A Vida Da Miss Invisible
7 Tormentos
Notas iniciais
Até à hora que eu tanto ansiava correu tudo bem, mas agora...
Uma da manhã em ponto. Estão todos a cantar os parabéns à Sousa. O bolo de anos é enorme, com cerca de quatro ou cinco andares de chocolate com morangos frescos a decorar e no topo estão dois bonequinhos. Um dos bonecos tem cabelos castanhos escuros ondulados, uma roupa igual à que estou a vestir agora e está deitada de barriga para baixo, com os tornozelos atados e os braços presos ao corpo por uma corda que o outro bonequinho agarra. A capuchinho vermelho está com um pé em cima das "minhas" costas e agarra a corda como se tentasse controlar uma fera perigosa. É óbvio que não gostei nem um pouco do bolo! E não foi só pelos bonequinhos. Digamos que fico enjoada com o chocolate e sou alérgica a morangos. Todos aquele bolo diz um claro "Afasta-te para teu bem!" e foi isso que fiz. Estou a um canto do salão, sozinha, com raiva e medo a espalharem-se pelo meu corpo.
Espera aí!!! Isto não é raiva nem medo!!! É ÁGUA?!?! OH QUE ÓTIMO! (ironia, conhecem?) Mas quem foi o idiota que me atirou com um balde de água fria em cima?!
Ao olhar para trás vejo duas Alices do País das Maravilhas a segurarem um grande balde com um sorriso maquiavélico no rosto. Em poucos minutos já estavam todos a rir da ironia da situação. Uma gata encharcada parecia ser bem divertido se não fosse eu a gata! Não tenho tempo de pensar em mais nada. Poucos segundos se passam e eu sinto algo mole bater contra a minha cara. Ainda mais risos e quando consigo abrir os olhos vejo que tenho a cara toda suja de bolo. Tento limpar os excessos mas a Sousa aproxima-se de mim rapidamente e empurra-me uma fatia do bolo para dentro da boca fazendo com que eu engolisse pedaços pequenos do bolo de chocolate juntamente com algumas fatias finas de morango. O que não engoli consegui cuspir na minha bandeja vazia. Ainda mais risos ao verem o meu desespero.
Olho ao meu redor e ver todos a rirem da minha figura foi o ponto máximo que consigo aguentar. Corro dali até ao quarto das empregadas com lágrimas quase a caírem dos olhos. Pego na minha roupa à pressa e dirijo-me à saída mas antes de conseguir sair a Sousa mete-se à minha frente com as bonecas do bolo na mão e diz:
Toma... uma lembrança — diz com um sorriso superior.
Eu pego naquilo e fico a olhá-lo na minha mão, ou pelo menos tentava ver já que os meus olhos estão embaciados pelas lágrimas que eu não quero deixar cair. Subo o olhar até à Sousa e ela desvia-se da frente da porta com uma pose teatral e diz:
Podes ir! Estás dispensada por hoje. E já agora... — chega perto do meu ouvido e sussurra com desprezo — Parabéns... mana emprestada...
Eu corri dali para fora enquanto ouvi mais e mais pessoas a chegarem há porta a rir da cena.
Raiva, medo, insegurança, tristeza, solidão, tudo isto juntamente com tonturas, enjoos e falta de ar por causa do bolo que a Sousa me obrigou a comer... Eu já só penso em chegar a casa para pedir ajuda a Olga mas as pernas começam a fraquejar e a tosse e falta de ar pioram!
Ao chegar a casa apenas tenho tempo de tocar à campainha e caio no chão desmaiada.
Seja o que Deus quiser...
***
Uma grande luz forte ilumina o meu corpo. A minha única reação é colocar os braços à frente do corpo e fechar os olhos com força enquanto o barulho de travões ecoa bem perto de mim. É tarde, tarde demais para fazer algo. Acho que vou ver os anjinhos mais cedo do que eu pensava...
Mas em vez de uma dor imensa pelo corpo ou calma na alma, sinto-me ser empurrada de uma forma brusca contra o passeio. Ouço o carro embater contra algo mas segundos depois foi embora. Covarde!
Ao abrir os olhos entro em desespero.
Lou! Lou acorda por favor! Lou! — grito desesperada correndo até ao corpo de uma das minhas melhores amigas que estava no chão com uma grande poça de sangue em redor.
Ajoelho-me ao seu lado e abraço o corpo débil da Lou.
Não morras Lou... TU NÃO VAIS MORRER! TALI!! CHAMA UMA AMBULÂNCIA! DEPRESSA!!! — grito para a morena que estava paralisada do outro lado da rua.
DEPRESSA!!! — grito novamente e ela parece acordar e corre para dentro de casa.
Lou... respira, vá lá... Tu vais ficar bem, confia em mim! Por favor, olha para mim!
Ela ainda respira. Espero que a ambulância venha depressa.
Não te devias ter posto à frente do carro! — digo já a chorar abraçada àquele corpo ensanguentado.
Adri... — murmura com dificuldade — Não... não chores... por favor... — pede com um sorriso mínimo.
Eu tento retribuir o sorriso mas a minha vontade de chorar é ainda maior, por isso deve ter parecido uma careta.
Que... horas são...? — pergunta enquanto respirava fundo uma vez ou outra.
Eu, eu não sei — respondo confusa mas logo vejo as horas no relógio que ela me oferecera horas atrás — São... — limpo as lágrimas dos olhos para tentar ver melhor — ... uma e cinco, da manhã.
Bolas! Estou... atrasada! — resmunga com dificuldade em falar.
P-para q-que? — pergunto entre soluços de choro.
Para... te dar os parabéns... mana emprestada... — diz com um sorriso — Bom... acho... que cumpri... a minha missão...
A Lou lança-me um último sorriso antes de cair no sono eterno que tantas vezes ouvi falar.
Chorei, chorei muito e gritei aos céus para saber o porque de levarem a minha melhor amiga.
Lou...? — ouço uma voz aproximar-se.
Levanto o olhar e vejo a Tali a olhar para a irmã de olhos arregalados, como se fosse algo impossível de acontecer.
Ela... ela foi-se — murmuro sem saber o que dizer neste momento.
NÃO!! Não é possível! Não, não, não, não... acorda mana, acorda! Não me deixes... — diz desesperada a chorar agarrada ao corpo de Lou — A CULPA É TODA TUA!!! — grita para mim.
Assusto-me e arregalo os olhos confusa. Como é que ela pode dizer isso?!
Esquece a nossa amizade, nunca mais me fales e toma esta estúpida pulseira de melhores amigas! — diz arrancando a pulseira que eu tinha feito com tanto carinho, uma das três, fazendo com que miçangas se espalhassem por todo o lado.
Tali... a culpa não foi minha... eu...
MENTIROSA! A culpa foi toda tua! Nunca mais me fales! E sabe que mais?!
Eu apenas fico calada sem saber o que dizer ou fazer, então ela continua.
Eras tu que devias morrer, não a minha irmã!
Começo a chorar ainda mais. Nunca quis que isto acontecesse e também nunca pensei que iria ouvir uma das minhas melhores amigas, aquelas por quem eu daria a vida, dizer que eu devia morrer! Aquilo magoou-me muito...
Pouco depois apareceram as ambulâncias. A Tali foi com a irmã mas eu sabia que já não havia nada a fazer.
Apenas fiquei ali, no meio da rua, a ver a ambulância afastar-se a toda a velocidade com as luzes a piscar e a sirene ligada.
A culpa não foi minha... não foi minha...
***
A culpa não foi minha! — grito voltando a acordar assustada.
Vejo os meus avós e a Gabi ao lado da cama de hospital onde estou deitada. Os meus avós parecem preocupados pelo grito que dei ao acordar.
Voltaste a sonhar com o dia do acidente? — pergunta a minha avó já adivinhando a resposta.
Eu acenei com a cabeça em confirmação e volto a deitar-me.
O médico pensou que estavas a delirar por causa da reação alérgica — explica o meu avô sentando-se na borda da cama, perto dos meus pés.
Foi muito imprudente da tua parte comer morangos e chocolate ao mesmo tempo! Podia ter acontecido algo muito grave!
A minha avó nunca gostou da palavra "morte". Diz sempre que essa senhora só a irá visitar quando ela for velha. Acho que a dona Rosa ainda não reparou que tem uma neta de 15 anos, ou mais...
Mas não vamos agora pensar em desgraças! — diz com um sorriso animador — A tua irmã tem algo para te dizer não é?
Sim! Parabéns mana! — diz a loirinha contente saltando para o meu pescoço.
Retribuo o abraço e sorrio. Parece que nem tudo está a correr mal hoje...
Assim que nos separamos ela entrega-me uma rosa azul mas fico confusa ao ver a cara emburrada da Gabi e pergunto:
O que é que foi?
Tu dormes muito! — resmunga de braços cruzados e eu rio baixinho. — Eu queria ter dado os parabéns antes mas tu ficaste a dormir até agora!
Nós os três rimos da fofura dela.
Que horas são vô? — pergunto-lhe já que ele anda sempre com um relógio.
Já passa da uma da tarde.
Meu Deus! Nunca dormi até tão tarde! Mesmo ao fim-de-semana! — exclamo surpresa mas depois lembro-me de outra coisa — O que é que o médico disse? Já posso ir embora?
***
No carro, a caminho para casa, já era a vigésima vez (sim, estou a contar) que a minha avó me avisava para não me esquecer de tomar os comprimidos que o médico receitou e de todas essas vezes o meu avô reclamava que eu já sabia cuidar de mim. Às vezes são engraçadas as formas de pensar, completamente opostas, dos meus avós, e mesmo assim, eles amam-se, mesmo com as discussões mínimas deles.
Gabi — chamo-a enquanto os avós continuavam a discutir sobre a minha capacidade de tomar conta de mim própria — Estás melhor?
Muito melhor! Ainda estou um pouco constipada mas já não tenho febre. E tu?
Acho que sim...
Olho pela janela do carro e fico a observar a paisagem passar depressa.
Aquela memória ainda te assusta não é?
Sim... um pouco. Sinto-me culpada pelo que aconteceu...
Mas a culpa não foi tua. Lembra-te disso!
Eu não sei... é tudo muito confuso! Perdi o meu melhor amigo aos 9 anos e aos 12 a minha vida nunca mais foi a mesma... Às vezes... às vezes penso que a Sousa tem razão.
Como assim?
Deveria ter sido eu a morrer e não a Lou...
Nem digas uma coisa dessas! Já imaginaste como ficaria a tua família?
Do mesmo modo que a família Sousa ficou?
É... nesse ponto tens razão mas o melhor mesmo é não pensares nisso.
Ah... consciência?
Sim?
Eu acho que conheço a tua voz...
Claro.
Quem és tu? Quer dizer, em quem é que o meu subconsciente se inspirou para me dizer o que é certo e errado?
Isso é segredo, mas só te digo uma coisa.
O que?
Saberás muito em breve.
Chegamos finalmente! — ouço a voz da Gabi despertar-me dos meus pensamentos. — A mãe telefonou quando estavas a dormir e pediu para te darmos os parabéns e as tuas prendas! — diz a pequena enquanto saltitava no banco do carro.
Ye...! Imagino o que será... — digo nada animada já fora do carro.
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