A Vida Alheia
9 IX - Alice
Clarisse chamou um taxi, não era muito tarde, mas ela preferia sair em quanto as pessoas ainda não estavam totalmente embriagadas e também gostaria de dormir quando chegasse em casa.
Ela não levou muito a serio o que Cassio lhe dissera naquela noite, mas também não deixou de pensar no que havia lhe dito quando fechou negócio com seus sócios. Ela sentia que não precisava dos dois sócios que só recebiam uma porcentagem dos lucros e investem no que é necessário, eles haviam sido de crucial importância para a criação da empresa, mas já não fazia sentido mantê-los nela...
Em um momento é preciso renovar os contratos, é preciso rever as regras e encontrar as falhas... Clarisse decidiu que aquele momento havia chegado, mas sabia que não seria nada fácil; o ego daqueles homens era maior do que as dores de cabeça que sentia todo final de tarde, eles poderiam até não se interessar pela empresa, mas não iriam gostar nada da ideia dela não precisar deles.
“Preciso me livrar de todo o peso morto que carrego nas costas...” Ela pensava quando o taxi parou em frente ao seu prédio fazendo-a despertar de seus pensamentos.
Em seu apartamento Clarisse despiu-se rapidamente do vestido e dos saltos, andou um pouco aproveitando o chão frio sob seus pés e parou a alguns passos de distancia de sua varanda. Ela não sabia se queria mesmo abrir aquela cortina e sentir o ar fresco da noite entrar em seu quarto, indecisa passou as mãos pelas madeixas castanhas bagunçando seu cabelo que se manteve impecável durante toda a festa.
Decidiu sentar na cama e organizar seus pensamentos que estavam ficando embaralhados em sua cabeça, cada nova meta foi listada, as prioridades estavam no topo.
Com olhos fechados ela deu um longo suspiro, como se aquele fosse seu ultimo e quisesse aproveitar o máximo de ar que conseguia puxar pelas suas narinas. Sentiu-se mais viva, normalmente sequer notava sua respiração curta.
Olhou o relógio no criado mudo, faltava pouco para as três da manhã e ela tinha plena consciência de que deveria ir dormir para acordar disposta a ler todos os documentos que ainda estavam em cima de sua mesa de centro na sala.
Ela arrastou seu corpo cansado pela cama até estar completamente acomodada, abraçou um de seus travesseiros procurando qualquer tipo de segurança irracional que aquela ação poderia lhe proporcionar. Adormeceu depois de passar algum tempo tentando ignorar todas as suas preocupações.
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O despertador tocou e Clarisse pensou não ter forças nem para esticar seu braço e apertar o botão que desligava aquele som.
Ela rolou pela cama ainda com olhos fechados e espreguiçou-se cogitando voltar a dormir, mas era sábado... Sábado era o “dia de correr”, o dia em que ela ia correr no parque como mais uma daquelas mulheres e homens que fingiam ter uma vida saudável.
Em passos lentos foi até o banheiro tirar o cheiro de vodka e da festa da noite anterior.
Um banho rápido, um café da manhã demorado, uma roupa de malhar e seus fones de ouvido, isso era tudo que ela precisava antes de sair.
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O sol já estava esquentando a pista por onde as pessoas corriam. Clarisse já estava cansada pelo tempo que havia corrido, mas se forçou a dar mais algumas voltas e depois sentou no banco que estava desocupado, era o único sem um mendigo deitado.
Ela respirou fundo e olhou distraidamente os pombos que caminhavam ali como se aquele parque lhes pertencesse, ela olhou as penas acinzentadas daquelas aves tão sujas.
“O que estou esperando? Não estou num parque inglês cheio de patos e esquilos.”, Clarisse pensou levantando-se rapidamente pronta para voltar para seu apartamento, mas antes que ela fosse em direção a saída do parque ouviu seu nome sendo chamado. Ela parou no meio do caminho esbarrando num rapaz que corria por ali, ele a segurou para que não caísse, sorriu e voltou a correr.
Olhou na direção da voz que a chamava e teve uma surpresa não muito agradável, Alice andava calmamente em sua direção; o vestido com a base larguinha balançava de acordo com o sopro do vento, os cabelos loiros estavam presos num coque arrumado, Clarisse achou ela parecida com uma daquelas bonecas bailarinas de caixinha de musica.
—Clarisse quanto tempo que não nos víamos!_ Alice falou fingindo estar contente em ver a sócia de seu noivo. Na realidade ela só tinha a chamado por estar querendo saber o que estava acontecendo na empresa.
—É, muito tempo mesmo... A ultima vez foi no aniversário do Felipe, não foi?_ Clarisse indagou, forçando estar contente em ver a moça. Mas ela lembrava-se muito bem da ceninha de ciúmes que Alice fez naquele dia, em como aquela garota era detestável e patética.
—É, acho que foi... Como vão as coisas?_ Ela mudou de assunto, usando seu melhor sorriso.
—Ótimas._ Mentiu, mas se viu no direito de mentir sobre o que quisesse afinal ela sabia que a loira não era sua amiga e estava sendo dissimulada.
Alice não esperou que Clarisse perguntasse sobre sua vida, sabia que a pergunta não viria.
—Eu estou cheia de coisas para resolver, agora com o casamento e com o novo desfile... Só encontrei um tempo para caminhar um pouco ao ar livre, mas acho que podemos ir tomar um café qualquer dia e falar sobre o casamento._ Ela parou fazendo um sorriso afetado._ Quero que seja uma de minhas madrinhas.
Clarisse o olhou-a descrente, não conseguia entender o motivo de tudo aquilo, mas sabia que queria se manter longe.
—Alice, tenho que ir, depois eu falo com você ou com o Felipe sobre isso..._ Ela falou e voltou a andar em direção a saída do parque.
“Nem acredito que esse casamento possa dar certo, seria falsidade da minha parte ser madrinha de uma farsa.”, ela pensava distanciando-se de Alice.
Durante o resto do dia Clarisse adiantou seu trabalho, conseguiu limpar seu apartamento e encher sua despensa. Gostava de fazer tudo sozinha, tudo em seu tempo acelerado do jeito que ela preferia.
Quando tudo estava em ordem, ela sentou-se no sofá, pronta para perder seu tempo vendo qualquer bobagem na televisão, mas seu interfone tocou antes que pegasse o controle; ela franziu o cenho pensando em quem poderia ser, afinal não havia convidado ninguém.
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