A Vida Alheia

11 XI - Fragmentos


Daniel tirou o celular do bolso, ele vibrava e mostrou um numero na tela, ele não via aquele numero a algum tempo, mas não se incomodou em atender, sabia que para estar recebendo uma ligação daquele numero algo errado devia estar acontecendo.

—O que houve?_ Perguntou olhando para os lados em quanto atravessava a rua.

—Nenhum “Quanto tempo, como vai?”, isso poderia acabar com uma amizade...

—Algum “erro”?_ Daniel indagou, ele sabia que Cassio saberia o que ele estava se referindo.

—Não, só tenho uma proposta_ Cassio falou num tom mais serio.

Daniel esperou que Cassio dissesse o que queria, ele olhou para o outro lado da rua onde uma moça saia de casa vestida com um vestido curto e brilhoso, continuou andando, virou a esquina.

—Preciso que trabalhe numa empresa de...

— Se quer alguma senha ou documento desista, não farei isso._ Ele interrompeu.

—Não é isso._ Cassio falou um pouco irritado pela interrupção._ Você será só um designer Gráfico._ Ele concluiu deixando explicito o tédio em sua voz.

Daniel ergueu a sobrancelha um pouco confuso, para ele não poderia ser tão fácil assim.

—Porque eu que tenho que ser o designer? Tem um monte de designers por ai._ Ele reclamou, mas algo lhe dizia para aceitar logo, não estava em situação de questionar Cassio.

— Porque eu sei que você trabalha bem estando sob pressão e por saber que você foi despedido... Sim mandei alguém ver o que você andava fazendo._ Ele falou como se estivesse adivinhando o que Daniel estava pensando naquele momento e concluiu._ Então, aceita ou não?

—Aceito._ Ele respondeu mal humorado e continuou seu caminho.

—Certo, mandarei minha secretária resolver tudo, ela te enviará um e-mail com todas as informações e você nem precisará de uma entrevista. _Cassio falava como que citando uma grande vantagem e deligou sem se despedir.

Daniel colocou o celular de volta no bolso e andou mais uma quadra pensando sobre o que Cassio estaria planejando, sabia que a empresa na qual queria que trabalhasse devia ser importante para ele; poucas coisas eram importantes para ele.

No dia seguinte a manhã de domingo passou rapidamente, mas a tarde estendeu-se em horas tediosas e sonolentas, pensou em ir até o outro lado da cidade encontrar seu irmão, ver seus sobrinhos... Mas preferiu continuar onde estava.

Depois de mais algumas horas Daniel levantou-se pegou o notebook que estava na mesa no canto de seu quarto e voltou para a cama; abriu cada uma das mensagens em seu e-mail ate chegar na enviada pela secretaria de Cassio, nela havia todas as informações necessárias e as instruções, que provavelmente foram ditadas aos berros por ele.

Quando terminou de ler tudo e reparou bem no nome da empresa na qual Cassio queria que ele trabalhasse, percebeu que era uma das maiores concorrentes da em presa que trabalhara.

“Isso não será um problema, se houvesse algum problema em eu ter trabalhado na empresa concorrente ele teria dito, ainda mais conhecendo minha função anterior.”, Daniel pensava mal acreditando que tudo se resolveria tão rapidamente.

A linha de pensamento dele só se desviou quando Judy pulou para cima da cama e ele apenas a colocou de volta no chão e limpou o lençol.

Daniel olhou a gata por alguns segundos só para se certificar de que ela estava bem e inteira, ela passava a maior parte do tempo fora de casa e poderia voltar com algum ferimento, mas pelo que parecia, ela conseguia se manter inteira.

Ele voltou a olhar para a tela, e ainda assim pode ver pelo canto do olho Judy ir para o outro cômodo.

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Clarisse tentou ignorar a presença de Isis por todo o final de semana; não queria interagir com ninguém, muito menos alguém de quem ela suspeitava.

Depois de tomar seu remédio para dormir e deitar esperando o momento em que seus olhos fechassem habituados com a penumbra do quarto.

Ela nem sempre teve que usar remédios para sono ou calmantes, isso começou quando sua necessidade por crescer profissionalmente se tornou insaciável, quando ela precisou mais e mais de ocupar todo seu tempo com reuniões.

Com todo seu esforço veio o prestigio em meio aos grandes empresários, mesmo sendo a mais nova entre todos conseguiu mostrar o quanto era capaz; conseguiu a admiração e o respeito de grandes investidores.

Perder o sono e ganhar reconhecimento, foi uma troca justa para Clarisse, nunca reclamou do estresse ou do remédio que tinha que tomar para conseguir dormir, pois para ela, aquilo era só uma das consequências de ter conseguido um pouco do que sempre quis. Não ter tanto tempo quanto antes, não viajar como antes, não dormir sem ter que usar algum remédio, acordar cedo e ter que ir a reuniões chatas, eram o preço a ser pago por ter ido atrás do que queria.

Clarisse bocejou e se aconchegou melhor entre os travesseiros sua mente vagava entre assuntos sem aprofundar-se, seus olhos já estavam pesados e foram se fechando.

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Daniel abriu uma das latas de comida para gatos jogou o conteúdo na tijelinha de Judy, que esperava com os enormes olhos amarelos acompanhando todos os movimentos que ele fazia, colocando a tigela no chão.

Judy foi um “presente” de sua sobrinha mais nova que até então a chamava de fadinha, e ganhara o animal de sua tia paterna que não sabia que ela tinha alergia. Alanis ainda chamava seu presente de “fadinha”, nome que Daniel não achou muito apropriado.

Ele preparou tudo que precisaria para o dia seguinte, releu todas as instruções mandadas no e-mail e deitou, tentando dormir logo, pois sabia que seria difícil acordar tão cedo, a nova empresa tinha regras mais rigorosas que a antiga em que trabalhou, nem parecia ter sido fundada a tão pouco tempo tanto pela estrutura quanto pela organização.

Sem perceber seu olhar distraído foi em direção a janela, forçou um pouco os olhos tentando enxergar melhor pelas frestas da cortina do apartamento vizinho, mas só viu escuridão. Um pouco frustrado ele guardou o seus pertences e preparou-se para dormir, evitando olhar novamente para a janela.

Para ele já haviam algumas semanas que não via a mulher do outro prédio, mas mesmo com sua dificuldade em registrar fisionomias conseguiu lembrar-se dos cabelos castanhos, das longas pernas, dos botões abertos da camisa larga que ela usava e de suas expressões. De como mal acreditou que sua vizinha era a mulher arrogante e grosseira que bateu em seu carro e que fingiu muito mal não estar lembrada dele.

Daniel programou o despertador para tocar o mais cedo possível, sabia que tinha grandes chances de atrasar-se e se fosse para se atrasar, seria melhor que atrasasse pouco.