A Visão Amaldiçoada
9 Sábado em Hogsmeade
Capítulo Seis – Sábado em Hogsmeade
- Espera um pouco... Não sei se eu entendi. — disse George, o mais sério que alguém já o havia visto na vida – Tudo o que ela vê... Vocês-sabem-quem vê?
- Sim. Através dos óculos dela. – disse Hermione
- Tudo?! – ele aumentou a voz
- Tudo, George. Sinto muito. – disse Ginny
Ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro. Estavam no escritório do professor Lupin, protegidos de qualquer pessoa que pudesse ouvi-los. Lupin não estava no castelo no momento, era noite de lua cheia. George esbravejou por algum tempo, enquanto Fred, embora também um tanto revoltado, tentava acalmá-lo.
- Não é culpa dela, Goerge, ela está enfeitiçada!
- Disso eu sei! – George gritou – Só não entendo por que ela teve que ficar comigo! Passar a noite comigo!
Todos se entreolharam. Harry estranhou não ter pensado naquilo antes.
- Vocês não entendem? – ele gritou revoltado – As coisas que ela viu! As coisas que ela deixou aquele filho da puta ver!
- George, por favor, se acalma! – disse Hermione, exasperada – Por favor, a gente não sabe por que ela deixou acontecer, mas foi ela quem pediu pra contarmos pra você, ela não queria que você fosse o único que não sabia.
- George, pensa um pouco! – disse Ginny, também alto, levantando-se e parando em frente ao irmão – Ela ficou com os óculos o tempo todo?
Ele pensou – Não... Só no começo, mas depois ela tirou, tipo… Estava atrapalhando.
- Então! Parecia que ela estava te ouvindo?
Ele pensou por alguns segundos a mais dessa vez – Não.
- Ela deixou os óculos longe de vocês?
- Ela jogou longe, nem sei onde eles estavam.
- Então ela deu um jeito de ele não ver nada! – Ginny concluiu
- George... – começou Harry – Voldemort a pune se ela tirar os óculos e o impede de ver as coisas. Ela tirou enquanto vocês estavam em intimidade. Você entende?
George ficou em silencio, acalmando a respiração.
- É, ela... Nós... Não fizemos nada enquanto ela estava de óculos.
Calando-se, voltou a se sentar e ficou olhando para o nada.
- Tudo bem... Certo... Que bom que eu perdi aquela partida de xadrez. – disse Fred
Riram de leve e o silencio retornou.
- Ok. – disse George finalmente, resignado – O que podemos fazer pra ajudar?
* * *
O mês de março chegou com um leve aumento na temperatura e o bem-vindo retorno do sol. A neve derretera, mas ainda fazia bastante frio. O aviso do primeiro sábado em Hogsmeade do ano foi recebido com muito entusiasmo pela escola. A descontração era merecida pelos alunos mais velhos, que tinham aulas intensas e quilômetros de lições de casa. Hermione insistiu em ir um pouco mais tarde e encontrar os amigos lá, pois ainda queria escrever pelo menos meio metro de sua redação de BNP.
Harry saiu pelos portões do castelo abraçado com Ginny e acompanhado por Ronald e Rafaela. Encontraram o vilarejo lotado de visitantes, moradores e alunos, e não precisaram combinar para ir direto para o bar de Madame Rosmerta. Pediram cervejas amanteigadas para se aquecerem e ficaram a uma mesa em um canto do bar, ao lado de uma grande vidraça um pouco embaçada que dava para a calçada. Passaram quase uma hora bebendo juntos, num clima muito leve.
Harry e Ronald se entreolharam quando Rafaela fez cara de dor e levou a mão ao estômago. Sentira novamente dor e tontura, e sentiu-se arrepiar em terror quando a voz, já tão conhecida, disse “Chegou o momento. Livre-se dos amigos... Agora!” em sua mente.
- Aqui, toma isso. – disse Ginny para Rafaela – Essas dores de estômago, coitadinha.
Instantes depois, Ronald começou a conversar com Harry a respeito da nova edição da Firebolt que havia sido lançada, e Harry o contou que ela já estava na vitrine de uma das lojas do vilarejo. Sem poder se conter, Ronald quis ir olhá-la e Harry o acompanhou.
- Encontro vocês lá. – disse Ginny quando os quatro se levantaram da mesa – Preciso ir ao banheiro. Vem comigo, Rafa?
- Vamos.– ela respondeu – Nos esperem lá, meninos, também quero ver essa vassoura.
Os dois deram tchau e saíram do bar. Ginny e Rafaela esperaram duas garotas saírem do banheiro e entraram sozinhas. Ginny entrou na frente. Rafaela, de costas para ela, fechou a porta, apontou sua varinha e murmurou “Colloportus“. A porta se trancou com um leve clique. Ainda com a varinha apontada para a porta, disse “Abaffiato”. Um leve brilho como se fosse de filme plástico passou brevemente pela extensão da porta, que voltou ao normal em seguida.
Rafaela voltou-se para Ginny, que estava à pia, olhando-se no espelho.
- Ginny. – disse Rafaela e Ginny a olhou
Rafaela tremia por dentro. Era chegado o momento. Estava diante de uma grande amiga, mas não deveria agir dessa forma naquele momento. Apontou a varinha para ela. Ginny a olhou espantada.
- Quê isso, Rafa?
- Me... Me desculpe.
E, com um largo gesto com a varinha, gritou “Stupefy”.
Ginny foi lançada para trás e bateu na parede, desacordada. Sem hesitar, Rafaela, ainda de varinha apontada, foi em sua direção dizendo “Incarcifors”. Uma grossa corda marrom-escura saiu da ponta de sua varinha e enrolou Ginny por completo, prendendo seus braços ao corpo. Rafaela recolheu a varinha de Ginny e a guardou dentro de suas vestes. Em seguida fez com que ela flutuasse até dentro de um dos cubículos, trancou-o também com o feitiço “Colloportus” e fez aparecer na porta do lado de fora um aviso de que o banheiro estava quebrado.
“Por que não a matou?!” – disse a voz
Rafaela virou-se para o espelho e se encarou.
- ELa vai ficar desacordada por bastante tempo. Está fora do caminho. Quando ela acordar, você já terá Harry nas mãos. Depois disso seus Comensais podem matar a todos eles, ou fazer deles o que quiserem. Sei que vão ficar muito felizes.
Rafaela saiu do banheiro olhando em volta. O bar estava tão cheio que ninguém reparou nela. Saiu encarando o frio, e seguiu pelo meio da rua, passando despercebida por entre os transeuntes.
- Rafa!
Ela ouviu e procurou pela calçada à sua direita. Hermione saía de uma papelaria carregando uma sacolinha.
- Minha pena não está mais funcionando direito, fui comprar uma nova e estava indo procurer vocês no bar. – ela disse ao chegar perto de Rafaela – Por que não está no bar com os outros?
- Os meninos foram ver a Firebolt nova na loja de vassouras, e eu acho que me perdi da Ginny! Talvez ela tenha ido produrar por eles.
As duas seguiram pela rua lado a lado, a caminho da loja onde Harry e Ronald estariam. Encontraram-nos á frente da vitrine, no meio de outros garotos, olhando a nova vassoura.
- E a Ginny? – perguntou Harry
Rafaela olhou para Hermione e viu que ela estava ao lado de Ronald, a alguns passos de distancia.
- Ela pediu pra eu te falar pra ir encontrar com ela. – disse Rafaela com a certeza de que Hermione não estava ouvindo
- Por quê, ela não quis vir?
- Ela disse algo sobre ficar sozinha com o namorado dela depois de muito tempo no meio de um monte de outras pessoas. Ah, Harry! – Rafaela riu – Vail á dar uns pegas na sua namorada e esquece essa vassoura! Ela foi praquele café mais lá pra frente, estava cheio demais na Rosmerta.
Harry disse tchau aos amigos e saiu.
- Onde ele foi? – perguntou Hermione
- Procurar pela Ginny. Parece que, afinal, ela não tinha vindo pra cá.
Os três continuaram na frente da loja por mais alguns minutos, até Ronald entender que ficar olhando para a vassoura não garantia que ele a teria, e voltaram a caminhar pelas ruas. Rafaela caminhou com o casal de amigos até as ruas mais vazias do povoado, onde residencias de bruxos tornavam-se mais comuns do que as lojas do centro.
- Onde estamos indo? – perguntou Ronald
- Não sei sobre vocês. – começou Rafaela – Mas eu estou indo praquele pub no final da rua pra encontrar o George. Ele disse que fica em algm lugar por aqui, mas eu não conheço.
- Hog’s Head? – perguntou Hermione – Acho que ele podia te levar pra um lugar mais bonitinho...
- Não era esse nome... Já ouvi falar sbre o Hog’s Head, mas o que ele falou é mais longe. Vocês podem ir comigo at[e eu achar, só pra ter certeza que vou encontrá-lo?
Os dois concordaram e continuaram caminhando. Em alguns minutos, numa área já bem mais afastada de Hogsmeade, de onde era possivel enxergar a Casa dos Gritos, Rafaela entrou em uma viela estreita que, Ronald e Hermione perceberam, acabava em um beco.
- Tem certeza que é aqui, Rafa? – perguntou Ronald, olhando em volta.
Naquela viela, e neve ainda não derretera e estava se misturando à terra úmida, ficando com um aspecto um tanto sujo, e havia latões de lixo aqui e ali. Ocasionalmente um rato passava se esgueirando pelas paredes entre um latão de outro.
- Tenho. – Rafaela respondeu com uma voz sombria, virando-se de frente para Ronald e Hermione – É aqui mesmo.
- Não tem nenhum pub aqui. – disse Hermione, séria
- Não estou procurando por nenhum pub.
Os dois a olharam como se questionassem o que estava acontecendo.
- Eu vou sair daqui. – ela continuou – Mas vocês vão ficar.
E, sem que eles pudessem esperar, ergueu sua varinha com um rapido movimento, apontando de um para o outro com apenas um feitiço. Os dois caíram para trás, desacordados. Sem mais esperar, Rafaela os arrastou para trás de uma lixeira particularmente grande, amarrou-os, ajeitou a capa e secou o suor do rosto. Saiu pela viela e voltou á rua sem que ninguém notasse.
* * *
Harry viu sete varinhas virarem em sua direção quando abriu a porta.
- Sou eu! – ele disse imediatamente
Todos baixaram suas varinhas.
- E a Ginny? – perguntou Ronald
- Estou bem! – ela disse, entrando atras de Harry
- E a Rafaela?
- Foi para o beco com Fred e George. – informou Harry – Já deve tê-los estuporado a essa hora.
Estavam na Casa dos Gritos, exatamente no mesmo quarto onde Harry finalmente conheçera o padrinho Sirius, três anos antes.
- Obrigado, Srta. Weasley – disse Dumbledore – por aceitar ser estuporada sem resistência.
Ginny sorriu – Tudo bem, professor. Fico feliz em ajudar.
- E agora? – perguntou Ronald
- Agora resgatamos Fred e George do beco. – respondeu o diretor – Nyphadora, se puder fazer a gentileza.
- Certamente, professor. Mas é Tonks, por favor... – e, dando um sorrisinho, desaparatou
- Agora nós esperamos... – disse Remus – pelo pedido de ajuda.
Todo se sentaram pelo quarto. Dumbledore parou a uma janela, concentrado em seus pensamentos. Ronald e Hermione aqueciam-se juntos a um sofá, e Harry e Ginny sentaram-se com Remus. Ansiosos pelo que aconteceria em seguida, trocaram poucas palavras.
- E como vão...– disse Harry, na intenção de quebrar a tensão – Você e Tonks?
Remus deu um sorriso cansado – Não estamos mais.
- Não?
- Não. Acho que confundimos os sentimentos. Tonks e eu nos tornamos grandes amigos na Ordem, e o medo de tempos obscuros e alguma solidão nos fizeram acreditar que estávamos envolvidos.
- Mas ela estava aqui até agora! – disse Harry
- We’re not together anymore, but there are no hard feelings. Tonks is and will always be someone very special for me, and we’re very close friends.
- Ah... – pensou Harry – Que pena.
- Talvez seja, Harry, talvez seja… Ou, talvez, seja simplesmente a coisa certa.
Harry concordou, pensando por um instante em Cho Chang. Ele a quisera tanto quando era mais novo, mas agora tinha alguem muito mais importante em sua vida.
Houve silencio por varios minutos. Dumbledore não se movera da janela. Harry tremia os joelhos, se balançando inteiro, tenso. Sabia que a qualquer segundo algo de grande aconteceria. Ele estaria novamente diante de Voldemort, e se perguntava se teria a sensação de que aquela vez seria decisiva, como havia conversado com Rafaela. Olhou para Ginny e apertou sua mão. Não queria que ela participasse de nada. Dumbledore tambem ja a havia pedido para que nao fosse com eles, mas Harry conhecia muito bem a namorada.
- Ginny... – ele disse em voz baixa – Por favor, me prometa...
- Não, Harry. Não me peça isso.
- Estou pedindo. – e a interrompeu quando foi voltar a falar – Por favor, Ginny, não vá atrás de nós.
- Eu não posso simplesmente não ir, Harry!
- Sim, você pode e vai, Ginny, por favor! – ele insistiu – Eu não quero que corra perigo.
- Eu já lutei ao seu lado antes, Harry, caso você não se lembre. Você sabe que eu sou boa, sabe que eu posso ajudar.
- Eu não duvido do seu talento, meu amor. – ele disse, agora segurando as mãos de Ginny – Mas eu também conheço os talentos deles. Eles sabem o que você significa pra mim, e se você aparecer você será um alvo pra me enfraquecer. Entendeu? Eu não sobreviveria se algo acontecesse com você, Ginny… Isso não é sobre os seus poderes, eu sei o que você é capaz de fazer. Por favor, me prometa.
Ginny tinha lágrimas nos olhos. Havia sido chamada de “meu amor” pela primeira vez pelo homem que amava, mas ao mesmo tempo sentia-se exasperada por querer participar daquela que poderia ser a última batalha contra Voldemort.
- Tudo bem, Harry... – disse, afinal, com a voz embargada – Eu prometo.
Antes que pudessem dizer qualquer coisa, Dumbledore se afastou um passo da janela, mas a continuou encarando.
- Está vindo.
No mesmo segundo, um jorro de luz prateada invadiu a janela, passando por ele e dando a volta em todo o quarto. No meio da luz havia uma ave, majestosas asas abertas em voo, deixando um rastro magnífico. A ave deu uma volta por todo o cômodo e, finalmente, parou batendo as asas no lugar na frente de Harry. Não foi necessário que ela abrisse a boca para que todos ouvissem a voz de Rafaela vinda da ave.
- Harry... Socorro, eles me pegaram!
Imediatamente a ave voltou a voar, dando mais uma volta pelo cômodo e atravessou de volta a janela para fora. Harry, Ronald, Hermione, Dumbledore e Remus correram para fora do comodo e da casa, seguindo a ave. Ginny gritou para que tivessem cuidado e chorou ao soltar a mão do namorado.
Tonks, acompanhada por Fred e George, já novamente com sua própria aparencia, entraram na Casa dos Gritos enquanto todos saíam.
- Nós vamos com vocês! – gritaram os gêmeos ao mesmo tempo
- Não! – gritou Dumbledore – Ginny está na casa, vão buscá-la e a levem de volta para o castelo. Digam à McGonnagal para dar o alarme à Ordem. Agora!
O Patrono de Rafaela saiu da Casa dos Gritos e voou na direção oposta de Hogsmeade. O grupo viu quando ele, já bem á frente, entrou na porta do porão de uma outra casa, muito menor, porém também evidentemente abandonada.
- Muito bem, Harry, é aquela casa. Vá!
Sem precisar pensar, Harry correu naquela direção. Dumbledore e os outros ficaram para trás. Ao chegar perto da casa, tirou sua varinha e correu mais devagar, olhando para cada janela da casa e parando à porta que levava ao porão, por onde o patrono entrara. Ouviu atentamente. O unico som era do vento uivando e da janela do sótão batendo.
Então o grito gelado de pavor de Rafaela cortou o ar. Vinha diretamente de dentro da porta diante da qual Harry estava. Ao longe, Remus se moveu nervosamente, quase começando a correr.
- Ainda não! – bradou Dumbledore – Espere pelo sinal do Harry.
Ao lado da casa, Harry ouvia, junto com os gritos, passos pesados e o som de algo sendo arrastado. O grito ficou mais distante. Harry conhecia a dor e o desespero daquele grito. Por um segundo, Harry exitou. Tremeu por dentro, imaginando se aquele era finalmente o sentimento de que seria a última vez. Um novo grito de Rafaela o acordou e, sem mais pensar, Harry apontou sua varinha para a porta, que abriu com uma explosão.
A única luz que havia no porão vinha da porta que Harry acabara de arrombar. Tudo ficara em silêncio novamente. Com a varinha apontada para a frente, Harry entrou, acostumando seus olhos à meia-luz.
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