A Vida aos Olhos de Seddie
15 Chás e Suspeitas
Notas iniciais
Então Sam salvou Cat de virar lixo amassado. E Cat salvou Sam de virar uma sem teto (embora Cat não soubesse do fato).
Depois da longa noite que teve pelas estradas dos Estados Unidos, Sam deliciava-se de um banho quentinho no apartamento que agora também era seu. Cat havia aparecido como uma fada madrinha: na hora certa e com exatamente o que Sam precisava: um lugar para ficar. Sam deixou a água quente cair por sobre sua cabeça, talvez assim as lembranças fossem embora com a sujeira. Infelizmente, não aconteceu. E a única coisa que conseguia pensar era o beijo de traição dupla.
Já fazia dois meses desde o início oficial do namoro e, até então, não havia acontecido um fim oficial. Aparentemente fora só uma briga temporária. Ela, no fundo, esperava que fosse. Doía em seu coração pensar em Freddie com outra garota, ou pior, com Carly. Sam pensou em Carly e seu estômago não gostou nada daquilo e pareceu virar de ponta cabeça na sua barriga. Ela apoiou-se na parede do Box e tentou respirar fundo. Desligou o chuveiro e enrolou-se em uma toalha felpuda cor de rosa com flores brancas. Precisava urgentemente de suas próprias toalhas. Penteou o cabelo longo e o deixou solto para secar. Vestiu-se e saiu do banheiro. Duas crianças barulhentas quase a acertaram com dardos de borracha.
— Cat! – Sam gritou em meio ao barulho infernal daqueles pirralhos.
— Estou aqui! – Cat gritou de volta, de algum lugar na cozinha.
Sam caminhou até lá e a encontrou debaixo do balcão protegendo a cabeça com uma panela.
— O que está fazendo aí? – Sam pergunta enquanto a faz sair de lá.
— Estou com medo delas, Sam – Cat agarrou no braço de Sam como se realmente fosse um gato e estivesse diante de uma banheira cheia de água.
— Cat... – Sam começou – São só crianças!
Andou até o casal de crianças endiabradas e arrancou de sua mão os dardos de brinquedo.
— Me dá aqui essa porra. Senta aí.
Provavelmente aquelas crianças nem sabiam o que era “porra”, mas fizeram o que Sam mandou sem questionar.
— Bem... – Cat finalmente sentiu-se segura de largar a panela e sair da cozinha – Parece que você pode se virar sem mim por enquanto – pegou a mochila no sofá e despediu-se de Sam com um beijo no rosto – Até mais tarde.
Cat saiu pela porta e o apartamento ficou silencioso por um momento.
— Então... – Sam começou – Vamos brincar de uma coisa legal.
As crianças bateram palminhas agitadas.
— E como se chama? – a menina perguntou
— Chama-se estátua. É bem simples. Eu vou sair da sala e vocês ficam aqui sem se mexer. Aquele que conseguir ficar na mesma posição até eu voltar ganha o jogo. Entenderam?
Mas as crianças não responderam, já estavam congeladas no lugar.
— É assim que eu gosto – Sam pegou um pote de sorvete antes de trancar-se no quarto.
Verificou o peraphone pela terceira vez naquele dia. Somente quatro chamada perdida de Freddie. Já fazia uma semana que deixara Seattle e sua antiga vida para trás e a cada dia, a quantidade de ligações dele diminuía. Sam esperava para ver até quando ele ligaria, até quando se preocuparia com ela. Até quando o “eu nunca vou deixar você” duraria. Porém, também aguardava alguma ligação de Carly. Mas, ao que tudo indicava, ela ao menos estava ciente do paradeiro de Sam. Na verdade, ninguém estava. Procurou na lista de contatos pela letra M e clicou na foto pela qual qualquer um que não a conhecesse pensaria ser a própria Sam. Apertou o botão verde na tela e a voz do outro lado atendeu a ligação.
— Sam? – ela ouviu a voz de Melanie e segurou-se para não chorar.
***
Já fazia uma semana.
Freddie ligava todos os dias, mas ela nunca atendia. Achou que Sam queria espaço, então a cada dia reduzia a freqüência de ligações, mas isso não o impedia de pensar nela vinte e cinco horas por dia. Não o impedia de lembrar-se daqueles olhos em tom de azul prussiano, quase cinza, e em seu cabelo cacheado loiro caindo por sobre os ombros. Seu sorriso que iluminava qualquer dia nublado, por mais que ela não soubesse ou não acreditasse nisso.
No primeiro dia, Freddie fora procurá-la no apartamento.
— Ela sumiu. Mas não liga pra isso, ela sempre some.
Foi o que Pamela Puckett respondeu á ele. “Não liga pra isso”. Freddie sentiu vontade de matá-la por ter dito aquilo. Mas o que ele podia fazer? Apenas assentiu com a cabeça e andou sem rumo pela cidade até o fim do dia.
— Freddie – Marisa Benson bateu a porta e entrou – Querido, o jantar está pronto. Você quer que eu o traga aqui?
— Não, mãe. Obrigado – Freddie sempre tivera raiva da preocupação extrema de sua mãe para com ele. Mas havia descoberto recentemente que, se tem algo que o deixava ainda mais com raiva era falta de preocupação.
— Freddie, você não comeu nada o dia inteiro – ela aproximou-se e colocou as costas da mão na testa dele – está se sentindo bem?
Sra. Benson não sabia, mas Freddie não havia se alimentado direito a semana inteira. Toda a comida que ela levava, Freddie jogava pela janela e observava os cachorros comerem na rua. Pelo menos estava fazendo bem á alguém.
— Eu estou bem, mãe – Ele forçou um meio sorriso e deu um beijo na mão dela – Quando eu sentir fome, prometo que vou comer.
Marisa assentiu e o beijou na testa, deixando-o sozinho como antes.
— Isso não pode continuar assim – Freddie disse para o peraphone em sua frente – Eu preciso descobrir onde ela está.
Ele só não sabia como. Então se lembrou que era um gênio da computação.
Antes de tomar qualquer decisão, decidiu ter certeza de que não encontraria Sam senão pelo rastreamento. Pegou o peraphone e discou um número.
— Carly – ele respirou fundo – A Sam desapareceu.
***
As cordas machucam os dedos.
Foi a anotação numero um de Sam na lista: Fatos Sobre as Guitarras.
Depois de ligar para Melanie e dizer onde estava, Sam olhou para a guitarra em cima da cama e decidiu arriscar-se.
— E quando você pretende voltar? – Melanie havia perguntado.
— Não pretendo – Sam respondeu – Nem fodendo.
— Sam... Você nem conhece essa garota.
— E essa garota nem me conhece. Pelo menos ela nunca foi presa.
— Mas você já.
— Mas ela não precisa saber.
— Mas ela vai descobrir.
— Mas não agora.
— Sam! – Melanie levantou a voz, a mesma voz de Sam, porém mais doce e fina – Deixa de ser cabeça dura!
— Melanie – Sam falou, séria e calma – Eu não vou voltar. E só estou te avisando pra caso... haja algum problema.
— Você quer que o Freddie te encontre – Melanie sempre adivinhava o que Sam estava pensando. Deve ser coisa de gêmeos.
— Não! – Sam tentou convencer mais a si mesma do que Melanie. Droga. A quem queria enganar? – Talvez... Cacete, Melanie! E se eu quiser?! Estou errada?
— Não, irmãzinha – Melanie riu – Você está amando e fico feliz. Se ele me ligar, prometo que faço ele te encontrar, que é o que você quer.
— Não, Melanie... Ele não pode saber disso...
— Relaxa, Sam! Só vai.
— Só vai pra onde? Pra puta que pariu? Acabei de sair de lá e não vou voltar.
— Sam, tenho que desligar. Amo você.
— Espera! – Sam queria conversar um pouco mais, mas Melanie já havia desligado – Eu também amo você.
Agora Sam tentava acompanhar o cara do vídeo na guitarra. Sabia um pouco sobre notas, mas aplicando assim era completamente diferente. Precisaria de tempo, dedicação e dedos extras pra ficar boa, mas um dia conseguiria. Tentou algumas notas por alguns minutos, até ficar com fome e voltar para a cozinha.
Não se lembrava das crianças que havia deixado na sala. Pobrezinhas. Sabe-se lá quanto tempo elas conseguiram brincar de estátua até adormecerem no sofá. Sam sorriu ao vê-las desabadas de exaustão. A mãe deles demoraria mais duas horas para buscá-los, então Sam apanhou uma manta no quarto e as cobriu.
— Hora do frango – Sam saltitou até a cozinha e abriu a geladeira, apanhando de lá uma travessa de frango que Cat havia cozinhado no dia anterior – Obrigada Deus – Sam agradeceu por Cat ser tão boa na cozinha.
O dia se passou, a mãe das crianças apareceu, Sam ajudou a carregá-las para casa e depois deitou-se no sofá para assistir um filme e esperar Cat, até que esta chegou.
— Como foi a escola?
— Foi bom – Cat jogou-se ao lado de Sam – Aprendi a dizer raposa em espanhol.
— E como se diz?
— Eu não me lembro – Cat respondeu e encostou a cabeça no ombro de Sam – Você já jantou?
— Já. Mas se quiser, posso janta de novo pra você não ter que comer sozinha.
— Ah, você é um doce – Cat sorriu e levantou-se num salto. Seus cabelos ruivos chacoalharam pelas costas enquanto ela corria até a cozinha.
Sam ouviu o peraphone tocar na mesa de centro e olhou para a tela. Era Carly. Já não estava mais disposta a jantar de novo. Na verdade, seu primeiro jantar já não estava mais disposto a permanecer em seu estômago. Ela correu pro banheiro e deixou o celular onde estava.
***
— O que está havendo comigo? – Sam se perguntou.
Andava de um lado para o outro no banheiro, com a mão na testa suada do esforço que fizera para vomitar
— O que caralhos está acontecendo?
Ela sentou-se ao lado da banheira e refletiu. O estômago de Sam era a coisa mais resistente que ela conhecia. Aguentava desde competições de comer cachorro quente até competições de beber leite de cabra fresco.
— Qual é, estômago. Não estou te reconhecendo – Sam massageou a barriga, ainda enjoada.
— Sam? – Ouviu Cat chamar do corredor – Você está bem?
— Estou – Sam respondeu entre um soluço.
— Não está não – Cat insistiu e entrou – Você não correria pro banheiro antes do segundo jantar se estivesse bem.
— Cat, sai daqui – Sam murmurou e escondeu o rosto nas mãos.
Cat ignorou a expulsão e fechou a porta do banheiro ao entrar. Sentou-se na beirada da banheira, ao lado da Sam que estava sentada no chão frio.
— Toma. Vai melhorar – Cat estendeu para ela uma caneca de ursinho roxa com strass cujo dentro continha algum liquido quente.
— O que é isso? – Sam perguntou, sem dar o menor sinal de que aceitaria a bebida.
— É chá de boldo. Eu vi você correndo pra vomitar e estava preparando para você. Bebe logo, vai melhorar – Cat sorriu e suas covinhas apareceram nas bochechas.
Sam não sabia como aquela garota aprendera tanto sobre ela em apenas uma semana, ou o por quê se importava. Sam não estava nem um pouco acostumada a morar com alguém que se importe ou que leve chá de boldo quentinho para ela quando passar mal. E lá estava Cat, com uma mão em seu ombro e a outra segurando uma xícara roxa de ursinho com strass.
— Tudo bem – Sam finalmente aceitou e deu o primeiro gole, que desceu amargo pela garganta – pelos deuses, que negócio horrível!
— Eu não disse que era bom, eu disse que melhoraria o enjoo.
— Espero que seja verdade – Deu outro gole – Esse enjoo está me irritando há semanas.
— Tem alguma ideia do por quê?
— Acho que comi algo diferente em New York.
— Carambolas! Você foi a New York?!
Primeiro Sam pensou: quem diz “carambolas”? E depois respondeu:
— Sim.
— Conte-me mais – Cat apoiou o queixo nas mãos e aguardou.
Sam deu mais um gole e começou a contar como seu amigo Gibby havia ganhado o premio na competição, contou sobre como era incrível a vista do Empire State, sobre como foi bom participar da fogueira de Natal na praça e sobre eles terem gravado um episódio de iCarly no Central Park. Foi aí que lembrou-se da ligação repentina de Carly e notou que o enjoo havia passado.
— Ei – Ela disse e arrotou alto. Cat gargalhou – Parece que deu certo.
— Eu te disse! Chá de boldo sempre funciona. Conversar também. Pode me procurar quando precisar de qualquer um dos dois – Cat levantou-se e fez um carinho na cabeça de Sam antes de sair do banheiro.
— Bizarro – Sam refletiu, pensando em como era estranho esse lance de “ser cuidada”.
Aproveitou que estava no banheiro e tomou um banho rápido. Contar sobre a viagem para Cat realmente a havia deixado mais tranquila, por incrível que pareça. Ela nem Entrara em detalhes sobre as aventuras com Freddie no avião e no hotel (nem havia comentado que eles eram namorados) mas já se sentia muito melhor.
Desligou o chuveiro e parou nua na frente do espelho. Antes de pegar uma toalha, reparou alguma coisa diferente no próprio corpo. Seus seios estavam maiores e seu quadril um pouco mais largo. Virou de costas, a bunda era a mesma, grande e empinada. Nada mais parecia ter mudado além dos seios e do quadril. Começou a enxugar-se e recordou o dia em que Freddie havia feito a surpresa maravilhosa para ela no estúdio do iCarly. Tinha sido um dos melhores dias de sua vida e, agora que parara pra pensar, a maioria dos melhores dias de sua vida tinham sido com ele. Os outros, foram com Carly... Já fazia dois meses desde que se apaixonaram de verdade. Desde que transaram pela primeira vez.
— Dois meses – Sam repetiu em voz alta e afastou a toalha do corpo. Olhou novamente para os seios discretamente maiores e o quadril mais largo – dois meses – passou a mão neles. Estavam um tanto doloridos – não pode ser.
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