A Vida de Elizabeth Ashfield
9 Capítulo 9: Degraus
Elizabeth convidara a irmã Victoria e o cunhado Teddy para assistirem um filme que acabara de sair do cinema juntos na mansão, em uma televisão 3D com direito à pipoca e tudo a parte, porém, Emily acabou ficando de fora da diversão, pois passou mal de dor de cabeça e se deitou durante o resto do dia.
O maravilhoso, divertido e emocionante filme fora interrompido por uma campainha que tocava ansiosamente. A pessoa do lado de fora não para de pressionar o botão nem por apenas um instante.
– Carlotta está de folga hoje... Vou ter que ir lá abrir. – resmungou a milionária, levantando-se rapidamente caminhando até o portão, onde se encontrava a misteriosa pessoa. Lentamente, retirava o cadeado e empurrava de má vontade o portão de ferro com os pés.
– O SENHOR? QUEM PENSA QUE É PRA CHEGAR ASSIM AQUI DEPOIS DE ANOS?!
- Sou seu pai, menina mal criada. Tenho motivos de verdade para estar aqui. – mesmo com a aparência extremamente diferente, Elizabeth reconhecera o homem que arruinara a vida da mulher e mãe de suas filhas. Não era mais fora de forma física como antes, tinha os cabelos crespos cortados e a barba feita. Sua aparência era bem mais jovem do que a que tinha há duas décadas atrás.
- Você é um desgraçado. Isso sim que você é! – gritou a filha com tanta ira e ódio que foi possível que Victoria e Teddy escutassem esses gritos do interior da mansão, enquanto o filme rodava. Os dois pausaram o filme e se dirigiram à porta da mansão, espionando os dois que interrompiam o silêncio da rua.
- Teddy, você reconhece aquele homem que tá usando terno e chapéu? – sussurrou no ouvido do marido, os dois se escondendo do misterioso homem que tanto importunava Elizabeth.
- Acho que não, mas ele também me é familiar de algum lugar... Talvez de um retrato ou uma fotografia em revista ou jornal. Vamos lá tentar descobrir de quem se trata.
- Certo. – respondia Victoria, se apressando ao abrir a porta e se retirar do interior da mansão, descendo as escadinhas e se dirigindo ao portão. – V-VOCÊ?! Depois de tanto tempo? – berrava nervosa ao descobrir de quem se tratava aquela pessoa. Era nada mais nada menos que seu próprio pai, George Addams.
- Victorinha? Minha bonequinha cresceu tanto! Vem abraçar o papaizinho, vem.
- Sai pra lá. Não chega perto de mim. – Victoria sentia um forte arrepio percorrendo todo o seu corpo com a presença do pai. Somente Elizabeth a vira daquele jeito antes.
- Vocês não vão me convidar para entrar? Tenho algo importante para dizer a vocês duas.
- Você vai entrar e desembuchar. Se não fizer isso direitinho como eu tô mandando, eu vou perder a paciência com você e te matar. Você duvida? Tá me ouvindo bem?
E abriu o portão completamente, para que o infeliz adentrasse os terrenos da mansão.
- Casinha bonita, hein? Ganhou na loteria, foi? Hehehe – aquela risada assombrou as duas irmãs, que se sentaram rapidamente sobre o sofá, distantemente do homem, ao lado de Teddy Wilkinson.
- Você não vai sentar aqui. Meus sofás não merecem ter que suportar o seu peso e você não é bem vindo aqui. Agora desembucha e me diz logo o que você pretende com essa palhaçada.
- Pois bem, estou seriamente arrependido das crueldades que cometi com vocês há muito tempo. Vocês me perdoariam? – homem parecia estar prestes a chorar, porém Elizabeth e Victoria se mantinham firmes e fortes. Não poderiam fracassar diante da presença daquele homem. Sentiam verdadeiro pavor de estarem próximas ao pai novamente. Fora muito cruel e agora ousava pedir desculpas com todo o cinismo possível estampado no rosto?
- Acha mesmo que vai ter alguma chance com a gente? Eu era muito pequena, mas, mesmo sem parecer, graças a você fui uma criança traumatizada e problemática. PEDÓFILO DESGRAÇADO.- Victoria Wilkinson surtava cada vez mais, como nunca antes. Até mesmo a irmã mais velha tinha se assustado com a reação da irmã caçula. Teddy estava sem palavras diante de tudo aquilo, como geralmente ficava quando sentia nervoso ou medo de alguma coisa. Jamais tinha visto o homem pessoalmente, apenas nas fotografias da mansão e não sabia absolutamente nada sobre essa história de pedofilia.
- Ele só quer nosso dinheiro, irmã. Não ceda a ele. Ele não vai ter o mesmo domínio sobre a gente que tinha antes. Ele merece morrer da pior forma possível! É o diabo!
...
Emily ao ouvir a discussão saíra de seu quarto e preparava-se para descer as escadas. Prestes a descer o mais alto degrau, escutou a voz do ex-marido e quando as filhas surtavam com o mesmo.
- Será que é quem estou pensando que é? O que ele faz aqui? Seja lá o que for, não deve ser coisa boa. Ele veio atormentar minhas filhinhas... Ele não pode e não vai fazer isso de novo!
...
- Elizabeth, meu docinho de filha, deixa eu explicar tudo de uma vez para você. Quando deixei vocês – ele dizia lamentando, realmente prestes a chorar. – foquei na minha vida de mecânico. Conheci um homem, milionário. Nos tornamos grandes amigos. Passei a frequentar a casa dele cada vez mais e sempre fui bem tratado por ele e pela esposa. Acontece que, depois de muito tempo, me apaixonei pela mulher.
Essas palavras vibraram todos os presentes, inclusive Teddy e Emily.
- Por uma mulher casada... Você não presta mesmo! Sinto nojo em ter você como pai. – Elizabeth cuspira no rosto de Gheorge, que abaixava a cabeça tristonho e secava o cuspe com a gola do terno. Ele a ignorou e continuou a falar.
- Ela descobriu e nós nos tornamos amantes por muito tempo. Ele jamais soube, sequer desconfiou, do nosso caso e faleceu em um acidente de carro, sem saber. Assumimos nosso romance bem depois e nos tornamos um casal rico e feliz.
- E o que aconteceu com a coitada? Por que ela não se encontra aqui com você participando do seu planinho?
- Também faleceu, em um assalto. Sorte minha, não?
...
- George, você não tem o mínimo de vergonha na cara, não é mesmo? – berrava Emily do alto da escada, do último degrau. Todos os olhares antes focados no homem de pé se viraram para a matriarca da família.
- Querida Emily, você não mudou nada. Está idêntica a última vez que nos vimos.
- Pelo visto você também não. Continua o mesmo canalha de sempre.
Distraidamente, ao descer as escadas, Emily acidentalmente pulou um degrau a mais, perdendo o equilíbrio e tropeçando, desabando por toda a escadaria. Caiu inconsciente e de bruços no chão, com os olhos arregalados.
- Mamãe! – gritaram Elizabeth e Victoria em uníssono, correndo para os pés da escada. Carlotta se aproximava das duas, apavorada. – Ela tá morta! – berrava após sacudir o corpo da mãe e os olhos permanecerem arregalados sem mudar de estado. – É tudo culpa sua! – se levantou e virou para o pai, apontando o dedo em sua direção. – Não está satisfeito de causar tanta desgraça na nossa vida? Ainda precisa de mais? Vai embora daqui senão eu te mato. – aos prantos empurrava o pai para fora da mansão. George obedientemente abriu a porta e se retirou.
- Vou chamara ambulância... – Teddy se apressava a telefonar para o tal serviço, que em menos de uma hora chegaria ao local.
- Mamãe, pelo amor de Deus, me responde! – gritava Victoria, debulhando-se em lágrimas desesperadoras.
...
A ambulância chegara rapidamente e Emily fora levada às pressas para o hospital. Todos aguardaram em uma sala de espera, aflitos para saberem como estava a pobre mãe das jovens.
- Mesmo depois de tudo aquilo, tenho esperanças. ELA PRECISA SOBREVIVER.
Rapidamente, depois de pouco tempo examinando Emily, o médico chegava com o diagnóstico à sala de espera onde estes se encontravam.
- Vocês precisam ser fortes. Ela não resistiu aos ferimentos. Partiu dessa para a melhor. Sinto muito.
Elizabeth e Victoria se abraçaram, emocionadas, as lágrimas escorrendo sem esforço para contê-las. Teddy novamente se encontrava em uma difícil situação e não fazia ideia do que poderia fazer para acalmá-las. Carlotta se aproximou das irmãs.
- Vocês precisam estar muito unidas nesse difícil momento. Contem comigo para tudo, viu? – e abraçou fortemente as irmãs, se retirando do hospital.
- Obrigada, Carlotta. Você é um anjo.
...
George não pôde se conter e decidiu comparecer ao enterro de Emily Addams, porém nenhum dos presentes aprovava sua presença, bradando palavras como “desgraçado”, “destruidor de famílias” e “demônio”, que destruíam o homem por dentro. Este se mostrava cada vez mais arrependido das barbaridades que cometera no passado.
- Não quero ver você nunca mais na minha vida. Não ouse aparecer na minha frente ou cruzar o caminho de um de nós novamente. Ninguém te quer por perto.
O homem se retirou do cemitério tristonho e pouco depois os outros também. Somente as duas filhas de Emily permaneciam diante do túmulo da idosa, que era repleto de flores de todos os tipos. Um verdadeiro exemplo de mulher a ser seguido por todas as outras. Mulher amada por todos, batalhadora.
- Mamãe, obrigada por tudo que a senhora fez por nós. Foi um verdadeiro anjo nas nossas vidas. Descanse em paz. Deus hoje receberá uma linda estrela. – as duras palavras foram ditas pela filha mais velha, que se despediu do túmulo e foi embora do cemitério na companhia da irmã caçula. Um grande momento de tristeza para toda Summerlight.
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