A Vida Alheia

12 XII - Segunda-feira


Notas iniciais
Olá, desculpe pela demora.

Clarisse pulou da cama assim que ouviu o som do despertador, sua necessidade por um longo e cansativo dia de trabalho com pessoas mal humoradas que fingiriam estar bem na sua presença. Sentia que precisava de uma longa reunião estressante.

Vestindo uma saia preta justa que tinha todo um ar serio e uma camisa azul escura com preguinhas e os botões abertos formando um decote generoso, mas longe de ser vulgar.

Na cozinha preparou seu café forte e antes de sair olhou para o sofá fazendo uma careta ao ver sua prima jogada em seu sofá contaminando tudo com saliva. Depois da imagem deplorável ela bateu a porta e direcionou-se ao elevador.

Por um momento sentiu-se aliviada por não ter que dividir o elevador, mas no segundo seguinte entrou um garoto correndo para dentro dele, ele deu um sorriso sem graça e olhou seu reflexo.

Clarisse o observou disfarçadamente, ele não parecia ter mais que dezesseis anos, as espinhas no seu rosto e sua roupa não deixavam nem que ela pensasse estar enganada, mas nunca havia o visto por ali.

—Bom dia._ Ele disse medindo-a com um olhar.

— Bom dia_ Ela cumprimentou de volta, apenas por educação e voltou a olhar para frente.

—Sou novo aqui no prédio, me chamo Caíque, sou neto da Dona Carmem._ O garoto comentou puxando conversa.

Clarisse o olhou pelo canto do olho e percebeu uma certa semelhança entre os dois, não que ele usasse óculos de grau grossos e vestidos com estampas, mas eles tinham aqueles olhos de quem sabe de tudo, olhos cheios de confiança.

“Nunca imaginei que aquela velha tivesse netos, achei que só tivesse gatos que não conseguiam fugir dela.”, pensou um pouco confusa.

—Ah sim eu a conheço... Me chamo Clarisse_ Ela falou só para preencher o silêncio e não deixar o garoto sem uma resposta.

—Prazer em conhece-la Clarisse, você é do 112?

—Sim._ Respondeu secamente, sem querer entrar em algum assunto, não tinha a menor paciência para lidar com as pessoas, muito menos pessoas que não tinham nada em comum com ela; como um garoto com um skate em mãos.

“Posso até imagina-lo com os outros coleguinhas no playground”, pensou sarcástica.

Caíque observou Clarisse, não parecia ser ela a pessoa da qual sua avó falava com as outras moradoras e nem a que Giovana citou numa conversa rápida.

“Ela não parece tão velha, parece cansada, um pouco sonolenta, mesmo com a maquiagem é possível notar suas sutis olheiras... Mas não parece velha ou uma senhora como Giovana disse.” Ele pensava dando algumas olhadas indiscretas.

Assim que a porta se abriu, Clarisse andou rapidamente para pegar o taxi que já estava parado na porta do prédio, pois seu carro só ficaria pronto no final da tarde. O garoto que ainda ficou parado no elevador olhando o andar da mulher do 112.

Dentro do taxi Clarisse pegou o celular dentro de sua bolça e mandou uma mensagem com algumas instruções para sua secretária, que desde o dia em que foi pega no almoxarifado evitou um contato direto com a chefe.

Clarisse preferia assim... Gostava da sensação de poder sobre aquele prédio, manter todos ali sob pressão além de lhe dar poder, era um “teste”, quem não podia aguentar devia se retirar, ela só queria pessoas que estivessem preparadas para suportar toda a pressão e a rivalidade que há no mundo empresarial.

O taxi parou e o taxista olhou pelo retrovisor para a passageira, ela saiu de seus pensamentos, pagou o taxista deixando-lhe com o troco e saiu do taxi. Parou na calçada olhando a faixada do prédio, as janelas que refletiam a claridade do sol... Aquele era seu único e grande amor.

+++++

Daniel levantou rapidamente da cama quase tropeçando nos lençóis, olhou para o relógio só para constatar que estava atrasado e ver quanto tempo, ficou pasmo ao ver que estava quase uma hora atrasado. Correu para o banheiro, tomou um banho rápido, vestiu-se, já pegando o celular para chamar um taxi e pegou tudo que precisaria. Por fim olhou tudo a sua volta procurando qualquer coisa que poderia estar esquecendo; tudo estava muito bagunçado, mas não parecia ter nada que deveria levar.

Seus olhos passaram rapidamente por todo o lugar, pelos livros empilhados, pelo gato sentado na janela lambendo as patas, pelas gavetas abertas e pela cama cheia de coisas. Convencido de que não faltava nada, Daniel passou a mão pelos cabelos e trancou a porta.

Com pressa de mais para pegar o elevador, ele andou rapidamente até a porta que levava as escadas, seriam muitos degraus, mas sabia que do jeito que estava não aguentaria esperar pelo elevador que provavelmente demoraria.

Ao chegar na porta de saída respirou fundo agradecendo mentalmente por ser rápido, deu um rápido aceno para o porteiro e entrou no taxi que já o esperava. As instruções foram dadas ao taxista e a pressa foi deixada clara, não estava a passeio.

No caminho, Daniel só pensava no problema que teria se não conseguisse chegar a tempo, ou na possibilidade do Cassio facilitar tudo, o que seria bom por um lado, mas ruim pelo seu ego. Tinha a sorte de saber que resolveria o que tivesse que ser resolvido e que seus atrasos deixariam de ser um problema, mas em quanto ainda não sabiam o quanto era bom; a melhor coisa era chegar na hora certa.

Quando o taxi parou, Daniel entregou o dinheiro para o taxista e nem esperou pelo troco, saiu de pressa do taxi e atravessou a rua para entrar no prédio.

—***-

Clarisse entrou no elevador, apertou o botão que levava até o andar de seu escritório. Ao sair do elevador e andar pelo corredor onde algumas pessoas lhe davam sorrisos educados e cumprimentos, os quais ela respondia com um aceno ou com um “bom dia” numa voz mal humorada. A única coisa que ela queria era chegar em seu escritório e acabar com a pilha de papeis que devia haver ali, não precisava que ninguém fingisse estar feliz por vê-la.

A mesa de sua secretaria estava vazia, o que a fez fazer uma careta; sua secretária devia chegar antes dela para deixar tudo pronto: seu café em cima da mesa, recados anotados, uma secretária pronta para dizer todos os eventos da semana e todas as propostas de outras empresas... Tudo que uma secretária devia fazer.

“Só espero que ela não esteja no almoxarifado, se estiver terei que demiti-la.” Ela pensou e continuou andando até sua sala.

—***-

Ana havia atendido uma ligação de Cassio assim que chegou no escritório, ele disse que havia uma nova contratação de um designer, que ela devia recebe-lo e mandar a fixa para o RH. Ela ficou desconfiada e tentada a recusar o pedido que mais parecia uma ordem por causa do tom que ele usava.

Ela só recebia ordens de Clarisse e em alguns casos do Felipe, mas ele tinha sua própria secretária e quase não ficava em seu escritório, sempre tinha uma reunião fora do prédio... A secretária pensou em perguntar sobre a nova contratação para sua chefe, mas teve medo de ligar numa hora errada ou acabar irritando-a, além de ainda sentir-se envergonhada pela situação no almoxarifado.

Ana mordeu o lábio pensativa, perguntando-se o que fazer. Mas tinha que ser rápida, então pensou em como Clarisse e Cássio pareciam amigos, pareciam ter uma certa proximidade.

“Ele não faria algo ruim...” Pensou já andando em direção á sala onde ficava a fala da moça do RH para esperar o novo contratado.

A secretária sequer perguntou-se o porquê de um reles designer ser tão importante para que Cassio ligasse tão cedo para avisa-la.

—***-

Assim que entrou no prédio Daniel percebeu o segurança lhe olhando dos pés a cabeça, ele aproveitou para perguntar onde ficava o setor de RH. Não se importava com os olhares curiosos que poderia perceber. O segurança apontou para um corredor, mantendo a cara fechada, ele agradeceu e foi andando até o corredor.

—Você é o Daniel?_ Ana perguntou, já estava um pouco tarde e sua impaciência estava aumentando, se aquele não fosse o tal Daniel, ela voltaria para seu trabalho.

—Sim._ Ele respondeu olhando a garota que parecia um pouco irritada.

Ana o olhou de cima a baixo, não lhe parecia com nenhum dos outros designers da empresa, e em sua concepção não parecia alguém que Clarisse contrataria: as tatuagens que iam até metade de suas mãos o cabelo um pouco grande e a postura nada formal .

“Droga, mas quem sou eu para falar de formalidades... Fui pega no almoxarifado, na porcaria do almoxarifado.”, Ela pensou sacudindo a cabeça e voltando para o que interessava.

— Está atrasado._ Falou começando a andar e sinalizando para ele segui-la._ Preencha essa fixa e depois me entregue; irei te mostrar seu andar...

Daniel seguiu a secretária olhando o interior do prédio que tinha paredes muito brancas, alguns detalhes em metal e muitas cores frias, tudo ali tinha um ar frio e até um pouco clássico e sério. Mas não se podia negar o bom gosto de quem escolheu tudo aquilo.

—Cassio pediu para eu te levar a uma sala individual._ Ana comentou esperando ouvir alguma explicação, mas nada foi dito._ Nenhum designer tem uma sala individual, apenas os sócios e quem tem cargos altos._ Ela continuou.

Daniel já havia entendido o que a secretaria queria saber.

— Desculpe, mas o que você faz aqui na empresa?_ Ele perguntou franzindo o cenho.

— Sou secretária da sócia._ Respondeu com a voz cheia de orgulho.

—Ótimo, então pergunte a ela o que quer saber em vez de tentar ser sutil._ Ele falou com um sorriso no rosto.

Ana virou-se e levou-lhe para a sala e saiu sem dizer nada.

Daniel terminou de preencher a fixa e deixou num canto de sua mesa, ligou o computador que estava em cima da mesa e começou a procurar qualquer coisa, acabou encontrando uns arquivos de marketing da empresa que estavam disponíveis no sistema de todos os computadores.

Depois de algum tempo ali em sua sala que era mais espaçosa que a que tinha na em presa em que trabalhou, Daniel levantou e abriu a porta e olhou para o corredor. Estava quase em horário de almoço, e como não estava fazendo nada importante em seu primeiro dia, resolveu andar um pouco.

—***-

Clarisse olhou o relógio pela terceira vez, detestava atrasos, ainda mais quando coisas importantes podem estar esperando.

Ouviu um barulho vindo do lado de fora da sala e levantou-se indo saber se finalmente era Ana. Abriu a porta e viu a secretária pegando sua agenda e alguns papéis apressadamente, sequer percebendo sua presença.

Ana deu alguns passos em direção à sala de Clarisse e enfim percebeu sua chefe parada na porta com uma expressão ainda pior do que a expressão de toda segunda, a secretária respirou pesadamente e já ia começar a se explicar quando Clarisse fez um sinal com a mão para que ela parasse.

—Não preciso saber o motivo de seu atraso, só quero que não se repita... Está acabando com sua cota de erros mensais._ Clarisse terminou sarcástica.

Ana voltou seus olhos para as anotações em sua agenda, as letras bonitas que sempre fazia mesmo escrevendo rapidamente.

—Sim senhora._ A secretária falou olhando de volta para os olhos esverdeados que pareciam tão superiores.

— Vamos lá, o que temos para hoje._ Clarisse falou indo de volta para dentro da sala e sendo seguida pela secretaria.

—Alice Prado ligou e passou os horários e datas de prova de buffet e o casamento foi marcado para o dia 23 de setembro na...

— Ana, me diga apenas coisas importantes, não estou aqui para saber sobre preparativos de casamento._ Interrompeu.

A secretaria maneou a cabeça, lembrando-se da inimizade entre sua chefe e a noiva do Felipe, mas achou que ela tentaria fazer um esforço pela amizade que os dois tinham... Estava completamente enganada.

—Elisa avisou que o Senhor Felipe não poderá comparecer ao almoço dessa quinta com os outros sócios...

—O quê?!_ Clarisse a encarou cética.

—Ele irá para a prova do buffet._ Ana falou um pouco cansada de ser interrompida e preparando-se para ouvir as reclamações de Clarisse.

“Não posso entender... Como ela encontra tantas coisas para se irritar, se preocupar e se estressar, sendo tão rica e tendo tudo que quer? E tendo a sorte de ter nascido com um tipo de pilim natural, alta e magra sem ser esquelética!” Ana pensava.

—Ele sabe como essa reunião é importante nesse momento da empresa..._ Clarisse falou por fim ainda irritada, mas respirou fundo e pediu para Ana continuar dizendo o que haveria na semana.

—****-

Daniel andou pelos andares do prédio observando o comportamento de todas aquelas pessoas, engravatadas com expressões preocupadas, mulheres que disfarçavam a dor que sentiam por causa dos scarpins. Alguns viravam-se para conversar com alguém, outros só cumprimentavam as pessoas numa parada para repor o café em sua xicara.

Olhando todas aquelas pessoas apressadas, pode perceber o porquê dos olhares curiosas, ele era um tanto quanto diferente de todas aquelas pessoas, não só na forma de se vestir, mas em tudo. Todos ali pareciam a ponto de ter um ataque de tão tensos, pareciam achar tudo aquilo extremamente importante, mas não deviam nem saber exatamente o motivo de ficarem tão nervosos...

A pessoa que mais lucrava com esse estresse era o presidente da empresa, alguém no cargo mais alto.

Daniel não pode deixar de sentir um pouco de pena daquelas pessoas que trabalhavam tanto para cumprir metas que podiam nem lhes pertencer.

Lembrando-se das instruções que a secretária de Cassio mandara, foi para o setor de design buscar pelos projetos atrasados.

—***-

—Ótimo Ana, agora já pode ir._ Clarisse disse pegando os papéis que a secretária segurava.

Ana hesitou, mas decidiu perguntar pois não aguentaria ficar mais tempo com aquela duvida.

—A Senhora já viu o novo contratado?_ Perguntou sorrateiramente.

Clarisse riu com desdém.

— Não Ana, não fico procurando saber sobre novos contratados, isso é com o RH, não faço entrevistas a muito tempo.

— É que essa contratação veio com indicação do Senhor Enrico.

Clarisse encarou a secretária com o cenho franzido, sabia que com “Senhor Enrico” ela estava se referindo ao Cassio. Mas se perguntava o que Cassio estaria fazendo, até que lembrou-se da ultima vez em que se viram.

“_ Do que você está falando Clarisse?

—Estou falando que os filhos da puta daqueles maconheiros metidos a artistas não estão criando e tive que parar, as novas produções estão atrasadas.

—Se é esse o seu problema eu tenho uma ótima solução, conheço um cara que trabalhava com Design Gráfico.

— Se você mandar um pichador para a minha empresa eu acabo com essa sua fama de bom moço, não se esqueça que sei coisas sobre você...”

—Ele me avisou que mandaria alguém._ Clarisse falou fingindo não ligar, mas estava um pouco curiosa para saber quem ele havia mandado.

Notas finais
Comentem, preciso saber o que estão achando.