidas.
Rafaela o observou por mais breves segundos, imaginando se ele seria uma das pessoas que sabiam do que estava acontecendo com ela. Sem demonstrar saber de nada, Remus sorria para ela, e em seguida se levantou.
– Muito bem, meus jovens amigos, vocês devem colocar seus uniformes, chegareos em breve a Hogwarts. Com licença, vejo vocês na cerimônia.
Depois de trocados, os três com seus uniformes com o brasão da Gryffindor e Rafaela com o uniforme sem brasão algum, conversaram mais sobre Hogwarts antes de chegarem à estação. Harry tentou esquecer todos os problemas do ano anterior e comentou tudo o que podia sobre o castelo. Com os amigos, falou sobre o que conseguiu lembrar sobre os lugares mais bonitos, os lugares proibidos e os não recomendáveis, sobre os amigos e indesejáveis, sobre os problemas que certamente Rafaela enfrentaria com os alunos da Slytherin por ser mestiça e vir de outro país que eles considerariam como “terceiro mundo”. Falavam agora sobre o corpo docente, comentaram que Remus era, na opinião deles, o melhor professor que já tiveram, que McGonnagal era muito boa e muito severa ao mesmo tempo, passaram brevemente pelo nome de Snape e falaram sobre outros professores.
Rafaela ficou curiosa para saber mais sobre Snape, o bruxo que estivera na sua casa semanas antes, mas não perguntou nada. Teve medo que algum dos colegas falasse sobre o jogo duplo de Snape e seus óculos o denunciassem.
* * *
Na descida do trem, quase todos os alunos da Gryffindor da sexta série se encontraram, um pouco menos felizes e empolgados do que sempre estavam. A volta de Voldemort estava na cabeça de todos diariamente. Harry, Ronald e Hermione deram até logo a Rafaela e seguiram para as carruagens. Rafaela ficou por um instante parada á plataforma, sem saber para onde ir, até que ouviu uma voz chamando pela aluna de intercambio. A voz parecia um trovão e veio de um homem de mais de dois metros e meio de altura, o rosto escondido pela barba espessa e cabelos emaranhados. Ele se apresentou como Rubeus Hagrid e Rafaela o seguiu junto com as crianças de cerca de onze anos, vários centímetros mais baixas do que ela.
Quando Harry, Ronald e Hermione chegaram às carruagens, Hermione não pôde deixar de exclamar “Eu realmente preferia continua a não enxergar esses Thestrals”. Ronald e Ginny concordaram e hesitaram antes de achar algum menos feio para usar a carruagem.
No salão principal, Harry mais uma vez foi o centro das atenções ao entrar e sentar-se com os amigos à mesa da Gryffindor. Na mesa da Slytherin, Draco Malfoy como sempre se sentou entre Crabbe e Goyle, mas a diferença era perceptível. No lugar do olhar arrogante e das provocações desconexas, Malfoy estava calado e encarava Harry profundamente por todo tempo, com o olhar carregado de ódio. Crabbe e Goyle também não tinham a mesma expressão vazia de sempre, pareciam agora com seres humanos pensantes, como se fossem capazes de elaborar uma vingança inteligente.
No momento em que Harry cruzou seu olhar com o de Malfoy, respondeu em voz alta – Não tenho medo de cara feia. Já vi coisas piores.
– Com quem você está falando? – perguntou Ronald olhando na mesma direção
– Ninguém. Malfoy.
– Ah, Harry, ignora ele. – disse Hermione – É o nosso primeiro dia, você não quer começar o semester com brigas ou uma detenção.
– Umbridge não está mais aqui, Hermione. – lembrou Ronald
– Sim, mas temos outros professors rígidos, como o Snape, e qualquer um deles pode aplicar detenção.
– Só o Remus pra nos salvar esse ano. – constatou Harry
Os três olharam para a mesa dos professores e viram Remus sentando-se entre Snape e McGonnagall. O professor viu os alunos e sorriu para eles, sentando-se. Cumprimentou Snape com simpatia. Com o salão cheio e todos os professores à mesa, Minerva McGonnagal começou a chamar os alunos do primeiro ano para a seleção. Harry, faminto como todos os amigos, observou as nervosas e ansiosas crianças indo sob os aplausos para suas novas casas. Assim que terminou, Minerva não retirou o banco nem saiu da frente dos alunos.
Dumbledore se levantou. Harry notou que, apesar de ter o mesmo jeito bondoso de sempre, ele parecia ainda mais velho e cansado.
– Bem-vindos a Hogwarts! – disse com sua voz de trovão – Além dos novos alunos para o primeiro ano, gostaria de chamar mais alguém para a seleção. Vocês têm uma nova colega para o sexto ano. Espero que a recebam bem. – e apontou com a mão aberta para a porta lateral do salão, que se abriu sem que ninguém a tocasse.
Sob uma chuva de surpresos aplausos, Rafaela entrou de salto alto e sua elegante capa voando atrás dela, os cabelos negros soltos pelas costas. Ela olhou por todo o salão, deu um sorrisinho leve e tímido. Caminhando, olhou também para a mesa dos professores, onde viu Snape e Lupin sentados lado a lado.
Snape a encarava duramente com seus olhos frios, tão secos que pareceram drenar dela qualquer alegria que ainda pudesse restar. Sentiu uma sensação horrível no estômago, dor misturada com náusea, e teve que respirar fundo ao desviar imediatamente o olhar dele. Olhou para Remus, e o contraste entre seus olhares foi absurdamente enorme. Remus também a olhava aplaudindo como todo o resto do salão, mas havia nele uma bondade e um sorriso sincero que fizeram aquele instante de dor passar.
Foi até a professora Minerva, que lhe apontou o banquinho. Rafaela sentou-se nele, que era pequeno demais para ela caber. À mesa, Harry notou como as crianças eram pequenas, pois o banco parecia-lhes proporcional. Minerva colocou o chapéu sobre a cabeça de Rafaela e, para todas as outras pessoas, ele ficou em silêncio, com cara de pensativo. Mas, para Rafaela, ele estava falando.
- Vejamos… Vejo personalidade forte, uma pessoa muito determinada. Talvez um pouco determinada demais, é capaz de fazer qualquer coisa para conquistar o que deseja. É dura... Muito dura.
Rafaela conseguiu imaginar por onde aquilo estava indo. Sabia que aquela descrição não era exatamente dela, e sem realmente pensar com palavras, desejou não ser colocada na Slytherin, casa onde a personalidade de Voldemort que o chapéu estava lendo a colocaria.
- Não quer ir para a Slytherin... Realmente não quer, de coração, não é mesmo? Está certo, apesar de tudo, vejo doçura em algum ponto. Muito poderosa e talentosa. Sim, uma amiga leal e de muitos princípios. Você, portanto, vai se dar bem na... – e então disse em voz alta para que todos no salão o ouvissem – Gryffindor!
Com uma grande onda de aplausos, a mesa da Gryffindor ficou em pé para receber a nova aluna. Rafaela sentiu-se muito aliviada e seu estomago tele um leve sacolejo de satisfação. Sorridente, levantou-se e foi até a mesa, onde sua mão foi apertada por todos os que a puderam alcançar. Fred e George deram-lhe tapinhas nas costas, chamando-a de “buddy”. Sorrindo, olhou novamente para a mesa. Dumbledore a olhou por menos de um segundo, mas ela sabia que aquele olhar estava satisfeito. Algo a fez olhar mais adiante na mesa dos professores e viu novamente o professor Lupin, que aplaudia como todos os outros. Ele desviou o olhar rapidamente, mas Rafaela sentiu uma satisfação inexplicável ao vê-lo sorrir para ela.
Dumbledore levantou-se novamente e deu os recados de todo ano. Depois, desejou bom-apetite e o jantar foi servido. Harry e os dois amigos chamaram Rafaela para se sentar com eles. Hermione parecia muito feliz. Depois do jantar, ela e Ronald foram cumprir com suas obrigações de monitores e Harry acompanhou a multidão que ia para a Gryffindor. Despediu-se de Rafaela e dos outros no salão comunal e se enterrou em sua cama. Respirando fundo, fechou os olhos. Tinha ideia de que muita coisa ruim poderia acontecer, mas realmente não queria preocupar-se com aquilo no momento. Havia acabado de rever dezenas de amigos, conversado sobre Quiddich novamente e sentia-se de volta ao lar. Nada, porém, teria a menor graça se não sentisse que Sirius estava com ele. Tentou concentrar-se e lembrar todos os momentos que estivera em contato com o padrinho, para ver se assim voltava a sonhar com ele. Quando seus olhos já estavam pesados e quase caía no sono, porém, ouviu alguém entrando no quarto, arrastando os pés. Procurou seus óculos, levantou-se e tentou fazer um sinal para Rony se aproximar. Com a escuridão e a exaustão, principalmente, Ronald não viu e já se preparava para cair na cama – ao lado da cama de Harry – quando Harry falou, quebrando o silêncio do quarto:
– Agora...
– Aaah!! – assustando-se e levando imediatamente a mão a boca, com os olhos arregalados – Quê isso, alma penada?
Harry riu – Me conta tudo o que aconteceu.
Ronald fez um muxoxo – Amanhã...
– Nem pensar! Ontem você dormiu antes da Hermione sair do quarto, hoje você não escapa.
Os três amigos de quarto moveram-se em suas camas ou soltaram algum ruído, deixando claro que haviam falado alto demais.
– Tá, vai! Mas eu não quero que eles ouçam
Harry se levantou e fez um gesto para o amigo o seguir, entrando no banheiro. Assim que Ronald fechou a porta atrás de si, Harry cruzou os braços olhando-o interrogativo.
Ele riu, ficando escarlate – Tá bom, tá bom… O que você quer saber?
– O que Fred e George realmente viram?
– Eles não viram nada, sério.
Harry riu – Então por que falariam aquelas…
– Eles teriam visto se chegassem um Segundo depois.
Harry arregalou os olhos – Sério? Um beijo?
– É, é... – disse Rony ficando muito vermelho e olhando para os próprios sapatos
– E...? – insistiu Harry – Anda, me conta!
– Eu não acredito que você nunca percebeu.
– É claro que eu percebi! Todas aquelas briguinhas que vocês tinham por qualquer coisa só podiam significar isso.
– É, a Mione não é fácil. Mas sabe? Desde o meu primeiro jogo de Quiddich, você lembra.
Harry virou os olhos – Claro que lembro.
– Antes do jogo ela me deu um beijo no rosto. Tipo, eu sei que foi só um beijinho inocente, mas... Sei lá.
– Foi aí que começou?
– É. – silêncio – Harry, eu nunca falei com ninguém sobre isso!
– Ninguém melhor do que eu então. Eu te contei coisas sobre a Cho.
– Mas você nem quer mais saber dela, quer?
– Não. – afirmou sem precisar pensar muito – Mas Ron, você ainda não contou!
– Ah, ok. Bom, ela estava na Toca para a última semana das férias, para poder ir com a gente para Diagon Alley e daí pra escola. Claro que ela ficou no quanto da Ginny. A gente ficava conversando até tarde da noite, antes de ela voltar pro quarto da Ginny pra dormir. E aí naquela noite... Droga, exatamente naquela noite... Eu tinha a impressão de que algo ia acontecer, qualquer coisa…
– Seja mais específico, mano! Tinha uma coisa Rolando e você quase beijou ela?
– É!
– Que da hora!
– Da hora?! – exclamou Ronald, vermelho – Da hora?! Você acha que foi da hora passar o resto da semana com Fred e George falando sobre isso sem parar e ficar sem nem conseguir olhar na cara da Mione de novo?
– Pô, claro que isso não foi da hora, mas agora eles não vão mais ficar tão em cima
Rony ficou alguns segundos em silêncio e então concluiu – Eu não sei nem se ela vai querer mais. Ou se ela queria naquele dia.
– Bom, isso eu não sei também, mas não desiste. Seria da hora se vocês dois namorassem.
– Namorar? – Ronald exclamou – Eu nem beijei ela e você tá falando de namorar? Ah não, é sonhar demais …
– Sabe qual é o seu problema? – ralhou Harry – Você acha que é menos do que todo mundo. Só porque a Mione ficou com o “grande jogador de Quiddich” não significa que ela não vai querer alguma coisa com você, Ron... Pô, você é muito melhor que ele!
Ronald deu um sorrisinho – Valeu por tentar me animar.
– Não estou tentando te animar, tô falando a verdade. Se eu achasse que voc~e não tinha chance, eu falaria, mesmo!
Rony, indo na direção da porta para voltarem ao quarto – Aquele sonho fez mesmo muito bem pra você, espero que tenha mais deles.
Harry sorriu – Tenho certeza que ele vai aparecer de novo.
* * *
Harry sorriu feliz e correu pelo corredor. Ao abrir a porta que levaria à arena onde ficava o arco com a cortina, encontrou um lugar diferente, como se tivesse entrado de uma vez da porta para o lado de dentro do arco. Estava mais claro do que da última vez e não havia cadeiras.
– Sirius?
– Harry! Vem ver uma coisa.
Harry se virou e viu que a porta pela qual entrada não existia mais. Em seu lugar, o salão se estendia a se perder de vista.
– Cadê você?
– Aqui em cima!
Harry viu uma janela muito alta, Sirius diante dela, olhando para fora, sorrindo.
– Sobe aqui!
Harry, sem pensar, subiu. Em segundos estava parando ao lado de Sirius, diante da janela, sem sentir o chão sob seus pés.
Sirius o olhou sorridente e voltou a vista para a janela – Olha.
Harry olhou na mesma direção. Do outro lado das vidraças, havia um gramado muito verde e amplo, com algumas grandes árvores espalhadas, fazendo sombras volumosas. O céu lá fora estava muito azul e o sol brilhava alegremente.
– Que lugar é esse?
– Não sei, não cheguei lá ainda. – disse ele com o olhar sonhador – Mas vou chegar, é questão de tempo. Você sabe, minha morte ainda é recente, e eu ainda não entendo de verdade o que acontece aqui.
– Quer dizer que eu estou no lugar pra onde as pessoas vão quando morrem.
– Não, Harry – disse Sirius com um sorriso divertido – Você está na sua cama, em Hogwarts. Eu estou aqui, você não.
– Eu não entendo.
– Isso é um sonho, tudo é possível em sonhos, até mesmo falar com alguém que está em um luga diferente. E esse lugar – disse apontando para a janela – eu ainda não conheço. Posso apenas ver assim, daqui.
– Talvez é pra lá que você vai daqui a um tempo.
– Talvez seja isso. Quem esteve lá nunca me conta como é.
Harry o olhou de repente – Você vê outras pessoas aqui?
– É claro que eu vejo! Você acha que eu ficaria sozinho? Não, ficar sozinho era coisa de quando eu estava vivo.
Harry gaguejou. Não havia pensado na possibilidade de...
– Eu sei o que você está pensando. Seus pais estão aqui. Sim.
Harry não conseguiu mais falar. Sentiu-se descendo, mas quis continuar ao lado do padrinho.
– Se acalma, Harry, não se deprima de novo. Eu vou aparecer de novo. Agora vá ou vai se atrasar.
– Não! Eu não me importo... Quero ficar mais.
Sirius sorriu – Você está vivo, Harry. Portanto viva!
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