A Vida Da Miss Invisible
8 Dá-me essa câmara já!
Notas iniciais
Por esta é que eu não esperava mesmo! Tenho que admitir que desta vez a minha mãe conseguiu fazer-me muito feliz!
Não sei porque é que ela optou por me oferecer isto já que ela tem tantos medos e receios acerca disso... o meu avô deve ter dado a ideia. Só pode!
Mas... Uau! Eu nem sei o que dizer!
– Motas?! E logo duas?! Ai meu Deus... vou desmaiar de emoção! — digo totalmente animada.
– Gostaste mesmo? Deu muito trabalho para convencer a tua mãe — diz o meu avô de olhos postos nas motas.
– Oh vô! Muito obrigada! — digo contente saltando para o seu pescoço e dando-lhe um beijo estalado na bochecha.
– Ainda não acho muito boa ideia. Conseguiste convencer a nossa filha mas a mim ninguém me convence! — diz a minha avó de braços cruzados.
Também lhe dou um abraço que ela retribui e depois aproximo-me das duas motas. Uma delas é uma Vespa vermelha (uma das cores que mais gosto) muito linda com um bilhete colado no banco. Pego nele e leio.
"Para ires para a escola. Paguei-te a carta. Sei que não gostas daqueles grandes carros que te disponibilizo por isso pensei em dar-te uma forma divertida e simples de ires para a escola. Espero que tenhas gostado!
Com amor, mãe."
Por esta é que eu não esperava... Pensei que ela não me conhecia nem a ponta do dedo e depois faz-me uma surpresa destas! Estou sem palavras.
A outra mota é bem diferente. Tem um aspeto mais masculino e veloz mas adorei-a mesmo assim. Uma Honda preta magnifica com outro bilhete em cima do banco.
"Tem cuidado com esta! Usa sempre o capacete está bem? Agradece ao teu avô que me convenceu a comprar esta também.
Espero que tenhas cuidado e não tentes nada imprudente!
Para o caso de quereres fugir aos problemas acho que esta seria uma ótima mota não?
Beijos filha.
P.S.: Pela terceira vez, cuidado e depois telefona-me."
A minha única reação foi sorrir. Estou feliz por, pelo menos isto, estar a correr bem. E para completar a minha felicidade recebo uma máquina fotográfica, aquelas que os fotógrafos profissionais usam, prenda dos meus avós.
Nunca liguei muito a bens materiais (coisas que eu tenho até em demasia) mas liberdade e fotos nunca estarão a mais na minha vida.
Depois de telefonar à minha mãe para agradecer a surpresa (fui sincera, disse que foram as melhores prendas que já me ofereceu e ela pareceu ficar muito feliz), tomar um banho demorado, vestir algo diferente e comer um almoço improvisado (com isto quero dizer que fiz uma sandes) decido ir passear um pouco.
Num sábado como os outros eu teria ficado a ler em casa, meio deprimida meio aborrecida, mas tornou-se quase uma tradição eu ir passear um pouco no dia dos meus anos para tirar fotos. Claro que os meus avós ficaram a tomar conta da Gabi porque pensaram que eu ia sair com as amigas! Não lhes estraguem a vida cor-de-rosa.
Vou com a Vespa! É isso mesmo! Não me vou sentir tão livre como se fosse com a Honda mas não quero arriscar a vida pela segunda vez hoje. Ainda não me sinto preparada para a usar... talvez daqui a um tempinho.
Coloco a máquina fotográfica ao pescoço e arranco. Podia ter colocado a camara num lugar mais seguro (dentro do banco, por exemplo) mas quis levá-la assim para poder estar à mão caso veja algo que queira fotografar.
Às vezes penso que sou mesmo um pouco estranha. Que adolescente de 16 anos passa o dia do seu aniversário a tirar fotos a árvores, animais e pessoas que não conhece de lado nenhum?! Só mesmo eu... Mas eu gosto disso.
Não tiro fotos a momentos especiais desde que aconteceu aquele acidente. A minha vida nunca mais foi igual e talvez por isso eu continue a fotografar coisas bonitas ou fofas, só para ocupar o vazio que sinto na minha alma.
Depois de um tempinho a vaguear pela cidade sem encontrar nada de novo decido ir ao Parque das Rosas, o segundo lugar que mais me faz lembrar o Leo... Passámos muito tempo aqui, enquanto as nossas mães punham a conversa em dia (tempos em que a D. Ana Mendes ainda não era tão atarefada com o trabalho). Até me lembro que chegamos a criar uma casinha improvisada com ramos e folhas, numa parte mais escondida pelas árvores.
O Parque das Rosas, apesar de antigo, continua a ser bem cuidado. À entrada está um portão grande, verde musgo, que apesar da idade continua brilhante e sempre aberto a quem quiser entrar. Um caminho de terra que atravessa a relva como um tapete que convida a entrar mas pára aos poucos, mais à frente. Ambos os lados do parque têm relva macia e verde, várias árvores de copa larga cuja sombra parece um céu estrelado, uma grande fonte mais ao centro do parque com o bebé Cupido e também, como se era de esperar, várias roseiras de cores e formatos diferentes. Só para saberem, o Parque das Rosas foi assim chamado porque, ninguém sabe porque, começaram a nascer roseiras pelo parque, e todas diferentes.
Todos os anos venho aqui tirar fotos e, todos os anos sem exceção, acontece algo interessante com as minhas fotos. Lembro-me que o ano passado fotografei um casal de velhinhos a beijarem-se num dos bancos do parque e poucos minutos depois o velhote já me tinha pedido para emoldurar a foto porque ele queria oferecer à esposa no seu aniversário de casamento. Eu aceitei e dois dias depois o senhor ficou todo feliz com o meu trabalho. Ele quis pagar-me pela foto mas eu recusei, não seria necessário. Acabei por sair da casa do senhor com umas moedas para o lanche...
O que será que vai acontecer este ano? Brrrr... sinto um frio estranho na barriga. Será que vai acontecer algo mau...?
Não quero pensar nisso agora. Vamos lá ver o que posso fotografar.
Adentro o parque e passeio um pouco por ele. Encontrei duas crianças, com cerca de 6 anos no máximo, ambas meninas, de mãos dadas a apanhar margaridas para colocar no cabelo uma da outra. Vou fotografar isto!
Assim que consigo a foto que queria saio de trás da árvore e vou embora dali enquanto olhava para a imagem que eu acabara de conseguir. Além de ser um momento de pura fofura também tinha bastante inocência e alegria no momento... simplesmente por uma das meninas ser loira de olhos azuis-claros, com a pele muito branquinha e o cabelo liso a descer pelas costas e a outra menina ter cabelos castanhos e olhos da mesma cor, mas em contraste com a amiga, tem a pele da cor do café e os cabelos curtos e encaracolados.
Era ótimo se os adultos fossem assim. Sem preconceitos, medos ou racismo!
Passo mais uma hora e meia a fotografar outras coisas mas nada muito importante. Pássaros, flores, cães a brincar... nada fora do comum.
Estava quase a desistir de tirar mais fotos quando vejo um cena interessante. Um casal de namorados da minha idade a beijarem-se num banco do parque. Está bem! Já tirei fotos suficientes a pessoas a beijarem-se mas... algo me chama a atenção neles...
Posiciono-me atrás de um arbusto e tiro a foto mas, vejam só a minha sorte, parece que o flash da camara se ligou sozinho! Ai que raiva! Tudo conspira contra mim!
Se sair agora do "esconderijo" eles podem ver-me mas por outro lado se ficar aqui, mais tarde ou mais cedo, eles irão encontrar-me e sabe Deus o que podem fazer com a minha camara nova...
– Está-se bem aí em baixo? — ouço uma voz perto de mim.
Olho para cima receosa enquanto aperto a máquina fotográfica contra o peito. A primeira coisa que vejo são uns olhos castanhos caramelo e um sorriso. Não. Espera! Ah, eu estou a ver ao contrário...
Levanto-me com um salto.
– D-desculpem-me. N-não quis ser intrometida. Juro! — digo atrapalhada diante do olhar chateado que o rapaz me lançava.
– Mas foi mesmo isso que tu foste! Dá-me isso! — diz tentando alcançar a minha máquina fotográfica mas falha porque eu levanto o braço.
– Não dou! — respondo indignada.
– Dá-me essa camara! — insiste voltando a tentar alcançar a máquina, mas eu volto a desviar a mão.
Ficamos um ou dois minutos nisto até que ele consegue pegar na máquina fotográfica.
– Ei! Isso é meu! — reclamo.
Ele olha para mim de lado enquanto procurava a foto para a apagar. Mas nesse momento a garota, namorada dele, que esteve este tempo todo quieta, levanta-se, retira a camara das mãos dele com facilidade e devolve-ma com um sorriso doce.
– Obrigada — agradeço timidamente.
– Não tens de quê.
Vira-se para o namorado e diz:
– Agora pede desculpas à menina!
– Eu?!
– Sim, tu! Para que o espanto?
– Ela é que se meteu onde não devia! — diz indignado.
– Mas ela já pediu desculpa! Coisa que ainda não te vi fazer... — diz cruzando os braços.
O moreno suspira frustrado e resmunga um "desculpa" quase inaudível.
Eu fico sem saber o que fazer, afinal de contas, fui eu quem foi intrometida, ele apenas se "defendeu" (de um modo que quase me estragava a máquina nova!).
Interessante...
Não sei porque, como, quem ou qualquer outra coisa, mas este rapaz faz-me lembrar alguém que conheço... quem seria?
Nunca o vi na escola ou em qualquer parte da cidade, muito menos ela, uma ruiva de olhos cinza. Que estranho...
– Que foi? — pergunta ele desviando a atenção do sermão da namorada ao perceber o meu olhar questionador.
– Já nos conhecemos? — pergunto meio sem esperar resposta.
– Talvez... vives aqui desde sempre?
– Sim, já agora, como é que te chamas? Pode ser que me lembre de algo — digo aproximando-me dos dois.
Ele estende-me a sua mão e eu aperto-a mas gelo ao ouvir o que ele responde.
– Leonardo Ribeiro, mas todos me tratam por Leo.
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