A Vida Alheia

13 XIII - Mundo pequeno


Notas iniciais
Olá, Desculpe pela demora novamente.

Daniel não se forçou a fazer algo, não tinha a menor vontade de por as poucas ideias que já tinha em pratica, tudo ainda estava muito cru... Então olhou o relógio; faltavam duas horas para o final do expediente.

Sua decisão foi rápida, ele andou pelo corredor, de volta para o elevador; nele haviam três pessoas, todas com suas respectivas posturas formais. Na saída do prédio, passou no RH e deixou sua fixa, era melhor do que ter que ir atrás da secretária.

No mesmo instante em que pôs os pés na calçada, seu celular tocou, e a noticia que veio do outro lado da linha acabou com seus planos de dar uma volta, pois já tinha o que fazer, tinha que buscar seu carro.

Daniel andou até a Oficina, não era muito distante mas não se pode dizer que são apenas algumas quadras. Entretanto ver todas aquelas pessoas apressadas e diferentes o faziam se distrair e nem perceber se ainda faltava muito para chegar.

Ele sempre sentiu como se morasse naquele lugar a muito tempo, via as mudanças, os outdoors, as placas, as propagandas das lojas que pareciam cada vez mais desesperadas...As cores chamativas em cada lugar, a poluição sonora, o cheiro de café misturada com a poluição que saia dos escapamentos, tudo parecia tão frio e tão apelativo para o lado emocional. Mas tudo mudava a todo momento, todos acabavam se esbarrando, os moradores das ruas se misturavam com os pedestres engravatados e os ladrões ainda corriam com os pertences roubados.

Seus passos eram lentos e seus olhos fitavam todas aquelas pessoas, os olhares aflitos para relógios de pulso, as corridas até o outro lado da rua, a falta de paciência ao esperar o sinal fechar e toda aquela desordem.

Entrando na oficina sentiu como se todo aquele som fosse abafado pelo som das ferramentas, dos motores e das conversas.

A moça que atendia os clientes estava ao telefone, mas quando o viu parado a sua frente sinalizou para que ele dissesse o que o levava ali.

“Vim buscar meu carro”, ele disse pensando no que mais poderia ter ido fazer numa oficina.

—Senhor Gouveia gostaria de vê-lo, poderia me acompanhar?._ Ela perguntou dando alguns passos em direção a escada que levava ao escritório.

Daniel a seguiu com um sorriso sarcástico no rosto se perguntando como seu irmão podia ter para aquelas pessoas uma posição seria dentro de seu escritório.

—O que houve?_ Perguntou assim que a secretária fechou a porta saindo da sala, deixando-os a sós.

— Não posso querer falar com meu irmão mais novo que some e aparece com seu carro todo amassado?_ Marcelo perguntou de volta.

Daniel preferiu não responde-lo, sentou-se na cadeira disponível e aguardou, sabia que seu irmão mais velho tinha mais a dizer, sempre tinha mais a dizer.

— Flávia voltou?_ Perguntou sem rodeios.

—Não.

—Depois de três anos você não liga se ela te deixar?

Daniel olhou seu irmão que tinha o cenho franzido, não parecia muito mais velho, mas tinha aquele ar inflexível.

—Ela não estava satisfeita, não iria insistir para que ficasse e não iria me tornar uma marionete.

—Não se trata de ceder ou de se tornar manipulável... Você precisa amadurecer, e para isso você precisa enfrentar seus problemas, pelo menos tentar resolvê-los.

—De qualquer forma, não daria certo com a Flavia._ Daniel disse dando de ombros.

Marcelo forçou-se a mudar de assunto sabendo que Daniel não iria mudar de ideia.

— O que aconteceu com o seu carro?

—Um pequeno acidente._ Daniel comentou lembrando-se de sua vizinha._ Agora se for só isso... Tenho que pegar meu carro, pagar a conta e volta para meu trabalho._ Ele disse levantando-se.

—Apareça no domingo, Carolina fará um almoço especial._ Marcelo avisou antes que Daniel saísse da sala.

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Clarisse levou sua mão á xicara de café que ficava do seu lado direito, e tirou os olhos da tela do computador apenas para constatar que o café havia acabado. Fez uma careta e levantou-se para recarregar sua xicara. Do lado de fora de seu escritório, Ana não estava, o que a fez franzir o cenho e andar até o outro lado da sala onde estava uma mesa com uma maquina de café.

Ouviu o som dos passos pelo corredor, os burburinhos e sons das cadeiras. Andou lentamente pelo corredor observando algumas pessoas que a olhavam de volta um pouco surpresas, era raro vê-la caminhando pelos corredores, outras pessoas sequer reparavam em sua presença.

A xicara em suas mãos ia se esvaziando em quanto ela passeava pelos andares, pelas mesas. Como se fosse um fantasma perdido ali, evitando entrar no caminho daquelas pessoas.

Seus passos lentos a levaram ao andar que mais detestava nos últimos meses e que a fazia irritar-se, mas não tinha como fugir dos designers.

“Quem sabe, com a minha presença eles se sintam mais forçados a produzir...” Clarisse pensou erguendo uma sobrancelha. Fez questão de fazer barulho, de ser vista por todos ali, com sua postura mais autoritária.

Depois de algum tempo, percebeu que eles fingiam estar fazendo coisas de extrema importância, como se estivessem desesperados. O que a irritou, pois sabia que eles não estavam criando tanto quanto antes, não sabia o motivo do desanimo deles.

Desistiu de observa-los e foi na direção do elevador novamente, mas no caminho algo chamou sua atenção; a única sala individual parecia ter sido destrancada. Clarisse a abriu mas não havia ninguém ali.

Clarisse se perguntou porque haviam colocado alguém ali, aquela sala se assemelhava a sua, a de Susana e a de Felipe, não era uma sala para qualquer um.

Ela andou até a janela que ocupava toda a parede, mostrando a belíssima vista. A vista não a distraiu de suas preocupações; seus pensamentos iam do encontro de quinta com os sócios ao que Cassio teria feito.

Felipe sempre ia aos jantares, festas e reuniões menos formais com os sócios, por isso ela sempre deu alguma desculpa para não ir, para não ter que forçar sorrisos e receber olhares indiscretos. Mas dessa vez teria que estar pronta para as perguntas desnecessárias e olhares especulativos.

Carlos e Rodrigo eram seus sócios, ela lembrava vagamente da ultima vez que tinha os visto; Rodrigo estava com sua namorada que na época era uma modelo iniciante, mais isso não impediu que ele a devorasse com os olhos. Carlos permaneceu como sempre, a imagem de um homem serio que só tinha olhos para negócios, mas todos sabiam que ele só se interessava pelo que ganharia.

O som da porta se abrindo fez Clarisse sair de seus pensamentos mas não a fez virar-se para encarar quem adentrava a sala.

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Daniel estacionou seu carro que parecia nunca ter sido amaçado, sem duvida haviam feito um bom trabalho.

Ele caminhou calmamente pelos corredores, como se não tivesse saído do prédio em momento algum. Até que parou em frente a seu mais novo escritório e abriu a porta.

Um pouco confuso ao ver a mulher de costas, imaginou que poderia ter errado o andar e deu alguns passos para trás olhando para os lados, e sim aquela era sua sala, então voltou a entrar nela.

—Com licença, essa é a minha sala._ Avisou abrindo mais a porta e esperando que a mulher saísse.

Clarisse ouviu a voz que tinha um pouco de humor e virou-se para ver quem Cassio teria mandado. Para sua total surpresa.

Daniel, também surpreso, a encarou com o cenho franzido vendo sua vizinha. Por alguns segundos cogitou que aquilo fosse algum tipo de brincadeira, mas ao ver que ela parecia muito mais surpresa, esqueceu essa hipótese.

—Cassio te mandou, certo?_ Ela perguntou recuperando uma postura implacável, fingindo não saber quem ele era.

—Certo, meu nome é Daniel. E você é? ..._ Ele perguntou estendendo a mão.

—Clarisse Safra Villela, sou uma das sócias._ Disse apertando a mão de Daniel, sentindo sua mão ser praticamente coberta pela dele.

Naquele momento ele lembrou-se quem ela era, de onde sentia que se lembrava daquele nome.

“Maldito mundo pequeno...”, ele pensou apertando a mão dela.

— É um prazer conhece-la senhora Villela.

Clarisse não gostava muito desse “Senhora Villela”, seu pai é o senhor Villela, o ultimo contador de uma das maiores multinacionais, e também conhecido pelos boatos de desfalques e desvios. Todos que têm o mínimo de contato com o mundo dos negócios já ouviu falar dele. Muitos acreditam que esses boatos sejam verdadeiros e que muitas pessoas foram chantageadas e acabaram sem dizer o que sabiam. Já Clarisse vê essas histórias como mentiras, por saber o quanto é fácil alguém ter inimigos quando se está envolvido muito dinheiro.

—Pode me chamar de Clarisse._ Ela falou andando um pouco pela sala._ De onde você conhece o Cassio?_ Indagou observando-o, não parecia o tipo de pessoa que era amigo de Cassio.

— Eu já fiz alguns trabalhos para ele._ Daniel respondeu, e não estava mentindo.

—Certo._ Clarisse comentou, mas ainda não estava satisfeita.

—Precisarei dos projetos atrasados, das datas, do máximo de informação e de liberdade para criar._ Avisou, vendo-a encostar-se em sua mesa.

Clarisse cruzou os braços com a expressão firme, analisando Daniel de cima a baixo. Não se podia negar que ele era muito bonito, mas algo nele a irritava; talvez os olhos que não desviavam ao serem encarados ou o fato dele não hesitar em nenhum momento.

—Você acabou de chegar Daniel, porque não se sociabiliza um pouco em quanto peço para ver sua fixa do RH?_ Ela perguntou um pouco irônica.

—Achei que fosse de extrema urgência..._ Falou dando de ombros._ E não sabia que alguém no seu cargo ficasse checando fixas, talvez esteja precisando de mais contratações do que imaginei..._ Alfinetou por fim.

Clarisse o olhou com o cenho franzido digerindo suas palavras.

—Mandarei alguém entregar tudo que precisa saber, você terá muito trabalho pela frente._ Falou saindo da sala.