A Vida Sobrenatural de uma Vidente
3 Capítulo 2.
E assim a aula se seguiu. O menino da minha frente usava meu lápis, minha borracha e duas folhas de caderno que eu tinha lhe dado, e isso no inicio do ano letivo. Pelo menos ele não pediu uma das minhas canetas, o que foi até surpreendente.
O professor passava a matéria no quadro — como sempre. Hoje ele escrevia sobre respiração celular. Ah, como eu odiava biologia. Eu ficava praticamente perdida depois de um tempo, e olha, a culpa não é minha! E que parece que depois de algumas frases sobre ciências meu cérebro começa a imaginar coisas surreais e eu acabo me distraindo, ou seja, se eu repetir de ano a culpa é do meu cérebro.
O professor escreveu no quadro todo e depois largou o giz. Ele parecia animado hoje, como se fosse seu dia favorito da semana. Mas hein, o que tem de tão legal em uma segunda-feira?
—Bem turma, como vocês podem ver, hoje iremos aprender sobre respiração celular. — O professor apontou pro quadro. — Respiração celular nada mais é do que um processo bioquímico que libera energia, e esse processo pode ser aeróbica ou anaeróbica. Agora... — depois dessa fala eu estava apenas fisicamente presente na aula, não mentalmente.
Eu via o professor apontando pro quadro e percebia que ele falava, mas eu estava muito distraída para entender as palavras que ele falava.
Enquanto isso, meu cérebro se divertia imaginando cenas.
Um cara de quem eu não conseguia ver o rosto caminhava lentamente por sua casa, que aparentemente era de madeira. Os móveis também eram todos de madeira, e pareciam rústicos.
O cara — que estava virado de costas pra min — foi até uma das janelas. A luz que saia dela clareou seus cabelos e agora dava pra ver que eram loiros.
O garoto olhava para o que tinha do outro lado da janela, mas eu, eu não conseguia ver ao certo o que era mas eu tinha certeza que era verde.
Até ai, a cena durou desse jeito por alguns minutos, mas logo, minha criatividade entrou em ação e outra pessoa — aparentemente um homem — entrou no comodo, que deveria ser a sala.
O loiro se virou e encarou a outra pessoa. A pessoa parecia com raiva, já que gesticulava as mãos direto e apontava pro garoto toda hora. Enquanto isso, o garoto apenas assentia, calmamente.
Eu não imaginava vozes na minha cabeça como se estivesse fazendo um diálogo, mas eu tinha certeza que a pessoa brigava com o menino loiro.
A cena ficou assim alguns segundos, até que a pessoa fez um sinal de " Estou de olho em você " e saiu da sala.
O menino, bem, ele apenas voltou a ver a janela como antes.
—Kate? Kate!? — Marcos perguntou me chacoalhando.
—O que? — pisquei algumas vezes voltando a realidade. As vezes parece que eu me perco dela nessas cenas imaginárias.
—Comida, vamos. — Marcos disse e depois passou a mão nos cabelos ruivos, bagunçando eles.
Demorei quase 1 minuto para entender o que ele estava falando. Como eu era lerda, era bem claro que ele estava falando do recreio.
Me levantei e sai da sala junto com ele, enquanto ele mexia e remexia no seu cabelo.
—Eai, o Lucas é legal? — perguntou Marcos caminhando do meu lado rumo ao refeitório.
—Sei lá.
—Você não falou com ele?
—Falei, mas foi só por que ele não tem material. No inicio do ano.
—Estranho. — Foi tudo o que Marcos disse e eu tive que concordar com a cabeça.
Assim que entramos no refeitório o cheiro de comida invadiu minhas narinas e todas as conversas do refeitório fizeram o mesmo, só que com minhas orelhas. Eram tantas pessoas conversando que ficava difícil entender até o que as pessoas que estavam perto de min falavam.
Eu e Marcos fomos direto para a fila a onde comprava-mos nossos lanches e depois de ter pego os mesmos no sentamos num banco qualquer, já que todas as mesas estavam cheias.
—Eu não entendi bem o que é respiração celular aeróbica. — Compartilhou Marcos e logo depois deu um gole no seu refrigerante.
—Eu nem sei direito o que é isso. — Disse mordendo um pedaço da minha pizza.
—Ficou a aula inteira imaginando nada com nada de novo? — suspirou Marcos.
—É. Dessa vez esta... Sei lá, parece que eu não consigo tirar essas cenas da cabeça pra voltar a realidade, é como se reproduzi-sem automaticamente na minha cabeça.
Marcos nada respondeu apenas continuou dando goles no seu refrigerante e comendo sua mega coxinha.
O recreio se passou bem rápido, ainda mais por que passei o recreio inteiro conversando com Marcos sobre séries. Sim, ele assistia, por mais que fosse só uma ou outra.
Depois tivemos que retorna a sala de aula, aonde o professor passou bastante dever antes de acabar seu tempo. Logo após isso, fomos pra aula de História.
Na aula de história eu fiquei apenas vendo as imagens do livro enquanto o professor falava algo sobre a Révolution Française.
Logo, Marcos já estava me cutucando enquanto os outros alunos saíam da sala quase que correndo.
—Vamos. Vamos. Vamos. — ele repetia um vamos a cada cutucada de dedo que ele fazia com o dedo dele no meu ombro.
—Tá. — Disse mas ele continuou. — Já pode parar.
Ele continuou e isso estava me dando os nervoso. Virei a cabeça e o encarei com a melhor cara de raiva que eu conseguia.
—Você não consegue ter uma cara de raiva. — Marcos disse e eu bufei rindo junto com ele.
Ele cutucou meu braço mais algumas vezes depois disso e depois saiu andando devagar — um jeito de me esperar só que sem ficar parado.
Peguei minhas coisas e me levantei. Saímos da sala lado a lado e fomos pros nossos armário, que também eram quase lado a lado.
—Será que hoje você pode ver Reign? — perguntei abrindo meu armário.
—E o que seria isso? — perguntou Marcos. Bufei.
—É uma série, e uma série muito boa por sinal. — Disse enfiando as coisas no meu armário.
—Sobre o que ela é?- perguntou Marcos batendo a porta do seu armário.
—Bem, é basicamente sobre um casamento arranjado. A série se passa bem lá trás, quando ainda existiam famílias reais pra todos os cantos. — Sorri lembrando de alguma cenas. — E bem, Mary, a Rainha da escócia deve se casar com o futuro rei da França, Francis. Mas quando ela chega lá, o vidente e amigo da Rainha, Nostradamus, tem uma visão...
—Vidente? — perguntou Marcos incrédulo. E me interrompendo. — Outra série sobrenatural? Ah não Kate, você sabe que eu não curto muito vampiros disputando garotas com lobisomens.
—Mas... — ele não deixou eu falar.
—Não! Não sou muito de séries sobrenaturais, desculpe.
—O que!? Quer dizer que você só não vai ver a série por que tem um vidente? Ah, faça mil favores.
—Por você eu faço mil favores, menos assistir outro crepúsculo. — Ele disse rindo e eu sorri de leve empurrando o ombro dele de leve.
—Você não sabe o que está perdendo.
—Sei sim, um vidente.
Bufei revirando os olhos.
—Tá, mas só pra deixar claro, não tem lobisomens e vampiros brigando por garotas. São príncipes e Bastardos.
—Nossa! Que diferença!- ele exclamou rindo.
—Vamos logo antes que eu te belisque. — Suspirei sorrindo de leve e ele riu.
Saímos do colégio e logo já estávamos a caminho de casa. No meio do caminho, Marcos começou a mexer no celular.
—O que está vendo? — perguntei tentando ver, mas ele odiava quando tentavam ver o celular dele. Então ele colocou pro lado e virou a tela de canto. — A qual é.
—Se quer tanto ver, vou te enviar um print pelo celular. — Ele disse.
Depois de um tempo ficamos sem silêncio.
—Já pode enviar. — Disse — Tenho 4g.
—Já enviei. — ele disse.
—Ue... Mas meu celular não apitou.
Comecei a procurar meu celular pelos bolsos da minha calça desesperadamente. Até que eu lembrei que estava na minha mochila, que no caso, eu não levava de volta pra casa as segundas por que terça tinha aula de História, Inglês e Física, matéria as quais o material já está no armário já que sexta tenho as mesmas.
—Deixei meu celular no colégio. — Anunciei e Marcos me olhou incrédulo.
—Como você pode esquecer seu filho!? — ele exclamou de queixo caído. Ri a expressão dele.
— Vou buscar meu filho. — Disse começando a me distanciar de Marcos.
—Quer que eu vá com você?
— Não! De jeito nenhum! Jamais te obrigaria a voltar pro colégio depois de tão longe. — Sorri e virei a cabeça pra frente.
Mesmo que a gente não mora-se tão longe do colégio, eu certamente não faria ele voltar pro colégio depois de ter acabado de sair, não seria justo.
Voltei até o colégio cansada. Eu amaria estar agora assistindo série enquanto falo com o Marcos pelo celular ou então simplesmente dormi, mas não, eu tinha que ter esquecido o meu celular — Vulgo meu filho.
Quando cheguei na calçada do colégio eu cruzei todos os dedos possíveis para que a porta ainda estivesse aberto e que eu não tivesse vindo buscar meu celular atoa.
Fui até a porta e a empurrei, felizmente ela abriu.
É, parece que tenho sorte.
Entrei no colégio e praticamente corri até o meu armário.
Coloquei a senha e o abri num movimento rápido e brusco.
—Ai. — ouvi alguém dizer. Droga.
Fechei o armário de leve e vi que tinha um garoto loiro com a mão no nariz.
—Anh... Me desculpe, não foi minha intenção. — Disse tentando ajudar de alguma maneira, mas não sabia como. Sorte, por que você sempre se vira contra min nos últimos segundos que necessito de ti? — Eu lhe machuquei?
—Não, não. — garoto parecia sincero mas com uma ponta de ironia.
Ele tirou a mão do nariz e percebi que não avia sangue saindo do nariz. Ótimo, ainda tenho fragmentos da sorte.
—Aliais, isso é seu. — Ele enfiou a mão do bolso e depois tirou uma borracha e um lápis de lá.
—Ah... — franzi as sombrancelhar e subi o olhar pro rosto do garoto. Era Lucas, o garoto que não se deu o trabalho de comprar material pro ano letivo.
Peguei as coisas dele e joguei dentro do armário.
—O que faz aqui ainda? — perguntou Lucas tomando cuidado com a porta do meu armário.
—Nada. — Suspirei. Será que ele não podia ir embora?
Abri melhor o armário e comecei a abrir minha mochila.
—Sabe, essa hora não é um bom momento para você estar aqui, principalmente sozinha. — Lucas insistiu no assunto. Bufei.
—Eu sei me cuidar, tá?
—Nossa, tá bem. Mas e se aparecer um ladrão.
—Um ladrão? Serio? Que imaginação fértil. — Suspirei.
—Tá, mas e se aparece-se?
—Vem cá, por que esta falando comigo mesmo? — perguntei. Não daria afinidades pra um cara que nem comprou material pro ano letivo.
—Por que você está conversando também. — Ele sorriu — Agora, o que você faria caso entra-se algum ladrão? — ele perguntou.
—Jogaria spray de pimenta dele. — Disse e ele riu.
—Nossa. E se não desse certo?
—Chutaria aquele lugar. — Disse. — ACHEI MEU CELULAR!- gritei tirando meu celular da mochila.
—E se aparece-se outra coisa?- perguntou o menino chegando mais perto.
—Tipo?- perguntei fechando o armário.
—Um vampiro? — ele perguntou e eu o fitei rindo pelo nariz.
—Um vampiro? — Ri — Desculpe, esqueci que você tem a mente fértil.
Guardei meu celular no bolso da frente da calça e subi meu olhar para a cara de Lucas. Ele me encarava sério.
—Você assiste muita série cara, diminui o volume da sua netflix. — Disse por fim.
Ele riu e depois sorriu. Nada demais, só tinha duas presas bem mais afiadas no lugar dos caninos dele.
—Nossa, você veio pra cá pensando em se fantasiar de vampiro? É Halloween e ninguém me falou? Droga. Mas deixa pra lá, posso me fantasiar de bruxa que nem ano passado na festa de Halloween do meu vizinho.- Sorri irônica.
—Não acho que você é exatamente uma bruxa. — ele sorriu.
—Ah é? E o que eu sou? — perguntei o encarando e cruzando os braços.
—Você parece mais uma vidente. — Ele sorriu.
—Nossa, grande diferença. — Zombei.
—E tem, acredite. Bruxas podem ter poderes, mas videntes? Poxa, eles podem prever o futuro, ver o presente e o passado. Bem mais legal. — ele sorriu chegando perto.
—Tá...- Disse observando ele. Ele chegava cada vez mais perto e isso estava me assustando. — Você perguntou o que eu faria se eu encontra-se um vampiro. Sabe, chutar aquele lugar também funciona.
—O que? — ele perguntou e então eu chutei aquele lugar.
Ele caiu de joelho no chão e eu sai andando bem rápido pra fora do colégio.
—Maluco. — Bufei quase correndo.
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