A Visão Amaldiçoada

2 A Sala por Trás da Cortina


O verão parecia mais seco do que nunca e o calor deixava desertas as ruas de Little Whinging. Julho começava a se acabar e Harry Potter ao menos notava os dias passarem. Sentado no chão, de costas para a parede de seu quarto, estava sério, tenso, não parecia se importar com o fato de que seu décimo sexto aniversário estava se aproximando. Nem mesmo o fato de ultimamente ser de certa forma bem tratado pelos tios Vernon e Petunia e pelo primo Dudley o faziam dar um mero sorriso. Sabia, de qualquer forma, que eles eram obrigados àquilo.

Não havia nada que o fizesse ficar feliz. Sentia-se como se nunca mais fosse conseguir sorrir novamente, e nem mesmo o fato de o calendário estar cada vez mais perto do dia da volta para Hogwarts mudaria isso. Ainda assim, ficar em Privet Drive durante todo o verão não era exatamente o que Harry queria. Na verdade, depois de seu último terrível ano, ele não sabia o que poderia querer além de se vingar pela morte de Sirius Black, seu padrinho, a quem considerava como um pai. Era só pensar que nunca mais receberia cartas ou bilhetes, nunca mais o encontraria, e que ele havia morrido infeliz, depois de tanto tempo em Azkaban e em seguida enfurnado na Mansão Black, sem poder ser útil, tudo por culpa de Bellatrix e de Voldemort, e seu coração acelerava. Várias vezes tinha acessos e crises de ódio: atirava objetos contra a parede o mais forte que conseguia, gritava e, por vezes, quando estava sozinho (o que era quase a maior parte do tempo), permitia que lágrimas de raiva escorressem de seus olhos.

Alguns dias antes recebera uma carta vinda de Hogwarts com suas notas dos Níveis Ordinários de Magia, que fizera no último ano. A melhor nota de todas, o que ele já esperava, fora em Defesa Contra Artes das Trevas, mesmo sendo Umbridge a última professora. Passara razoavelmente bem em todas, até mesmo em Poções. O fato de o professor Snape não estar de olho durante a prova prática e teórica o dera bem mais confiança. Mas nem isso o fez sorrir.

Estava recebendo cartas praticamente todos os dias de seus amigos. Hermione, Rony e até mesmo Ginny contavam-lhe sempre tudo o que lhes acontecia, e Harry sabia que eles estavam se esforçando especialmente para fazer aquilo, para não deixá-lo sem notícias e desesperado como acontecera no ano anterior. Mesmo assim, respondia pequenos bilhetes. Não tinha o que contar.

Sentia falta de estar em um jogo de Quiddich, quando estava tudo bem e quando o padrinho estava vivo. Ele só queria poder voltar ao passado e fazer-se não convencer os amigos a irem até o Departamento de Mistérios.

Seus pensamentos foram interrompidos pela porta se abrindo lentamente. Pela pequena fresta que se abriu, apareceu o magro rosto da tia Petunia.

– Harry, café da manhã. – disse friamente, mas sem a grossura que ele conhecia desde sempre.

Harry resmungou – Já vou.

Depois que ela saiu e fechou a porta, Harry se levantou devagar como se pesasse uma tonelada. Calçou o tênis de sola solta quase até a metade, e saiu do quarto arrastando os pés.

Durante a manhã, Harry sentiu-se terrivelmente tentado a sair de casa e andar um pouco sozinho pelas ruas. Sabia que não podia. Havia riscos por toda parte, mas quem se importava? Não ele. Petunia protestou: não sabia o que, exatamente, mas sabia que havia alguma coisa que colocava o sobrinho em perigo fora de casa. Lembrava-se perfeitamente bem da carta que recebera junto com Harry, quinze anos atrás, e do berrante que chegou em seu nome no ano anterior, que gritou em sua cozinha. Na opinião de Harry ela não se importava, mas não queria ser culpada por bruxos de não ter protegido o garoto, enquanto ela era realmente a única que podia fazer isso fora de Hogwarts. Mas Harry não a ouviu, deixou a casa e foi andar pela rua, mãos nos bolsos, cabeça baixa. Não viu a hora passar. Com o meio-dia chegou também a chuva. Continuou com o passo lento ao voltar pra casa. Não pensava em nada mais que não fosse a lembrança de pouco mais de dois anos atrás, quando por poucos instantes acreditou que iria mudar-se para a casa do seu então recém-conhecido padrinho Sirius Black. Mais uma vez pensou em como seria se ele não tivesse impedido Black de matar Pettigrew ou, mais importante, se naquela noite Remus Lupin, então professor de Hogwarts e sempre grande amigo de seu pai e seu padrinho, tivesse tomado a poção Mata-Cão. Pettigrew não teria fugido Voldemort não teria renascido e Sirius estaria vivo e inocentado. E àquele momento estariam almoçando juntos em Grimmauld Place.

Na sala, tia Petunia, a cara mais amarrada do que nunca, tinha um rolinho de papel na mão. Parecia estar parada ali sem fazer nada apenas esperando que o sobrinho aparecesse.

– Chegou a alguns minutes. Uma coruja trouxe, e veja o que ela fez. – disse apontando para uma pilha de cacos de louça – Um vaso da família, mais de meio século... – disse dando um suspiro amargo – Só pode ser pra você.

Harry não falou nada, apenas pegou o pergaminho antes que a tia pudesse se negar a entregá-lo – Vou me trocar antes do almoço. – disse disparando na direção da escada, não sem antes ver a cara da tia entortar na direção da poça de água que escorrera de suas roupas.

Ele sabia que a carta não podia ser de nenhum dos amigos: os Weasley, Hermione e Hagrid já haviam enviado suas corujas na noite anterior, e ele ainda não respondera. Harry desenrolou o pergaminho e correu os olhos.

“Harry

Adicionamos temporariamente sua lareira à rede fo Floo. Precisamos nos comunicar para algumas explicações rápidas. Esteja sozinho na frente da lareira à sete e meia da noite.

Remus Lupin, Ordem da Fênix”

Harry ficou um pouco satisfeito ao saber que falaria com “alguém”. Lembrava-se muito bem do último verão, quando se se sentiu totalmente abandonado. Simplesmente não queria isso mais uma vez. Explicar para os tios que precisava que eles se retirassem de perto da lareira para que a cabeça de alguém falasse com ele não foi tarefa fácil. Eles se seguraram para não gritar que não queriam um bando de bruxos loucos destruindo sua sala novamente, mas depois de alteradas explicações, Harry os convenceu de que era necessário que esperassem em seu quarto durante alguns minutos. Não pôde deixar de sentir uma ponta de satisfação ao ver os papéis sendo subitamente trocados.

Na hora marcada, Harry estava sentado de pernas cruzadas, ansioso em frente à lareira. Precisava de notícias, queria saber o que estava acontecendo no mundo. Os jornais que recebia diziam sempre as mesmas coisas. Reprises de sua entrevista para o The Quibber, dicas de como passar despercebido por prováveis Comensais e como identificá-los, a “receita” de um Patrono perfeito e coisas do tipo. As únicas notícias pelas quais se interessava eram aquelas que exaltavam alguns membros da Ordem, principalmente Albus Dumbledore. Harry percebeu que a visão jornalística das pessoas antes vistas como malucas estava cada vez mais a favor, o que significava que as pessoas, no geral, também se tornavam menos alienadas, o que ele achava bom. Ainda assim, pela proximidade que sempre tivera do grupo, achava-se no direito de entender melhor a história.

Seus pensamentos foram interrompidos por uma chama verde aparecendo na lareira e o rosto de Remus boiando nas chamas.

– Ah, olá Harry!

– Remus, como vai? – disse tentando dar um fraco sorriso

– Bem, dentro do possível. Você?

Harry encolheu os ombros e suspirou – Ok.

– Como seus tios estão te tratando? Está tudo bem mesmo?

– Eu consigo me virar do jeito que for...

Harry pensou em como sempre fora idiota mentindo seus sentimentos e sentia como cada vez mais eles pesavam dentro de si. Precisava conversar com alguém, e, para aquele momento, Remus era a pessoa ideal.

– Na verdade, Remus, eu não estou realmente bem.

Remus concordou levemente com a cabeça baixando o olhar – Eu entendo... É muito difícil para todos nós.

Silêncio. Remus voltou a olhar para Harry, respirando fundo – Bem, Harry, tenho boas notícias. Isso se o que fez isso acontecer pode ser chamado de “bom”...

– O que é?

– A casa do Sirius, você sabe...

– O que tem?

– Não há mais nenhum Black vivo, além de Belatrix, mas ela já não conta. Você é o único herdeiro, ou o mais próximo que Sirius tinha de um filho.

– Herdeiro de quê, da casa? – perguntou franzindo a testa

– Sim. Ela é sua agora.

Harry ficou surpreso – Ah... Nunca havia pensado nisso.

– Você pode fazer o que quiser com a casa. Pode ir morar lá depois que tiver idade, pode vender, se livrar dos quadros e de Kreacher.

– Não, não vou vender. Sirius cresceu lá.

– Imaginei… De qualquer forma, você ainda não tem nem mesmo dezesseis anos. Aliás, acho que vou aparecer por aí no dia do seu aniversário, se não for um probema.

– Claro que não!

– Então, você só vai poder ter a casa depois que fizer dezessete anos.

Remus explicou a Harry tudo o que ele tinha que saber sobre a sua posse da casa, e combinaram que o imóvel ficaria no nome de Remus até Harry completar a maioridade.

– Bom. – Harry suspirou – E for a isso, como estão as coisas?

– Você tem lido o Daily Prophet?

– Sim. Não vi nada de interessante, apesar de o fato de a Ordem estar agora numa posição boa na opinião das pessoas, mas mais nada...

– É porque nada está realmente acontecendo. Tudo está estranhamente quieto desde aquilo, você sabe o quê. Azkaban está agora guardada pelos melhores Aurores que o Ministério pôde contratar, mas não temos certeza de que isso era a melhor coisa a se fazer. Há um grupo responsável por pesquisar e escolher guardiães melhores, algo mais forte que Dementadores, mas dignos de confiança. Voldemort não deu sinal de vida, nem Belatrix ou qualquer outro deles... Todos os Comensais que estiveram no Ministério naquela noite foram presos e bem trancados, parece que não serão um problema. Deixe-me ver... – pensou em mais novidades – Bem, as pessoas estão realmente mais simpáticas à Orden, até mesmo o Daily Prophet vem publicando boas opiniões sobre nós, mas quem começou a fazer isso foi, na realidade, The Quibble, do Sr. Lovegood. Eles cresceram muito.

Harry percebeu que Remus queria disfarçar a conversa e fazê-lo sentir-se melhor. Na verdade sabia que uma breve distração era positiva, e sabia também que não deveria ser grosso como usualmente fazia com os amigos ao tentarem fazê-lo sentir-se melhor. Não queria piorar ainda mais as coisas. Não naquele momento. Remus era o ´ltimo que restara do círculo de amigos de seu pai e era, agora, o mais próximo que ele tinha de uma figura paterna.

– Bom. Que bom que eles estão vendendo mais.

– Sim, e voc~e deve ter percebido que Dumbledore retornou com toda a força.

– É mesmo?

Harry sabia que o grupo estava com maior popularidade, mas não pensava nisso em âmbito pessoal. Na verdade não tinha muita paciência para ler a fundo todas as matérias, o que o fazia fechar o jornal logo após constatar não haver nada de extraordinário.

– O Ministério admitiu que esteve errado o tempo todo, você viu no jornal. Pode imaginar como a população mágica não confia mais neles, a popularidade está extremamente baixa. Por essa razão, tudo o que você ou Albus disserem serão muito bem recebidos.

Harry sorriu de lado – Isso deve estar deixando Voldemort louco.

Remus também sorriu – Tenho certeza disso. Será um grande problema para ele.

Harry suspirou novamente e olhou para os lados – Mas Remus... Mesmo que as pessoas queiram ouvir... Eu não tenho nada pra falar.

– Mas é claro que tem. Eu coloquei uma coisa na cabeça, Harry, pelo Sirius. Mesmo que ele não esteja mais com a gente, nós precisamos cuidar da memória dele. Ninguém conhece a história, ninguém sabe sobre a inocência dele. Ele morreu como um traidor assassino.

Harry sentiu a garganta apertar e abaixou a cabeça, abraçando os joelhos. Pensar naquilo o trazia toda a revolta de novo.

– Entendi. E você acha que eu devia contar a história verdadeira.

– Sim., E eu acredito que você também queira isso, correto?

– Sim… É claro que eu quero. – disse voltando a olhar pra Remus – Assim que eu puder vou falar com a Luna, pra ela marcar com o pai dela. Pelo menos todo vão saber que ele é inocente. Quero dizer... Era.

Os dois ficaram em silêncio, ambos notando que sentiram nós na garganta por falar em Sirius Black. Remus, quando começou a sentir os olhos arderem, respirou fundo e mais uma vez mudou de assunto.

– Harry, você nunca falou de novo sobre aquela amiga sua…

– Hermione?

– Não, eu conheço a Hermione muito bem. Digo, aquela da Ravenclaw...

– Ah. Cho Chang? Ela não é exatamente minha amiga. Não estou realmente interessado em vê-la novamente. Nem tenho pensado nela...

– Ora, harry. Você devia escrever pra ela. Ainda é tão jovem, uma companhia feminine faz bem

– Eu tenho minhas amigas, Remus, como Hermione e Ginny, e as minhas colegas do time de Quiddich …

– Não estou falando de amizade. Você sabe… Algo que nos dá mais alegria de ainda estarmos lutando.

– Ah. Quem é a sua namorada?

– Eu não disse que tenho uma! – Remus se defendeu, divertido

– Ok. – Harry respondeu irônic

– Tonks. Tvemos idas e vindas por anos, mas acho acho que está funcionando.

Harry sorriu – Ela é incrível. Fico feliz por você, meu amigo.

Remus sorriu, talvez mais feliz por ter sido chamado de amigo do que pela congratulação em si.

– Obrigado. Na semana que vem ela provavelmente irá comigo até a sua casa.

Harry sorriu levemente – Que bom! Ah, Remus… Você acha que, já que as coisas estão assim, você poderia me levar para A Toca para eu passar o resto do verão? Se não tem nada de grave acontecendo…

Remus negou com a cabeça com expressão de “desculpe-me” – Você sabe que não é possível, Harry. Apenas aí, com seus tios, você está realmente seguro até voltar para Hogwarts.

Harry esvaziou os pulmões – Só pra saber...

– Não vai demorar muito, voc~e já está enfrentando a mais de um mês agora. Bem, mas se quiser passar pelo menos o último dia com eles, pode encontrá-los em Diagon Alley e ir para a estação no dia seguinte. Mas é o máximo que possi fazer, você sabe disso.

– Eu sei...

– Bem, era isso, eu… Eu só queria converser… Essa casa é muito mais sombria depois que ele se foi.

Harry sentiu os olhos arderem. Entendeu que ele não era o único que sofria com a perda de Sirius. Remus e Sirius eram amigos desde crianças, e ele agora se via só, e para piorar estava dentro da casa do amigo. Por um instante sentiu-se extremamente egoísta por ter pensado apenas na própria perda durante aquele tempo todo.

Remus parecia ainda querer falar, embora sem saber as palavras – Ahm, Harry... Por favor, cuide-se, ok? Não saia por aí fazendo nada de maluco. Não quero que nada aconteça com você, quero que saiba... Eu sofreria muito. De verdade.

Harry sorriu um pouco emocionado – Pode contar com isso, Remus. Não vou fazer nada de errado.

E, acenando com a cabeça, Remus desapareceu da lareira assim como as chamas verdes. Harry se levantou, sentindo-se um tanto mais leve, e subiu as escadas. Assim que entrou no corredor, viu Vernon e Petunia fugindo rapidamente de volta para seus quartos, assim como Dudley, que tropeçou no batente da porta de seu quarto e tombou no chão. Harry o olhou de cima, passando pela porta, e não disse nada. Voltou para seu quarto e se jogou na cama. Fez muito bem a ele conversar com Remus, mas sabia que ele jamais poderia ser como Sirius. Pensou em tudo o que conversaram, sobre a entrevista que decidiu dar ao The Quibble, sobre a atualidade e sobre Cho Chang. Sabia que precisava, sim, de uma companhia como a mencionada por Remus, mas não tinha certeza de que Cho seria exatamente a pessoa certa.

* * *

Harry se viu num corredor muito bem conhecido por ele. Não pôde acreditar que estava de volta ao corredor que levava à entrada do Departamento de Mistérios.

– Não posso estar sonhando com isso de novo! – pensou começando a caminhar – Quero acordar!

Não acordou. Estava lá, era fato. Andou até a porta, entrou por ela e explorou as salas. Estava vazio, exceto pelos tantos objetos e portas misteriosas que haviam naquele lugar. Entrou por qualquer uma delas e sentiu o estômago afundar e o peito gelar. Lá estava a arena que tinha, no centro, o arco e o véu onde Harry vira Sirius cair. De onde ele jamais voltou.

Harry sussurrou, sem respiração – Sirius... – e começou a descer os degraus – Sirius. Sirius!! – gritou, começando a correr

Parou centímetros antes da cortina e a encarou. Sentiu o coração bater em cada parte de corpo, uma ansiedade o tomar por inteiro. Tremendo e com a boca seca, Harry segurou a cortina e puxou-a abruptamente para o lado. Imediatamente deu vários passos para trás, temendo o que veria lá dentro.

Não parecia haver nada, apenas escuridão. Harry ficou parado ali, respiração curta, olhando para dentro. Já não tinha mais certeza se queria acordar daquele sonho.

– Sirius... Você está aí?

Não havia som algum, mas ele sabia que havia alguma coisa naquele lugar tão misterioso. Deu um lento passo para frente, chamando mais uma vez pelo padrinho, sem resposta. Voltou a andar e se aproximou da entrada,. Não teve coragem de entrar, parou com os pés tocando no batente, forçando a vista para a escuridão.

– Você está aí, Sirius?

Aguçando o ouvido, ele ouviu de longe um som parecido com o que ouvira quando esteve lá, pessoalmente, como se fossem sussurros e resmungos de seres humanos, vindo lá de dentro. Porém, dessa vez, os sons pareciam vir de uma só pessoa, respirando.

– É você?

De repente, Harry viu uma luz se acender do lado de dentro. Era fraca, porém o suficiente para iluminar o centro do lugar. Ele pôde ver que era uma sala muito grande, imensurável, e bem debaixo da luz havia duas cadeiras, quase de frente uma para a outra. Harry prendeu a respiração ao ver um pessoa caminhando na penumbra, na direção da luz.

A voz de Sirius surgiu suave e rouca – Venha sentar-se comigo, Harry.

De repente percebeu que não estava mais no Departamento de Mistérios. Era apenas uma sala com as cadeiras ao centro, debaixo da luz, não havia aro nem véu, não havia arena, não havia mais o medo de cair por lá e morrer.

“Isso é ridículo, é um sonho, eu não posso morrer!!” e, com essa conclusão, sorriu. Estava a poucos metros do padrinho e não podia acreditar que ele estava ali, vivo no seu sonho. Correu.

– Sirius! Você está vivo! – gritou abraçando-o

Sirius riu – Estou bema qui Harry, fique calmo.

– O que aconteceu? Por que teve que acontecer, eu não entendo!

– Calma, está tudo bem. Venha, sente-se. – disse apontando uma das cadeiras.

Sentaram-se frente a frente. Harry sorria ofegante – Então? O que isso significa? Você está vivo? Onde?

– Não, Harry, não é isso. Eu estou vivo aqui, e apenas aqui.

– Como..?

– Estou aqui, não estou? Mas não estou aqui para falar sobre mim, e sim sobre você

Harry deixou de sorrir – Não há nada pra falar sobre mim...

– Há sim, é claro que há. Não quero te ver assim, meu jovem. Eu quero que você fique bem. Não estou ferido, eu não sofri. Simplesmente morri. Mas você… Você está vivo, Harry, e você deve viver! Eu vejo que se você continuar sofrendo assim, você ainda estará tão mal quando voltar para Hogwarts que perderá seu ano. E se voc~e quer que tudo isso um dia acabe, você precisa ficar bem.

Harry, com a garganta apertada – Mas é recente demais, Sirius...

Sirius respirou meio impaciente – Pode ser recente para você, Harry, mas aqui onde eu estou não existe o tempo. Não é recente, não é antigo. Simplesmente é, e ponto final.

Harry não se importou com os olhos marejados – Esse é o problema, Sirius. O fato é que eu nunca mais vou ver você se não for em sonhos como esse! Eu perdi meu pai e finalmente encontrei você, que era como um pai, e aí você morreu!

Sirius se curvou para frente, ficando mais próximo do afilhado – Há outras pessoas que se importam com você tanto quanto eu. Você tem uma família, Harry!

Harry riu deixando as lágrimas fugirem dos olhos – Quem, os Dursley?

– Os Weasley, Harry. Eles são uma família de verdade, eles têm um lar de verdade, e eles o vêem como parte da família. Você tem pessoas que te amam, não era apenas eu.

Harry o olhou em silêncio. Não queria acordar nunca mais daquele sonho, mas com essa última frase, pensou bem – Remus disse que eu não posso ir pra lá.

– Não ainda, mas vai poder ir pra lá no ultimo dia das férias.

- Como você sabe que o Remus me disse isso?

Sirius riu e voltou a se encostar-se a sua cadeira – Oras, eu morri, mas não fiquei surdo!

Harry riu secando o rosto – Ok, Sirius, mas voce me promote que vai aparecer mais vezes?

– Sempre que eu puder, Harry, eu prometo. Não se esqueça de nada que eu te disse, ok?

– Não, eu não quero acordar agora! Ainda tenho a noite toda!

Harry ouviu um som de alguma coisa batendo insistentemente em outra, sem conseguir distinguir o som. Parecia alguém batendo a uma porta ou janela, leve e insistentemente.

– Já é de manhã, Harry. Tem uma coruja batendo na sua janela. E, aliás… Feliz aniversário!

* * *

Hedwig insistia batendo o bico no vidro, ao mesmo tempo em que alguém batia na porta com insistência. Harry sentou-se na cama, atordoado, sem saber a quem atenderia primeiro. Abriu a janela e correu para a porta.

– O que está acontecendo? O que é esse barulho todo? – perguntou Petúnia, irritada

– Eu estava dormindo, não ouvi.

– O café está na mesa. – e saiu.

Harry voltou para dentro e foi até Hedwig, que parecia chateada por ter ficado tanto tempo do lado de fora – Desculpe, Hedwig... Estava conversando com o meu padrinho. – disse abrindo um sorriso.