A Vida Alheia

8 VIII - Conselhos de Cassio.


—Por que está com essa cara horrenda?_ Susana perguntou olhando a amiga de esguelha, um pouco irritada com o silencio dentro de seu carro e as tentativas frustradas de iniciar uma conversa.

—O de sempre... Problemas._ Clarisse respondeu suspirando pesadamente.

Susana ficou ainda mais irritada com a resposta da amiga.

—Você procura problemas e os encontra, às vezes é preciso fechar os olhos e fazer as coisas... Não quero que você fique cm essa cara de velório passando más vibrações para minha nova casa entendeu?_ Ela perguntou pressionando a outra com um olhar.

Clarisse não respondeu, mas Susana viu o silencio como um sim.

O caminho se seguiu Até que a contadora percebeu que em silencio não conseguiria arrancar nada da outra, e voltou a tentar entrar em alguma conversa de um jeito mais leve, o que Clarisse não estava disposta a fazer.

—Bati meu carro e o do meu vizinho de janela que venho observando sem nenhum interesse._ Ela falou rapidamente como se precisasse dizer aquilo para alguém.

—Mas... Você está bem? Ele está bem? Quem é ele?_ Susana perguntou confusa olhando boquiaberta a imagem da amiga.

—Ele parecia bem e como já disse é meu vizinho._ Clarisse respondeu ignorando a pergunta desnecessária, afinal se estivesse mal não estaria indo para uma festa.

—Por que não me contou que estava vigiando seu vizinho? E fique sabendo que ninguém observa outra pessoa sem ter interesse._ Perguntou tentando manter a calma e absorver tudo que a outra dizia.

—Isso não é uma coisa que se conte para outra pessoa, não é como se eu pudesse te ligar ou entrar na sua sala e dizer ”Susana estou vigiando meu vizinho de janela, ele é muito bonito... Como vai sua tia Clara?”.

Susana respirou profundamente pensando no que dizer para Clarisse em quanto o sinal estava fechado.

—Certo, mas qual é o problema de estar vigiando ele, ele descobriu?_ Perguntou sem conter o sorriso que se formava em seu rosto.

—Não, pelo menos acho que não, mas ele sabe que sou a vizinha dele e eu não devia ficar vigiando as pessoas._ Clarisse rebateu fazendo uma careta enfatizando tudo que havia dito.

—Quem te disse que não devia? Somos vigiados a todo momento seja por uma câmera numa loja ou num satélite, e porque você precisa se privar do direito de dar uma reles olhada na vida do seu vizinho? Acho que essa sua “culpa” é por você ser uma moralista, chata que não se permite fazer nada que não seja visto como “certo”._ Ela parou pensando no que devia dizer por fim._ Só posso te dar um conselho: Pegue sua moral, jogue no vaso sanitário e dê descarga.

Clarisse franziu o cenho, ela esperava ouvir uma repreenda da amiga por estar vendo a vida de seu vizinho, mas ouviu completamente o contrário, o que obviamente a surpreendeu. Mas já não se sentia tão irritada, cogitou a ideia de todos estarem certos.

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Clarisse observou a decoração da casa que combinava muito com o casal, tudo parecia ter sido colocado no exato lugar, o ambiente era confortável até mesmo cheio de gente.

Algumas pessoas que estavam ali ela nunca nem tinha visto e Susana foi apresentando-as, outras ela já havia visto, mas fingiu que não conhecia e algumas ela nem precisou ser apresentada.

A musica ao fundo parecia animada, ela não conhecia, entretanto as outras pessoas presentes pareciam conhecer.

Depois de algum tempo andando por ali, ela pegou uma vodka e sentou no sofá evitando olhar a sua volta e encarando a garrafa em sua mão. Entretanto o barulho a sua volta a deixava um pouco tentada a olhar, ver como todos se comportavam e vestiam ali.

Sentados um pouco distantes dali estava um casal; uma moça de cabelos curtos e olhos mal delineados e um homem que não parecia ligar para a maquiagem um pouco borrada da moça. Clarisse os olhou discretamente viu o quanto eles eram indiscretos; uma das mãos do homem estava entre as pernas da moça de cabelos curtos.

Clarisse tentou olhar para outro lado, mas aquele casal indiscreto roubava sua atenção, ela podia ver o quanto a moça estava embriagada e parecia não perceber que estava em publico. Naquele momento ela agradeceu por ser forte quando se tratava de bebidas.

—Hey, quanto tempo!_ Miguel falou assustando Clarisse que estava distraída com o casal.

—Oi, faz muito tempo mesmo..._ Ela falou disfarçando a vergonha por ter sido pega._ Por onde você andou?

—Eu estava em Toronto, trabalhando lá..._ Ele falou esperando causar uma reação maravilhada de Clarisse, o que não aconteceu._ E você o que fez todo esse tempo?

—Montei uma empresa com meus sócios, a “Sovereignty”...

—Ah, mas você sempre quis fazer isso, mas para mim isso não daria muito certo... More responsibilities, most trouble (responsabilidades de mais, problemas de mais).

—Entendo. _Clarisse falou tentando ignorar o que Miguel dizia, ela detestava pessoas que misturavam inglês com português, e a maioria dos publicitários tinha essa maldita mania.

—Mas como andam os negócios? Tenho uns amigos importantes em Toronto que podem ser valiosos para você._ Ele dizia tentando aproximar-se dela.

Eles se conheciam da época em que faziam faculdade, mas naquela época Miguel parecia mais interessante para ela do que naquele momento, em que ele estava ligado e pelo seu nariz era possível saber que o cartão já devia ter sido usado.

—Os negócios andam bem. _Ela respondeu dando outro gole em sua vodka e levantando-se do sofá._ Eu vou procurar uma pessoa já volto...

Clarisse foi até a cozinha que no momento estava vazia e encostou-se na mesa esperando ficar sozinha, mas depois de algum tempo Cassio entrou na cozinha abrindo a geladeira, sem reparar na presença dela.

Assim que ele a viu parada olhando-o, ele deu alguns passos para trás assustado, mas depois do susto sorriu.

—O que está fazendo ai parada sua antissocial?_ Ele perguntou indo até ela e a abraçando.

—Fugindo do drogado do Miguel._ Clarisse respondeu com a voz abafada pelo ombro do Cassio que lhe dava um abraço de urso.

Ele sorriu e a soltou pegando a cerveja que havia deixado em cima da mesa e aproveitou para dar uma olhada discreta no decote de Clarisse.

—Miguel costuma estar assim nas festas, achei que soubesse.

Ela negou com a cabeça e ele puxou uma cadeira e sentou disposto a conversar com sua antiga colega de trabalho. Clarisse puxou outra cadeira e sentou perto do seu antigo amor platônico.

— Como você está?_ Ele perguntou um pouco sério.

—Minha tensão é tão visível assim?_ Ela rebateu erguendo uma sobrancelha.

—Sim é muito visível, e se meus conselhos ainda valem alguma coisa para você, siga o que lhe direi: Pare de trabalhar tanto, transe e faça o que disse que faria na ultima vez que conversamos..._ Cassio falava num tom serio e com seus olhos presos nos de Clarisse.

Ela se forçou a lembrar o que tinha dito na ultima vez em que encontrou-se com ele, mas nada surgiu.

—Você disse que compraria a parte dos seus sócios antes que eles acabassem com a sua empresa.

Lembrando-se melhor, do que havia dito ela tentou imaginar o que se passava na sua cabeça naquele tempo. O seu único objetivo era tornar-se Diretora de sua empresa, a única dona e o poder supremo.

—Acho que no momento será meio difícil comprar as outras partes, provavelmente terei uma queda e quando isso acontecer...

— Do que você está falando Clarisse?_ Cassio perguntou dando mais um gole em sua cerveja.

—Estou falando que os filhos da puta daqueles maconheiros metidos a artistas não estão criando e tive que parar, as novas produções estão atrasadas._ Ela falou com a voz cheia de raiva.

—Se é esse o seu problema eu tenho uma ótima solução, conheço um cara que trabalhava com Design Gráfico.

— Se você mandar um pichador para a minha empresa eu acabo com essa sua fama de bom moço, não se esqueça que sei coisas sobre você._ Clarisse ameaçou.

Cassio apenas riu do tom ameaçador da mulher que bebia mais do que ele conseguiria beber em toda sua vida.