A Vingança de um Herói
2 01.Pressa
Notas iniciais
Pressa
Lucas sempre vivera com pressa, desde criança, e principalmente nos últimos dias. A única que conseguira acalma-lo era Amanda; ela era uma lagoa intocada, ele, o oceano numa tempestade. Um casal improvável juntos pelo acaso, mas uma boa combinação.
Um dia, 4 meses atrás, Amanda estava determinada a dirigir, seu pai a havia ensinado a dirigir por estradas de terra, e ela sempre se saía bem, mas, nesse dia, ela quis ir sozinha. Pediu permissão ao seu pai, que não conseguiu dizer não diante dos olhos pidões de Amanda, bem, ela era uma filha exemplar, não faria nada de errado com o carro, não propositalmente, e aí que estava o problema. Mesmo relutante, ele deixou que a filha levasse a lata velha querida da família para dar uma volta.
Até então, tinha sido um dos dias mais felizes da vida dela, ela saíra da garagem com velocidade o suficiente para fazer seu pai gritar "Cuidado!", ela estava empolgada, mas estava sendo cautelosa. A cidadezinha, bem próxima à Belo Horizonte, era bem pequena, basicamente todo mundo conhecia todo mundo. Em pequenas cidades, cada um tem uma fama, Amanda estava agora passando pela rua com as sorveterias, cada uma com um dono mais engraçado que o outro. Todos a conheciam também, e acenavam para ela enquanto ela passava. Amanda, a líder da Mocidade da Igreja, ela era querida por todo mundo, a protegida da maior das igrejas da cidade, e também, a pessoa que você sempre poderia recorrer se tivesse algum problema. Ela era uma verdadeira mãe para todo mundo, mesmo tendo apenas 17 anos, coordenava todos os outros jovens e fazia obras de caridade aqui e ali regularmente.
Essa fama, porém, não surtia efeito nos cães, por que eles sempre rosnavam para ela quando ela passava por perto? Um deles correu em modo de ataque até o carro, e latiu como se o carro fosse um monstro. Amanda se assustou, não estava esperando, desviou o carro para a direita e apenas ouviu o barulho. Ela brecou o carro, Amanda estava ofegante demais e suas mãos tremiam enquanto lutavam para segurar o volante e manter o foco, ela tinha acertado alguém? O que o pai dela iria dizer? Várias perguntas e culpa se formaram em sua cabeça em questão de milésimos de segundos, e apenas alguns instantes depois ela teve coragem de olhar para o lado e ver o estrago.
Um rapaz estava caído, ao lado do carro. Algumas pessoas já se aglomeravam em volta, tentando ajudar o rapaz, que parecia não querer ajuda. Na verdade ele olhava para eles com mais medo do que qualquer coisa.
— Me soltem! – ele gritou, e foi quando Amanda percebeu que, numa cidade onde todo mundo se conhece, ela nunca nem havia visto o rosto deste rapaz – Não... Não me levem... – ele parecia atordoado, lágrimas rolavam no rosto dele, Amanda precisava saber o que estava acontecendo.
Ela saiu do carro e andou até o rapaz, ainda assustada com o quanto ele poderia estar bravo com ela.
— Me desculpe – ela sentiu a voz falhar – Eu não vi você, me desculpe! Eu estou apenas aprendendo e...
E ela tocou em sua mão, e observou pasma suas memórias. Os longos corredores, os doutores, testes físicos e psicológicos, pessoas mortas, confusão. Uma vida perdida repleta de sentimentos vingativos, o rapaz que ela acabara atropelar não era ninguém que vivera nessa cidade, ele era diferente e sombrio, afundado num poço de sentimentos escuros.
Ela soltou a mão dele rapidamente, e ele a olhava perplexo. Era como se tudo tivesse congelado a sua volta, e apenas restassem os dois, eles e sua conexão.
— Você é... Como eu – sussurrou ela. A frase viera como uma constatação, Amanda nunca esperara encontrar alguém assim, como ela, uma pessoa abençoada com dons de Deus.
Alguém especial.
— Okay deem no pé, o garoto precisa descansar – um dos sorveteiros, o mais simpático, atravessou a multidão chegando perto do garoto – Não foi nada grave, mas eu já chamei a ambulância, como se chama, rapaz?
— Meu nome... – o olhar dele pareceu perdido por um momento, era como se ele estivesse vasculhando a cabeça em busca do nome – Meu nome é Lucas.
— Muito bem Lucas, eu sou o Seu Antônio, essa piloto aqui é a Amanda – o homem falava com calma, como se já tivesse passado por isso antes, ao contrário de Amanda que ainda estava ofegante e tudo, menos calma – Tá com tudo em ordem? Consegue se levantar sozinho?
Lucas olhou para ele ainda perdido, piscou os olhos e se levantou sem problemas, Amanda suspirou de alívio.
— Ora, desse jeito você vai acabar andando no banco da frente na ambulância – o sorveteiro riu com bom humor, tentando tirar a tensão da situação.
A maioria das pessoas já haviam voltado à suas rotinas quando sirenes da ambulância despontaram no fim da rua.
— Ô Seu Antônio, pode ligar pro meu pai pra ele vir buscar o carro? – Amanda pediu – Eu preciso acompanha-lo, sabe, foi minha culpa e tudo mais... – em partes era verdade, ela se sentia culpada pelo acidente, numa situação comum todos sabiam que ela não teria reação diferente de agora.
Mas não era apenas isso, e Lucas sabia, conseguia ver nos olhos dela, a lista de perguntas curiosas sobre sua vida. Ele suspirou cansado, a última coisa no mundo que ele queria agora era conversar com alguém. Mesmo assim, não pôde negar que estava curioso para saber sobre a vida dela também, a primeira pessoa que ele conhecia fora do Hospital que era como ele. Lucas odiava admitir, mas agora, perdido, andando de cidade em cidade procurando alguém que era como um fantasma, era o momento em que ele mais precisava da ajuda de alguém que o entenderia, quem sabe pode não ser uma má ideia? Não, ele suspirou, era uma péssima ideia.
Ela era linda, ele constatou. Cabelos loiros e compridos, poucas sardas e com o corpo bonito de uma maneira que não precisava de roupas vulgares para mostrar, ela tinha uma certa beleza natural e um toque de familiaridade, por todas as coisas loucas que lhe aconteceram na vida, ele sentira momentaneamente que precisava dessa normalidade, contanto que isso não o atrapalhasse à longo prazo. Contudo, seu cérebro não cansava de o mostrar o quanto isso era perigoso, ele estava se deixando levar com uma facilidade que o deixou transtornado.
A ambulância era apenas uma Kombi, que não estava exatamente caindo aos pedaços, mas não era nada nova, e ele realmente entrara pelo banco da frente. Amanda conversara algo com o sorveteiro e entrou também. O motorista, um homem barrigudo e que parecia estar sempre suado, não era tão simpático quanto o Seu Antônio, mas não parecia uma má pessoa para Lucas. Não, depois de tudo o que ele passou, todos nessa cidade pareciam anjinhos.
Amanda o fitava, primeiro disfarçadamente, depois, sem nenhum medo. Que tipo de mistérios guardava Lucas? Ela criara várias teorias, mas eram todas bobas, por exemplo, quem sabe ele fora criado em laboratório? Lucas dera uma risadinha, como se tivesse lendo os pensamentos da garota, ela desviou o olhar, envergonhada.
O garoto chamara muita atenção, seus olhos verdes eram profundos, e no momento da conexão, pareciam ainda mais brilhantes. O cabelo castanho escuro totalmente descuidado e as roupas esfarrapadas, ele parecia até um pouco desnutrido. Tudo isso despertou não só curiosidade nela, mas também afeição, ela desejava saber sobre ele, precisava cuidar dele e coloca-lo no caminho do Senhor. Era isso que Jesus faria.
A chegada ao hospital foi simples, Lucas saiu da ambulância andando, e só agora Amanda percebera o corte em seu abdômen, não tão profundo, mas o bastante pra sujar de sangue a camisa do rapaz. Por um momento, as pessoas pensaram que ela que havia se machucado, Amanda fora recebida por uma onda de comentários e preocupações, as pessoas de lá realmente gostavam muito dela.
Lucas percebera isso e se apressou, aquela clínica o trazia sentimentos familiares, mas muito ruins também. Ele começou a ter ânsia de vomito, uma vontade louca de sair dali, e ele precisava mesmo e teria que ser agora. Quase correu até a saída, mas não precisou, quando piscou o olho já estava lá.
Um movimento quase imperceptível, pulando apenas alguns passos, mas não para Amanda, que agora o fitava com mais interesse. Tinha acontecido de novo, ele tinha se teleportado novamente.
Amanda ficou maravilhada, totalmente impressionada, e Lucas estava claramente fugindo disso. Hoje, ambos pensariam que haviam sido idiotas, mas naquele momento, parecia fazer sentido.
***
Lucas e Amanda apareceram longe, bem longe da autoestrada que estavam. A garota estava um tanto fraca, seu braço sofrera um corte profundo e agora Lucas estava enrolando trapos para simularem curativos.
— Desculpe... Pelo carro do seu pai – pediu ele, envergonhado.
— Está tudo bem, Lucas – ela estava claramente incomodada – o mais importante é que não fomos mortos, nem presos nem nada disso.
— É, certo...
Amanda se movimentou depois que Lucas cuidou de seus ferimentos, tudo parecia normal, e eles já não doíam mais.
— Escuta, está tudo bem, bobão – ela o abraçou.
— O pai vai acabar comigo – ele riu, tentando amenizar a situação.
O pai de Amanda era um pai pra ele também, e ele pegou a mania de chamar ele de pai também. Ele era um bom homem e ajudara Lucas quando ele mais precisava, mesmo que, de início, ele estivesse bem nervoso por ter acabado indo morar com Amanda no mesmo dia do acidente. Agora ele vê que, se Deus existe, deve ter sido ele que armou tudo isso. O propósito eram apenas alguns dias na casa dela, e agora, 4 meses depois, lá estavam os dois, fugindo juntos.
— Ele não liga não, eu garanto – ela o beliscou de leve, e o clima voltou a ficar agradável.
Mas agora eles se encontram no topo de uma colina, observando a BR-381 à distância. A sua volta, poucas casas espalhadas pelo longo terreno de uma cidadezinha aleatória, eles já estavam perto da divisa de São Paulo, estavam próximos de seu destino. Quase lá. Amanda segurou a mão dele com força enquanto ambos encaravam a estrada, viaturas, uma dezena delas, estavam paradas no local do acidente, a autoestrada fora rapidamente interditada naquela faixa, o trânsito que eles causaram era no mínimo denso.
— A gente fez a maior bagunça... – Amanda comentou com um sorriso no rosto.
Lucas a olhou com um olhar digno de pena.
— Amanda, eu... – ele desviou o olhar, a vergonha que ele sentia era gigantesca, a garota nem precisava toca-lo para sentir.
— Não, Lucas – ele olhou para ela na hora, e fora recebido por sua expressão gentil de sempre – Não preciso te desculpar, você nunca fez nada errado.
— Mas... Eu te coloquei nisso, fiz você entrar na mira deles e fugir de casa!
— Escuta, fofo – ela se aproximou dele e o abraçou suavemente – Eu cresci numa cidade pequena, não havia ninguém lá que não me conhecesse, eu estava tão parada quanto um poço! – ele riu da frase – Agora, estamos numa corrida até São Paulo, o Louco está atrás da gente, e eu estou prestes a conhecer uma casa repleta de pessoas que são como nós.
Era esse o objetivo, chegar a São Paulo e encontrar o bendito Lar Arsalein. Era tudo o que importava agora, e Amanda se sentia bem sabendo que todos da sua família estão seguros e bem informados, sua consciência estava limpa, ela queria que a de Lucas também ficasse.
Afinal, ela o conhecia, se não o ajudasse ele ficaria pedindo desculpas a viagem inteira.
— Agora pare de ser bobo e vêm, precisamos pedir uma carona ou algo assim, não da pra irmos andando dá?
Ela segurou sua mão e andou em direção a autoestrada, Lucas apenas se deixou levar, mas ela sentia, com seus poderes, que ele se livrara de um grande peso nos ombros.
***
Lucas estava com tanto pavor daquela clinica que Amanda nem quis convence-lo a ficar. Quando ele saiu pela porta da frente, ela o seguiu, ele andava em passos largos, e parecia não ter se machucado nem um pouco. A garota se aliviou.
— Por que você tá me seguindo hein? – o rapaz bufou, virando-se para Amanda que estava logo atrás dele.
— Eu queria saber se você tava bem.
— Não é só isso... – ele a analisava – Olha, não sei o que você fez lá atrás, mas não repita, eu... – ele não terminou de falar, ela segurou sua mão, e tudo aquilo aconteceu de novo.
Amanda viu mais claramente, os treinos ao fundo, o garoto observando atentamente outros garotos usando poderes em um espaço aberto, ele estava feliz e aliviado por algum motivo, mas hoje parecia envergonhado desse sentimento.
Ele se afastou com uma expressão de repulsa no rosto, Amanda deu um passo para trás, esperando o pior.
— Não me siga, e... E não toque em mim nunca mais!
Ele se afastou com as mãos suando, Lucas sentiu essa conexão tanto quanto Amanda, mas o que ele via era um campo florido, era como uma paz que há muito tempo ele não sentia, não depois de tudo o que aconteceu. Uma breve necessidade de toca-la surgiu subitamente, mas ele se convencera que precisava terminar logo o que precisava fazer, e tudo apontava que era aqui, nessa cidade, que ele encontraria suas respostas finalmente.
Ele nem havia prestado atenção em Amanda, que o seguira, ignorando as pessoas que insistiam em puxar assunto com ela.
***
Lucas andou perdido pela pequena cidade, para Amanda ele não parecia ter um destino certo, as vezes fazia um círculo, as vezes parava para pedir informações e acabava voltando do lugar que viera. Amanda tentava passar despercebida, mas ela não tinha certeza se ele sabia ou se ele ao menos se importava que ela o estivesse seguindo. Ela ponderou a situação algumas vezes, não sabia porque exatamente ela tava fazendo aquilo, Lucas a tirou de uma estagnação que nem mesmo ela tinha percebido que estava. De um momento para o outro, ela desejou saber se haviam mais pessoas como ela, e tinha certeza que Lucas sabia as respostas de todas as suas perguntas.
O garoto se afastou das casas entrando em estradas de terra estreitas, com certeza ele sabia da presença dela, mas resolveu não se importar, quando tudo tivesse acabado aqui, ele poderia se juntar a essa tal força de resistência e declarar guerra ao Hospital, eles tinham que pagar por tudo, por seus amigos, por seu pai e por todas as outras crianças que ainda permaneciam presas naquela instituição maligna. Essa promessa de vingança o motivou por todo esse caminho, o afundava na escuridão que Amanda sentira nele, Lucas estava tão perdido em seus pensamentos que quase não sentira o toque, o fiapo de conexão que acabara de acontecer.
— Espere! – era a garota, Amanda – Você ao menos sabe para onde está indo?
— Ora, olha só quem resolveu dar as caras.
— Eu falo sério, ninguém da cidade vem por aqui.
— Bonitinha, não sei se percebeu, mas eu não sou da cidade – ele olhou em volta – agora, você que é bem corajosa, seguindo um cara estranho por aí, até as partes mais remotas da sua cidadezinha.
Ela desviou o olhar.
— Eu conheço melhor que ninguém esse lugar – ela apontou para uma das bifurcações que Lucas parecera confuso um instante atrás – se quer seguir pra outra cidade pequena como a minha, pegue o caminho da esquerda, agora, se quer ir visitar o Seu Oséias...
Lucas arregalou os olhos, e logo depois os contraiu, como se quisesse evitar que ela percebesse. Era exatamente isso que ele estava procurando.
— Olha, ele é totalmente antissocial, deixe-me te ajudar com isso, certo? Então eu prometo que vou embora.
O rapaz, deu as costas para ela, mas sua hesitação foi a deixa para que ela o seguisse. Amanda sorriu.
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