A Vida De Uma Garota Estranha
13 Tentativa de Suicídio
Notas iniciais
Se eu gostei do beijo? Sim, eu gostei. Mas por outro lado, odiei porque aquele infeliz desmaiou durante o beijo. Eu mereço...
Me afastei dele, enconstando-o num caixote próximo. Aquela foi a primeira vez que reparei que aquela van está sempre cheia de caixotes... 0bservação inútil no momento, eu sei, mas fazer o quê?
Tentei encontrar o lugar onde Leo estava ferido: na perna e um corte menor no braço. Felizmente, consegui estancar o sangramento com um pedaço de pano que rasguei da minha camiseta.
Quando terminei de fazer tudo isso, nós chegamos em nosso destino: a casa da bruxa má que Robert nos levou no começo da nossa aventura.
Acordei Leo e constatei que ele conseguiu ficar de pé.
- Obrigado — foi a única coisa que ele disse. Mais nada. Ele nem tocou no assunto do beijo, e eu, muito esperta, fiquei na minha.
A porta abriu e surgiu o encaquilhado Tom, com Robert atrás. Leo foi o primeiro a sair. Outra conclusão: ele não estava olhando para mim também.
Nós andamos pelo gramado marrom e cheio de flores mortas até a porta de madeira, que rangeu ao ser aberta. Entrei no longo saguão. Ao invés de ficar atrás de mim, Leo foi guiado para outro corredor por Tom. Fiquei a sós com Robert.
- Então... aqui estou eu — suspirei — O que quer comigo?
- Te explicar as mais recentes notícias — um sorriso apareceu nos lábios dele — Então, eu sou líder da Dead Secret.
- Parabéns — eu disse, sarcástica — Gostando do poder?
- Não, pois ainda não fiz tudo que tenho que fazer para poder aproveitá-lo. Ainda não matei você...
- Interessante. Eu não tenho esses problemas, já que não acho que preciso matar você para ser feliz.
- Você é uma ameaça a mim entende? — ele disse isso enquanto carregava seu revólver — Então, vou exterminar as ameaças.
Eu não senti nenhum tipo de sentimento quando ele apontou sua arma para minha cabeça. Acho que as pessoas que estão prestes a morrer se sentem assim. Apenas fechei os olhos. Foi quando ouvi uma estranha voz na minha cabeça:
" Duda! Sua imbecil! " era Bia " Vai desistir? Isso é vergonhoso! Eu larguei tudo que tinha para te ajudar, e está desistindo?! Isso é um absurdo, você pode vencer essa guerra, pode ser melhor que Robert! Não desista! "
Abri os olhos e tive certeza que havia um novo brilho neles. Eu corri até Robert e segurei a mão dele, abaixando-a e obrigando-o a atirar no chão. Ele pareceu surpreso com a minha reação:
- O que está fazendo?! Não é melhor morrer em paz?
- Eu... não... vou... morrer! — disse cada palavra — Não antes de recuperar minha vida normal!
Pisei na mão dele, o que fez Robert largar o revólver. Chutei-o para longe:
- Você é doida! O que adianta fazer isso agora? Só estará adiando sua morte!
- Já não disse que não vou morrer? — bati o joelho em seu rosto — E se eu fosse morrer, não seria você que me mataria!
Ele caiu sentado, ainda surpreso. Mas se levantou e sacou sua faca, com um brilho assassino nos olhos.
- Eu queria fazer isso sem dor, mas já que você não quer...
- Ah, cale a boca!
Eu me desviei de todas as tentativas dele e segurei seu braço. Fiz o mesmo que fiz com o revólver, mas dessa vez consegui recuperar a faca antes dele.
- Viu só como o mundo dá voltas? — sorri — Rob — disse apenas para provocá-lo.
Robert espumava de raiva, mas ele não era burro de me atacar desarmado. Peguei sua outra arma e apontei para ele:
- Acho que agora é o seu fim. Descanse em paz...
De repente tudo ficou escuro, e a última coisa que lembro foi de sentir uma forte dor na nuca.
***
Acordei em uma cela escura e úmida. Eu não enxergava muito, além de um vulto ao meu lado. Quando minha visão focalizou, eu pude enxergar a... Bia? Era a Bia ou eu estava delirando? Sim... era a BIA!
- Bia! Você tá viva! Graças a Deus, não sabe como senti sua falta!
Eu me encarou, os olhos vermelhos, provavelmente de tanto chorar.
- Caramba, aqui tá tão escuro. Onde será que está o Leo?
Ela soluçou e percebi qual era o problema.
- Bia... não me diga que... — eu entrei em claro pânico — Cadê ele Bia?! Me responde!
- D-Duda... ele te traiu. Está do lado de Robert. Foi ele que te prendeu aqui.
Senti meu coração falhar uma batida. Como assim ele tinha me traído? Isso... não era possível! Ele odiava Robert, como estava do lado dele?!
- Você tá mentindo para mim! — eu berrei — Não é verdade!
- É sim... — ouvi uma voz familiar atrás de mim. Me virei e encarei Leo, do lado de fora da cela — Sinto muito.
- Seu desgraçado... você não sente nada! Se sentisse, não tinha feito isso comigo! Como pode?
- Eu nunca disse que estava do seu lado...
- Mas você me ajudou! Jurou que não era um espião!
- E não sou. Nada do que você me disse eu contei a Robert.
Senti lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Eu não queria chorar, mas tinha me apegado demais à Leo. E tinha que admitir: tinha me apaixonado por ele.
- Você me enganou — eu disse, em meio aos soluços — Pensei que eu era importante para você!
- Eu não queria te magoar — ele engoliu em seco — Mas você se apegou demais... é melhor terminar com isso agora.
- Não... — caí de joelhos — Não acredito em você... está mentindo. Não é possível que esteja do lado de Robert... que tenha me traído.
- Não deveria chorar. Eu não estou fazendo nada demais, além de contar a verdade.
Eu já não ouvia ele. Meu desespero era grande demais, e não conseguia pensar. Eu apenas sabia que meu coração tinha sido destruído por ele. Que agora eu queria morrer... me livrar do sofrimento...
- Me mate logo então! — gritei para ele.
Leo pareceu surpreendido pelo meu pedido.
- Não posso te matar.
- Então eu vou me matar sozinha!
Eu apertei minha garganta o mais forte que pude, até que minhas unhas começaram a perfurar a carne e eu senti o sangue escorrendo. O ar começava a rarear quando senti alguém segurando minhas mãos:
- Não... se mate — Leo disse com dificuldade — Não vale a pena.
- Me solte!
- Não! — pude ver que ele fazia força para não chorar — Me desculpe... mas não faça isso pelo seu sofrimento. Não é a melhor saída.
Desisti do suicídio. Ainda estava de joelhos quando tentei abraçá-lo, uma forma de não deixá-lo partir. Mas Leo se levantou e algemou minhas mãos nas minhas costas.
- Você vai tentar novamente eu sei — ele fechou a cela — Assim não vai conseguir.
Ele virou de costas e andou até a porta de madeira, onde era a saída, e saiu.
Eu não tinha forças para me levantar. Abaixei minha cabeça e comecei a chorar, cada vez mais forte, igual a minha dor.
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