A Vida Alheia
10 X - Visita
Notas iniciais
“Dona Clarisse tem uma moça aqui o nome dela é Isis, ela disse ser sua prima”
Clarisse deu um longo suspiro fechando os olhos sem acreditar no que estava acontecendo e apenas pronunciou um “manda subir” com uma voz desanimada.
Isis era sua prima, filha de sua falecida tia Claudia e do seu tio Marcos que casou-se novamente. Ela era mais nova que Clarisse oito anos, eram como irmãs, mas com o tempo Clarisse se distanciou para ir atrás do que sempre quis.
Ela lembrou-se do rosto pequeno cheio de sardas de sua prima quando tinha onze anos e perguntava o motivo de sua viagem, o porque dela ter que ir para outro estado fazer a faculdade.
O som de batidas na porta a fez deixar suas lembranças e voltar a realidade, indo abrir a porta.
A garota do lado de fora lembrava a menininha sardenta de olhos claros e longos cabelos loiros meio queimados pelo sol, mas os cabelos estavam tingidos de vermelho e bem mais curtos, ela ainda tinha uma pequena estatura e traços mais infantis, havia uma mala em suas mãos que fez Clarisse ter um mal pressentimento.
— Não vai me dar as boas vindas?_ Isis perguntou com um enorme sorriso no rosto, ela estava realmente feliz em ver sua prima bem sucedida, estava feliz de uma forma que não ficava a muito tempo.
—Não antes de saber o motivo da visita._ Clarisse respondeu com uma expressão dura e preocupada, como se fosse uma mãe pronta para por seu filho de castigo por meses.
Isis deu um longo suspiro sentindo o olhar cortante de sua prima e pensando nas melhores explicações.
—Eu... Posso entrar antes de começar a explicar?_ Ela perguntou dando um sorriso sem graça.
Clarisse deu dois passos para o lado dando espaço para a Isis entrar em seu apartamento.
—Pode falar.
—Eu... Vim te visitar._ Isis falou dando seu sorriso radiante na esperança de que fosse amenizar a expressão seria de Clarisse, mas não deu certo.
—Visitas costumam ligar antes.
—Quis te fazer uma surpresa._ Explicou chutando a mala para o lado.
—Sabe que detesto surpresas._ Clarisse falou categoricamente.
Isis deu um longo suspiro cansado.
—Eu não aguentava mais aquele lugar, eu consegui uma vaga numa universidade daqui e a primeira pessoa em que pensei em procurar foi você. Então, não me manda embora Clarisse, por favor._ Ela pediu esperando ter um pouco de sorte, sorte o bastante para que sua prima não a mandasse de volta.
Clarisse podia ver que a garota sentada em seu sofá estava sendo sincera, de certa forma até lembrava de quando tinha a mesma idade de sua prima e precisava crescer, precisava conquistar seu lugar ao sol, precisava sair daquela cidade pequena e ir conquistar o que sempre quis.
—Seu pai sabe que você veio para cá?_ Ela perguntou lembrando-se de como seu tio mimava Isis.
—Sabe, acho que essa foi a única coisa que não o fez reclamar muito, além do mais ele já tem outras filhas com a nova esposa, tem outras coisas com que se preocupar.
—Se eu te deixar ficar aqui, terá que seguir minhas regras, não interferir na minha vida e encontrar um emprego._ Clarisse disse cruzando os braços.
—Você continua adorável..._ Isis ironizou._ Não se preocupe, interferirei em nada, estarei ocupada de mais e encontrarei um emprego.
Clarisse por um momento pensou em desistir e por sua prima para fora, mas decidiu deixa-la ficar em seu apartamento, pois se algo acontecesse acabaria se sentindo culpada.
—Tem um quarto de visitas no corredor, pode ficar lá._ Ela falou com desanimo e Isis saiu puxando sua mala.
Clarisse foi até seu quarto fechou a porta atrás de si e direcionou-se a varanda, sentou esticando as pernas na espreguiçadeira. Sentia que aquele era o momento para tentar relaxar, pois a qualquer momento poderia ter um ataque, sentia que tinha que esquecer os problemas da empresa, de sua prima e das peças de seu carro que ainda não tinham chegado.
Fechou os olhos sentindo o ar que ficava mais fresco conforme o tempo ia passando e ia escurecendo, passou as mãos pelos cabelos tirando os fios que caiam dentro de sua camisa larga que cobria até seu short. Olhando distraidamente para frente ela percebeu que as luzes do apartamento da frente estavam apagadas.
Não teve como não ter seus pensamentos levados até seu vizinho, ela se perguntou onde ele poderia estar, pensou em diversos lugares e situações, mas acabou numa em que ele poderia estar com uma garota com o bronzeado perfeito.
“Ele deve ter decidido visitar a varanda dela...”, pensou com desdém, sem parar para refletir sobre quem seria essa “ela” que em seus pensamentos estava com seu vizinho.
“Ele deve ficar em muitas varandas, deve ser um daqueles malucos com desejos estranhos; como aqueles que gostam de transar com balões.”, ela pensava fazendo uma careta .
Clarisse passou algum tempo em seus devaneios e quando deu por si, já parecia ser bem tarde, a única luz que a fazia enxergar era a de dentro do quarto e as luzes da rua. Ela nunca quis tanto que segunda chegasse, ela sentia a necessidade de ter algo para fazer, sentiu até o impulso de ir até a empresa se ocupar com qualquer coisa, mas no final de semana estava fechado e até ela precisava respeitar isso.
Ela ouviu batidas na porta de seu quarto e mandou que sua prima entrasse, acompanhou os passos lentos que iam em direção a sua varanda.
Isis sentou-se no chão ao lado da espreguiçadeira aonde Clarisse estava.
—Não vai nem me perguntar o que irei cursar?_ Perguntou parecendo estar surpresa por sua prima não ter perguntado antes.
— O que você decidiu cursar?_ Clarisse indagou sem muito interesse.
—Administração de empresas.
Isis esperou que Clarisse dissesse algo, mas ela não se pronunciou, seria natural ela estar surpresa. Mas a imagem daquela Clarisse ao seu lado não passava surpresa, parecia até distante; diferente da Clarisse que era como sua irmã mais velha. Mesmo com a aparência sendo praticamente a mesmo ou um pouco melhor que a de alguns anos atrás, ela ainda assim parecia diferente.
—Você realmente gosta de administração?_ Ela perguntou fazendo uma careta completamente cética.
—Sim, e você pode até me dar um emprego depois..._ Isis comentou mais animada.
—Você seria a garota do café por muito tempo, teria que estagiar. Na Cia. Sovereignty, nós preferimos contratar quem acabou de concluir a faculdade, que ainda tem sonhos, está disposto a trabalhar e aprender tudo que possa ser bom para a empresa.
Isis maneou a cabeça pensando no que sua prima lhe disse e tentando não compara-la de alguma forma com a Clarisse de antes.
—Porque esse “Cia. Sovereignty”, você poderia ter dado um nome melhor para a empresa, um nome menos “canastrão”.
—Não escolhi o nome, os sócios majoritários escolheram e registraram, foi uma das condições deles._ Clarisse explicou rindo da sinceridade da ruiva de farmácia.
Ela estava um pouco mais distraída pela conversa, mas não deixou de dar algumas olhadas para dentro do apartamento da frente e também não acabou com a desconfiança que sentia, ela sabia que Isis não havia dito toda a verdade.
Fale com o autor