Capítulo Sete – Longe dos olhos

Harry, Ronald e Ginny notaram a falta de Hermione por alguns dias. Ela sempre comia rápido, dava um beijo no namorado e corria para a biblioteca. No quarto dia consecutivo em que isso acontecia, os três foram procura-la na curiosidade sobre o que ela andava pesquisando.

- Eu já ia procurer vocês. Estive lendo tudo sobre esse fetiço... – e baixou a voz para um sussurro – Da Rafaela.

Os três se sentaram com ela à mesa mais isolada da biblioteca.

- Na verdade, são dois feitiços combinados. Dumbledore me deu autorização para usar a seção restrita. “Caecus Surdus” foi o que a deixou completamente cega e surda. Na verdade não completamente – ela se corrigiu – Ela pode ver, mas muito mal, as coisas parecem escuras e nubladas, o livro diz que é quase o mesmo que ser realmente cego, e alguém teria que gritar com um sonorus bem na orelha dela para que ela ouvisse, e mesmo assim seria quase um sussurro, entendem? Então ela realmente não pode viver sem o única coisa que a faz ver e ouvir: as lentes. Esse feitiço é muito raro, muito pouco conhecido e muito difícil de fazer, é magia muito, muito obscura. É muito secreto e poderoso: Respicaudirelentium.

- Respica quem? – disse Ronald

- Respicaudirelentium. – repetiu Hermione – Significa “ver e ouvir através de lentes”. Lentes que estão muito longe dele, magicamente conectadas á sua própria mente, entenderam? Foi criado por um bruxo terrível no século quinto, e não houve mais registro de seu uso. Obviamente o livro não ensina como se faz, mas Voldemort descobriu. Ele combinou “Caecus Surdus” e “Respicaudirelentium”, e a observa com o resultado. O último faz com que ele veja e ouça através das lentes, mas é aí que há uma falha. Se ela estiver sem os óculos ela fica cega e surda, mas o pouco que ela puder ver, ele não verá. Estive pensando nisso e tentei imaginar, no momento em que ela está sem eles, como quando vai dormir, ele deve ter ordenado que ela deixasse as lentes viradas na direção dela, para que ele a possa ver e saber o que está fazendo. E eu comprovei isso! Ontem à noite ela tirou os óculos pra dormir, colocou-o no criado mudo, com as lentes apontando direto pra ela!

- Para que ele possa ver que ela não está fazendo nada de errado, só dormindo! – completou Harry

- Exato! – disse Hermione animada – Precisamos falar com Dumbledore, eu tive uma idéia, vamos ver se ele vai gostar, mas é uma maneira de podermos falar com ela sobre os planos, sem que Voldemort ouça ou veja.

- Isso seria ótimo. – disse Ginny – Podemos tranquilizá-la, dizendo que as coisas estão se encaminhando, não é? Dizer pra ela que tudo vai acabar logo.

- Não é? – concordou Hermione

- Mas como, Mione? – perguntou Ronald – Mesmo que a gente consiga tirar ela da cama no meio da noite e fazer o Fedido pensar que ela ainda está lá dormindo... Ela pode não precisar enxergar pra podermos falar com ela, mas se ela estiver surda, como vamos falar com ela?

- Bem, esse é um problema, eu sei. – ela disse, preocupada.

- Com certeza, mas Dumbledore pode ter alguma idéia de como fazer isso – disse Harry

- Ok, vamos perguntar pra ele.– disse Ginny – Mas qual é a sua idéia, Mione?

- Polijuice Potion. – ela sussurrou brevemente

Os outros três se entreolharam, entendendo.

- Ok. – disse Ronald – Alguém toma a poção e fica na cama dormindo enquanto ela na verdade estaria em outro lugar com a gente.

- Exatamente.– sorriu Hermione – Pedimos pra alguém que sabe da história fazer isso, pra não haver questionamentos. Então precisamos dar um jeito de ela sair da cama e a outra pessoa se deitar sem que a lente perceba.

* * *

Todos passaram um mês fingindo que nada havia acontecido, que não sabiam do segredo que Rafaela carregava e, por vezes, realmente se esqueciam disso. Ela aprendera a lidar com naturalidade, pelo menos exteriormente, com o que estava acontecendo. Harry evitava olhá-la diretamente nos olhos, conforme Dumbledore o orientara, mas sempre que isso acontecia sem querer, sentia uma pontada na cicatriz, não tão dolorida, mas bastante incômoda. Sem que ele soubesse, Rafaela também tinha a reação inesperada de um ímpeto de ódio ao olhar nos olhos do amigo. Fevereiro chegou rápido demais para alunos com tantas aulas pesadas e metros de lições de casa.

Rafaela disse boa noite, já de pijamas de flanela e debaixo das cobertas. Retirou seus óculos e os pousou sobre a mesa de cabeceira, deixando as lentes voltadas na direção de seu travesseiro e se deitou. Hermione ficou acordada, fingindo ler na cama. O quarto ficou em silencio. Cerca de uma hora depois, todas as meninas, inclusive Rafaela, dormiam. Hermione continuou como estava, com o livro agora caído sobre o colo e os braços cruzados.

Um gato esgueirou-se pela porta que Hermione havia deixado semiaberta. Sentou-se próximo ao batente e ficou parado por alguns instantes. Olhou para Hermione e voltou a andar, lentamente, até perto da cama de Rafaela. Observou a mesa de cabeceira e, então pulou para cima dela, pousando suavemente bem em frente aos óculos ali pousados, quase tocando neles.

Hermione se levantou imediatamente e correu para a porta. Fez um gesto permitindo que Tonks entrasse sorrateira no quarto, vestindo pijamas de flanela e já dando um farto gole em uma taça prateada.

- Tudo bem? – ela perguntou quase sem voz depois de beber a Polijuice Potion.

- Sim, McGonnagal já está na frente das lentes.

Tonks começou a mudar de aparência imediatamente. Seus cabelos tornaram-se negros e longos, a pele escureceu levemente e, em segundos, Rafaela estava parada diante de Hermione. As duas correram para a cama. Hermione apontou a varinha para a Rafaela, adormecida.

- Stunner. – ela disse quase inaudível

Nada aconteceu, mas Hermione sabia que Rafaela estava estuporada. McGonnagal, como gata, deitou-se na frente dos óculos, cobrindo ainda mais as lentes. Tonks, transformada em Rafalela, puxou suas cobertas e, apontando sua varinha, conjurou uma maca e colocou Rafaela sobre ela. Em seguida, deitou-se em seu lugar, imitando a posição em que ela estivera deitada. Hermione, apontando a varinha para a maca, fez com que ela deslizasse para fora do quarto, que ficou calmo novamente. McGonnagal levantou-se, lambeu uma pata, pulou para a cama de Rafaela, passando por cima de Tonks, e desceu. Tonks moveu-se levemente, deixando seu rosto aparente diante das lentes.

Hermione fechou a porta sem nenhum som e levou a maca até a sala comunal. Lá, todos a aguardavam. Dumbledore, Remus, Harry, Ronald e Ginny pareciam tensos. Dumbledore levantou-se de sua poltrona quando elas chegaram, apontou a varinha para a maca e a fez descer até o chão. Hermione sentou-se ao lado de Ronald. McGonnagal, ainda como gata, desceu as escadas, transformou-se de volta e ficou parada perto da lareira. Dumbledore abaixou-se diante da maca de Rafaela e, quando se levantou novamente, Rafaela estava se movendo. Abriu os olhos, a expressão perdida, e estendeu a mão como se procurasse algo ao seu lado, tocando o chão. Sentou-se assustada e bruscamente, apertou a vista tentando enxergar á sua volta.

Dumbledore apontou novamente a varinha para ela e murmurou lentamente alguns feitiços. Ao terminar, a sala toda continuava em silêncio. Olhou para Harry fazendo um leve gesto com a cabeça e voltou na direção dos sofás. Harry se levantou e abaixou-se bem na frente de Rafaela.

- Rafaela. – ele disse em voz muito baixa

Com um som de susto e a expressão chocada, Rafaela olhou novamente em volta, tentando entender o que estava acontecendo. Ela o havia escutado.

- O que... O que... – ela gaguejou, em pânico.

- Calma, Rafa, sou eu, Harry. Está tudo bem.

- Como... – começou a chorar – O quê?

- Tiramos você da cama. Você está longe das lentes, ele não pode ver...

- Harry? – ela disse ainda chorando – Ele tem que ver, ele tem que ver o tempo todo, eu não estou lá, ele vai descobrir! – ele chorava em pânico

Harry tentou acalmá-la, mas não conseguiu. Rafaela estava muito assustada e queria se levantar, mesmo sem ver nada, e voltar para o quarto. Remus levantou-se se deu lugar e se abaixou ao lado de Harry.

- Rafaela – ele disse calmamente – Por favor, fique calma. – e segurou sua mão – Está tudo bem, eu prometo.

- Mas como?

- Não se preocupe, nós cuidamos de tudo. – ele disse e apertou mais a mão dela, que estava gelada

Rafaela parou de chorar aos poucos, o olhar ainda perdido mal podendo enxergar, mas olhando na direção de onde viera a voz do professor. Em pé no meio da sala, Dumbledore os observou por cima de seus óculos, checando a cena.

- O que está acontecendo? – Rafaela perguntou entre as últimas lágrimas, apertando a mão do professor Lupin

- Colocamos alguém disfarçado na sua cama, com polijuice. Ele a está vendo lá, não sabe que você saiu. Eu te prometo, você está segura. – e então abaixou a voz para apenas um sussurro, fazendo com que apenas Harry e Rafaela o ouvissem – Eu estou aqui, está tudo bem.

Rafaela apertou a mão dele de volta – He can’t hear me? – ela perguntou, mais calma – Ele não está em mim agora?

- Não, ele não está. Está tudo bem, você é apenas você mesma agora. Mas não temos muito tempo, precisamos conversar e te levar de volta para a cama. Venha, eu te ajudo.

Remus a ajudou a se levantar e a encaminhou para uma poltrona vazia. Rafaela se sentou, tentando olhar em volta, os olhos apertados sem ver nada.

- O efeito da poção não dura muito. – ela disse sem saber para quem – Se ele vir a outra pessoa de transformando de volta...

- Por isso precisamos ser breves. – disse Dumbledore, e ela olhou em sua direção – Queremos que saiba que todos os seus amigos já sabem o que está acontecendo, e que todos estão do seu lado.

Ela sentiu os olhos se molharem novamente.

- Eu sinto muito, gente…

Os quatro amigos disseram que não tinha problema e sabiam que não era culpa dela, brevemente. Em seguida, Dumbledore começou a narrar quais eram os planos de Voldemort, para que ela cumprisse, e explicou como ela deveria agir e o que cada um deles faria. Rafaela ouviu em silêncio e atenta, apenas concordando com a cabeça, os olhos um pouco abertos demais sem ver nada. Depois de quase uma hora, ela disse que entendera tudo e que, agora, acreditava que tudo ficaria bem.

- Acho que preciso falar mais uma coisa… Pedir, na verdade. – ela disse olhando na direção da voz de Dumbledore – George... Se todos sabem, eu não quero que ele seja o único a não saber. Ele e eu somos... Próximos. Não acho que seja justo com ele.

- É justo. – concordou Dumbledore – Nós todos já temos eperi~encias suficientes que nos provam que podemos confiar em todos os Weasley. – Ronald e Ginny se entreolharam com um sorrisinho – Vamos cuidar disso, Rafaela.

Tonks moveu-se na cama, como se acordasse, e sentou-se de costas para os óculos. Curvou-se, recolheu-os da mesa de cabeceira, e os colocou no rosto. Nada aconteceu. Sentiu quando Rafaela sentou-se na cama, às suas costas e colocou a mão em seu rosto, por trás, retirando os óculos. Tonks recolheu imediatamente a Capa de Invisibilidade emprestada de Harry e cobriu-se. Rafaela pousou os óculos novamente á mesa de cabeceira e se deitou. Respirando fundo, fechou os olhos novamente. Sentiu quando sua audição voltou a diminuir, até não ouvia mais nenhum tipo de som á sua volta.

Nada aconteceu. Não ouviu nenhuma voz á sua cabeça, não sentiu nenhuma dor ou tontura. Sabia que tudo havia dado certo.