O GRITO DOS CORVOS

1/6/1230 — 50 anos após a Vitória Contra Os Traidores de Khura.

Periferia da cidade de Cullis Gate, noite.

Darren Price havia circulado esta parte da cidade muitas vezes; as gárgulas de cócoras acima o encaravam com olhares maliciosos e sorrisos maldosos, os pequenos muquifos serpenteavam em sua volta, mendigos fétidos jogados aos cantos, alguns mortos ou morrendo, com suas roupas rasgadas e fios de saliva escorrendo de suas bocas. Os estandes dos feirantes daquela manhã estavam vazios, com restos de alimentos pútridos espalhados em suas bases e ratos enormes aglomerados alimentando-se. O céu noturno não estava estrelado, como de costume, mas nublado, como se este lugar não fosse digno de ver suas preciosas jóias. Em algum lugar, um bebê estava aos prantos, berrando e berrando e berrando...

━"DARREN!"

━ "Ah" Darren voltou de seu devaneio. Piscando seus olhos, virou para encarar a figura em sua frente. "Você chegou. Pensei que tinha desistido. Interessante ver que finalmente está desenvolvendo caráter." O adolescente caçoou seu irmão, Owyn, como sempre.

Owyn tinha 25 anos porém portava-se como uma criança mimada. Sua pele, branca e macia, era um contraste interessante com seus olhos pretos e cabelos curtos loiros. Seus traços eram finos, um nariz arrebitado e bochechas levemente rosadas. Ele era mais baixo que Darren e mais magro. Usava seu traje favorito: um sobretudo preto de couro com um colar de pelo marrom, uma calça preta social e um par de botas pretas antigas, que pertenciam ao seu pai e com um broche de fênix dourado.
Darren odiava seu irmão.
Desde pequeno, Owyn recebeu grandes regalias de seu pai e tornou-se um grande guerreiro ao crescer, vencendo pequenas batalhas com países vizinhos, o que lhe deu uma fama irracional e fez com que fosse celebrado pelo país inteiro. Darren, por outro lado, era o segundo chefe de sua família, responsável por administrar todas as finanças e negócios enquanto o pai viajava. Darren tinha apenas 16 anos.
Mas é claro que ninguém se importa com isso. Todos se importam com o típico galã idiota.

━ "Ah meu irmão, eu nunca desisto de um desafio! Você deveria saber disso, aliás, todos sabem disso." Owyn disse com uma voz nasalada enquanto jogava seu braço esquerdo em volta do irmão, sorrindo.
━ "Como quiser." O jovem liberou-se do desconfortável braço do irmão, seguindo pela ruela em sua frente. Owyn o acompanhou, ocasionalmente assustando um ou dois mendigos.
A cidade de Cullis Gate era marcada por uma arquitetura fria, de pedra, com diversos muros separando distritos, prédios antigos apodrecendo junto com a população. Ignácio, patriarca dos Price, fizera ótimos avanços em gestão: pelo menos, nem toda a população era faminta e doente.

━ "Sabe, eu pensei que iriamos atrás disso depois. Depois que papai voltasse de viagem." Ah, maneira infantil como Owyn se referia à Ignácio sempre fora irritante e inapropriada.
Darren revirou os olhos, procurando manter a paciência.

━ "Se ele voltar, irá descobrir. Se ele descobrir..." Ele o encarou com um meio sorriso. "Diga tchau-tchau aos seus fãs. E todas as regalias que ele lhe dá." Darren acelerou o passo.
Owyn deu um sorriso debochado.
━ "Nada que algumas vitórias não resolvam."
Owyn, seu merdinha.

Depois de alguns minutos, chegaram à um casebre entre dois grandes prédios decrépitos e cor amarelada de uma lampada de óleo brilhava em seu interior. Parados em frente, Darren colocou as mãos frias no bolso, checando se sua adaga continuava ali.

━ "É aqui?" Darren questionou o irmão.
Owyn hesitou por um momento.
━ "...É mesmo necessário?"
━ "Bom, se você acha que consegue viver sem a atenção de todo o país e dinheiro pelo resto de sua vida, então não."

O silêncio de seu irmão era justificado. Não era a primeira vez que Darren tinha que realizar tal tarefa pelo irmão, porém era primeira vez que Owyn participava. Ele sujava as mãos somente em momentos gloriosos e líricos, nunca quando eram imorais.
Mas chegou a hora de se envolver, querido irmão.
Subitamente, a porta do casebre abriu de maneira lenta e um senhor com cabelos oleosos espionou para fora. Owyn foi ao seu encontro, abrindo seu sorriso infernal.

━ "Senhor Peaks, lembra-se de mim? Sou O-"
━ "Owyn Price, eu me lembro." A voz do ancião era arrastada e áspera, e sua expressão combinava com sua disposição.
━ "Eu vim ver Amélia." Ele tirou um pequeno bolo de dinheiro do bolso preso por uma fota vermelha.
━"Ela disse que eu poderia vir visitar."
Darren odiava a voz melosa que seu irmão interpretava porém reconhecia sua efetividade. O infeliz sabia como instigar o mais puro dos anjos.
━ "Ah... " O senhor não levantava os olhos da mão de Owyn e estendeu sua mão esquelética para embolsar o rolo de dinheiro. Era uma quantia patética para Darren mas nesta parte da cidade, era uma semana de almoço e jantar e quem sabe, uma cama quente.
Ao fazer sinal para que entrassem, os irmãos foram surpreendidos pelas condições do casebre. Panos encharcados de sangue estavam empilhados em um canto com diversos instrumentos cirúrgicos rudimentares jogados ao redor. Paletes de madeira finos como paredes, lamparinas penduradas no teto, baldes de aguá espalhados com restos de comida boiando. Havia somente uma porta que levava a algum outro quarto e ele conseguia escutar os batimentos cardíacos da jovem Amélia.
E de mais alguém.
Owyn, por que não me contou antes?

━ "O senhor teve... muitos problemas?" A voz de Owyn estava trêmula. Seu irmão era bom ator.
━ "O que te interessa? Você já fez o bastante. Já arruinou tudo." O senhor cuspiu as palavras com ódio. Colocando o dinheiro no bolso, afastou-se dos irmãos, indo para o canto oposto do casebre, lavando suas mãos em um balde.
Owyn arregalou os olhos, fingindo mágoa. Era um bom toque ao ato.
━ "Eu... Não queria piorar a situação, senhor Peaks. A Amélia é importante..."
━ "Owyn, acho apropriado você conversar com Amélia logo." Darren interrompeu, colocando uma mão no ombro do irmão, de modo gentil, pelo menos, era o que ele queria que pensasse.
Owyn assentiu e caminhou em direção à porta do quarto de Amélia. Por alguns segundos, ele pareceu estar pesando suas escolhas. Ou tentando criar coragem para fazer o necessário. Darren não se importava muito.

Quando seu irmão entrou no cômodo ao lado, o pai de Amélia aproximou-se da pilha de panos sujos, agachando para recolher os instrumentos cirúrgicos do chão. Darren, com passos silenciosos, posicionou-se atrás do velho e retirou sua adaga do bolso de seu paletó. A adaga fora um presente de sua mãe: feita de prata, lâmina com uma curva leve e o punhal de vidro avermelhado, encrustado com 3 pequenos diamantes de sangue em uma linha vertical. Ela cintilava até na noite mais escura, uma característica marcante que rendeu a ele o apelido de "Cintilo". Ele odiava o apelido.
Assim que o velho se ergueu, Darren passou seu braço esquerdo em sua cabeça, puxando-a para trás e com movimento rápido com o outro braço, fez um corte na garganta do homem, de orelha a orelha. Enquanto se debatia, o adolescente o deitou no chão, livrando-se das mãos magras que tentavam em desespero agarrar suas roupas. Darren alcançou a pilha de panos e a despejou em cima dele, abafando qualquer som.
Ao limpar a adaga em seu lenço, também presente de sua mãe, Darren seguiu em direção ao quarto, abrindo a porta subitamente. Owyn estava sentado no chão, ao lado da cama da jovem, onde um lençol amarelado cobria o corpo agora sem vida de Amélia. Havia uma caixa de madeira próxima a cama.

━ "E-Ela perdeu muito sangue." — Seu irmão dispensou as palavras, gaguejando, sua voz um sussurro medroso.
Darren se aproximou da caixa, encarando o recém-nascido ali deitado. Era um berço improvisado, com papéis para mantê-lo aquecido.
Heh, que patético.

━ "Vamos logo, Owyn."
━ "O que você quer que eu faça?" Seu irmão não encarou seu olhar, mas abaixou a cabeça em resignação.
━ "Quero que entenda o por quê. Amélia nunca poderia ser uma de nós." Darren ajoelhou-se próximo ao irmão. "Ela simplesmente... não tinha o necessário."
━ "Talvez o bebê tenha." Owyn o encarou, com um olhar febril. "Você não tem como saber Darren, não tem como saber. Nós não somos especiais. So-"
━ "Não." Darren vociferou. Estava cansado das fraquezas e sentimentalismo do irmão "Ela sequer sabia ler Owyn. Ela... Pense nela como um brinquedo quebrado. Arrumaremos um novo para você." A comparação maldosa pareceu ter um efeito negativo em Owyn, que tomou um semblante pensativo, até tornar seu olhar para a caixa próxima à eles. Um brilho de sofrimento invadiu suas feições joviais por segundos, logo substituído por expressão taciturna.

━ "Pela família?"
Darren lhe entregou sua adaga.
━"Pela família."

Owyn levantou-se e alcançou o "berço". Seu filho, nu, tremia e observava os seus arredores, com grandes olhos pretos curiosos. Ao empunhar a adaga, Owyn disparou um golpe contra o infante e um berro ensurdecedor ecoou.

~~ ** ~~

Darren despertou na manhã seguinte com os chamados incessantes de Blackwell, o mordomo dos Price. Seu quarto era pequeno, com pisos de madeira, móveis de mogno e somente uma janela para o jardim dos fundos de sua mansão. Uma pequena estante de livros se localizava ao lado de sua cama de solteiro.
Darren preferia um quarto compacto; havia tudo o que necessitava, ao contrário de seu irmão e seu quarto cheio de decorações.

━ "Mestre Price, a Capitã da Guarda Evangeline Sharpe pede gentilmente sua presença em um vilarejo não muito distante." Blackwell disse em um tom manso e apreensivo.

━ "Para?" O desdém na voz de Darren era claro.

━ "Eu não fui informado. Porém tenho certeza de sua absoluta urgência."

Depois de um desejum apressado, Darren vestiu um traje apropriado e, abordo de sua carruagem, partiu em direção à um vilarejo nos arredores de Elderwick. Evangeline Sharpe era uma ótima capitã e terrivelmente atraente com seus 42 anos de idade, o que fez diversos de seus subordinados questionar a sua real "utilidade" e a rapidez de como ela chegou ao topo da cadeia burocrática em apenas 3 anos de serviço. A verdade era simples: aquela mulher conseguiria realizar em um mês de investigação o que seus subordinados realizariam em um ano.
Aliás, Darren gostava dela. Ela tinha bom gosto, algo raro em Cullis Gate.
Ao se aproximar do vilarejo, o jovem notou uma nuvem disforme no céu. Ela se movimentava, pulsante e preta, como um grande enxame de gritos estridentes que podiam ser ouvidos.
Apesar da preocupante nuvem acima, a área que o vilarejo era localizado tinha um clima agradável. Grandes carvalhos avermelhados encontravam-se nos redores e uma leve neblina, fria e arrepiante, circulava no ar.
O cocheiro de Darren cessou o movimento da carroça e pareceu agitado, certamente pelos grasnados.

━ "Por que paramos?" O jovem indagou com impaciência.

━ "Terá que ir de encontro aos guardas, Mestre Darren. A carruagem não passa."

Ao descer, viu o porquê: um carvalho vermelho colossal fora arrancado pela raiz e derrubado no meio da estrada, prevenindo a passagem de qualquer veículo. Ao continuar a trilha a pé com seu cocheiro, Darren notou que a nuvem disforme estava localizada logo acima do vilarejo e o coro gralhado tornava-se cada vez mais alto e enlouquecido. O clima frio não ajudou, forçando o rapaz a mandar seu cocheiro ceder o casaco marrom de lã que usava.

━ "Jovem Price!" A voz séria de Evangeline Sharpe chamou quando Darren se aproximou da entrada do vilarejo. Sua armadura prateada refletia raios de Sol e seu longo cabelo ruivo estava preso em um coque justo. Seus olhos, pequenos e angulares, eram verdes e sua pele branca eram marcados pelos horrores vistos em diversas batalhas. Ela e uma escolta de 8 guardas aguardavam próximos ao arco de entrada.

━ "Olá Capitã, ficaria grato em saber o que esta acontecendo." Darren soou mais arrogante do que planejava. Ah, dane-se. Deu um aperto de mão apressado para a capitã e mirou seus olhos para a pequena trilha de paralelepípedos que levava ao centro do vilarejo.

━ "Este é o vilarejo de Yharn. Está sob a jurisdição de sua família, jovem Price. Guardas da fronteira notaram aquilo, na madrugada de hoje." A capitã apontou para a massa disforme no céu. "São corvos. Talvez centenas."

━ "Corvos? Pensei que tivessem sido extintos." Darren acariciou seu queixo. "Eram associados aos Khurani, não? O que há de especial em Yharn para ser alvo de corvos?"

━ "Corvos foram extintos como sinal de boa-fé. Eram considerados o animal guia dos Khurani." A capitã suspirou, ansiosa. "Yharn é o vilarejo natal de Goddofred, o metamorfo que guiou as tropas de força bruta no ataque final à Khura. Sem ele, duvido que teríamos penetrado a defesa deles. Até ergueram uma estátua em sua homenagem no centro do vilarejo."

━ "Bom, aparentemente, alguns ninhos de corvos não foram esmagados. Devemos entrar?"

━ "Devemos. Siga-me, caso a nuvem venha ao nosso encontro: proteja seus olhos."

Darren dispensou seu cocheiro e, com a escolta, passou pelo arco rústico, adentrando o vilarejo. As casas pacatas de materiais simples estavam vazias e intactas. Não parecia haver sinais de luta, pelo contrário, tudo permanecia na mais perfeita ordem. Arranjos de flores estavam estrategicamente colocados na extensão da trilha e silêncio espectral era quase tangível.

Silêncio. Alguma coisa estava errada.

━ "Está tão q-"

Antes que Darren conseguisse terminar sua frase, uma torrente preta desceu do céu em direção ao grupo. Evangeline, empunhando seu escudo como barreira, puxou o rapaz para próximo de si e o jogou no chão.

━ "FIQUE AÍ!" Ela gritou, tentando manter as aves longe de qualquer ponto fraco.

Tentando enxergar em meio a massa, Darren permaneceu encolhido próximo a capitã, ouvindo ao tornado de pássaros que grasnavam. Algumas aves mordicaram as pernas de Darren e este chutou as criaturas freneticamente e tampou seus olhos. O som do bater de asas e gritos era enlouqiecedor. Lentamente, a nuvem se dissipou com apenas alguns corvos mortalmente feridos revirando-se no chão como resultado da retaliação dos guardas. Darren abriu seus olhos e olhou em volta, parando para observar os corpos dos guardas caídos no chão de terra.
Estão todos mortos.
Que desperdício.

━ "GUARDAS!" A capitã exclamou e correu ao alcance de seus companheiros. Os olhos de seus homens foram perfurados de maneira cruel pelos pássaros, alguns devorados. Evangeline checou um a um por uma pulsação, em vão. A voracidade dos corvos era espantosa.
━ "Capitã, entendo como deve ser difícil para você." Darren disse, levantando. Apoiou sua mão no ombro da escudeira, oferecendo atenção.
Era mentira claro, Darren não dava a mínima, guardas morriam todos os dias mas a cordialidade o forçava a ser complacente.
━ "Mas devemos seguir em frente ou o sacrifício deles será em vão."
Tomando fôlego, Sharpe reergueu-se.
━ "Vamos." Ela colocou seu escudo em suas costas e prosseguiu. Darren prosseguiu logo atrás dela, de vez em quando parando para olhar dentro das casas e estabelecimentos vazios. Yharn não era um vilarejo grande, porém o número de moradores não deveria ser pequeno. Este lugar deveria estar agitado com vida.
Onde estavam todos?

O gritos dos corvos pareciam haver cessado e a massa opaca não era vista nas proximidades, o que tranquilizou Darren. O som dos passos da dupla era o único barulho audível e uma leve brisa gelada batia contra seus rostos.
Os dois cessaram seus movimentos quando a brisa se tornou pesada com um odor fétido de carne apodrecida ao chegarem ao centro do vilarejo. A estátua cromada erguida em homenagem a Goddofred teve sua cabeça arrancada com um corte limpo e, aos seus pés, estavam os corpos dos moradores de Yharn.

Digamos que corvos são criaturas vorazes quando famintos.

Era impossível distinguir alguém das dezenas de cadáveres. Com terríveis ferimentos, os moradores foram bicados por horas; alguns com grandes porções ósseas expostas, outros agarrados a ente queridos, procurando por proteção. A capitã, agora com uma expressão dura em seu rosto, tomou passos cuidadosos em direção ao único morador reconhecível entre eles: uma senhora, sentada em frente a plaqueta de bronze. Seus cabelos brancos estavam caídos em seus ombros pequenos, e suas roupas pacatas estavam sujas de terra, como se tivesse sido arrastada aquela posição.
Evangeline tocou levemente o rosto da senhora e com cuidado, deitou seu corpo e fechou-lhe os olhos. Darren teve a sensação de que Sharpe conhecia a falecida por seus toques respeitosos e visível preocupação. Sentimentalismo ao lado, a plaqueta de bronze estava com uma mensagem por cima da inscrição original e Darren conseguiu ler claramente.

A mensagem foi escrita em sangue.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.