A Vida aos Olhos de Seddie
19 Batman Salva o Dia com um Unicórnio
Notas iniciais
O inverno finalmente havia feito as malas e ido embora dos Estados Unidos. A primavera chegou com seu charme e perfume, iluminando o céu com os raios de sol alaranjado.
No dia de hoje ela vestia um shorts preto colado, meia fina preta e um all star vermelho, que combinavam perfeitamente com sua camiseta rasgada dos Beatles.
— Hum, eu amo a Califórnia – Sam inspirou o ar da manhã pela janela do quarto enquanto mastigava um pretzel fresquinho.
Muitos se perguntariam: O que Sam estaria fazendo acordada de manhã? E a resposta para a pergunta é: naquela dia, todos estavam de saída para o Six Flags, o parque de diversões com a montanha russa mais emocionante de Los Angeles. Cat tinha insistido para adiar o passeio por alguns meses, até Sam poder divertir-se também, mas esta pediu para não deixarem a oportunidade passar por causa dela (por causa do bebê estúpido). Tudo bem ir ao parque só para comer, ouvir os gritos dos fracos sofrendo na montanha russa e rir da cara deles. Faria bem à ela.
Sam foi até a cozinha. Cat estava com um lenço lilás prendendo os cabelos em um rabo alto, uma regata rosa, um short-saia rosa e um tênis de caminhar rosa. Sam pensou que era rosa demais pra uma pessoa só, até ver os biscoitos rosa que ela guardava em um pote.
— Você colocou corante nos biscoitos?
— Mas é claro. Assim ficam mais gostosos.
Cat também encaixou dentro da mochila (rosa) vários lanchinhos enrolados em plástico filme.
— E esses lanches? Também tem coisa rosa neles?
— Não, bobinha. Neles não é necessário.
Sam levantou as sobrancelhas.
— Ah é? Por que não?
— Porque o ingrediente principal deles já faz todo o trabalho de deixá-los ótimos.
— E qual seria esse ingrediente mágico?
— Amor – Cat sorriu e guardou na bolsa o ultimo lanchinho de amor – Está tudo pronto. Só falta eles chegarem para sairmos.
— Ainda acho que a gente podia ir de moto e chegar lá mais rápido.
— Não, Sam! Eu não vou deixar você dirigir a moto até esse bebê nascer.
É claro que Sam poderia facilmente sair com a moto sem que ela notasse, mas (por incrível que pareça) Cat havia pensado nisso, então prendeu o guidão da moto com uma corrente e escondeu a chave. Sam bufou e jogou-se no sofá.
— Estão demorando muito.
A campainha tocou.
— Ding dong!— Cat saltitou até a porta e a abriu – Chegaram!
— Chegamos! – Dice entrou na sala e seu colar de dados tilintou em seu pescoço com o caminhar – Prontas?
— Claro! – Cat bateu palminhas alegres e colocou nos ombros a bolsa rosa com lanchinhos de amor e alimentos rosa. Sam levantou-se do sofá pesadamente e a seguiu para fora do apartamento, fechando a porta ao sair.
Inacreditável como Goomer conseguia dirigir um carro sem bater em nada nem em ninguém durante todo o caminho. Sua inteligência era duvidosa até mesmo para abrir uma lata de refrigerante e, lá estava ele, levando a todos em segurança até o parque, repetindo de cinco em cinco minutos “Goomer gosta de montanha russa hehehe”.
O parque estava lotado. Turistas, crianças, casais, famílias felizes realizando seu típico passeio clichê em família, esse tipo de coisa. O tipo de coisa que irrita Sam. Quase lhe deu vontade de ter ficado em casa assistindo o jogo de basquete nesse dia agradavelmente ensolarado.
— Onde vamos primeiro? – Cat perguntou com o mapa do parque na mão. Não dava para saber ao certo para onde ela olhava devido aos óculos rosa em formato de coração que cobria seus olhos – Eu gostaria de ir primeiro à montanha russa do Batman.
— Eu quero a do Lanterna Verde – Dice se prontificou.
— Eu quero visitar a parte especial do Looney Tunes! – Goomer apontou no mapa e todos o encararam em reprovação – Ah, tudo bem. Podemos deixar para o final.
— Bem, divirtam-se – Sam acomodou sua mochila nas costas – Eu vou me sentar naquele gramado bem ali e comer esses lanches.
— Lanches de amor, detalhe – Cat levantou o dedo.
— O importante é que tem molho neles – Sam despediu-se e se separou do grupo, que, empolgados, infiltraram-se parque adentro.
Centenas de pessoas passavam por ela a cada minuto, enquanto deliciava-se no gramado do parque. Quando os lanches de amor com molho, ou de molho com amor, ou amor com lanche de molho... Enfim, quando os lanches de Cat acabaram, Sam levantou-se e caminhou por um tempo entre os brinquedos os quais não podia ir. Verificou ao longe a praça de alimentação, cujo ao lado um palco estava sendo montado abaixo de uma lona, o que indicava que haveria um show naquela noite.
— Esse é meu canto – Sam acomodou-se em uma das mesas perto do palco (e da barraca de cachorro quente) e aguardou, com os pés esticados na cadeira.
Meia hora depois de acomodar-se (e depois de algumas quedas dos caras que montavam a instalação), o palco finalmente ficou pronto e o Batman subiu nele, bateu os dedos no microfone para testar o som e este se propagou por toda a área de alimentação, atraindo a atenção de Sam. Ela colocou na boca um pirulito em formato de estrela e esperou para ouvir o que Batman tinha a dizer.
— E aí! – Não foi lá uma das primeiras coisas imagináveis que Batman diria, mas foi o que ele disse e aguardou a resposta, entretanto, as pessoas pareciam não notar sua presença ali.
— Yey! – Sam gritou e levantou o pirulito para cima, salvando Batman do completo vácuo.
— Ahn – Ele continuou, tentando não deixar cair a máscara larga demais para sua cabeça e revelar sua identidade – Quem ta afim de um grande show?
Novamente, as pessoas passavam na frente do palco e nenhuma delas demonstrava interesse no pobre homem-morcego.
— Já chega – Sam levantou-se e caminhou a passos largos até a lateral do palco. Subiu as escadas e arrancou o microfone da mão de Batman – Me dá aqui essa merda.
— O que vai fazer? – Batman levantou um pouco a cabeça, tentando enxergar o rosto de Sam através da mascara que caía indevidamente por cima de seus olhos, deixando- ainda mais patético.
— Aí! – Sam gritou, não importando-se com a microfonia causada – Seus fracotes de Los Angeles!
Agora algumas pessoas olhavam para o palco, curiosas a descobrir quem ousara chamá-las de fracotes.
— Sim, vocês mesmo! – Sam gritou ainda mais – Mostrem pra esses turistas como é que se faz diversão em Los Angeles!
Agora, dezenas de pessoas aproximavam-se do palco, esperando algo mais da garota loira.
— Batman, é com você – Sam, passou o microfone de volta para ele e deu um passo para trás.
— Obrigado, ahn...?
— Sam.
— Obrigado, Sam! Agora, ahn... Seus frangotes de Los Angeles! – Batman disse e olhou de canto para Sam, esperando por sua aprovação. Esta piscou para ele, incentivando-o a prosseguir – Daqui a vinte minutos, vai rolar a maior competição de talento musical de toda a história do Six FLags! Vocês têm exatamente esse tempo para se inscrever na competição e chamar seus amigos talentosos!
— Yey – Sam sussurrou ao lado dele.
— Isso! YEY! – Batman levantou o braço, fazendo sua capa pequena demais para o corpo esguio balançar por suas costas – Que vença o melhor!
As pessoas abaixo do palco empolgaram-se e correram desesperadas para todos os cantos do parque.
— Aí – Sam cutucou Batman enquanto ele enganchava o microfone na base – Você é o pior Batman que eu já vi, cara.
— E você é a melhor loira grosseira que eu já vi. Só perde para uma garota de um web site que eu acompanho. Aliás, ela também chama-se Sam... Espera aí...
— Ah, aquela garota – Sam deu um tapa no ombro do homem – Ela é demais mesmo. Aceito perder para ela. Até mais.
E então Sam desceu do palco e deixou Batman com uma cara confusa, como se o ladrão que ele perseguia tivesse desaparecido diante de seus olhos sem deixar pistas. Ele sacudiu a cabeça e saiu do palco. E Sam aguardou a competição começar.
***
— Isso. Foi. Incrível – Dice saía da montanha russa agarrado no pescoço de Goomer, que cambaleava para fora da rampa atrás de Cat.
— Wow! – Ela agarrou-se na barra de proteção, com as pernas cambaleando – Esse foi o melhor!
— É, mas agora eu quero vomitar – Goomer disse e Dice pulou para fora de seu colo.
— Goomer! Vomita pra lá!
Estavam andando para até a próxima atração, quando duas meninas com seus treze anos passaram correndo por eles e quase derrubaram Cat.
— Ei! Olhem por onde andam!
— Desculpe! – Uma das meninas parou, enquanto sua amiga a puxava pelo braço – É a competição!
— Competição? – Cat perguntou, porém as garotas já estavam longe demais para ouvirem – Ei moço – Cat puxou o terno de um segurança próximo – O senhor sabe que competição é essa?
— Competição anual de talento musical do parque – O segurança respondeu seco, sem tirar os olhos do horizonte.
— Talento musical, é? – Cat bateu o dedo no queixo – Sei quem seria uma boa concorrente.
— Quem? – Dice e Goomer perguntaram juntos.
— Vocês vão ver. Venham comigo.
***
— Aí! – Batman disse ao microfone e Sam acordou de um cochilo.
De novo não, Batman.
— Seus... Ingênuos de Los Angeles!
Ingênuos? Não tinha um xingamento menos ofensivo?
— Tá na hora da competição! Que vença o melhor.
Ok, não foi tão ruim.
— YEY!
— Desisto desse cara – Sam sentou-se na cadeira e cruzou as pernas.
Batman deixou o palco e em seu lugar apareceu um garoto moreno, magro e alto. Ele pegou o microfone, Sam pegou seu saco de batata frita e a apresentação começou.
Depois do terceiro “talento”, Sam sentiu-se novamente no quinto ano do ensino fundamental, quando sua professora de seios pontudos obrigou ela e Carly a selecionarem os talentos da escola. Ela já estava encurvada na mesa, segurando-se para não dormir, quando a banda começou a tocar uma musica inconfundível. Come Together. Levantou a cabeça de supetão e olhou para o palco, mas este estava cheio de fumaça branca e a iluminação baixa impossibilitava de enxergar mais que uma sombra segurando o microfone. Aos poucos, conforme a canção ganhava ritmo, as luzes mudaram para vermelho e amarelo, a fumaça diminuiu e Sam pôde ver uma garota ruiva vestida de rosa, de cabeça abaixada, segurando o microfone.
— Não pode ser – Sam pensou em subir no palco uma segunda vez para salvar pela segunda vez alguém do constrangimento. Viu Cat levantar a cabeça e ela começou a cantar.
Here come old flat top
He come groovin up slowly He got
O queixo de Sam caiu ao ouvir Cat cantar. A voz dela era maravilhosa.
He wear no shoeshine
Hegot toe Jam football He got
Agora Sam já estava de pé, gritando energeticamente o nome da amiga. E então, o tão esperado refrão ganhou vez e Cat debruçou-se para pegar algo no chão. Uma guitarra.
Come together, right now
Over me
Cat fechou os olhos e sua voz saiu lindamente junto com as notas na guitarra, envolvendo a todos na praça de alimentação.
— Puta merda – Sam estatelou-se até Cat terminar a apresentação.
A garota foi a ultima da noite a apresentar-se (provavelmente, os candidatos que viriam depois dela intimidaram-se com seu talento). Batman voltou ao palco.
— YEY! – Disse ele, um pouco mais natural dessa vez, como um verdadeiro Batman falando ao palco com uma multidão em Los Angeles – Parece que temos uma vencedora! – Ele pegou um papel amassado no bolso, o qual deixou cair e o recolheu do chão com as mãos tremulas – Ahn... Srta. Cat Valentine!
Cat voltou ao palco saltitando e Sam gritou alto no meio da multidão.
— Isso, Caralhow! Vai lá, Cat!
— Tragam o prêmio da vencedora! – Batman pediu para seu assistente de palco, que não era Robin e sim o Pernalonga. O coelho apareceu com um unicórnio de quase dois metros e o entregou a Sam – Parabéns! – Batman parabenizou-a e Cat o agarrou em um abraço, correndo para fora do palco com seu novo unicórnio gigante.
***
— Eu disse pra vocês – Cat exibiu a pelúcia para Dice e Goomer, que aguardavam na lateral do palco.
— Como...? Quando...? – Dice tentou perguntar alguma coisa, mas não sabia por onde começar.
— Desde quando você canta, Cat? – Goomer perguntou e acariciou a cabeça do unicórnio.
— Ah, desde sempre, eu acho – Cat fez o mesmo e sorriu, exibindo suas covinhas.
— E desde quando você sabe tocar guitarra? – Sam brotou no meio deles e abraçou Cat pelo pescoço – Quem diria, ein? Danadinha.
Cat gargalhou e abraçou Sam.
— Ei, você viu que eu abracei o Batman?!
— Porra... – Sam começou – Incrível.
— É – Goomer riu – A Cat fez coisas incríveis hoje.
— Bem. O parque fecha em meia hora. Vamos embora.
Dice abraçou Goomer, que abraçou Sam, que abraçou Cat, que abraçou o unicórnio e, juntos, caminharam para o estacionamento do parque.
— Foi um dia sensacional. Goomer, onde está o carro?
— Bem ali – Goomer apontou.
O carro estava mesmo lá, mas um segundo depois de todos olharem, o que restou dele foi sucata. Voando do céu, um dos carrinhos de montanha russa aterrissara no veículo preto de Goomer á frente. Ele apertou o alarme e os faróis piscaram por debaixo dos escombros.
— Meu Deus! – Cat largou o unicórnio e abraçou Sam, tentando esconder a cabeça dela debaixo do braço – Sem fortes emoções! Respira, inspira! Respira...
— Cat! Aqui debaixo do seu braço fica difícil de respirar! – Sam saiu de lá – Eu to bem, caramba.
— Desculpe – Cat choramingou – O que foi isso?!
Dois seguranças do parque correram até eles por entre a multidão que se formava.
— Tá todo mundo bem? – O mais alto perguntou.
— Com a gente sim, mas olha o estado do carro dele! – Dice apontou – Como vamos pra casa agora?
— Não se preocupem – O segurança disse e pegou do cinto seu rádio de comunicação – O parque se responsabilizará por todos os gastos.
E responsabilizou-se, realmente. Mas o coração partido do pobre Goomer não podia ser indenizado. Do momento que entraram no ônibus disposto pelo parque ele não parou de choramingar até pegar no sono no colo de Dice “Meu carrinho. Meu lindo carrinho.”
— Pobre Goomer – Cat fez um carinho na cabeça dele, no banco de trás, e virou-se para colocar o cinto. Estava sentada ao lado de Sam no ônibus. – Se divertiu?
— Demais – Sam bocejou – Por que nunca me disse que cantava?
— Ah, parecia bobagem – Cat deu de ombros e cobriu Sam com a manta do ônibus, cobrindo-se em seguida.
— Não diga isso. Você foi incrível.
— Obrigada – Cat corou e suas covinhas aparecem tímidas dessa vez.
O motorista comunicou aos passageiros pelo auto-falante todos os bairros em seqüência pelos quais o ônibus passaria. O bairro deles era o penúltimo da lista. Ainda ficariam algumas horas viajando pela Califórnia. Sam fechou os olhos para descansar um pouco.
— Sam? – Cat chamou e Sam abriu os olhos, deparando-se com os dela, que, no escuro do ônibus, eram bem semelhantes aos do gatinho do Shrek.
— Sim?
— Posso te contar um segredo?
Sam hesitou, pensando em responder não. Já tinha seus próprios segredos para se preocupar. Mas, olhando para Cat, ela sentia algo diferente. Uma leve sensação daquilo que as pessoas chamam de “preocupar-se”. Suspirou e respondeu:
— Claro.
Cat pigarreou.
— Bem... Eu – Ela escondeu a cabeça debaixo da coberta e sua voz saiu abafada – Eu vi o Costela pelado.
— VOCÊ O QUE?! – Sam gritou e algumas pessoas do ônibus disseram “shiu” pra ela – AH, VÃO TOMAR NO MEIO DOS SEUS CUS – Ela respondeu – Você o que??
— Isso foi feio, não foi?
— Eu diria bizarro – Sam franziu o cenho.
Agora Sam entendeu o porquê achou intrigante o fato de Costela ter passado três dias no apartamento com Cat.
— Espera. Vocês...?
— O que?
— Você sabe... – Sam fez um gesto com as mãos, batendo uma contra a outra, mas Cat não entendeu – Ah, esquece. O que você acha do Costela?
— Bem, eu acho que gosto dele. Será que ele gosta de mim?
— Cat, o Costela tem vinte e seis anos e você tem dezessete. É pedofilia.
— O que esse assunto tem a ver com pés?
— Cat, boa noite – Sam virou-se para o vidro – Outro dia eu te explico.
— Tudo bem – Cat aceitou logo, afinal, estava exausta. Passou o braço por cima de Sam, aconchegando-se perto dela – Boa noite, Sam.
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