A Vida de Elizabeth Ashfield

34 (Parte II) Capítulo 34: Fuga


Notas iniciais
Na vida todos temos um segredo inconfessável, um arrependimento irreversível, um sonho inalcançável e um amor inesquecível. - Diego Marchi.

Dez anos depois...

Um quadro fora pendurado na sala de estar da mansão de Elizabeth, sobre a lareira, de frente para os aconchegantes sofás medievais Na pintura, que fora um presente de Isabella, Elizabeth sorria, enquanto os cabelos cacheados desciam como cascata. Utilizava um belíssimo vestido azul bebê, acompanhado de um grande colar de ouro. Encontrava-se numa praia, próxima a várias plantas, uma belíssima paisagem. O céu extremamente azul realçava a imagem.

Ela não poderia ter uma vida melhor. Aposentada, agora poderia finalmente viver uma vida tranquila, longe de tribunais e de crimes; Isabella, que era como uma filha, se tornou uma adolescente de ouro, tudo o que desejaria que a sobrinha fosse.

Mas, mesmo com o passar daqueles dezessete anos, Elizabeth jamais esquecera o filho perdido, e um dia sonhava encontrá-lo e fornecer ao mesmo tudo o que não pudera durante todo aquele tempo.

Em seu quarto, observava de longe um porta-retratos cuja fotografia era o marido, Charles Ashfield, o grande amor de sua vida. Aquele amor daria certo, seria para a vida toda, se não fosse por um assassino invejoso e um sufocante segredo que jamais poderia ser revelado.

- Minha missão está quase sendo cumprida... Mesmo sem encontrar meu filho, quando Isabella atingir a maioridade, irei me entregar para a polícia. Preciso pagar por todos os meus crimes... Não vou ter a consciência tranquila enquanto não fizer isso. – refletia, decidida a mudar totalmente. Sentia medo de si mesma ao olhar para o passado e recordar do que tinha feito, tirando a vida de muitos, algumas vezes inocentes. Alguém como ela não era digna alegria, de felicidade.

...

Isabella, mesmo aos dezesseis anos, quase dezessete ainda fitava durante a noite, da janela do quarto, o céu estrelado de Summerlight, como se Victoria e Teddy ainda estivessem ali. Graças à tia, ela crescera acostumada com a notícia e, mesmo que no fundo soubesse que os pais haviam partido para sempre, as estrelas eram como um consolo.

- Como eu sinto falta de vocês... Parece que foi ontem que vocês partiram naquela viagem... Uma viagem sem volta.

...

Eric havia completado dezessete anos, já podendo ser considerado de maior, se sentia aliviado por não depender mais dos pais da mesma forma.

- Daqui há alguns dias irei embora daqui para sempre, David. – Decidido, Eric arrumava suas malas, com as poucas roupas que seus pais o compravam ocasionalmente.

- Vai ser o melhor para você mesmo... Eu sinto muito poder ver você sofrer daquele jeito e não poder fazer nada...

- Calma, irmão, não é sua culpa. – garantiu, tranquilamente. — Você sempre me tratou bem, me amou como um irmão, mesmo que eu não fosse de sangue. Já eles... Não posso dizer o mesmo. – seu tom se tornou frio, seco. Odiava aquele casal que o maltratou tanto, e agora finalmente poderia se ver livre deles. – Vou trabalhar de garçom num bar e seguir a minha vida.

- Queria tanto que você entrasse para uma faculdade... Uma instituição particular. Eles teriam condições para pagar, caso não fossem tão mesquinhos com você.

- Vou me inscrever para o vestibular público mesmo. Se Deus quiser, irei passar.

O dia da partida chegara. No momento em que os pais trabalhavam, David matou aula para se despedir do irmão. Tudo o que pertencia à Eric coube numa mala de rodas.

- Vou sentir sua falta, Eric... Saiba, sempre que precisar de mim, estarei aqui. Para tudo.

- Digo o mesmo para você. — Eric, emocionado, abraçou David. Aquele seria um laço forte e eterno, inabalável.

E partiu da residência, para sempre. Jamais pisaria naquele lugar de novo. Ali, naquela casa, várias lembranças ruins o conturbavam constantemente.

...

Na manhã daquele dia, Margareth Wargrave acordara empolgada. Fizera todas as tarefas diárias com gostinho e boa vontade.

Enquanto varria alegremente o grande pátio, uma das presidiárias se aproximou da mulher.

- O que houve, Marga? Por que está tão feliz? Aconteceu alguma coisa boa? – perguntou, erguendo as duas sobrancelhas e cruzando os braços. Tinha cabelos pretos curtos e rebeldes e pele extremamente pálida, branca como a neve.

- É que hoje faz vinte anos que estou aqui... Só tenho mais um ano nessa prisão, apenas um! E finalmente poderei voltar à minha vida de antes. – Margareth chegava a chorar de emoção, espantando a detenta.

- Um ano ainda é muito tempo, garota... Não deveria estar comemorando tão cedo.

- Perto dos vinte anos que já passei aqui, esperar um ano não é praticamente nada. – suspirou, respirando fundo.

...

Eric acertara os pagamentos mensais em uma pequena pensão, onde residiam pessoas de todos os tipos. Um lugar pequeno, porém aconchegante o suficiente para que pudesse residir por uma temporada.

Adentrou a casa, sendo recebido por uma senhora idosa de cabelos loiros quase brancos, a dona da pensão, com quem Eric acertara o pagamento.

- Bom dia, senhor Eric. Vou lhe indicar o seu quarto. – A mulher subiu uma pequena escadaria, guiando o jovem por um longo e empoeirado corredor no segundo andar, chegando à uma porta com o número 3. Retirou uma chave do bolso, entregando o objeto ao garoto. – Aqui está, sua chave. Seja bem vindo.

Era um cômodo pequeno, no entanto, Eric poderia chama-lo de seu. Estava pagando por ele e não tinha mais os pais para incomodá-lo. Com a roupa do corpo, saltou para a cama, emocionado.

- A partir de hoje minha vida irá mudar! Adeus, inferno.

...

Meses depois, o dia da divulgação resultado do vestibular que prestara chegou. Eric, extremamente aflito, desceu correndo as escadas à procura do noticiário da cidade. Era necessário que estivesse aprovado. Desejava muito ser alguém na vida.

- Preciso saber o resultado disso logo... Dona Martha, o jornal já chegou?

- A qualquer momento o entregador de jornal deve chegar... Hoje provavelmente ele vai vir atrasado, pois já era para ter vindo.

- Jura? – Eric se sentou no pequeno sofá, apreensivo. Sua vida dependia daquele resultado.

Poucos minutos depois, no momento em que Martha se preparava para dar uma saída, a dona da pensão encontrou o jornal caído de frente ao portão.

- Senhor Eric, venha cá!

Eric, escutando os gritos, correu para o lado de fora, ansioso. Rasgou rapidamente a sacola do jornal e correu para a mesa da sala de estar, folheando as páginas, à procura do resultado. Finalmente chegou à página desejada.

Apesar de ser uma universidade pública, a Universidade de Summerlight era frequentada por todos os tipos de pessoas, dos mais ricos aos mais pobres. A ordem era de acordo com as notas. Em primeiro colocado, Lucas Colemann, em segundo, Elena Wilson, em terceiro, Naomi Lerman, e, finalmente, situado em quarta colocação, lá estava seu nome: Eric Clark.

- QUARTO LUGAR? Meu Deus! É bom demais para ser verdade. Não consigo acreditar! – Devido ao trabalho e as tristezas que vivia sofrendo, Eric não possuíra tempo suficiente para se dedicar completamente aos estudos para o vestibular, e sentia dúvidas se conseguiria preencher uma das cinquenta vagas. Entretanto, conseguira a quarta vaga. Suspirou, aliviado. – Uma nova vida me aguarda. Serei o melhor advogado dessa cidade. Universidade de Summerlight, aqui vou eu!

...

- Segundo Lugar, na melhor universidade da cidade, Isabella? Isso é maravilhoso! Você é o meu maior orgulho, sabe disso, não é mesmo? – comemorava Elizabeth, abraçando a amada sobrinha e afilhada.

- Tia, eu queria ter conseguido o primeiro! – reclamava Isabella, esboçando um pequeno sorriso. Detestava quando suas notas não saíam como o desejado. Sempre fora a aluna mais estudiosa e inteligente de suas turmas, a preferida dos professores, bem como a mãe. Elizabeth a ignorou, permanecendo com os elogios.

- Você merece tudo de bom nessa nova etapa de sua vida, mas, quero que saiba de uma coisa. Se prepara para o novo mundo que virá a partir dessa etapa.

- O que quer dizer?

- Ah, isso é o tipo de coisa que você precisa descobrir sozinha. – fez uma pausa, se arrependendo de amedrontar a sobrinha daquela maneira. Não foi porque sofrera terríveis desilusões amorosas na sua juventude que deveria aterrorizar Isabella. – Fico tão honrada de ver que você deseja se tornar médica assim como sua mãe...

- Sempre gostei muito de bichinhos... Ser veterinária é o meu sonho, tia! Mal vejo a hora de começar os estudos e ser alguém importante como a senhora.

Notas finais
Início da Segunda Fase. História pegará fogo, espero que vocês estejam acompanhando a gigante vida de Elizabeth Ashfield