A Vingança
1 Prólogo
CHAMAS
O frio cortante mordia suas bochechas e o único som alto o bastante era o de sua própria respiração, desregulada e sem fôlego. Estava jogada no chão frio de mármore negro da casa de sua família e uma dor alucinante percorria sua perna direita. Sentiu o sangue quente debaixo de sua cabeça e o gosto amargo em sua boca. Em uma tentativa tola de recuperar seus sentidos, Alka tomou um forte suspiro e seus pulmões queimaram com o cheiro arrebatador de enxofre e sua cabeça latejava com uma dor pulsátil e contínua. Ainda com os olhos fechados, esforçou-se para lembrar os acontecimentos que precederam aquela manhã: recordava de ter sido convocada por seu pai, Meir, para comparecer ao Conselho o mais rápido possível, porém seu comportamento no mínimo infantil levou-a ignorar as súplicas de seu mentor. Alka então prosseguiu com seus planos de visitar as terras sem mestre que contornavam sua cidade, o motivo, não se lembrava porém havia certeza que deveria ser um motivo tolo e egoísta, algo típico de uma adolescente de 13 anos.
Não importava agora.
Alka abriu seus olhos devagar, analisando os seus arredores. Estava no hall de entrada e podia ver os pilares de mármore negro com runas douradas em seu decorrer. O teto decorado com a pintura de Khurdun, o patrono dos curadores, a encarava com olhos furiosos e condenadores. Lentamente, levantou sua cabeça e com seu braço esquerdo, procurou a ferida na base de seu crânio: uma grande laceração chegando até a base de sua nuca. Não conseguindo mover suas pernas, a garota começou a arrastar-se pelo cômodo escuro, tateando em procura de algo, até tocar no que seria braço de alguém. Assustada, parou seus movimentos.
━"Q...Quem está ai?" Sua voz rouca e trêmula perguntou.
Sem resposta.
Alka tornou a tocar o desconhecido, demorando para discernir quem era. Somente com a leve luz do vitral na parede oposta como guia, ela brevemente o reconheceu como Kristov, um dos guardiões de seu pai, com seu robe vermelho e o broche dourado de fênix em seu peito.
━"Kristov, acorde. Kristov!" A garota balançava o homem de maneira frenética. Porém, percebeu o inesperado: ao virar o rosto de Kristov, o lado esquerdo de sua face estava gravemente queimada, com a pele chamuscada e caída onde o rosto havia encostado o chão. Era possível ver partes do crânio de Kristov e seu olho esquerdo havia derretido. O estomago de Alka revirou com o odor de carne queimada, e ela esforçou-se para não entrar em pânico.
Ao inspecionar melhor, percebeu que não era uma queimadura qualquer. Magia em Khura era raramente usada para fins violentos, portanto não havia razão de aprender medidas ofensivas a não ser como métodos de defesa, como escudos. As queimaduras de Kristov exalavam um forte cheiro de enxofre e algo mais, um odor doce nauseante. Se não era alguém de Khura, só havia uma outra opção. Um elemental provocou a morte de Kristov.
Alka encarou o guardião por um momento, ponderando o que acabara de perceber. O fluxo de ideas em sua mente era muito rápido: elementais eram proibidos em Khura. Todos eram proibidos em Khura. Qualquer um que não tivesse uma gota de magia no sangue era proibido. Ela era uma exceção. Era filha do Conselheiro. Ele não iria exilar a própria filha. Filha de outro sim, mas a dele? Nunca. Onde ele estava? Onde estava seu pai? Sua avó? Por que tudo estava tão quieto? Porque estava tão escuro? Onde estava seu pai?
O que havia acontecido?
Alka finalmente olhou ao seu redor, seus olhos demorando para se ajustarem na escuridão. Pequenas pilhas disformes cercavam o salão, e ela questionou o que seriam aquilo, porém a resposta veio tão rápida quanto a pergunta.
Cadáveres. Mais de dez, talvez menos. Muitos. Não conseguia contar. Alguns tão queimados como Kristov, outros com cortes tão profundos em seus torsos que seu órgãos estavam escorrendo para fora. Todos vestiam robes vermelhas, todos eram guardiões e guardiãs de seu pai, todos eram os melhores guerreiros de Khura.
Algo havia exterminado os melhores guerreiros de Khura como se fossem feitos de papel.
Seu olhar foi guiado até as portas que levavam ao jardim de entrada de sua propriedade. Alka levantou-se e rapidamente for atordoada com o forte tilintar estridente que atingiu seus ouvidos e sua visão ficou turva. Mancando, ela foi até as grandes portas e com um empurrão exausto, as abriu. Foi cegada pela forte luz do Sol, cambaleando para dentro de casa. Quando suas pupilas se acostumaram ao flash de luz, a vista com que deparou-se nunca iria deixar sua memória.
Khura, seu lar, sua cidade, ardia em chamas. Labaredas enlouquecidas percorriam os céus, uma fumaça densa e preta poluía o ar e os berros de seu povo eram uma sinfonia aterrorizante para seus ouvidos. No meio do jardim, o corpo de seu pai parecia estar flutuando, congelado no ar. Seus olhos não tinham nenhum brilho característico, nublados com uma coloração branca leitosa. Seus lábios não eram tomados por aquele sorriso carinhoso mas por uma careta escancarada, com saliva escorrendo. Os braços e pernas pendiam, rígidos. Sua pele negra estava levemente pálida, a vida, que ele tanto celebrava, havia o abandonado.
O que havia acontecido?
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